Congratulations, you've passed the test || @Themes
Não era culpa de James que vivessem para colocá-lo na detenção. Ele só não concordava com o fato de tentarem afastá-lo dos computadores quando esses eram sua fonte vital. Ele era decretado à detenções por mexer em computadores sem autorização, e condignamente sentia como se todos naquele internato estivessem interessados em abstê-lo de sua autonomia. Qual aluno em todo o campus era privado de usar um mero computador? E James até chegava a compreender que isso era dado ao fato de ninguém ter inteligência o suficiente para beneficiar-se de todos os recursos que as tais máquinas poderiam oferecer. Entretanto, não era justificável. Quando saía tão cansado da sala de detenção como saía naquele dia, nada era justificável, chegava a pensar que um decreto muito mais justo seria se o tivessem mandado para o reformatório logo de uma vez, afinal, ali sentia-se como um fumante rodeado por pilhas de nicotina, ou um dependente químico rodeado por drogas dos mais variados tipos. Todos os alunos segurando rentes a si um celular de última geração, ou sentados nas mesas da lanchonete desperdiçando tempo em seus notebooks. Tudo ali, bem debaixo de seu nariz. A única coisa que lhe restava era a chance de usufruir das tecnologias maravilhosas ilegalmente, portanto duvidava que seus professores ou superiores ainda acreditassem na desculpa típica de que “isso não vai se repetir”, e considerando que James questionava seriamente que por alguma vez já tivessem acreditado nele, imaginava que só continuavam o mandando a detenções por piedade. E, infelizmente, uma piedade demasiadamente duvidosa, incapaz de permitir ao dia que se sucedesse suficientemente bem.
Apesar dos apesares, o hacker inglês girava a maçaneta da porta de seu dormitório e conforme a porta se abria outra sugestão do que poderia lhe ser justo naquelas situações se tornava visível: a cama. Muito mais que justa para um pobre indivíduo exausto, a cama era justificável, reconfortante e boa. Todas as qualidades que poderiam ser negadas do lado de fora daquele quarto se encontravam num colchão que, no alto do beliche, parecia longe demais. James poupou-se mais uma vez de crises pessoais sobre ser ou não ser ou não ser educado e largou-se na cama de baixo, pertencente a Theodore, seu religioso e taciturno companheiro de quarto.
Talvez tenha dormido durante alguns minutos, mas se dormiu, fora apenas uma quantidade satisfatória de tempo para armazenar energia o suficiente para sustentar um irritante estado de virgília que duraria mais uma bela porção de minutos. Minutos inacabáveis. Algo o incomodava e, dessa vez, nada tinha ver com peso na consciência, nem sobre Theodore - o dono da suposta cama - nem sobre nada, tinha certeza. Foi então que a ”ervilha na cama princesa” foi descoberta, e era muito mais suja e divertida do que qualquer conto antigo de qualquer dinamarquês da história. Havia uma revista embolada sob o travesseiro de Theo e apresentava os seguintes dizeres: “DESCUBRA A SUA TENDÊNCIA SEXUAL”
A sonolência e o cansaço - e, quem sabe, uma ponta de boa índole - foram as únicas forças capazes de terem o impedido de gargalhar alto o suficiente para assustar metade dos pássaros da Inglaterra. James limitou-se a sentar na cama do colega de sexualidade duvidosa, e ler as opções disponíveis e as assinaladas. Um sorriso sugestivamente hostil e inegavelmente risonho havia se instalado no rosto de James. Theodore não havia chegado a assinalar todas as questões, talvez porque não estivessem tombando para o lado que esperava, talvez porque devesse ter percebido o quão estúpidas eram as revistas adolescentes que traziam testes de sexualidade em seu conteúdo. O moreno se perguntava por quais dos motivos as últimas questões estavam tão decepcionantemente brancas, mas não teve de perguntar a si mesmo por muito tempo. A porta do dormitório abriu com um silêncio digno de suspense e James daria um “Olá” ao companheiro se não estivesse muito ocupado tentando procurar infantilmente no outro os sinais da homossexualide. Ao despertar do transe cômico em que facilmente se encaixara, James estendeu a revista ao lado de seu rosto: — Theo, vou te mandar uma direta: acho que devia guardar esse tipo de revista em outros lugares que não fossem debaixo do travesseiro. É extremamente desconfortável. — Trouxe a revista para frente de seu rosto, analisando as questões por alguns instantes. Então emoldurado o sorriso mais sacana que já dera nos últimos meses ele voltou com a revista ao seu lado. — Mas é uma revista até legalzinha, não é, mesmo? E você pode ver… — Gesticulou sobre as alternativas sobre as quais discutia. — Se você completar essas últimas questões com a alternativa mais estranha, você ainda consegue o resultado de, sabe-se lá que raios é isso, pansexual. —Completou com uma piscadela, entendendo que, se o dia havia sido completamente inútil e depreciativo, acabara de se tornar o mais interessante da semana.
