Diálogo: o Brasil que o Brazil vê
Quinta-feira, 28 de agosto de 2014, 16h43
Difícil dizer onde começa um falatório e termina o outro.
Na Seção de Imprensa, Cultura e Educação do Consulado dos Estados Unidos, os funcionários andavam de um lado para o outro, concentrados em suas tarefas. Sob a imponente redoma que protegia aquele pedaço de América no Brasil, mal conseguiam perceber o dia definhando por trás das grades.
A extrema cautela que cercava a fortaleza causou certo estranhamento. Para adentrar o prédio e realizar uma mera entrevista com Rick Rosenberg, Adido de Educação, deparamo-nos com um processo de segurança que assemelhava-se ao de um aeroporto. Ali, as estrangeiras éramos nós.
Rick Rosenberg, do alto de seus cinquenta e cinco anos, mordia as unhas e franzia o cenho em frente a tela de seu computador.
Domingo, 31 de agosto de 2014, 15h14
Anita. A-ni-ta. Segundo as pesquisas:
“Aquela que é cheia de graça”.
“Forma diminutiva de Ana”
“Esse nome revela uma criança que fala pouco, mas observa os adultos com atenção”.
Breve como deve ser, Anita Fazeli enviou uma mensagem dizendo que um e-mail cheio de respostas aguardava em nossa caixa de entrada.
Segunda-feira, 15 de setembro, 20h03
Português. No Brasil. Nasceu em Paris.
Luis Jorge Sarmento de Beires dos Santos Fernandes.
A gente quase precisa tomar fôlego para dizer o nome inteiro. Explicou que é nome português de família antiga.
Colocou-se à disposição. Respondeu duas vezes antes de pensar. E explicou que em Portugal, colocar-se à disposição é literal.
Terça-feira, 16 de setembro, 11h59
Inglês de nacionalidade, belga de criação. Há três anos, transita entre os brasileiros como “o gringo”.
David John Morris Swallow é gringo aonde quer que vá.
Não que aprecie o estereótipo.
Quarta-feira, 24 de setembro, 16h30
Os olhos azuis contrastavam com os cabelos negros da moça.
Aleksandra Ristovic, assim como sua opinião acerca do Brasil, é um nome complicado. Ao contrário do que muitos podem pensar, não é russo e nem ucraniano.
A descendência sérvia a fez herdar um nome diferente.
Aleksandra, na verdade, nasceu em West Virginia, nos Estados Unidos.
Onde as linhas se cruzam.
Do ponto único central, nasce o Brasil que o Brazil vê.
Capacidade de visualizar objetos e pessoas.
Se perguntarem, quem vê de fora vê o Brasil tropical. Como é que se vê clima? Brasil nas lentes estrangeiras é terra de praias e morenas. Rick Rosenberg estranhou os trajes de banho. “Fio dental, sunga...”.
Anita espantou-se com a selva de pedra em São Paulo. “Eu não achava que fosse ver tantos arranha-céus, mas eles estão por toda parte. Eu fiquei surpresa em ver como a cidade é populosa”. Ainda assim, o clima praiano cativou-lhe o coração. “Eu já fui a muitas praias na Flórida, mas o Guarujá tinha um feeling diferente. As pessoas jogam futebol na praia o tempo todo; tem petiscos e água de coco a venda, assim como vendedores andando na areia”. Os olhos atentos de Anita pescaram cada ato corriqueiro como peixe premiado. David vê o “clima” brasileiro sob outros olhos. “Sempre tem esse olhar para diversão no Brasil. Por exemplo, quando cheguei, trabalhar no Brasil me parecia mais divertido, mais gostosinho. Tem bastante pausa para tomar café. Muito mais do que aquela coisa chata e cinza que era trabalhar na Inglaterra ou em Luxemburgo.
Brasil é peixe grande, aos olhos dos de fora. “Portugal é um país pequeno, que vive com saudade de um tempo que já passou...”, conta Luis.
