A mente do Lobo voltou um pouco no tempo. Quando era apenas John e Andy começando a Hotline, quando John era seu melhor amigo e vice de sua maior conquista. Com o tempo, James lhe chamou atenção pela dedicação e amor que demonstrava enquanto aquele que se dizia seu melhor amigo só lhe enfiava facadas pelas costas e, em passos largos, se tornava pior do que o King. Se lembrava que era James quem se colocava em frente às brigas dos líderes até que, literalmente, o mais racional tomou o lugar do monstro e James se tornou parte do que faltava em Andy. Apenas parte, porque naquele tempo o homem ainda estava ferido demais e agia como uma fera nesse estado. Balançou a cabeça para voltar pra realidade onde precisava se manter o mais racional possível para fazer tudo de acordo com seu plano de tomar NY de volta. James agora era tudo o que ele tinha, era sua fraqueza, mas também era sua força. E isso o deixava com um pouco de medo.
“Depois de alguns meses fora, eu tenho mesmo que mimar minha mulher pra ver se ela me perdoa sem eu ter que me ajoelhar e implorar.” Também disse em tom de brincadeira. Poucos conheciam aquele lado mais brincalhão de Andy, mas quando estava fora era uma das coisas que ele mais sentia falta. Embora seria fácil dizer que ele sentia falta do amigo como um todo, não só das brincadeiras. “É que você vai precisar de uns brinquedinhos novos, tigresa. Eu preciso cuidar bem de você e… Hey, que história é essa de outros machos? Quem te disse que eu divido minha tigresa com outro macho por aí?” Cruzou os braços e formou um bico infantil em seus lábios como se fosse uma criança mimada, entretanto isso foi desfeito logo em seguida. Assentiu apenas com o agradecimento alheio. “Você e eu contra o mundo, lembra?” E essa tinha sido a primeira frase que Andrew disse ao James quando juntos decidiram que o melhor era dar uma segunda chance ao maldito Sierra que agora causava tanta sujeira. Porém, o que eles poderiam esperar de um porco?
Flawkes enlaçou a cintura alheia em um abraço e o puxou para seu colo. Foi meio que no automático. Seu rosto bateu contra o peito alheio e ele fechou fortemente os olhos. Estava precisando ser acolhido, abraçado por alguns segundos de um modo puro e se sentira abençoado ao sentir os lábios do melhor amigo em sua testa. “Quer morrer, morre direito, amor. Cortar pulsos não é uma morte decente pra minha tigresa.” Andy falou. Ele havia planejado a própria morte em detalhes pelas mãos de Jason Harris. Seria uma morte lenta e seria com a arma antiga que o próprio Lobo tinha comprado. Se era pra morrer pelas mãos de alguém, que fosse em grande estilo.
“Certo, ahn… Meu plano não é suicida. O máximo que vai acontecer é o Jay fugir como o rato que ele é. Você vai ver.” Encolheu os ombros levantando-se do sofá. A verdade era que Andrew poderia ficar ali conversando com James para o resto da vida,mas queria a cabeça de Holt numa bandeja. “Eu espero você.” Assentiu outra vez. “E vê se não morre na minha ausência, uh?“ e deu um beijo na bochecha do melhor amigo, demorando-se um pouco mais que o necessário pra se afastar.
Era um alívio para James poder brincar com o seu melhor amigo daquela maneira, mas agora que já tinham esclarecido a história do sumiço repentino de Andrew, havia outro problema que começava a pesar nas costas do Tigre: Lucy. Ainda não sabia qual seria a melhor maneira de justificar ao outro o que tinha acontecido, se é que houvesse uma justificativa. Além disso, depois do momento simples e reconfortante que haviam acabado de compartilhar, ficava difícil tomar coragem de contar o que poderia afastá-los novamente. No fundo, Snow sabia que o Lobo o perdoaria, da sua própria maneira, mas não podia deixar de imaginá-lo magoado ou se sentindo traído. James tinha se sentido apunhalado pelo amigo logo quando descobriu que ele estava vivo e não queria que Andrew passasse pela mesma situação. Não ter sido de fato enganado era ainda um ponto a mais para o homem se preocupar: não tinha sido a intenção de Flawkes deixar ninguém na mão, o que tornava tudo muito pior.
De qualquer forma, não seria naquela hora que tentaria explicar o que havia acontecido e ainda não tinha certeza se realmente o faria. Precisava conversar com Lucy primeiro, já que ela também tinha o direito de participar da decisão e talvez fosse melhor que contassem juntos, para que ficasse esclarecido que nada restaria dali. Para James, por mais que nutrisse um afeto forte e desesperador por Simms, a vontade e os sentimentos de Andrew sempre viriam em primeiro plano. Aquilo na sua cabeça era um fato concreto e decidido.
Agradeceu mais uma vez o amigo pelo presente e preparou-se para sair dali. Deixaria o Lobo no seu apartamento, descansando ou fazendo o que quer que ele precisasse fazer, afinal, aquela casa sempre estaria de portas abertas para o outro. “Vou tentar sobreviver.” Sorriu. “Eu te amo, irmão. Juízo.” Concluiu antes de dirigir-se à saída, já escrevendo uma mensagem de texto para Patrick para que ele se adiantasse alguns minutos e pegando as chaves de seu carro ao lado da porta. Olhou para Andrew uma última vez, como se fosse difícil demais deixá-lo ali. E era. James já havia sentido na pele a sensação de perdê-lo e sabia que nunca mais queria passar por algo como aquilo de novo.