Todos querem tudo o que queremos: um copo de esperança todos os dias. Alguns audaciosos esperam mais que isto. Monte Vale, um lugar atrante, não seria diferente para a pequena população curiosa que ali habita. Acredite, esta história não é sobre Toni, um homem solitário que se diverte com seus fantasmas num bar local. Bar da Glória. É um ponto de encontro para os corajosos e badernantes desta cidade. - Não procure beleza nestas pedras que compõe esta amaldiçoada rua, se quiseres uma vida plena, entre, coma e beba, prove do pecado e nos deixe fazer sua cabeça. Atiçava Bartolomeu aos turistas recém-chegados, atendente do bar, Bartolomeu era um brutamontes de cabelos escassos e os poucos que ali restavam se confundia com um bronze escuro, bochechas rosadas e avental marrom tampando uma camisa clara costurada. Aquela sexta era um dia como qualquer outro, nada fora do comum: pessoas infestando a cidade, um parque cheio de cores e sensações. Toni entrou no bar, como todo clichê forçado, acenou para Bartô e erguendo as sobrancelhas disse em baixo tom: - O de sempre. O que significaria o de sempre? Após pouca formalidade, dirigiu-se a sua mesa, como se ali fosse um tributo pessoal, aquietou-se, tocou o pulso e observou as horas junto do badalar das Vinte horas da Igreja: a missa acabara de terminar. Atendendo seu pedido, haviam em sua mesa cinco pequenos copos, uma bebida de cor amarelada, lembrando um tanto de urina em pequenas doses, ao lado pequenos abacaxis em corte perfeito. Toni, um homem beirando seus 31 anos de idade, possuidor duma barba que parece ter sido esquecida em um rosto elegante, porém, sombrio, apenas observava o adentrar de cada pessoa, sozinha ou em grupo social, pegava em apenas dois dedos e deliciava com a bebida, após uma careta interna engolia o abacaxi, causaria sede aquele arder da bebida afogando as mágoas que insistiam em transitar em olhos sombrios. Havia dúvida quanto a alegria pessoal do alvo em questão, seria o mesmo casado? Seria dono de um lar ou apenas um visitante? Não importa, Toni não deixara de observar cada personagem transparente, como livros abertos, como se os tivessem analisando. Agora encontrava-se em sua mesa cheia do vazio de companhias, um bloco de papel e várias canetas, parecia ser o tipo de homem previsível, talvez um pouco incompreendido mas sua falta de segurança se resumia no conjunto de canetas esparramadas. Quem ousasse de saciar sua curiosidade e espiar o rabisco em forma de garrancho, ali encontraria uma lista, assim feita:
20h17min - Helena M. Flores, advogada associada da empresta Martins entra acompanhada de Wilson Menezes. Ambos com um pouco de água na cabeça. Acabaram de assistir a missa. Devem estar rezando para serem absolvidos pela justiça divina, uma vez que a humana não faz nada além de oprimir probres. Helena, uma mulher de ombros largos, cabelos presos num coque indicando respeito e devoção e Wilson, vestido num terno escuro agora solto, deixando transparecer uma camisa azul clara, da cor dos olhos de sua acompanhante. Devem estar comemorando mais uma roubalheira de um júri comprado. Cidades mínimas extraem um encantamento curioso de porco prontos para serem abatidos.
O casal descrito no bloco foram recebidos por seus colegas, com taças erguidas. Toni alargou um pouco sua camisa como se sentisse desconfortável, com dificuldades para respirar, ergueu outra taça e como em reverência, sorriu no escuro para o casal e virou outra dose, sentiu seus ombros subirem um tanto como uma resposta rápida de reação. As anotações não se limitaram a um casal agora acompanhados por seus amigos e ainda com um pouco mais de esforço, continuava:
19h30m - Um grupo completo por três jovens acaba de adentrar o estabelecimento. Um alto como uma árvore podada, seu óculos torto guardado no peito esbanjando um pouco de cabelos, tentando serem encobertos por uma camisa de gola V alaranjada, havia tristeza em seus olhos mas seus cabelos bem cortados caindo um pouco na testa não negavam sua honestidade e coragem. Logo ao lado, dando uma diferença absurdamente comparável, havia um rapaz de jaqueta em tons de jeans, uns botões faltando mas ele não se importava, assim demonstrava sua animação por ter finalmente chegado vivo na Sexta. Talvez tenha sido uma semana cansativa, esses jovens. Sem tornar o grupo excessivamente grande nem tão pequeno, um rapaz tão alto quanto o primeiro e mais cheio que os dois juntos, seguia em fila paralela, e acabara de apagar um cigarro e o jogou no chão. Uma atitude não muito educada, encontramos um revoltado do grupo.
21h17 - Aparecia agora na porta dois integrantes, ambos aparentemente cansados e com respiração forte, tentando aparentar desculpas pelo atraso no rosto sofrido de um, acompanhando um rosto cheio de raiva do outro mas suas roupas limpas, bem passadas e caindo bem no corpo de ambos, justificavam perfeitamente o atraso. Devem completar o eclético grupo dos rapazes, um clube masculino. Será que ali adentraria alguma garota? Estariam ali por diversão ou por segredos?