Por outras esquinas, aos olhos de quem viu, o Brasil está longe de ser um mar rosas tropicais. “Há pobreza, fome, preços altos, violência... Essas coisas eu não esperava ver tanto”, conta Anita. Aleksandra conta que sente-se constantemente insegura e que foi aqui que aprendeu a ficar atenta com seus pertences. “Não imaginava que o Brasil pudesse ser tão perigoso, especialmente o Rio, descobri isso quando, pela primeira vez, vi uma arma apontada para mim”. Luis já enxerga vividamente a lacuna de interesse e empenho dos brasileiros. “Como é possível que o povo não reaja mais, como fez há uns meses atrás, perante tudo que acontece aqui?”
Capacidade de ouvir os sons provenientes do mundo exterior.
Brasil é lugar de povo simpático. “A simpatia realmente me surpreendeu. Era fácil falar com qualquer pessoa, mesmo com portunhol que eu falava na época” relembrou Rick.
Falando em falar, aqui no Brasil se diz que chumbo trocado não dói. Luis bem sabe. “O primeiro brasileiro que conheci foi lá em Portugal. Era um cara que não sabia que Portugal era um país moderno, europeu, de “Primeiro Mundo”. Achava que todas as mulheres tinham bigode e que todos os homens se chamavam Manuel, Joaquim ou António”. E como é informal esse país, “É possível participar de conversas inteiras somente emitindo sons de vogais”, comenta Aleksandra.
Para Rick, o baque ao estereótipo deu-se em uma tarde tropical. “O primeiro contato que tive foi com uma mineira casada com um americano. Mas ela não parecia ser mineira, era muito agressiva, de personalidade forte. Fala com qualquer um, não fica quieta não! Quando a conheci, eu estava pintando a minha casa, para deixa-la bonita para alugar, e ela estava vendo se alugava para morar com o marido. Mas quando ela entrou, eu estava de cueca. E não era uma cueca grande, era uma cuequinha!” exclamou, demonstrando com as mãos o tamanho da veste. “Ela já foi falando das cores das paredes que eu devia mudar e que não gostava disso ou daquilo e eu disse “Escuta, você não ‘tá vendo que eu ‘tô de cueca?”. Rick fez uma pausa para abanar a mão como a minera, antes de imitá-la em um sotaque ensaiado: “Eu vi, mas tudo bem, ‘tá calor mesmo”.
A música também é um elemento encantador dessa cultura tão popular. “A música brasileira foi meu primeiro contato com o país”, conta Aleks, como gosta de ser chamada. Estava na Argentina quando ouviu as primeiras palavras em português. Assim que a moça voltou para os EUA, sentiu vontade de estudar a língua. David conta que antes mesmo de vir para o Brasil, conhecia e gostava das músicas de Baden Powell, por conta de seu gosto por violão. “Costumo ir nos lugares que tocam samba e MPB – principalmente os mais antigos. Gosto muito de Tim Maia, Caetano Veloso e os Novos Baianos”. Aliás, comenta a surpresa em relação ao gosto musical do brasileiro. “Aqui tem gente que ainda gosta de Aerosmith, lá não pode mais. Oasis também, é quase proibido na Inglaterra. Não pode. É como se você gostasse de Roberto Carlos aqui, já era, só os pais podem”.
Permite sentir o mundo exterior através do contato
Quem sente o Brasil, sente de corpo e alma. Mesmo que com estranhamento.
“Foi estranho para mim ver muitos beijos intensos em público, mesmo se fossem adolescentes ou adultos casados. Nos Estados Unidos nós também beijamos em público, mas somos bem menos intensos”, explicou Anita.
Lançando a próxima bola, Luis comenta: “Me impressiona muito o patriotismo do povo”. Para Anita, a euforia é passageira. “Havia muito mais ânimo e paixão nos brasileiros durante a Copa. As pessoas levavam os jogos muito a sério, especialmente quando o Brasil jogava. Durante os jogos, era como um feriado nacional”.
Contraditoriamente, Luis relata sua experiência sensorial com a superficialidade do brasileiro. “O Brasil tem uma cultura vastíssima, mas poucas são as pessoas que têm profundidade, que conhecem a própria cultura. Acho que nós portugueses sabemos mais da cultura brasileira do que os próprios brasileiros”. Ristovic também sente a falta de valorização a própria cultura, e vai além. “É muito difícil fazer amizades verdadeiras e duradoras aqui, todo mundo está tão preocupado com sua classe social, que isso torna as relações mais difíceis com quem não conhecemos”. A moça de 25 anos também sente que aqui a classe social a que você pertence é como uma sombra que segue a pessoa para a vida toda, não importa o quão duro ela trabalhe.
