𝖈𝖔𝖗𝖛𝖚𝖘 ➻ and creatures should be loved for their wisdom if they cannot be loved for kindness
quando [ Kalyani ] passa sob as estrelas, há quem poderia jurar que [corvus] sussurra seu nome, mas talvez seja apenas o mar deslizando na areia, contando seus segredos. se ouvir com atenção, se escuta que ela é [inteligente] e, sem julgamentos, um tanto [fria]. no continente, juram que se parece com [ Banita Sandhu ], você sabe do que estão falando?
Algo estranho habita debaixo da pele de Corvo. Não é por ser tarka, dizem os que temem ser vistos como preconceituosos. É por ser tarka, mas há mais!, dizem os que não fazem assim tanta questão. Leitora obcecada, passa horas sentada na mesma posição na biblioteca, apenas os olhos deslizando sobre as letras e os dedos passando as páginas. Há quem sinta calafrios ao olhar, mas não pode desviar a atenção: é hipnotizante, não parece humana. Bom, não é mesmo. Há de se concordar, porém, que sua personalidade é além do usual mesmo entre os que vieram do mar. Alguns acreditam que ela odeia a todos, outros percebem algo diferente nesse interesse ávido pelo conhecimento e argumentam que isso não poderia ser ódio. Talvez tivessem recebido alguma resposta quando setembro veio e foi, e ela continuou com seus livros debaixo do braço, os pés na ilha.
tarka — chegada em saint abbon de fleury: há 1 ano
idade: (não determinada)
ocupação: professora da escola de Alenia (história)
moradia: Vesper
Ela não tinha memórias, mas lembrava de uma sensação familiar que parecia querer seguir com ela quando foi até à praia; não era ódio, exatamente - talvez um pouco de indiferença. Era assim que se sentia em relação aos normais antes de ir para a terra? Ela não tinha certeza. Investigando dentro de sua psiquê ao longo dos meses seguintes, talvez reconhecesse que fosse um pouco fria - não que isso a deixasse mal de qualquer forma. Imaginava que talvez sofresse de uma racionalidade excessiva, e talvez antes ela apenas aceitasse os povos da forma que eram - diferentes, estranhos. Não lembrava do que a tinha feito atravessar o quebra-ondas e ficar na areia - escolher se tornar uma deles até pelo menos o ano seguinte - mas tinha rapidamente ficado encantada com o mundo de informações a que tinham acesso. Todo o conhecimento à sua disposição, era uma bênção! Uma que a fazia ter menos saudade do mar. Por causa disso, nos primeiros meses ela se trancou entre sua casa e bibliotecas, aprendendo a ler e escrever não só em francês, mas em inglês e algumas outras línguas - embora não tivesse qualquer prática para se considerar fluente em nenhuma delas. Talvez por isso ela tenha ganhado certa fama de misteriosa, fria, distante - quando não a achavam preconceituosa. Não era o caso, em sua percepção.
Não ajudava que, depois desses meses iniciais, ela continuou se mantendo mais reclusa; não era que não gostasse das pessoas, apenas se sentia mais confortável com a própria companhia - e de alguns poucos com que se tornara mais íntima. Não era exatamente por mal, era apenas porque se sentia uma forasteira ainda, talvez para sempre. Ainda assim, aproveitou tudo o que lhe interessava nos meses que tinha, conseguiu um emprego que lhe estimulasse intelectualmente, fazia aulas de diversas atividades para achar uma que lhe interessasse, e manteve a arte marcial própria da ilha, bem como curso de outras línguas e aulas de música. Se fosse sincera, ela não parecia se cansar de aprender. Antes que percebesse, setembro chegou e ela se perguntava se sua curiosidade estaria sanada, se deveria voltar para o que tinha na água, mesmo que não se recordasse, se continuaria se sentindo uma forasteira para sempre. Seu racional não tinha tomado a decisão mais balanceada, mas algo dentro de si já o tinha feito de forma intuitiva: ela jamais se cansaria de aprender tudo, de conhecer novos mundo por livros, de conquistar novos ofícios. E assim, ela ficou com os pés na areia, olhando o oceano com um livro na mão, lhe dando forças para ignorar o chamado do mar.
