Lousada, Torno, Santuário de Nossa Senhora da Aparecida
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Lousada, Torno, Santuário de Nossa Senhora da Aparecida
O ciúme não nasce do amor, e sim do orgulho. O que dói neste sentimento, creia-me, não é a privação do prazer que outrem goza, quando também nós podemos gozá-lo e mais. É unicamente o desgosto de ver o rival possuir um bem que nos pertence ao cobiçarmos, ao qual nos julgamos com direito exclusivo, e em que não admitimos partilha. Há mais ardente ciúme do que o do avaro por seu ouro, do ministro por sua pasta, do ambicioso por sua glória? Pode-se ter ciúme de um amigo, como de um traste de estimação, ou de um animal favorito. Eu quando era criança tinha-o de minhas bonecas.
José de Alencar, Senhora
"I would strangle you in my arms just to know you are mine, even in death."
— ALENCAR, José de. From "Senhora"
Quero ouvir você falar sobre Senhora! Principalmente o que você acha do final.
Estava amando esse livro, aí o final foi bem... Ah, tá. Esqueci quem estava escrevendo e em que contexto.
Mas não chegou arruinar o livro para mim, porque a Aurélia é muito diva! (Acho que eu não li Diva).
Faz uma década que eu li, devia reler
Oi oi!! Perdão pela demora!
Meu amor por Senhora é incompreendido e eu tenho muitos Pensamentos Pensantes a respeito. (Uma coisa importante pra saber é que a fonte disso tudo é As Vozes da Minha Cabeça).
É um breakdownzão da Aurélia e do Fernando e da dinâmica dos dois isso aqui.
É bem textão. Ninguém nunca me pergunta sobre Senhora, essa é a oportunidade!
O casamento é estabelecido em Senhora como um contrato, uma transação, puros negócios. O afeto entre os noivos é algo secundário. Não é muito diferente da forma como seria visto na mesma era na vida real. A diferença chave é a Posse: tradicionalmente, nesse casamento católico (estamos na era pré casamento civil) a mulher torna-se posse de seu marido, anteriormente ela era posse de seu pai. Em Senhora, o marido é posse da esposa, e não há passagem de pai para marido.
A Aurélia em geral é uma heroína pouco convencional para a época: apesar de muito jovem ela tem muita consciência das suas próprias finanças e muita experiência de vida, ela passou de miserável para milionária. Ela sabe o quanto as coisas valem para quem não tem nada, mas ainda sim sua fortuna é um ‘cativo submisso’ (ou algo assim, não tenho certeza da quote), meios para um fim. Ela também subverte ao ser plenamente independente, não só financeiramente mas socialmente mesmo, o tio dela é só um guardião legal, não tem domínio algum na vida dela, ela é órfã de pai e mãe e o irmão também é falecido. Ela é sozinha no mundo.
Mas a mulher é vista como dependente do parente homem mais próximo. Aurélia tem essa falta na figura que faz na sociedade. Falta o ‘acessório indispensável para a mulher honesta’, o marido.
Ela acredita que possam ter casamentos por amor, mas entende a influência da riqueza da noiva na equação. Ela se posiciona então como compradora, proprietária, se refere aos possíveis pretendentes pelas quantias que pagaria por eles.
Aí que entra nosso outro protagonista.
O Fernando é um absoluto duas caras, e a pior parte é como ele não percebe. Para ele, sair a passeio no cassino, no teatro, no baile ou qualquer outra parte bem vestido, na última moda, fumando do mais caro e voltar para uma casa pobre com uma família que nem tem o prazer de um passeio no parque é normal. Ele acha certo liquidar não só o próprio salário mas também a pensão do pai falecido com futilidades, aparências, ao invés de preocupar-se com as duas irmãs, coisa que seria função dele como quem tem controle das finanças da casa. Se acha no direito.
Ele não só sabe da importância de aparentar riqueza, mas acha plenamente natural o teatro das aparências. Ele desmancha o noivado com a Aurélia só porque a Adelaide é mais rica. Para ele a decisão é muito simples: Amava a mais pobre? Sim, mas e daí? Podia amar a rica também, se se esforçasse. Você desmancha uma negociação pouco proveitosa, faz outra mais próspera. Matemática simples.
