SARS COV-2 (distopia crítica)
Persistem roupas
Vazias e mofadas
Preenchidas da espera...
Da prece não ouvida
Do tratamento que não veio
Da senha que não foi chamada
Da vida que esgotou-se de esperanças
Da vida enfeitada e mal-vivida
Da vida que era morte
Da vida...
Da verdadeira vida
Ficou a roupa vazia.
Eram nove da manhã, o sol ardia, mas na Unidade de Saúde não era dia. As luzes, sempre as mesmas, incandescentes e fracas. Não há ventilação. Os cabelos estão grudados no gorro, e a N95 encontrou seu perfeito encaixe na marca facial persistente, que conta uma rotina continuamente impregnável.
Os sinos da igreja não tocavam há mais de um mês. Fiéis desesperados professavam o apocalipse antes da primeira trombeta. Ousados eram os que ajoelhavam aos pés da santíssima empoeirada. É, não se poderia consagrar a hóstia tão cedo, e os joelhos feridos das penitências caseiras seriam mais uma porta de entrada... Para a fatalidade que ali flutuava, em ar e poeira.
A fatalidade nunca é a existência de mais um organismo, entre tantos mil. A existência é dádiva curiosa que cresce, com sua riqueza fisiopatológica e nuances peculiares de preferências e nichos biológicos. Lindas são as Ciências Biológicas, que as descobrem, ainda que tão sutis. Não, a fatalidade não é a existência de uma espécie... É a praga de uma espécie, que devora a existência de outra enquanto ela ainda é consciente.
O corpo a que chamo Homem, é devorado primeiro de desespero. Falsas promessas de cura para aquilo que ainda não o tocou; dívidas impagáveis com um sistema financeiro fadado ao fracasso; noites mal dormidas de um emprego instável e uma saúde frágil. E antes que chegue a tosse seca, chega a ansiedade, a impaciência, o pânico do amanhã prestes a perecer.
Esse corpo se esvai sem traço algum de calma, quando não há gritos de agonia... Mas um Gasping quase silencioso, na dissonora dança de ventiladores de quinta geração. Choram outros corpos, que ainda com alma, não dimensionam o futuro... Senão a dor da perda repentina do outro, irretornável.
Persistem as roupas, coloridas e bem confeitadas nos bancos vazios das ricas igrejas. Persistem as preces, ainda que forçosamente isoladas, ainda que forjadas... Sem mais cânticos de glória e alegria. Não restam muitos poetas e adoradores, poucos narram suas reflexões.
Poucos são os que contam como as pessoas se consomem, antes de serem consumidas pelo vírus. Que assassinam-se quando individualmente se veem capazes de ir tão longe, sem quaisquer proteções. Que destroem oportunidades, que mimetizam cuidado alheio, forjam uma quarentena, vendem a política barata para terem seu pão seco da manhã... Duro e da semana passada! Comprado ontem no mercado da esquina, cujos olhos cansados do vendedor condenam o lucro que não veio.
É, olhos são os primeiros que cansam. Todo o corpo por fim cansa... Já pensar: cansa, assusta e dói.
Esse texto não é para ser belo, embora talvez um dia eu possa escrever um final mais feliz. Por ora, só posso dizer-lhes que persistem as roupas, bem trabalhadas, descosturadas, coloridas ou pretas... Mas todas VAZIAS.
Persistem as roupas, incapazes de suprirem os corpos outrora febris. Impossibilitadas de suprirem a ausência, que é ter corpo-vivo, sem alma.
Se tenho esperança de respirar ar puro? Sentir com meus dedos a própria poeira? Deixar o sol tocar toda minha face calorosamente? Sim, alguém tem que ter! Deixo uma frase responsiva para refletirem sobre.
"Podemos permitir que a dificuldade de se abrir para o outro nos destrua ou nos torne cínicos, ou então podemos olhar para o futuro com esperança." -J. Podeswa
Larissa Assunção, 13/05/2020















