e quem poderia imaginar que aquele seria o nosso último passeio pela praça... quem diria que você dividiria suas últimas palavras naquela tarde fria e nublada de outono, sentado junto a mim numa mesinha de madeira da nossa cafeteria predileta; a mais próxima de nossas casas. você sorria tão doce... um riso de alegria com algumas mesclagens sutis de inquietude e certo desconforto no olhar. ali pude notar que você queria me dizer algo extremamente importante e, ao mesmo instante, difícil de aceitar. depois de uma sessão de trocas de olhares que suplicavam sem palavras para que o que quer que fosse, viesse logo de uma única vez... meu coração já havia perdido o compasso calmo de outrora. seus olhos já estavam marejados e carregados de culpa e arrependimento antecipado. foi ali que pude notar a áurea de despedida, a qual pairava sobre nós e sobre os nossos pensamentos aflitos. você se recompôs e começou a falar aquilo que já estava esmagando nossos corações desde o primeiro minuto. ouvi tudo em silêncio absoluto, mas com o peito cada vez mais apertado e gritante suplicando para que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo rotineiro. entretanto era real, e como a realidade é traiçoeira. choramos, me desculpei, nos abraçamos, você me beijou pela última vez, levantou de sua cadeira, caminhou vagarosamente e no décimo quinto passo, olhou de relance para trás até voltar sua atenção para frente e ultrapassar a porta do estabelecimento e partir rumo à estação rodoviária a poucos metros dali. e eu fiquei sentado sem ter coragem de tentar te seguir e insistir para que ficasse, para que esquecesse e topasse recomeçar comigo... contudo eu deixei e não quis mais te manter acorrentado em meu regaço. não dá para impedir alguém livre de voar onde bem quiser apenas pelo meu medo de ficar a sós com a minha culpa castigadora e insensível. nosso último café findou desse modo. você partindo para outra realidade e também partindo o meu coração em centenas de milhares de pedaços. e claro, eu também esmigalhei o seu... e por isso não existe mais nós. não existe outra chance. não existe mais outra rodada de café como fazíamos antes.