Ocupação: professora da escola de Alenia ⇀ de tanto visitar as bibliotecas disponíveis na ilha, acabou pedindo permisão para que a escola lhe desse acesso aos materiais de estudo dos professores e, em um lugar em que os funcionários mantinham o mesmo cargo há gerações, não foi difícil que uma professora idosa a apadrinhasse e começasse a lhe dar oportunidade de aulas como professora substituta. Estando satisfeita com seu desempenho, a senhora finalmente conseguiu se aposentar e deixar o cargo em suas mãos. Não ensina a crianças, é claro - ela não tem tato para isso, e costuma ser bastante direta nas respostas - mas os adolescentes parecem ter encontrado alguém que é capaz de passar conhecimento, incentivar os mais ávidos, pôr na linha os mais relapsos e reger a turma como uma pequena general. Tem fama de não gritar nunca, mas ter um olhar desaprovador e ameaçador que ninguém é imune; os mais aplicados da sala a adoram por sempre estimular eles a se superarem, dar desafios constantes e se envolver tirando dúvidas. Já os bagunceiros sabem que a aula dela não é o lugar de causar problema, e começaram a respeita-la rapidamente. Tem um coração mole que raramente aparece, mas os que têm mais dificuldades com a matéria conhecem bem, já que é comum que lhe dê tutoria, chances de pontos extras e a ajuda necessária, desde que se mostrem interessados.
Trivia:
Gosta de atividades aquáticas e se encantou mais com mergulho, mas as vezes gosta de apenas andar na praia e ficar olhando o mar; o mistério de sua vida lá a intriga imensamente, mesmo que faça pouco caso disso para as pessoas. Ainda assim, confia em si mesmo no que diz respeito a decisões, então acredita que decidiu vir para a ilha por um bom motivo;
Se manteve carnívora, como de praxe, mas gostou de várias outras comidas da ilha - mas não gosta de nada excessivamente artificial, e não come frituras;
A casa que lhe abrigou é praticamente cheia de livros - uma das poucas coisas materiais que faz questão de comprar e acumular. Não tem nem espaço para todos eles, alguns se empilhando pelo chão;
Gostou bastante de misturas de chás, e está sempre comprando ervas frescas para misturar como se fosse uma química complexa;
Como sempre está tentando ajudar os alunos que mostram interesse, acaba pesquisando universidades ao redor do mundo e formas de ingressar, e embora não lembre de nada, isso está mexendo consigo - as infinitas possibilidades que tem fora da ilha, como poderia conhecer o mundo e estudar em lugares diferentes;
Como trabalha em Alenia, costuma passar muito tempo por lá, comprando frutas e verduras na feira, tomando chá e eventualmente café, ou fazendo o translado pela ilha. Não tem carro e normalmente prefere andar, o que a faz passar por vários lugares em seu caminho. Tem uma bicicleta que as vezes utiliza no translado também;
Os lugares que mais frequenta além de sua casa são as bibliotecas, escola e praias, costumando ficar apenas na areia nos meses de setembro e outubro, as vezes até novembro, com medo de ficar tentada demais e voltar atrás em sua decisão - as vezes substitui elas pelos lagos para ficar mais segura e matar a saudade;
A demanda lhe pegou desprevenida, e Kalyani franziu o cenho, quase em dúvida de se teria ouvido corretamente, surpresa com o fato dele se importar com o sapato no tapete - ele simplesmente não parecia o tipo de homem que pensaria na limpeza dessa forma, e isso o fez admirar ele um pouquinho. Também a fez ficar um pouco mais alerta em relação ao forasteiro, pois a recordou de que ele não era tão tranquilo e despreocupado como gostava que os outros pensassem de como se portava. Seu olhar passou dele para os seus pés no tapete alheio, mas ela não fez qualquer protesto e obedientemente foi se sentar perto da mesa para retirar os sapatos. O comentário de que ele era fácil arrancou um riso curto de seus lábios, mas Kaly manteve o olhar em retirar o coturno que usava, mesmo enquanto falava “ Você certamente não esperava que eu trouxesse minhas crianças na sua casa sem ao menos falar com você antes, não é? ” perguntou, a absurdidade da questão transparecendo no tom de voz. Quando conseguiu soltar os cadarços e retirar as botas e meias - arrumadas e colocadas com esmero na lateral do assento e fora do tapete - Kaly não pode deixar de ver que estava bem mais perto dos papéis e diário. Sua curiosidade tomou o melhor de si, não se importando muito com o conceito de espaço pessoal ou privacidade - eram coisas que a tarka tinha certa dificuldade em acatar, principalmente porque sua curiosidade vinha de uma vontade enorme de aprender. “ De toda forma, eu vim até aqui, então por que não me fala o que espera em troca? ” disse diretamente, levantando o olhar para ele por uns instantes antes de voltar para a mesa, seu cenho franzindo ao identificar anotações sobre os moradores da ilha.