Para ele, amor é algo da poesia, algo de sonho. Não vem necessariamente no casamento. Ele acredita na dita ‘amizade conjugal’. Por isso que, ao receber a proposta de casar com uma milionária desconhecida, ele aceita. Ele depende dessa noiva. Ele pede o dote adiantado até, de tão fudido que ele tá.
Mas perante a sociedade, Fernando é um senhor, um bom moço. De boa família, que vive bem.
Logo depois do casamento, a Aurélia o ultraja, chamando ele de homem vendido, criado, traste, item de luxo dela, a coisa toda. (Essa cena é incrível, ela arranca uma confissão inteira dele, ‘guardei meus beijos para ti’ ‘para mim ou PARA OUTRA MAIS RICA’. 10/10 sem comentários.) Desde então eles estão nessa corda bamba do divórcio. O casamento foi separação de bens. O Seixas tem que pagar o dote de volta. E ele gastou parte dos 100 contos já. Ele está essencialmente preso à Aurélia. Um devedor. Um homem comprado, caro demais pelo que realmente vale. Ele nem usa as roupas que ela comprou pra ele, os sabonetes, perfumes, pentes, nada. Tranca com chave. Até escova de dente ele foi comprar com vendedor ambulante pra não ter que usar nada dela.
Pra mim a melhor parte é o teatro dos recém-casados felizes, ‘sejamos miseráveis, mas não ridículos’ (de novo, não tenho certeza do quote, faz tempo que li). Eles tem um absoluto desgosto um pelo outro. Tem essa cena em específico que o Seixas fala na cara dura que se casou só pelo dinheiro, de cara séria, a Aurélia confirma, dizendo que pagou caro, não com dinheiro mas com o coração. Aí todos acham que foi um gracejo. Ele constantemente tocam nessa ferida, já que pra todo mundo parece que esse arrumadinho de procedência duvidosa casou um uma milionária por interesse (o que é verdade), mas eles fazem graça disso.
Em certos momentos, eles parecem prestes a se apaixonar de novo, mas ou um ou o outro relembra que são casados, que Fernando é uma posse, que ele lhe deve os cem contos. E tudo volta para a estaca zero. Como quando ela desmaia no baile, e pede pro Fernando ficar com ela um pouquinho, ele se preocupa com os convidados. ‘De que me importa essa gente? Você é meu’ mas então ela completa ‘é meu, pois paguei muito caro para tê-lo’
Pra mim o final faz sentido como purificação do relacionamento da Aurélia e do Fernando. Quando o dote é restituído, ele se tornam iguais. O dinheiro foi o que os separou, depois o que os reuniu, e agora que eles estão livres dele por contrato, podem ficar juntos. Isso também volta logo que ele o Fernando deixa a Aurélia, quando ele pergunta se ela poderia amar um homem com quem não se casaria, ela diz que obviamente conseguiria.
Os dois crescem nesse nove meses casados. Os dois percebem as falhas deles na sua relação com o dinheiro. Fernando percebe o quanto errou com Aurélia, ao deixar a mulher que amava por outra mais conveniente. Aurélia vê que não pode resolver tudo com dinheiro, como esperava. Ela pensava que depois de xingar até a 5ª geração do Fernando no dia do casamento ele pediria perdão e seriam felizes. Por mais básico que seja isso, eles precisaram aprender a não ver um ao outro como objetos de valor, mas pessoas. ‘Ciúme é o zelo do senhor pela coisa que lhe pertence, seja essa coisa inanimada ou não’.
Não sei exatamente o que incomoda nesse final, acredito que o ‘aquela que ultrajou-te a tens aqui a seus pés, feliz porque te ama, senhor de minha alma’ (ou algo assim). Me incomodou também. Mas eu vejo isso como uma explicitação da dinâmica deles: Aurélia é senhora de Fernando pois o comprou, é dona dele de corpo. Fernando é senhor de Aurélia pois ela o ama, é dono de sua alma. Eles parecem se completar, dessa forma. Mas obviamente é um texto de seu tempo.
Enfim, falei falei falei. Eu adoro esse livro.
O TL;DR é: eu gosto de relacionamentos estranhos e não convencionais. O amado como posse, propriedade. É uma dinâmica legal. Acho que Senhora é literalmente um dos únicos romances heterossexuais que eu gosto, sem brincadeira.
