Congratulations, you've passed the test || @Themes
Conte com seu professor de matemática para transformar um dia potencialmente tedioso num verdadeiro inferno ao, educadamente, solicitar sua ajuda com o reforço dos retardatários da turma. Se a ordem não estivesse tão porcamente mascarada de pedido, Theo teria, prontamente, negado. Mas havia aprendido desde cedo que nunca era uma boa ideia contrariar adultos, principalmente quando estes possuíam tendências controladoras. E, não sem uma pitada de vergonha, reconhecia que não havia nada melhor para fazer durante o resto do dia. Ou do ano escolar. Ainda assim, reconhecer tal fato não era lá muito estimulante, mas depois de tantos anos de mesmice, era esperado que o religioso já estivesse acostumado com a ideia.
Muito já se passava do fim das aulas quando fora liberado, o Sol já havia iniciado sua descida, e os corredores praticamente vazios refletiam o fim das atividades escolares daquele dia. Era naquele horário que o jardim começava a fervilhar com casais e suas atividades extracurriculares. Mesmo os que partilhavam de sua companhia minutos antes já haviam se dispersado. Theodore era o único idiota por ali. Não que estivesse incomodado com a súbita solidão, preferia-a quando a outra opção eram os malditos e enfadonhos cabeças-ocas que lhe mandavam tutorar. Seu desgosto pelas exatas havia se intensificado há muito, e grande parte deste ódio se devia ao fato de ter de forçá-las garganta abaixo de pessoas que desejavam aprendê-las tanto quanto desejava ensiná-las. Ao menos, o incômodo era mútuo. Uma veia pulsava em sua têmpora toda vez que pensava sobre o assunto, obrigando-o a massageá-la, num gesto corriqueiro para evitar uma possível enxaqueca, forçou-se a pensar no quão próximo estava de seu dormitório e em quantas horas ainda teria para nada fazer além de vegetar sobre sua cama. Mas é claro que, como em tudo em sua vida, os acontecimentos futuros seriam o inverso do desejado e, ao adentrar o dormitório e deparar-se com o parasita em sua cama soube que algo estava, incrivelmente, errado.
As orbes azuladas perscrutaram o rosto do colega de quarto de maneira incisiva, oscilando entre o sorriso zombeteiro e o olhar acusatório, fazendo com que instintivamente assumisse uma postura defensiva, adotando uma carranca no processo. James Clarke não era, nem de longe, uma de suas pessoas favoritas e odiava, odiava, seu comportamento importuno. Quem diabos ele pensava ser para apossar-se de sua cama? Eventualmente, desviou os olhos do rosto do outro para focar-se no resto, e foi com um crescente frio na barriga que constatou o que o outro tinha em mãos. Um soco no estômago teria lhe doído menos do que presenciar o escárnio nas palavras do colega de quarto. Theodore não sabia se deveria amaldiçoar seu descuido ou o intrometimento de James. Provavelmente, ambas as coisas.
O objeto que causara a destruição de sua imagem - já pouco cultivada - tratava-se de uma revista adolescente, que trazia uma (descrita como reveladora pela mesma) matéria sobre a homossexualidade na adolescência, comprado pelo religioso no auge de seus 13 anos, quando ainda conservava alguma esperança de normalidade em sua vida. E que só fora trazida para o internato com medo de que seus pais a encontrassem metida entre seus livros de estudos. Desde então ficara esquecida em sua mala, perdida entre outras quinquilharias que não possuíam tanto poder de comprometê-lo… Até aquela manhã, em que achara que seria uma boa ideia arrumar suas coisas, num maldito hábito adquirido de uma mãe obcecada por organização. Pretendera queimá-la, mas havia sido obrigado a adiar a destruição da prova de seus desvios quando Alex abrolhara o recinto de repente, obrigando-o a enfiá-la entre o travesseiro e os lençóis. Obviamente, em toda a sua inocência, não cogitara a hipótese de um dos dois encontrá-la, já que os três consensualmente ignoravam-se na maior parte do tempo. Contudo, ali estava James, troçando despudoradamente de seu maior segredo e vergonha. Theodore inspirou profunda e lentamente, resistindo a tentação de jogar-se sobre o outro. Nunca desejara tanto que um buraco o tragasse quanto naquele momento, ou receber uma descarga de coragem insana, para poder gritar aos quatro ventos que sim, gostava de meninos. Mas invés disso, resignou-se em conter-se outra vez, a destra correndo pelos cabelos enquanto maquinava uma solução.
Deu alguns passos à frente, fechando a porta detrás de si, incerto sobre como discorrer "O que te fez achar que tinha o direito de mexer nas minhas coisas, Jay?" Retribuíra a intimidade indesejada ao criar um apelido no momento, a voz saindo mais trêmula do que o desejada, a raiva misturava-se ao sentimento de humilhação crescente em seu cerne "Não é como se eu alguma vez tivesse me intrometido em seus assuntos, então por que você não dá o fora daí e fingi que não viu nada?" Era um pedido deveras otimista para se fazer. E Theodore nunca sentira-se tão pouco otimista quanto naquele momento.