O Casavantes rolou os olhos diante da fala alheia, porém seguiu, ganhando o cômodo e, então, passando direto por ela, deixando-a a sós com sua própria curiosidade por um momento. “Tanto faz, eu finjo que acredito em você.” A voz ecoou quando ele se virou novamente. Um arquear de sobrancelhas. Émile se sentou no sofá confortável, os braços abertos no encosto, uma perna cruzada sobre a outra. Espaçoso e confiante. Sabia que o distanciamento de Kalyani das anotações seria feita com alguma contrariedade, e a assistiu enquanto ela não podia evitar encará-las. Um fiapo de risada lhe escapou, incrédulo mas satisfeito. “Vejo que se interessa pelas minhas anotações, e não me surpreende. Mas ainda não é o momento. Fora isso, fique a vontade para tirar suas dúvidas.” Indicou o sofá diante de si para que ela se sentasse, a sugestão que finalmente a faria se afastar dos papéis. Permitira uma amostra que atiçasse uma inegável curiosidade, uma isca não planejada mas que servira ao propósito. “Eu acredito que você pode contribuir com algumas das minhas, também. Só isso. Como observadora, estudiosa, e como tarka.”
O tom condescendente não caiu bem para Kalyani, que revirou os olhos sem se preocupar com parecer indiscreta, mesmo que a atenção dele não estivesse nela no momento em questão. Foi uma sorte que o seu foco também estivesse em algo diferente, assim não se sentia tão tentada a ser sarcástica ou venenosa, o que já tinham comentado com ela que parecia ser uma afronta. Supunha que não fosse ser bem visto considerando que ela estava na casa dele, sem um convite explícito. Leu o quanto foi possível, e tinha certeza que sua expressão e direcionamento dos olhos tinham lhe traído o suficiente pela reação de Emile, mas ela não se mostrou constrangida ou envergonhada " Já me disseram que sou um tanto curiosa, mas eu prefiro estudiosa " comentou, olhando para onde ele apontava, sem dúvidas para lhe tirar de perto das anotações. Ergueu uma sobrancelha instintivamente, como se sua expressão perguntasse antes dela do que ele estava falando sobre momento e dúvidas, mas Kaly apenas se levantou regiamente e foi até o lugar que ele lhe tinha designado. Sua cabeça inclinou levemente com o comentário, e a tarka teve a sensação de perigo, a vontade de se retrair, embora não tivesse permitido que isso transparecesse " E quais seriam suas dúvidas que acha que posso tirar? "
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Controlando suas expectativas, Kalyani deu um gole tímido no copo de bebida que tinha comprado depois da insistência de Nantier de que era bom. Ela nem fazia ideia se ele bebia ou não, pelo o que sabia, podia simplesmente estar implicando com ela depois de ouvir a história sobre como ela experimentara vinho e não gostara. Tinha sido uma tentativa de se livrar da grande festa em Magdalene, mas ele não tinha aceitado sua recusa e a convenceu a experimentar um drink, argumentando que o gosto era muito diferente de vinho. E de fato, era. " Tudo bem, não é tão ruim " concedeu " Como disse que isso se chamava mesmo? " perguntou, agora sabendo de uma bebida que gostava, não que pretendesse passar muito tempo por lá; o seu ideal de noite normalmente girava em torno de sua fogueira com livros e chá.