Round 2
El túnel vs Senhora
El túnel - Ernesto Sabato
Senhora - José de Alencar
Info post El túnel
Info post Senhora
— Tu me amas! Negues embora, eu o conheço; eu o vejo em ti e sinto-o em mim! Um homem de fina educação, como és, só insulta a mulher quando a ama e com paixão! Tu me insultaste, porque o meu amor era mais forte que tu, porque aniquilava a tua natureza e fez do cavalheiro que és um déspota feroz! Não te desculpes, não! Não foste tu, foi o ciúme, que é um sentimento grosseiro e brutal. Eu bem o conheço!... Tu me amas!... Ainda podemos ser felizes! Oh! Então havemos de viver a dobro, para descontar esses dias que desvivemos!
Um conto sobre a Senhora que nunca envelhece.
Existem coisas que fogem o entendimento. Existem coisas que não deveriam ser lembradas pelos que respiram. O tempo é algo que comumente é visto como o remédio mágico para todas as coisas, bem, pelo menos é o que dizem. Mas, não para Henrico. Vamos falar um pouco sobre Henrico: um homem de trinta e alguns anos, construiu uma vida confortável e estável no quesito financeiro, tinha uma boa relação com sua família, estava em um relacionamento monótono embora agradável, com alguns planos para o futuro (mas que mais serviam como uma maneira de preencher e o ocupar o tempo até os dias que o levariam ao fim). Ao passar dos dias que vieram após o término do verão e começo do outono, Henrico começou a sentir que algo havia mudado. Não sabia explicar nem detalhar em palavras. Algumas coisas que sempre fez e acreditou começaram a perder o sentido. As noites já não eram mais as mesmas, acordava sem sono sentindo-se desprendido temporalmente dos dias que estava vivendo. Em algumas dessas noites, lembrava que eventualmente sonhava com uma senhora de cabelos longos e cinzas, que transparecia um tom sombrio de mistério. Acordava, ligava a televisão e buscava assistir qualquer programa que fosse para conseguir parar um pouco com esses sentimentos súbitos que o assolavam. O tempo. Dentro de minutos sentia como se pudesse ver sua vida toda se esvaindo entre seus dedos, e então a percepção "normal" voltava, e junto um baque de realidade que era tão forte como um soco na boca do estômago a ponto de deixá-lo sem ar. Era um dia bem normal, final de expediente, estava saindo do escritório da empresa de publicidade que trabalhava. Por algum motivo e acaso, resolveu fazer um caminho diferente do qual fazia todos os dias ao voltar para casa. Dessa vez voltou a pé, deixou sua moto dentro da garagem da empresa. Era um fim de tarde agradável. O vento era fresco, mas não ainda frio, o sol se deitava atrás das montanhas e o mar cinza azulado cedia espaço para uma noite escura que viria. Resolveu pegar um caminho muito mais longo, que passava por uma estrada entre árvores em um trecho um pouco mais retirado da cidade, mas que ao fim ligava-se a uma estrada de chão que fazia conexão com a avenida que morava. E foi, caminhando, sentindo os cheiros daquela estrada rodeada por árvores. Se desligando um pouco de tantas coisas que aconteciam durante seu dia. Apenas caminhando passo a passo... Observando apenas o chão, perdendo até mesmo a noção de quanto tempo fazia desde que começara a caminhar. Em algum momento percebeu que já estava mais noite do que esperava estar enquanto passava por aquele lugar. Em certo instante, reparou que com certeza tinha entrado em trilhas que denotavam claramente que há muito tempo ninguém passava. As árvores pareciam que carregavam um sentimento de efemeridade, mesmo elas, que viviam mais do que muitos animais de longa vida. Uma certa coceira começou em seu pescoço, pensou ser algum inseto ou animal que poderia ter provocado isso, e então passou sua mão sobre seu pescoço. Não sentiu nenhum animal ali, nenhum inseto. O que sentiu, foi uma pele enrugada, dura, quebradiça, e ao coçar, percebeu que camadas finíssimas de pele se desfaziam conforme coçava com suas unhas e pontas de seus dedos. Tinha algo de muito estranho acontecendo. Sentiu como se estivesse se acordando, e olhou de fato para seu redor para conseguir se situar melhor de onde estava e... Bem, tudo estava