Neste momento tocara o celular de Toni mas ele não deixou de tomar a terceira dose, observando agora os rapazes e mastigou o abacaxi apontando uma dor infinita no céu da boca, como se algo amargasse ... Mas ainda que seu corpo estivesse cansado, ele não movia sequer um músculo desta vez. Abaixou a cabeça e rabiscou o que pareceu ser duas linhas, fez alguns riscos mais fortes que o outro, posteriormente elevou sua cabeça como se tentasse engolir uma mágoa grande e apertou forte os lábios, levantou ainda a folha, ficando cada vez mais fácil o entendimento:
21h40min - Piscinas. Rasas piscinas. Assim as defino. Aparentemente boas garotas. A escala de beleza se equipara a falta de personalidade e pode parecer algo vindo de um bêbado agora que elas estão juntas e contentes curtindo o Ensino Médio no Colégio Local e se assemelham a realeza do social. Não são turistas, são nativas. A saia curta em preto forte num tecido plástico, combinava com sua camisa não tão decotada mas com suspensórios ajustados nos ombros, esta tinha aproximadamente dezessete anos, cabelos ruivos aproximando sua cintura a tornava encantadora mas possuía forte maquiagem, fazendo-a perder um rosto inocente. Seus sapatos fazendo barulho no chão de madeira também tirava sua inocência, as outras duas eram apenas clones, diferenciando apenas pela altura e pela atitude dos olhos. Droga, sempre tem uma que se destaca pela bondade e se sente triste e sozinha no mundo, esta será feliz, desde que saiba que ser cachoeira ou mar é mais pessoal e atraente que o artificial da piscina. Interessantes mas se assemelham a toda nata comum desta sociedade.
As três como se em coreografia insanamente treinada seguiram a do meio de cabelos ruivos até uma mesa que se destacava por propriedade particular.
- Aspirantes a advogadas mas se continuarem com esta atitude fria e manipuladora, não darão conta de sobreviverem ao terror da universidade. Esta é a questão: só tem poder por temer a submissão e por ter seguidores, são aplaudidas pela Plebe enquanto pisam em flores jogadas para a Realeza e pouco sabem os planos da Plebe para roubar a coroa. (risos em conjunto).
Disse num tom no mínimo audível um dos rapazes do grupo de jovens ali presentes. Ainda que algumas pessoas do bar não parassem de observar como as recém-chegadas causavam, Toni permaneceu em silêncio, em movimento um tanto quanto trêmulo obrigou o seu organismo a beber mais uma dose daquela estranhamente bebida amarela. Seu rosto mudou de elegante e gracioso para amargo, quanto mais se servia daquela bebida parecia contemplar o seu desespero. Bartolomeu já havia depositado outras doses ali e dois copos permanecia intacto em uma das extremidades da mesa, Toni já tinha para si uma garrafa. Ninguém saberia a profundidade da tristeza de um homem até que observassem profundamente Toni: a decadência em pessoa. Mas como poderia uma pessoa ser graciosa e sombria na mesma proporção? Toni perdia não somente a proporção do tempo, também a da necessidade de estar com alguém e a verdade é que como se o Bar da Glória fosse sua área de melhor habitação, ali ele poderia sentar-se e observar as pessoas em todas suas percepções diferentes. Naquele instante que perdeu completamente os sentimentos, aparecera uma mulher atraente, cabelos loiros e um batom vermelho atraente em uma boca larga, um personagem que jamais apareceria nas supostas anotações de Toni, a mesma mulher sorriu e sentou-se, ajeitou seu casaco longo para que não dobrasse no assento, tirou sua boina e a colocou na bancada, estava curtindo a música quando ao correr os olhos em todo o bar, fazendo uma varredura, seus olhos se encontraram com o de Verônica, outro alguém que jamais seria um personagem de Toni, afinal, Toni não era um autor e sim vítima da própria pouca percepção de vida, era fácil sentar e esquecer dos problemas enquanto a vida é picotada em rodelas de uma fruta, como aquele abacaxi daquela noite que por sinal, estava mais amargo que qualquer bebida forte oferecida pelo local. É fácil escrever quando a dor é do Toni ou de outros personagens adentrantes daquele estabelecimento. Difícil é descobrir quem observava Toni a todo momento e por fim colocava a seguinte nota para finalizar a noite:
05h27min: Todos deixaram aos poucos o Bar da Glória, inclusive Toni, que vestira seu casaco cheio de poeira do seu passado e dirigiu-se para o vento frio da porta, neste momento, Bartolomeu afofou os bolsos de sua calça larga, abaixou um pouco a cabeça para observar o lado de fora e sentiu-se na liberdade de abonar os afofados com o rendimento de Glória, afinal, o movimento estava ficando cada vez melhor e ninguém seria capaz de contar o que houvera ali. Abigail desceu neste momento as escadas e num tom de impaciência e desaprovação comentou com Meredith:
Bartô não muda mesmo, não é? O mais interessante é a falta de crença na vida do outro lado do plano. Ele não está pronto para descobrir o que Toni sabe e quando o mesmo soltar, isto sim será matéria para ser bombardeada. Até lá, continuemos a vagar descobrindo segredos alheios a vontade desta cidade.