A partir do momento em que Theodore vestiu a carranca, os olhos de James se tornaram de vidro, completamente estáticos sobre toda a figura do loiro à sua frente, desvendando cada mínimo movimento. Se James tinha algumas qualidades, a maior delas seria a da percepção, e naqueles instantes a explorava ao máximo. Não era todo dia em que algo que realmente merecesse seu interesse acontecia, muito menos naqueles parâmetros. Também não era só um assunto importante por se tratar de algo divertido à James no nível da sexualidade, podia confessar que nutria certa empatia pelo garoto. Era um tipo de sujeito que não incomodava em nada, talvez por ficar calado, era seu tipo de sujeito favorito, afinal James não tinha que entregar a alma à persona estúpida, nojenta e tão injustamente necessária que era obrigado a se entregar na maior parte das relações que começava, a verdade é que Theodore exercia o ato de se manter longe sem influência alguma de James. Devia ter agradecido antes, porque agora havia o obrigado a usar suas troças e entrar nesse ciclo extremamente vicioso para com Theodore também. James odiou-se um pouco por isso em um relapso de um segundo, o resto do ódio provavelmente viria em alguma das próximas horas ou noites.
Quando a porta se fechou o moreno limitou-se a deitar os olhos uma última vez pela revista alheia, recordando-se o quão hostil poderia ser e não seria. Atirou a revista ao seu lado na cama e se levantou lançando um olhar de escárnio - sem nunca tirar o sorriso-troça do rosto - em resposta ao apelido e à principalmente a primeira pergunta do outro. Algumas vezes desejava que todos soubessem de sua história de uma vez para pensarem melhor antes de lhe dirigir a palavra. Direito. James se perguntou se por algum momento já tivera tido os seus direitos, nem mesmo ter a chance de ir para aquele internato ao invés do reformatório era um de seus direitos, ele tinha consciência disso. Era tudo opaco. Ninguém jamais iria entender que esse tipo de ética não existe no mundo real. Esse era um dos principais motivos pelos quais se dava o direito de desrespeitar os direitos alheios. Seu olhar poderia ter revelado o tanto quanto ele pensou por aqueles instantes, que se resumiam em atirar um “bem-vindo ao mundo real” na cara de Theodore, e esfregar um “a terra não é o céu” pelas orações noturnas da criatura loira. Entretanto James preferiu pigarrear e responder a segunda pergunta, essa que obviamente havia sido descrente, ele correspondeu as expectativas no mais expresso sarcasmo que conseguiu:
— Ah, sim, realmente. — Falou entre risos. — Eu com certeza vou fingir que não vi nada. — Então deslocou a escada do beliche para o ponto máximo próximo a janela, enquanto variava o olhar entre a revista e Theo, o meio-sorriso sempre presente, os olhos não pareciam ter vergonha alguma de expor o interesse que havia sido despertado. Ele recostou na escada fazendo dela seu novo assento, como se instigasse Theodore a reconquistar seu espaço, procurando o oposto a intimida-lo embora estivesse realmente incerto se estava o fazendo direito; o sarcasmo não lhe parecia pouco intimidador, entretanto também não lhe parecia que fosse capaz de ser menos que irônico. A questão era que estava curioso, tentado a levar Theodore mais afundo em sua defensiva porque o garoto parecia saber se defender, por mais que aparentasse uma criança contrariada.
Instalou então o silêncio. As costas de James formavam uma parábola inclinando-se em relação a Theodore, seu rosto com o sorriso de estampa eterna estava suficientemente erguido para mostrar abertamente o interesse que agora nutria pela situação do loiro à sua frente, os olhos estavam fixos e atentos, aguardando ao mais sutil de seus movimentos, buscando por qualquer pista que confirmasse suas teorias satíricas sobre o mistério do taciturno colega de quarto. Sua desinibição era contrastante à tensão do menor. James esperava, um tanto infantilmente, que Theodore respondesse por si mesmo ou revelasse algum segredo inimaginável antes que o suspense fosse transformado em desconforto, não resistindo aos próprios instintos - que pela primeira vez pareciam ter chegado com algum propósito -, voltou a falar:
— Então vamos, Theo, sinta-se livre pra me dizer… Você já saiu do armário? — O tom era certeiro, a pergunta assemelhando-se à uma retórica, era uma zombaria escachada que James prezou naquele momento. — Espero que não tenha sido por revistas… Ah, você é mais esperto que isso. Sabe que não precisa disso pra saber que é gay. — Completou com uma risada que, dessa vez, diferente das outras não era sobre Theo, era uma risada de solidariedade, havia se posto no lugar de escudo, era como se houvesse feito uma piada sobre si mesmo ou sobre ninguém. Uma risada de amparo, uma risada de apoio. Segundos depois o sorriso venal voltava, com alguma expectativa, ao seu rosto.










