Sobre ser o que eu quero para mim.
"Relacionamentos são extremamente complicados e meu cachorro sabe disso...”
Sempre discordei desse pensamento. Relacionamentos são o que as pessoas o tornam, e, pessoas são complicadas...
A maior parte da minha vida eu vivi “sozinha” (entende-se por sozinha sem um parceiro romântico). Primeiro um relacionamento com um amigo bissexual, à distância. Eu não estava preparada para aquela conversa. Em seguida muitas tentativas de me relacionar com caras, ou melhor, com a ideia que eu fazia dos caras...
Quase dois anos depois, um namoro “perfeitinho”, tipo filme de comédia romântica ou clipe de banda indie. Um sonho, que como todo sonho, acaba...
Continuei sofrendo, me culpando por escolher caras imaturos (gente que nunca está numa fase para se relacionar), covardes (gente que gosta de você mas não te assume, afinal, você passa longe do padrão de beleza eurocentrado, é mãe solo e feminista e independente demais para uma cidade pequena) e canalhas. Ou tentando “consertar” o que havia de errado em mim para eu não conseguir “prender” ninguém (usar salto, fazer as unhas, alisar o cabelo, sair menos, ficar com menos pessoas).
Nesse meio tempo descobri duas pessoas que me amaram. Me deixei levar pela experiência de ser adorada e mimada (afinal, a maioria das mulheres negras não são acostumadas com isso), mas ser amada por pessoas que nem de longe superavam minhas expectativas, obviamente não foi o suficiente. Quando identifiquei que esse era o motivo para não seguir adiante nesses dois relacionamentos, me senti horrível “meus deuses! Estou me achando demais...” Mas não é por aí. Se eu me cuido, quero alguém que se cuida. Se eu me esforço para vencer minhas batalhas diárias, não quero alguém que tá parado esperando a vida o levar.
Iniciei uma jornada em busca do autoconhecimento, comecei a compreender que devemos aprender a nos cuidar antes de amar imensamente outra pessoa. E que temos que desromantizar as relações baseadas em expectativas do outro ser o que eu quero para mim.
1 - Descobri que sou mais linda e incrível do que a sociedade me faz acreditar ser.
2 - Descobri que tenho medo de intimidade, o que presume julgamentos. Minha autoestima era tão baixa, que acreditava que quando alguém me conhecesse de verdade, não se interessaria mais por mim.
3- Descobri também que me apaixono pela ideia que faço das pessoas. E quando essa ideia vai se desmanchando, perco interesse (como se tivesse sido enganada. O que se relaciona muito com a descoberta anterior).
4 - Descobri que assisto filmes românticos demais e acompanhava vidas alheias demais, a ponto de me comparar e me frustrar por não conseguir viver relacionamentos estáveis, duradouros. E essa comparação/frustração é injusta, afinal cada ser humano tem sua trajetória, com privilégios e dificuldades...
5 - E talvez a descoberta mais recente e não menos importante é que se relacionar com alguém não é sobre o que eu quero no outro. É sobre enxergar e ouvir o outro (enquanto se faz enxergar e ser ouvida). É sobre querer alguém que te inspire a ser o que você deseja melhorar em si. É sobre se abster de experiências medíocres para se preparar e deixar o caminho aberto para pessoas e experiências extraordinárias!
Maaaas, pode ser que essas experiências e pessoas não venham, nunca! Pode surgir um vazio, o que pode me fazer acreditar novamente em um montão de coisas que tenho que “consertar” ou procurar em alguém.
Nesse caso, é lutar por manter a chama do auto amor acesa, e me tornar inspiração para que outras pessoas sejam a melhor parte que mostro a elas.