Callum precisou -realmente precisou- inspirar profundamente antes de direcionar o seu olhar para a companheira de casa. De todos os corvinos, ele era bastante conhecido por não ter muita paciência com qualquer pessoa que não fosse seus companheiros de dormitório ou suas duas amigas loiras, por isso, para não passar uma má impressão para a morena, se esforçou bastante para se acalmar. “Se você está anotando isso, significa que não entendeu nada do que eu lhe falei.” Callum resmungou, não conseguindo resistir a utilizar o seu já conhecido tom de voz mau-humorado. “Veja, eu já fui como você um dia e posso entender toda essa sua atitude duvidosa quanto a astronomia, mas se você não se esforçar realmente para entendê-lá, nunca aprenderá.” Disse sinceramente, sabendo que se Jasmine continuasse vendo as coisas por aquele fechado ângulo, poderia se tornar mais uma das várias alunas de Hogwarts que só possuíam conhecimento de astronomia para fazer uma prova. Entender o universo era muito mais do que saber fazer cálculos ou dizer qual é a posição do sol nos períodos de lua cheia e lua nova. “Entender o universo não é uma tarefa tão impossível quanto falar com Buda ou qualquer um desses deuses trouxas, você apenas precisa aprender a enxergar o que ele tem a dizer. Isso, definitivamente, não é uma tarefa que você consegue atingir de um dia para a noite, são anos de prática e estudo, mas acredito em você, parece uma pessoa esforçada, já que conseguiu criar coragem de me pedir por ajuda.” Brincou com um sorriso da lado ao se inclinar levemente na direção da garota. Não que dar em cima de Jasmine tivesse sido o motivo para ele ter aceitado ajudá-lá, mas agora que ele tentava ensinar a morena, não poderia deixar uma boa oportunidade como aquela passar por ele e não fazer nada. “Eu pensava que eu assustava a maioria das garotas como você, confesso que fiquei surpreso quando você veio me pedir ajuda.” Comentou com um sorriso de lado, sabendo que ele provavelmente não deveria estar fazendo aquilo, já que Jasmine era sua colega de casa e, se algo desse errado, o clima em sua comunal poderia se tornar insuportável. “Enfim, voltando à astronomia, não quero que você pense que amanhã, quando olhar o céu, já conseguirá entender o funcionamento do universo ou já saberá todas as constelações. Não, você precisa estudar, mas não pode ver o que está no livro como algo individualizado, precisa tentar enxergar como a lua, o sol, as estrelas e toda as suas organizações influenciam a nossa vida, entendeu?“ Perguntou por fim, com um discreto sorriso, mantendo a conexão visual entre os dois. Ele não deveria estar fazendo aquilo.
Suas tentativas de aprendizado, ao que tudo indicava, estavam sendo muito falhas. Naturalmente, não estava acostumada a estar daquele lado da moeda, sendo a pessoa a pedir ajuda, mas sim a na pele de Callum, ajudando alguém. Costumava ser muito paciente como professora, mas não tanto como aluna, pois o simples pensamento de não conseguir aprender algo já lhe dava nos nervos. Portanto, seu esforço não era fingido e a última coisa que gostaria era dar trabalho para o garoto.
Ela observou conforme o corvino falava, tentando dar atenção às palavras e somente a isso. “Buda não era um deus” corrigiu-o, a priori ignorando a inconveniência, mas logo se censurou e abriu um sorriso sem graça. “Desculpe. Tudo bem, entendi. É questão de prática” assentiu com a cabeça, tentando pular a parte do ‘você precisa se esforçar mais’, o que ela mais repetiria nas próximas horas. “Mas você precisa concordar comigo que preciso de uma base teórica pra ter o que aprimorar com a experiência. Não me diga que aprendeu tudo na base da experimentação, Callum” insistiu e arqueou as sobrancelhas. Com 14 anos, ainda detinha daquela necessidade infantil de ser melhor em tudo (a teimosia vinha como bônus), ou pelo menos no que conseguisse. Com o passar dos anos, isso seria transformado em algo mais saudável.
Com o seu último comentário, ela precisou abrir um sorriso travesso. Apesar do tom de brincadeira, até era verdade, a maioria das meninas da Corvinal tinha receio em pedir ajuda a Callum. Não era atoa que uma de suas colegas de quarto arregalou um tanto os olhos, claramente surpresa, quando Jas comentou que estaria ocupada naquela tarde por causa do estudo com o rapaz. Até observar a reação da amiga, ela realmente não havia pensado nisso; mexeu um pouco com suas expectativas, pois nunca pensou no gostar de alguém, nem em namorar, por mais que fosse um dos assuntos mais falados das meninas do quarto ano. E ela nunca admitiria esse pensamento, pois não era do ‘grupo’ delas. Não mesmo.
Jasmine percebeu a aproximação de Callum, apesar de mínima, e o que ele estava fazendo. Ela mantinha a tranquilidade no rosto, mesmo detestando-se por dar razão à colega anteriormente citada. Tentando mostrar-se indiferente, mas ao mesmo tempo interessada, uma lógica que nem ela entendia direito, apoiou o queixo numa das mãos, o cotovelo na mesa. “‘A maioria das garotas como eu?’” repetiu, pensativa. O assunto ainda era Astronomia, mas ela sentia que isso já fora descartado por sua mente, em parte. “Farei tudo isso e você verá que sua ajuda não foi em vão quando aquele ‘Ótimo’ aparecer no meu exame do N.O.M’s ano que vem” assentiu com a cabeça, claramente convencida. “Quando olhar pro céu amanhã, ou hoje mesmo, lembrarei que um livro não diz mais que o nosso acreditar nas coisas.”