Assim que Marley viu as horas, ela tratou de pegar a chave do carro e também seu celular. Ainda não acreditava mesmo que estava fazendo aquilo. Que iria dizer a verdade para Ryder. Toda ela. E em público. Se seu empresário soubesse disso, a esfolaria com certeza, mas naquele momento era o que menos a importava. Já havia colocado demais as necessidades dos outros acima da sua, e pela primeira vez em muito tempo estaria fazendo algo arriscado mas por ela mesma. Assim que começou a dirigir, colocou o fone de ouvido e discou o número, aguardando enquanto dirigia pelas ruas movimentadas de L.A. Já conseguia sentir seu nervosismo aumentando a cada segundo, mas desta vez... Desta vez sabia que ele estaria lá ao chegar. Quando atenderam ao telefone, Marley quase dera um pulo. — Ahn...Sim, eu liguei para o quadro Corações quebrados: conselhos. Isso, isso, não tenho problema algum em falar ao vivo ou com o radialista que é famoso. — Ela aguardou mais um pouco até que o homem dissera que iria a colocar na linha com Ryder.
Marley tirara a beca branca, dando um largo sorriso para sua mãe e sua namorada... Fazia um ano que estava namorando Kitty e ainda não acreditava que elas estavam juntas. Era estranho para ela dizer que Kitty Wilde era sua namorada. Após todas as desavenças das duas... Quando a mesma lhe disse que era apaixonada por ela... Marley ficara atônita. Mas o pior havia vindo a seguir. Kitty tinha uma doença terminal. Leucemia. Ela temia morrer sozinha, mesmo sendo tão jovem, sem nunca ter a chance de amar de verdade. E a morena não podia deixar que isso acontecesse. Afinal... Kitty era uma das poucas pessoas que considerava uma amiga. O único problema era... Ryder. Não, ele não era o problema. Kitty na verdade era, mas como Marley poderia negar a garota amor quando estava tão próxima de morrer? Sabia que com isso... Talvez nunca mais pudesse ficar com Ryder, mas o que ela poderia fazer? Ela sabia que ele merecia alguém melhor. E libertá-lo era o melhor que ela poderia fazer para que ele tivesse uma chance de ser feliz de verdade.
A morena só não esperava ter que evitá-lo e ter que mentir para ele.
"Poderia ser ele aqui com você agora." Sua mente murmurara desgostosa enquanto ela se separava do abraço da mãe e ia para os braços da loira, retribuindo ao beijo de Kitty. Sua mente e seu coração nunca se conformariam com a escolha que fizera, mas agora era tarde demais. Nem mesmo Katie conversava mais com ele. Como poderia? Ele tinha voltado para Lucy... E desde aquele dia, Marley nunca mais checara o celular dela. Não conseguiria aguentar conversar com ele sobre a namorada dele. Não depois do que haviam conversado. Não após ele dizer que nunca mais iria olhar na cara dela.
Millie se despedira das meninas, juntamente com Shannon — sim, a treinadora de futebol americano — e as duas se retiraram do salão da Carmel, deixando Kitty e Marley sozinhas. A mais alta segurou a mão da loira, e a puxou em direção ao jardim na frente da escola, para que pudessem ter mais privacidade e escapassem da multidões de formandos e de seus familiares.
— Marls... Tem uma coisa que eu tenho que te dizer. — Kitty começou a falar, logo tendo a atenção total da morena. — Antes de você ir pra UCLA... Acho que tenho que te dizer a verdade. — Marley franzira a testa, ficando em silêncio e olhando para a mais baixa para incentivá-la a falar. — Eu... Eu não tenho leucemia.
Aquilo chocara Marley. Ela soltou a mão de Kitty, parando em frente a loira, encarando-a nos olhos. — Como... Como assim, Kitty? Eu... Eu vi os resultados... Você me mostrou seus exames... — A morena gaguejava. Não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Já vinha se preparando a algum tempo para o dia em que Kitty tivesse uma piora e acabasse interna no hospital... Mas aquilo...
— Eu menti... Eu sinto muito, Marley. Mas... Mas eu não aguentava ver você com Ryder. E quando você voltou... Eu sabia que vocês iriam voltar. E sabia que eu não iria ter chance alguma... Mas... — Kitty olhava para baixo, e a morena conseguia ver que ela estava de fato mal, podia ver uma lágrima escorrendo por sua face.
— Mas eu sempre pus a felicidade dos outros acima da minha. E você se aproveitou disso, Katherine. — A garota jamais chamava a namorada pelo nome real. Sempre pelo apelido. A menos que precisasse ser séria ou... Ou um momento como aquele. — Por que Kitty? Eu entendo que talvez nós nunca fôssemos ficar juntas... Mas pra que essa mentira? Você tem ideia do quanto eu sacrifiquei por sua causa? — Marley disse sem levantar muito a voz, encarando Kitty um tanto irritada. — Você tem ideia do quanto eu feri o único cara que eu já amei, Katherine? — Disse agora quase num sussurro, passando as mãos no rosto, exasperada.
— Eu sei... Lembro de como você estava após dizer a ele que era lésbica... E eu sinto muito, Marls. Eu não queria te machucar. Mas... Mas não conseguiria deixar você ir... Não com ele. Ryder nunca foi o bastante... Se fosse, você não teria ficado comigo afinal.
