Somente você enxerga minha ausência
que dói mais do que deveria
porque pro resto do mundo
a mesma voz passando pelos corredores
os mesmos gestos feitos sem pensar
o mesmo corpo ocupando espaço
como se ainda existisse alguém dentro dele
como quem entra numa casa vazia
e ainda consegue imaginar
o lar que existia ali antes
somente você realmente me vê
não essa versão mascarada e educada que eu entrego pros outros
nem essa coisa automática que aprendeu a sorrir na hora certa
você vê o vazio atrás dos meus olhos
e ainda assim continua aqui
não fosse motivo suficiente pra te afastar
como se ainda existisse alguma coisa em mim
mesmo depois de tudo ter cedido
às vezes eu penso que, se você fosse embora
não de um jeito dramático
ninguém olha pra multidão
e percebe alguém sumindo aos poucos
por dentro seria como uma vela esquecida incompleta e apagada
quem me lembra que eu ainda existo
mas nesses detalhes pequenos:
o jeito que percebe quando minha voz pesa
quando meu silêncio fica estranho
quando meus olhos parecem cansados demais
pra continuar sustentando tudo
e isso talvez devesse me assustar
a prova de que eu ainda sou real
pra mim, isso parece salvação
sem exigir que eu vire luz
quase bonito demais pra explicar
porque ser visto de verdade
do que muita gente recebe