exposed-fangs:
Bom, a maioria talvez sim, mas não é todo mundo que usa as olimpíadas como desculpa para não pensar na política. Quantos protestos foram ao ar nas transmissões ao vivo? O boicote durante os discursos solenes de abertura e fechamento? Fomos tachados de mal-educados e insolentes pela interrupção, mas não é obrigação do governo ter dado preferência aos assuntos internos do que gastar tanto em obras que serão abandonadas em tão pouco tempo? O presidente inteiro… Não vamos comentar de alguém que cada passo está aí para quem quiser ver. — Os dedos percorreram o teclado com agilidade, colocando em palavras físicas a pequena discussão que ambos travavam. Poderia até não entrar para a versão final de sua defesa, mas contribuiria e muito no desenvolver das ações em paralelo. — Saímos sim, de um jeito ou de outro, mesmo que sustentemos semelhante linha de raciocínio. Temos melhor alimentação, roupas, moradia e dentes brancos e alinhados. — o sorriso aberto era de deboche, afinal, as tantas melhorias e mudanças compensavam o que deveria ter sido mudado a tanto tempo? Merecia tanta mordomia com o tipo de comportamento visto diariamente?
Foi-se o tempo que tal afirmação associada a expressão facial exibida pela professora causava algum desconforto ou ofensa. Wolfgang, em seus tantos anos, aprendera que esboçar qualquer reação era perda de tempo – e sinal de imaturidade. — Não existem muitos chamados por esse nome, certo? — Tamborilou os dedos no note, abrindo pastas com artigos e outros documentos. — Seu nome não me é estranho… Posso ter um ou outro artigo seu no meu outro computador, que dica em casa. — E, assim, seus olhos percorreram mais uma vez a figura da professora, focando no rosto e na familiaridade de suas feições. — É meio que uma sorte. Pesquisar demais sobre um assunto gera um conhecimento e uma avidez por mais. Cursei aqui na USP, parei por uns anos no intuito de exercer a profissão e voltei aos estudos com Física. Menos matérias para continuar pegando casos no escritório. Fugi de Brasília e das saias da mãe, por assim dizer, além de entrar numa das melhores universidades do país. — O orgulho era evidente em sua voz, a trajetória tão bem feita e calculada que lhe trazia chamas aos olhos. — E você? Qual a sua formação?
Soltou um pequeno sorriso sarcástico com o que ele falara. Era verdade que houvera realmente muitos protestos, mas quantos trouxeram resultados? --- Eu ainda não acho que isso funciona bem. Por mais que a gente possa houver gritos e protestos aqui e ali, muitas vezes eles acabam sem sucesso. O que se vê, por outro lado, são justamente os jornalistas tendenciosos tentando desmoralizar essas atividades, transformando-os em ações ilegítimas e, porque não?, rebeldes ou vândalas. Tá aí um exemplo do que você me perguntou sobre a veracidade da notícia. Totalmente contextualizada. --- Jayne pode observar o outro digitar muito do que eles falaram e franze um pouco o cenho por não conseguir ler exatamente o que era relatado ali. Revira os olhos em um tom bem humorado quando ele faz o pequeno comentário acerca da idade média. --- Percebo que você é cheio de piadas, certo? --- fala em um tom sério, mas gentil, disfarçando a pequena brincadeira por trás de sua frase.
Não aqui no Brasil, pelo menos. Deve ser até meio comum lá pela Alemanha, talvez, mas preciso dizer que acho um belo nome. É forte e traz uma certa confiança que deve ser útil em sua profissão. --- Jayne não podia negar que tinha ficado surpresa com o rapaz. Apesar de muito novo, já sentia uma maturidade meio rara de se encontrar em outros jovens da mesma idade. Como já tinha pensado antes, era no mínimo admirável. --- Eu não tive esse mesma sorte --- permitiu-se a pequena brincadeira --- Eu cursei Jornalismo no meu estado natal. Você obviamente não sabe, mas sou originalmente de Pernambuco. Nasci e fui criada pela minha mãe em uma cidade menor do estado, no entanto, depois fui aprovada na universidade do estado, eu cheguei a passar as semanas na casa de uma tia que morava na capital - que é onde fica a faculdade. Então digamos que entendo bem o que é sair de baixo da saia da mãe. --- soltou um pequeno riso, com um leve desconforto. Falar sobre isso trazia certas memórias que por vezes doíam um pouco. A imagem da mãe sorridente logo era substituída por uma imagem da mãe gritando com ela. Tudo que Jayne queria nesse momento era conseguir efetivamente controlar os tipos de memórias que poderiam tocar seu nível consciente. Às vezes ela se pegava pensando E se tudo fosse diferente? E se eu não tivesse feito o que eu fiz? Eu ainda seria eu hoje? Ou seria um eu estranho a mim mesma? Esses pensamentos incomodavam profundamente, então ela preferia apenas respirar fundo e tomar um gole de café. Algumas ideias eram mais saudáveis quando mantidas longe. --- Eu vejo que você está digitando aí e ainda não tive a chance de perguntar... Mas qual a finalidade desses questionamentos? É para alguma matéria ou pesquisa de faculdade que você mesmo quer produzir?