Marley respirou fundo. Kitty teria razão ou não? Ela não sabia... Mas sabia que amava Ryder muito mais do que amava a loira. — Você me disse que estava em estado terminal. Não podia deixar você morrer infeliz, sozinha, Katherine. Cometi o erro de ficar com você uma vez, mas não vou fazer isso de novo. — Dito isso, a morena deu as costas para a namorada, ou já poderia dizer ex-namorada?, e fora correndo até a rua. Assim que avistara Unique entrando no carro, correra até a garota. — Unique, pode, por favor, me dá uma carona? Por favor? — Pediu, quase que implorando. Após o consentimento da morena, Marley entrara no carro e dera as coordenadas.
Não demorou muito até que chegara no endereço indicado. Agradeceu a Unique e saiu apressada. Fora o mais rápido que pudera nos saltos até a porta, tocando a campainha e batendo na porta — como se sua pressa fosse fazer os residentes abrirem-na mais rápido. Após vários minutos, uma mulher apareceu vindo da casa ao lado. — Está procurando os Lynn, minha filha? — A senhora perguntara com uma expressão que não agradara nenhum pouco Marley.
— Sim, sim! Eles saíram? — Mordeu o lábio inferior, já sentindo seu nervosismo crescer ainda mais pela expressão da mulher.
— Não soube? Eles se mudaram já faz quase três meses. — Marley sentiu o chão ceder, ou foram suas pernas? Ela caíra sentada nos degraus da casa de Ryder. Ele havia ido embora. Ele não estava com Lucy, ou festejando com os amigos sua formatura... Ele havia ido embora. E agora, era tarde demais.
Ryder: No momento, acho bem difícil que eu seja feliz.... Mas não ligo para mais nada.
Katie: Você está passando por dificuldades agora. Sua vida não vai ser pra sempre assim.
Katie: Há pessoas como eu por aí que gostam de você de verdade, Ryder. Eu te conheço e sei que não vai ser feliz com Lucy. Mas mesmo assim... Você vai voltar pra ela.
Katie: Você deveria usar o dia de hoje para recomeçar sua vida. Dar-se uma chance de amar e ser amado.
Ryder: Sim, vou sim, ela de certo modo me entende...
Ryder: E eu só quero alguém que me ame... Lucy só é meio doidinha da cabeça, mas é uma garota legal.
Katie: Existem outras pessoas por aí que te amem, Ryder. Você não deve ir atrás de alguém que você /não/ ama só porque ela te ama... Não é certo. Você não será feliz desse jeito.
Ryder: A Marley... E eu acho que vou pedir para me encontrar com Lucy, ela tinha razão... Céus! Minha vida tá uma bagunça. Se você pudesse me encontrar... Devíamos ter nos encontrado antes de você ter mudado.
Katie: Se encontrar com Lucy?
Katie: Entendo que esteja mal e precise de alguém... Mas você sabe que Lucy vai se aproveitar disso para que vocês voltem. Não sabe?
Não vejo nenhum lésbica fazendo amor com alguém por gostar de um garoto… Como você disse, gostar de um garoto como amigo. Não tente se explicar, eu já entendi… Só acho melhor deixarmos as coisas como estão, porque eu sei que cada vez que ver seu rosto vou lembrar disso. Então, me de tempo, talvez um dia possamos ser amigos de novo.
Você não é uma lésbica pra saber, é...? Acho que não. E muito menos sabe o que sinto e senti naquela época... Tudo bem. Não irei mais insistir nesse assunto... Em nada mais... Quando você estiver preparado para me ver novamente... Podemos conversar se quiser.
Ah, claro. E o meu bem era ser iludido por você, entendo… Eu achava que você confiava em mim o bastante para conseguir dizer que não se sentia atraída por mim, mas, sim, por um par de pernas com saía.
Você não entende... Como eu ia dizer que talvez não me sentisse atraída por você, sendo que a cada vez que nos encontrávamos, você estava cada vez mais radiante? Eu gostava de vê-lo daquele jeito... E e-eu... Se eu não gostasse de você de verdade, não teria feito amor com você, Ryder.
Uma coisa que deve ter em um relacionamento é abertura para falar qualquer coisa. Por que você não disse antes que estava confusa? Que droga. Eu não vou conseguir te perdoar, não agora… Só esqueça que eu existo, e faça bom aproveito das suas garotas.
Uma coisa que você sabe sobre mim é que ponho o bem dos meus amigos, das pessoas que amo acima do meu próprio bem. Eu não queria te decepcionar. Não queria falhar com você... Tudo bem, Ryder...
Isso quer dizer que todo esse tempo eu fui usado? Vá se danar, Marley! Eu pensava que você era diferente, eu achava que você me amava… Céus! Como eu fui burro. O problema que você pode até confiar em mim, mas eu não confio em você. Lucy tinha razão, eu não deveria ficar correndo atrás de você que nem um cachorrinho… Eu fui injusto com ela, pois, pelo menos, ela tinha sentimentos por mim. Espero nunca mais ver o seu rosto na minha vida.
Não! Você não foi usado! Eu estava confusa quanto ao que eu sentia, e eu realmente amei você. Ainda amo. Só que não daquele modo... Desculpe. Eu sinto muito, muito mesmo. De verdade. Tudo o que eu não queria era acabar te machucando...
Marley você tá falando sério? Depois te ter passado por milhões de coisas comigo, você diz que não sente nada? Desculpa, mas eu não consigo acreditar em você… Como me ama de outra forma? Você transou comigo, Marley, como não…
Eu não disse que não sinto nada. Só não do jeito que você merece. Eu não... Eu não te vejo como um namorado, Ryder. Mas sim como um melhor amigo, um alguém que posso e quero ter por perto a vida inteira. Eu sei. E não me arrependo disso. Mas não muda o que eu sinto. É... Eu sou lésbica, Ryder.