Kaly não gostava muito quando invadiam seu espaço pessoal, e parecia ser algo que Nantier gostava imensamente - ela tinha certeza que era para irrita-la. Embora normalmente isso despertasse um sentido de teimosia ou até algo meio instintivo predatório de não recuar - algo que ela suspeitava que era da natureza tarka, embora nunca pudesse pesquisar a respeito ou confirmar, para sua infinita frustração - dessa vez foi diferente. Não sabia se era porque o bar estava lotado e barulhento, mas ali naquelas poltronas no canto pareciam ser envolvidos em uma bolha de privacidade no meio da multidão, era interessante de ser perceber. Ou talvez fosse porque estava se sentindo bem mais leve e aberta, o que achava que era por causa do álcool; isso sem contar que precisava estar perto para realmente entender o que dizia. Voltando sua atenção ao que ele dizia agora que seu drink acabara, Kaly se viu surpresa por ele ter concordado com ela; mais surpresa ainda quando ouviu o resto do que falava - e realmente fazia sentido. Sua expressão, geralmente já muito transparente, agora era quase cômica sob efeito do álcool que nunca tomava “ Eu não acredito que realmente vou dizer isso mas.. ” ela iniciou, depois de alguns segundos o encarando com o choque estampado no rosto e a cabeça rodando com as novas informações que ele passava “ Acho que está certo ” finalizou, chegando à conclusão de que, apesar de um tanto paradoxal, ambos estavam certos no ponto de vista. “ Ahn, eu as vezes me perguntava como os tarkas procriam quando comecei a ler sobre o assunto. E então sobre sexo de modo geral e que não é comum que as outras espécies sejam tão fissuradas por isso como os humanos. E tem toda a parte fisiológica que eu não lembro como nós éramos fisicamente, quer dizer, tínhamos os mesmos órgãos? ” perguntou, suas sobrancelhas arqueando ao questiona-lo, mas não fez uma pausa longa, sabendo que ele também não saberia “ E tem a parte química, eu soube que os hormônios que o sexo libera fazem maravilhas, mas não sei se posso atestar nesse quesito, e pelo o que você disse, provavelmente podem levar a falar coisas que se arrependam depois, mas eu só lembro de… ” nesse ponto, ela percebeu que estava realmente falando em voz alta o que pensava, algo que nunca lhe ocorria; seus olhos passaram então para o copo vazio à sua frente, franzindo o cenho como se percebesse que ali estava o culpado. Mas Kalyani tinha plena confiança em suas capacidades, bastava que se controlasse um pouco, correto? “ Quantas pessoas acha que configuram uma amostragem? ” perguntou de pronto, seus olhos voltando para ele “ E claro que eu não tenho como ter certeza se escolhi alguém melhor ou não, o que é realmente frustrante ”
Aquela gargalhada retornou a Nantier, dessa vez com o prazer de ouvir Kalyani dizendo que ele estava certo. Era a primeira vez na existência da relação deles? Fazia um ano, e ele não lembrava de ter ouvido algo assim antes. O fez pensar, de repente, se eles se conheciam antes de Saint Abbon de Fleury ou não. De toda forma, sua resposta foi aquela risada, as palmas se chocando por duas vezes diante do corpo. Respirou, então, concordando com o movimento da cabeça que dizia “prossiga”, o sorriso no rosto enquanto o queixo apoiado na canhota, decidido a prestar atenção. Não podia dizer que nunca havia se questionado aquelas mesmas coisas, talvez não daquela forma... científica. Nantier chegou a abrir a boca como se quisesse respondê-la, porém não desejava interromper seu fluxo de pensamento. Na realidade, desejava sacudi-la um pouco, para que falasse mais, ansioso quando ela se deixou parar. Estalou a língua no céu da boca, mas Kalyani prosseguiu, e quando falou não dizia mais o mesmo que antes. O franzir do cenho do tarka refletiu a confusão de informações dentro da própria cabeça. Como haviam chegado até ali, mesmo? Ele já não sabia, e em realidade não se importava com isso. “Calma, vamos lá.” Ajeitou-se, a mão diante de si como se precisasse conter algo fisicamente, quando era apenas o ritmo da conversa. Talvez ele já estivesse um pouco alterado pelo álcool. Talvez, ela também. “Eu acho que tínhamos o mesmo corpo lá. Sei lá, acho que tínhamos. Estou acostumado com esse corpo, sei usá-lo muito bem, não me parece novo, entende? Acho que eu era exatamente assim. De toda forma, parece estranho que com esse exato corpo se fizesse sexo debaixo d’água, porque... Bem, não é igual. Eu tive a experiência, e não é tão fácil como fora d’água. Não impossível, funciona, sabe? Mas não é tão...” Nantier tossiu, de repente parecendo sentir algum constrangimento inédito, buscando a melhor palavra. “Não desliza igual.” A breve timidez de pronunciar aquilo para Kalyani se refletiu numa careta que tomou seu rosto. Mesmo assim, logo ele riu novamente, pronto para qual fosse a próxima. Superava rápido. “Me faz pensar se lá existe ar. Ar mesmo, como esse que respiramos. Será que tudo é realmente água? Talvez exista os dois, e sejamos bem adaptados aos dois por isso? Esse tipo de coisa. Quanto à sua amostragem” Nantier sorriu novamente, a expressão antecipando qual absurdo ele diria dessa vez. Quando falou, no entanto, sua voz se manteve amigável, confortável. “Sinceramente, Kaly, falo um monte pra te irritar, mas não acho realmente que é sobre números. Talvez você só deva ir adiante quando realmente se sentir puxada para isso. Deixar o corpo guiar. Sem saber se escolheu melhor, mas vai sabendo que fez porque sentiu muita vontade, e portanto vai ter conhecido o que leva as pessoas a isso. Seria um começo.” Recostou-se, satisfeito com sua palestra, mas sentindo falta de um toque final. “Diz que vai me contar quando tiver falado um monte de merda constrangedora, por favor.”
