Após o filme da madrugada, tomo um banho, visto-me, viro uma caneca de café sentindo seu fogo escorrer por minha garganta e carrego minha mala e minha mochila de costas. Tomo a avenida no banco traseiro do carro enquanto sinto este arrancar em meio ao vazio da noite, sob o teto de um negro céu estrelado. Em meus ouvidos, Mike Oldfield, com sua guitarra, rege sua orquestra em algumas faixas de Tubular Bells III, e eu sigo meu rumo como se as ondas de seu som, que emanam a energia que me mantém aceso naquele momento, já integrassem há muito aquele rápido trajeto ao Aeroporto. Quando o solo de guitarra se acentua, percebo que já estou chegando. Mas só me dou conta de que estou passando em frente à fachada branca e o teto verde-mar do Zumbi dos Palmares quando explodem em meus tímpanos os batuques finais da percussão seguidos dos três últimos toques do carrilhão de orquestra em Far Above the Clouds.
Ao descer do carro, ouço no final da música pássaros piando em bando.
Antes de atravessar o portão da direita, onde se lê “Embarque”, uma jovem chamada Emmelie de Forest já assume minha audição.
No balcão do check-in, recolho meu bilhete de passagem e vejo minha mala ser despachada. Em seguida, subo com minha mochila nas costas e me instalo no terraço com vista panorâmica para a pista. Luzes coloridas demarcam o grande tapete escuro que margeia algumas ilhas verdes de mato. No pátio iluminado, vê-se o aeroplano, um gigante de aço em forma de pássaro, o qual me levará além das nuvens em poucas horas. Medito enquanto a voz de Emmelie consome até meu inconsciente. E, quando ela para de cantar, noto que já é hora de adentrar a sala de embarque.
Não paro quieto; ando lentamente de um lado para o outro. Através da vidraça que dá vista para o pátio e a pista de pouso, vejo que o céu está ganhando um tom mais claro. Eis o prenúncio da alvorada. Então me dou conta de que estou acordado desde a última vez que o relógio marcou sete horas da matina. Mas não estou cansado, nem dou sinais de sono.
Num instante, já estou no corredor da cabine a procurar meu lugar. E o encontro – um lugar na janela. Acomodo-me na poltrona, afivelo o cinto, largo a mochila sob minhas pernas… Olho pela janela e reparo que o Astro Rei já saiu de seu repouso para iluminar a cidade. Então o pássaro se move e começa a cantar através de seus reatores.
É aí que notas de flauta soam em meus ouvidos.
Only Teardrops, da Emmelie.
Começo a assobiar e cantarolar a melodia enquanto o gigante de aço desfila pela pista de taxiamento antes de ascender aos céus.
Na cabeceira, a música para.
Só se escuta o pássaro de aço a cantar mais alto.
Seu canto ensurdecedor se torna a trilha sonora de fundo quando ele arranca pela pista principal, enquanto, através do vidro da janela, vejo a terra ficar para trás.
Na pegada do som de The Secret Machines tocando Beatles.
Uma versão de uma música de um nome bem sugestivo para a ocasião: Flying.
E assim o gigante alçou seu voo, rasgando o ar e as nuvens e me dando uma privilegiada vista da terra e do sol, que há pouco surgira para anunciar a chegada de um novo dia, apesar de, para mim, parecer que o dia de ontem estava sendo prolongado.
Acima daqueles flocos de algodão enormes a flutuar no ar, tomo em minhas mãos papel e caneta. E, com a companhia musical de Enya, a qual me faz sentir mais leve em meio aos ares, ponho-me a transformar em palavras escritas a inspiração que floresce do meu prazer de voar.