Fiz a Sabel e o Louis agora :)
Todo reinado depende da mão firme de um rei, alguém capaz de dar a última palavra em meio à corte. Basta um sinal de fraqueza e os abutres se revelam, famintos para devorá-lo até o último pedaço.
Em Terrosa, tudo é um jogo de manipulação. E o rei, agora, mostrava sinais claros de enfermidade. Seu reinado chegava ao fim, e uma nova era se aproximava. No centro da mira dos aristocratas, o herdeiro volátil do trono já era alvo de especulações, promessas e conspirações.
No palácio, celebrava-se o solstício de verão. Tilintares de cálices, risadas, canções instrumentais, luzes mágicas e roupas extravagantes compunham a atmosfera festiva. As últimas flores da primavera e os tecidos leves anunciavam o início da época de colheita.
Quem visse o velho rei sorridente, as bochechas levemente ruborizadas pelo álcool, talvez não percebesse o quanto seus bajuladores se deleitavam a cada tosse insistente.
No fundo do salão, sentado sobre almofadas de fino brocado, uma silhueta destoava do colorido ao redor. Vestia-se de tons sombrios. Cabelos cor de ferrugem, olhar cansado. Louis, marquês de Rougemond, era orbitado por damas em vestidos emperiquitados e perfumes doces.
Qualquer outro homem consideraria isso um privilégio. Louis via somente um incômodo.
A notícia de sua viuvez havia se espalhado como fogo em palha. A esposa, ainda jovem, partira cedo demais. Apesar da aparência madura, Louis havia recém entrado nos trinta. O sol, o mar e o peso das responsabilidades não eram companhias gentis. Ainda assim, seu porte elegante e sua discrição lhe conferiam um charme peculiar.
Era a primeira vez que Louis fazia uma aparição pública desde o fim do luto. Pelo menos um mês havia se passado.
Não que seu matrimônio havia sido regado de amor, mas ele nutria respeito pela falecida. Para seu infortúnio, os dois não haviam gerado um herdeiro. As cobranças, sabia, não tardariam a chegar.
Com o semblante fechado, Louis se levantou, apoiado em sua bengala, e acenou para que seu valete o acompanhasse.
Caminhava com a postura levemente curvada. Os trajes escuros e os cabelos cor de brasa o destacavam como uma figura melancólica entre os tecidos vivos que dançavam sob o teto de vidro do grande salão.
Ele se afastou até a sacada tranquila, sem notar que, ao longe, uma jovem peculiar o observava, como quem calcula o momento exato para atacar.
Respirando o ar frio da noite, Louis levou o cálice aos lábios. O vinho era um dos mais refinados de Terrosa, alguns diziam ter propriedades arcanas. Mas Louis não se importava com isso. Para ele, só o álcool interessava — e o silêncio que vinha com ele.
— Parece que as damas estão alvoroçadas com sua presença, mestre Rougemond. Imagino que não será difícil encontrar uma nova esposa para o senhor. — O valete, um senhor elegante de meia-idade, falava com voz otimista e serena.
— Tenho certeza de que o duque já está planejando tudo sem que eu saiba, como fez com a senhorita Tamari… — Louis respondeu com um suspiro, a expressão rabugenta de sempre. — Sinceramente, ainda me vejo desinteressado nesses assuntos, mas imagino que não tenha para onde fugir.
Ele fez uma pausa e massageou as têmporas, como se tentasse aliviar o peso que carregava. O valete somente riu, baixo, olhando-o com um certo divertimento diante da frustração de seu mestre.
— Você deve ser um dos únicos homens a se incomodar com tantas senhoritas o cortejando!
A sobrancelha de Louis arqueou, e um sorriso leve surgiu em seus lábios.
— Não acho ruim, de fato. É o suficiente para levantar o ego de um homem. Pode me considerar louco, mas eu gostaria de ter algo verdadeiro com alguém, sabe? Queria uma donzela que me tirasse o fôlego… e a paciência.
— Ah, entendo! Alguém como o senhor, tão austero, deve ansiar por aquilo que é difícil de alcançar, não?
Louis encarou o horizonte por um momento, como se esperasse que o vinho respondesse por ele.
— Pode me culpar por querer alguém que me dê emoção?
Os dois se entreolharam e trocaram uma risada contida. Foi quando sons de passos firmes—adornados pelo eco elegante dos saltos—se destacaram entre o burburinho distante da festa. O ritmo da aproximação tinha um magnetismo inquietante, como um compasso lúbrico.
Então, por entre as cortinas diáfanas da sacada, surgiu uma silhueta distinta.