David sente a diversidade. Surpreende-se com a vida interiorana e vai além: “Fiquei surpreso com o fato de que tem muito alemão e pessoas do Leste Europeu no Sul e em outras regiões do Brasil. Com o fato de que todo mundo me chama de alemão. Com o fato de que o alemão é considerado maneiro aqui, enquanto na Inglaterra costumamos zoa-los bastante”.
Para Rick, sentir o Brasil está na malandragem do “jeitinho brasileiro”. “Brasileiro sempre tem um jeito diferente para resolver os problemas, sempre tem um outro jeito que ninguém pensa porque é um povo muito flexível”. Mas não deixa de lado a surpresa pelo contato, a proximidade do brasileiro. Aquela coisa de dois beijinhos para cumprimentar. “O que acontece nos Estados Unidos é o seguinte: você conhece a pessoa, pode ser que seja um amigo próximo, mas se você está preocupado ou com pressa, ele vê você e nem vai dar bola. Isso aqui no Brasil é insulto, ninguém que tem educação te vê na rua e não te cumprimenta”.
Capacidade de captar o sabor.
Qual a graça de morar no Brasil se não apreciarmos um pouco da gastronomia? Depois de um ano e quatro meses no país, Aleks Ristovic já tem seus pratos favoritos: “Eu amo feijoada, o arroz branquinho com o feijão preto, eu acho delicioso”. A feijoada, aliás, é campeã. Luis coloca também o churrasco gaúcho como uma das descobertas favoritas. “Pronto, já me deu água na boca”, brinca.
Anita lembra-se do delicioso pão de queijo, e uma combinação em especial que a conquistou. “É Romeu e Julieta, né? Queijo com goiabada”.
Aleks levanta a bola do extremo gosto brasileiro pela carne. “Cadê o peixe? Vocês comem carne demais!”. David comenta esse sabor em particular. “Gosto da comida do norte do país, por exemplo, todos os peixes de rio, tipo pirarucu e tambaqui”.
Entre os desgostos, Luis revela não ter apreciado o acarajé. David, o catupiry. “Ainda mais na pizza”.
Apesar das comidas, Anita sentiu falta de perceber como um todo o sabor brasileiro. “Eu com certeza tentaria visitar mais cidades, para que eu pudesse sentir o gosto do Brasil de forma geral”.
Capacidade de captar odores e interpretá-los.
Os cheiros daqui não cheiram como lá.
“O lugar mais bonito que já conheci foi Morro de São Paulo, na Bahia. Gostei tanto das belezas naturais que achei até o cheiro do mar diferente”. Segundo Aleks, o Brasil tem algumas das praias mais bonitas do mundo. David também aprecia o litoral, e principalmente a Mata Atlântica que o cerca. O cheiro é mesmo diferente. Anita recorda a Copa do Mundo e a diferença que sentiu no país antes e depois. “As pessoas estavam tão apaixonadas por seu país durante a Copa do Mundo, e isso uniu o país inteiro. Eu acho que os brasileiros são muito expressivos”. É cheiro de paixão patriota que domina as arquibancadas, que faz tremer o coração. Luis também comenta o amor do povo. “O brasileiro, seja um negro da Bahia, um pardo da Amazônia ou um loirinho de Porto Alegre, ama seu país. E isso é muito bonito”.
No entanto, nem tudo é mar de rosas nos campos de cá. O cheiro do perigo também penetra as narinas dos desavisados e os cautelosos. “Eu fiquei preocupada. Eu soube que frequentemente carros eram roubados e as taxas de estupro são altas. Isso me deixou um pouco nervosa”. Rick pondera “Já fui assaltado no Rio, alguns anos atrás no ônibus. Entraram dos dois lados armados, nós nem olhamos para eles, demos o dinheiro. Já sabíamos que precisava ter um dinheiro escondido pronto para entregar”.
Equivalência de características. Defina o Brasil em poucas palavras.
“Não é mulata, é “jeitinho”.