Kalyani respirou fundo, a boca abrindo para mais uma possível enxurrada de teorias, mas se conteve antes de recomeçar a falar, prestando atenção em Nantier e no que ele tinha a dizer, sua postura ainda ereta, mas ela não podia evitar se inclinar para frente, como se a animação de debater o assunto a estimulasse. A hipótese de terem o mesmo corpo tinha passado pela sua cabeça diversas vezes - embora com certeza nenhuma delas tivesse partido do pressuposto sexual como ele o fizera - e Kaly achava que seria uma possibilidade plausível e boa. Não que fossem exatamente iguais, tendo em vista que precisariam de algumas adapções internas para resistir à água, mas a ideia de que o corpo exterior era similar não era absurda. Seu interesse era evidente em sua expressão, visto que nunca tinha passado pela sua mente tentar transar na água até a presente conversa dos dois, e o súbito constrangimento de Nantier a pegou desprevenida. Ela tinha plena certeza que ele era incorrigível nesse sentido, e que nada de teor sexual pudesse lhe deixar constrangido, de modo que sua expressão passou de um cenho franzido em desentendimento para um sorrisinho de canto divertido " Não sei porque o constrangimento, aposto que deve ser bem pior para a mulher " comentou, dando de ombros. Já percebera que as mulheres tinham muito mais problemas que os homens na questão sexual, e imaginava que se não deslizava igual, provavelmente doeria para as mulheres. No entanto, apesar de sua mente ter voando com mais questionamentos, Kaly não voltou a interrromper a linha de raciocínio de Nantier, se surpreendendo com outra teoria do rapaz. Logo quando tinha chegado na ilha e aprendido a ler, seu tempo era praticamente todo dedicado a estudar e tentar compreender eles, cada vez mais frustrada com a falta de registro e estudo sobre o assunto - e assim tinha começado a elaborar suas próprias teorias. Era engraçado como ela percebia, agora, que não era a única, mesmo que não tivesse esperado tamanho questionamento da parte dele. " Sabe, eu tinha considerado algo nesse sentido, mas sinceramente, seria uma evolução tremenda ser adaptado a ambos os ambientes. Precisaríamos de mudanças internas nos órgãos e no sistema respiratório, e no externo porque já viu a temperatura da água agora entre o outono e inverno? No mínimo precisaríamos de uma pele mais resistente, visão melhor, comunicação sensorial talvez? Ou, ou... um sistema de comunicação em ondas e sons como os animais marinhos. E tudo isso seria dispersado uma vez que tivéssemos contato com um bolsão de ar? Ou cavernas subaquáticas? Mas teriam que ser gigantescas, é... quase impossível " Kalyani começou a divagar nas próprias ideias conforme o que ele dizia tinha lhe inspirado, mas não deu qualquer mérito à hipótese mágica e divina que alguns moradores da ilha acreditavam e tinham compartilhado com ela. A tarka era racional demais para acatar uma explicação assim.