escuro, nem mesmo árvores estavam visíveis. Pegou seu celular e ligou a lanterna, mas não adiantou. A lanterna iluminou o vazio, o nada. Eis que, dessa vez, sentiu o mesmo sentimento que sentia sempre que acordava de madrugada sem sono. Mas sentiu algo muito mais forte. Dessa vez não existia televisão, tentou pegar seu celular para ligar para alguém ou mandar uma mensagem, ver o GPS, enfim, nada adiantou ao perceber que, em algum momento deixou seu celular cair e não estava mais com ele. Henrico sentiu algo que havia anos que não sentia. Sentiu frio na barriga de se aventurar em algo novo. Mas ao mesmo tempo sentiu a dúvida que era acompanhada com
algo muito próximo do que chamamos de medo. Talvez receio, mas não exatamente isso. Ouviu uma voz muito familiar, daquela senhora do qual as vezes sonhava, que tinha os longos cabelos cinzas. "Faz tanto tempo que eu te espero Henrico"... A voz um pouco rouca, trêmula, mas ao mesmo tempo incisiva e ainda com o tom de mistério dos sonhos. -"As crianças daqui não aprendem nunca. Não quero que você aprenda algo também, mas pelo menos, você consegue me ouvir"
Henrico sentiu um medo do qual não conseguia descrever, mas ao mesmo tempo sentia-se tão familiar ao escutar a voz da senhora que falava quase que convidando-o para adentrar no caminho escuro. -"Tem me sido um presente desde que nos encontramos durante as noites. Eu agradeço por abrir as portas para que um pouquinho de seu tempo se torne meu"- Falou aquela voz que invadia cada vez mais os silêncios daquela noite. Enrico notou que a senhora estava distante, mas a voz parecia estar ao seu lado. Do breu da noite, surgiu a silhueta da mulher que usava um vestido longo, cinza escuro, com brilhos estranhos que eram na verdade contrastes de escuro com mais escuro, e não luz. Henrico nem se quer percebeu que estava caminhando a passos largos em velocidade a ela, mas notou que menos velha ela parecia ser na medida que se aproximava dela. Ela abria um sorriso feliz, alegre, e abria os braços em um pedido de abraço. Henrico começou a se sentir fraco, sem ar, com dor em suas pernas e sua coluna, sentiu não ter mais forças para caminhar por conta, caiu ao chão de joelhos. Suas unhas estavam longas, toda a sua pele estava enrugada, notou que seu cabelo também estava longo, e branco. Henrico percebeu que, toda vez que sonhava e acordava sentindo como se sua vida estivesse se esvaindo entre seus dedos, era uma parte de seu tempo em vida sendo absorvido, sendo sugado por algo ou por alguém que precisava daquilo pra se manter "vivo". E foi então que as coisas fizeram sentido. Aquilo nunca foram sonhos, aqueles sentimentos nunca foram loucura. A senhora então olhando o desespero nos olhos de Henrico que percebera o que estava acontecendo, falou:
- Por qual motivo sente medo? Você está sempre buscando preencher seu tempo na covardia de apenas prolongar o inevitável pra todos que não respiram sua própria vida. Você há anos não sente mais diferença entre o que foi, o que é e o que será. Foi você quem permitiu que eu me aproximasse. A noite é sempre linda quando o escuro nos abraça, não acha Henrico? Dessa vez, desse que eu lhe abrace por completo, deixe-me sentir o seu corpo entre meus braços jovem Henrico! A senhora que antes tinha cabelos longos e cinzas, agora estava trajando um vestido vermelho, que marcava muito bem o seu corpo e exibia um corte lateral sensual. Sua pele estava lisa e fina, seus cabelos eram loiros, em chanel, na altura de seus ombros. Os olhos azuis e frios, lábios carnudos e vermelhos, quentes certamente. Henrico foi aos poucos perdendo o ar que preenchia sues pulmões, foi percebendo tudo mais lentamente ao tempo que sua visão ficava cada vez mais borrada e disforme, mas ainda conseguia escutar a voz, mesmo que agora sem entender, da "senhora" que lhe envoltara em um abraço doloroso e frio, mas prazeroso e sombriamente familiar... A família de Henrico o procurou por dias, semanas, a polícia investigou mas nunca o achou... Seu celular está desaparecido desde então, e nenhum rastro foi encontrado de sobre onde ele pode ter ido.
Salmos 106