Louis franziu o cenho ao vê-la emergir dentre os tecidos finos, sua presença carregada de um brilho irreal. Como se fosse filha do próprio luar, a jovem singular reluzia sob a luz prateada, sua pele alva e os cabelos madrepérola, absurdamente longos, irradiando uma aura espectral. Mas foi seu olhar—um vermelho vívido, ardendo como pedra falsa—que cravou nele um presságio ruim. Havia fome ali. Um desejo insondável, quase predatório O marquês juraria que ela planejava devorá-lo, se a intensidade de seu olhar fosse uma pista confiável.
Um calafrio percorreu o corpo de Louis quando os lábios da dama, desenhados com primor e tingidos de vermelho profundo, se curvaram num sorriso desventurado. Ela caminhava com uma graça felina, acenando ao valete com descompromissada elegância antes de fixar os olhos nele.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma compreensão implícita.
Não era a primeira vez que um sorriso o deixava em alerta. Mas aquele parecia… pessoal.
A joia de morcego presa ao vestido confirmou suas suspeitas. Ela pertencia à infame família Diaemus—nobres do ducado vizinho ao seu. Produtores de vinhos sublimes. Devotos fervorosos do culto de Agneus. E conhecidos, também, por sua ambição insaciável e absoluta falta de escrúpulos.
— Retirou-se para um descanso, marquês?
— Talvez. Eu poderia perguntar o mesmo a você… senhorita?
— Sabel Diaemus. Imagino que o nome seja familiar.
Louis pega a mão dela, sem muito entusiasmo.
— Claro, a fama desse nome é péssima. — Beijo-a com um gesto automático, então faz sinal discreto para o valete se retirar.
— Se você veio pelo mesmo motivo que as outras, lamento te decepcionar, sou péssimo em cortesias noturnas.
Sabel apenas sorri, como quem já esperava a resistência.
— Ah, não precisa ficar na defensiva. Prometo ser direta.
Ela se aproxima um pouco, com a leveza de uma serpente.
— Não estou oferecendo meu corpo… ou casamento. Estou oferecendo uma aliança. Poder. Influência. Sobrevivência.
Louis franziu o cenho. Mas os olhos: estes sempre entregam mais do que ele gostaria.
— Você conhece as tensões que assolam Terrosa. — O tom dela era tranquilo, mas pontuado por uma gravidade calculada. — A situação do rei é instável. O herdeiro… imprevisível. Você é um marquês. Senhor de um território vital.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Quero ser seus olhos. E você, a minha voz. Juntos, garantimos estabilidade e segurança. Para mim. Para você. Para Terrosa.
O olhar dela era afiado, preciso como uma lâmina.
— Procuro aliados de peso. E acredito que o senhor seja perfeito para isso.
— Você sabe que o que está me dizendo é bastante subjetivo, não é? E por que eu deveria confiar em alguém cuja família é conhecida por manipular tudo que toca?
Louis se aproxima de Sabel, com sua silhueta a sombreando, com um ar de ameaça. Sabel se aproxima também, sussurrando rouca e ardilosa.
— Porque eu sei coisas. Como o que realmente aconteceu com a senhorita Tamari. Como as decisões de Ulmar saíram da pena do seu pai, não do rei. E... sobre os pesadelos que te perseguem desde que voltou do mar.
Louis trava. A expressão endurece.
— Você não faz ideia do que está dizendo.
— Faço sim. Mas ainda assim, não vim te ameaçar. Não sou estúpida para te subjugar. Vim te convidar. Pense nisso: você é um homem cercado de fantasmas, Louis. Eu posso te ajudar a enterrá-los.
Louis observou Sabel em silêncio. Havia algo perturbador na confiança dela. Parte dele queria recusar de imediato. A outra… queria ouvir mais. Ponderando por alguns segundos, ele olha para ela, agora observando como um homem. Ela era bonita e parecia ter mais a oferecer.
— Não prometo nada, mas você está a um passo à frente das outras. Isso serve?
Sabel sorri, satisfeita e se afasta.
— Sendo assim, vou voltar ao salão e te deixar em paz… se for voltar para lá, considere me chamar para uma valsa.
Ela se despede e volta para a agitação do baile, se mesclando na multidão como se nunca tivesse estado ali. Louis ficou. E pela primeira vez naquela noite, não sabia se sentia alívio ou medo. Sabel, baronesa de Diaemus, voltou ao salão. As luzes cintilantes, risos, a fanfarra vivaz e os sorrisos falsos eram seu habitat — não que os apreciasse, mas certamente sabia como usá-los a seu favor.
Entre a teia de conversas aristocráticas, ela deslizava com graça.