Conte com seu professor de matemática para transformar um dia potencialmente tedioso num verdadeiro inferno ao, educadamente, solicitar sua ajuda com o reforço dos retardatários da turma. Se a ordem não estivesse tão porcamente mascarada de pedido, Theo teria, prontamente, negado. Mas havia aprendido desde cedo que nunca era uma boa ideia contrariar adultos, principalmente quando estes possuíam tendências controladoras. E, não sem uma pitada de vergonha, reconhecia que não havia nada melhor para fazer durante o resto do dia. Ou do ano escolar. Ainda assim, reconhecer tal fato não era lá muito estimulante, mas depois de tantos anos de mesmice, era esperado que o religioso já estivesse acostumado com a ideia.
Muito já se passava do fim das aulas quando fora liberado, o Sol já havia iniciado sua descida, e os corredores praticamente vazios refletiam o fim das atividades escolares daquele dia. Era naquele horário que o jardim começava a fervilhar com casais e suas atividades extracurriculares. Mesmo os que partilhavam de sua companhia minutos antes já haviam se dispersado. Theodore era o único idiota por ali. Não que estivesse incomodado com a súbita solidão, preferia-a quando a outra opção eram os malditos e enfadonhos cabeças-ocas que lhe mandavam tutorar. Seu desgosto pelas exatas havia se intensificado há muito, e grande parte deste ódio se devia ao fato de ter de forçá-las garganta abaixo de pessoas que desejavam aprendê-las tanto quanto desejava ensiná-las. Ao menos, o incômodo era mútuo. Uma veia pulsava em sua têmpora toda vez que pensava sobre o assunto, obrigando-o a massageá-la, num gesto corriqueiro para evitar uma possível enxaqueca, forçou-se a pensar no quão próximo estava de seu dormitório e em quantas horas ainda teria para nada fazer além de vegetar sobre sua cama. Mas é claro que, como em tudo em sua vida, os acontecimentos futuros seriam o inverso do desejado e, ao adentrar o dormitório e deparar-se com o parasita em sua cama soube que algo estava, incrivelmente, errado.
As orbes azuladas perscrutaram o rosto do colega de quarto de maneira incisiva, oscilando entre o sorriso zombeteiro e o olhar acusatório, fazendo com que instintivamente assumisse uma postura defensiva, adotando uma carranca no processo. James Clarke não era, nem de longe, uma de suas pessoas favoritas e odiava, odiava, seu comportamento importuno. Quem diabos ele pensava ser para apossar-se de sua cama? Eventualmente, desviou os olhos do rosto do outro para focar-se no resto, e foi com um crescente frio na barriga que constatou o que o outro tinha em mãos. Um soco no estômago teria lhe doído menos do que presenciar o escárnio nas palavras do colega de quarto. Theodore não sabia se deveria amaldiçoar seu descuido ou o intrometimento de James. Provavelmente, ambas as coisas.
O objeto que causara a destruição de sua imagem - já pouco cultivada - tratava-se de uma revista adolescente, que trazia uma (descrita como reveladora pela mesma) matéria sobre a homossexualidade na adolescência, comprado pelo religioso no auge de seus 13 anos, quando ainda conservava alguma esperança de normalidade em sua vida. E que só fora trazida para o internato com medo de que seus pais a encontrassem metida entre seus livros de estudos. Desde então ficara esquecida em sua mala, perdida entre outras quinquilharias que não possuíam tanto poder de comprometê-lo... Até aquela manhã, em que achara que seria uma boa ideia arrumar suas coisas, num maldito hábito adquirido de uma mãe obcecada por organização. Pretendera queimá-la, mas havia sido obrigado a adiar a destruição da prova de seus desvios quando Alex abrolhara o recinto de repente, obrigando-o a enfiá-la entre o travesseiro e os lençóis. Obviamente, em toda a sua inocência, não cogitara a hipótese de um dos dois encontrá-la, já que os três consensualmente ignoravam-se na maior parte do tempo. Contudo, ali estava James, troçando despudoradamente de seu maior segredo e vergonha. Theodore inspirou profunda e lentamente, resistindo a tentação de jogar-se sobre o outro. Nunca desejara tanto que um buraco o tragasse quanto naquele momento, ou receber uma descarga de coragem insana, para poder gritar aos quatro ventos que sim, gostava de meninos. Mas invés disso, resignou-se em conter-se outra vez, a destra correndo pelos cabelos enquanto maquinava uma solução.
Deu alguns passos à frente, fechando a porta detrás de si, incerto sobre como discorrer "O que te fez achar que tinha o direito de mexer nas minhas coisas, Jay?" Retribuíra a intimidade indesejada ao criar um apelido no momento, a voz saindo mais trêmula do que o desejada, a raiva misturava-se ao sentimento de humilhação crescente em seu cerne "Não é como se eu alguma vez tivesse me intrometido em seus assuntos, então por que você não dá o fora daí e fingi que não viu nada?" Era um pedido deveras otimista para se fazer. E Theodore nunca sentira-se tão pouco otimista quanto naquele momento.