Depois de uns segundos com o olhar fixo e em silêncio, apenas processando as teorias de ambos e onde elas a levariam em sua mente, Kaly levantou o olhar para a presente companhia e focou no último assunto que ele trouxera, um pouco surpresa e agradecida com o reconhecimento amigável de que ele a provocava propositalmente - algo que ela já sabia, mas era sempre bom se provar correta. Apesar de sentir que ele estava tentando lhe indicar um caminho seguro com um objetivo de deixa-la confortável, aquilo não era o suficiente para ela, não quando ela estava em busca de uma resposta. Com um olhar direcionado a ele, ela o observou se recostar e finalizar, surpresa com o comentário final, que a fez soltar um riso curto " Sem chance nenhuma. Você nunca saberá se qualquer merda constrangedora sair desses lábios " respondeu de pronto, o indicador apontando para a própria boca " E deixar meu corpo guiar não é bem uma possibilidade. Eu sou guiada pela minha cabeça, e isso significa que tenho que ter um plano e uma meta. Números seriam de grande ajuda, por favor " continuou, possivelmente pedindo a ajuda dele pela primeira vez. Sua expressão mudou completamente enquanto uma ideia surgia na sua cabeça " Eu poderia pedir para ser ensinada, não é? Não sei como não pensei nisso antes! " pensou em voz alta " Seria bem prático, o que acha? "
" Provavelmente porque gostam da ironia " respondeu de pronto com uma hipótese lógica e provável, como era seu costume. Tinha sido mais no automático do que qualquer outra coisa, visto que estava com a atenção repartida entre seu copo de café, as imagens de sua mente e a aproximação de Titan com os cachorros. Não era nada pessoal, claro; desde que ele a ajudara com a égua em sua casa, tinha se tornado mais amigável em relação ao tarka. Era porque sua mente trabalhava ainda mais para ter um resultado inconclusivo que a deixava simplesmente frustrada. Ela não tinha dormido bem, assaltada com sonhos que eram tão reais que pareciam lembranças, mas simplesmente não faziam sentido. Soltando um suspiro e decidindo largar a atividade mental exaustiva, virou-se completamente para ele " Seria triste pensar que os donos na verdade queriam um cachorro grande e isso foi só uma forma de realocar as frustrações " ela podia gostar mais de gatos e animais que a permitissem seu espaço pessoal, mas não queria dizer que não gostava de cães.
"Uma baita de uma ironia." Uma puxada de coleira o lembrando de que aqueles mesmo cachorros em miniatura davam mais trabalho do que deveriam. Cada corpinho concentrando uma raiva tão imensa que, ele tinha que admitir, o cativavam um pouco. E talvez fosse por isso, de que a grandiosidade dos animais estava na personalidade. Lupus deu mais um puxão, a voz saindo pelos lábios entreabertos num rosnado que colocou todos os animais em atenção. Controlado, por curtos minutos. "Seguindo essa lógica, paz de espírito e felicidade devem ser os próximos nomes de sucesso. Rex e Toby, quem são?" Titan contava os minutos para voltar à clínica e responsabilizar-se pelos de maiores portes. Além de ter força física para sustentar, a energia acumulada da festa ainda procurava uma maneira de escapar (e diferente de fechar a cara e afastar ainda mais as pessoas). Um dos animais, o Lulu da Pomerânia preto com pontinhos brancos, aproximou-se de Kaly e cheirou seu pé. "Balrog parece gostar de você. Ou do cheiro da égua. Você a viu hoje?" Ajustou a coleira nas mãos para que a de Balrog ficasse fácil de sair, caso ela quisesse acompanhá-lo no passeio.
A piadinha sarcástica a fez soltar um riso curto - apesar de não ser muito sociável com outras pessoas, Titan parecia ter uma aura soturna com que se identificava, além de ter lhe ajudado com a égua que a visitava constantemente nos últimos meses - era difícil não derreter sua fachada de gelo pelo menos um pouquinho depois disso. Ademais, ela também tinha uma teoria de que os tarka institivamente se davam bem, ou ao menos eram menos conflituosos do que com os ilhéus. Além disso, também gostava de animais; só porque não mantinha nenhum cachorro consigo e preferia gatos não queria dizer que era imune à fofura e docibilidade dos cães, inclusive o que viu se aproximar e lhe cheirar " Não, eu sai muito cedo hoje e não consegui voltar para casa ainda " comentou, seus olhos na bolinha de pelos aos seus pés, deixando que a cheirasse " Balrog, que nome peculiar " comentou, seu tom mais suave do que o normal, embora se recusasse a fazer a chamada "voz de bebê" com animais ou crianças. " Você devia passar lá para ver se ela continua bem, eu nunca fico plenamente confiante "
Ela sabia que aquilo definitivamente não era uma boa ideia. Sabia que era arriscado deixar que sua curiosidade sobre os forasteiros tomasse conta, porque ela podia facilmente se deixar levar e acabar contando alguma coisa sensível. Kalyani estava na ilha há apenas um ano, e seu perfil acadêmico fazia com que não tivesse problema com nenhum assunto, e quisesse saber e conhecer tudo. É claro que isso só poderia ser ruim, se repreendeu novamente, mas seu punho já batia na porta de Émile - logo ele, quem sabia que era o mais perigoso de todos, o mais observador. Ela também era observadora, se relembrou, vendo a surpresa e a máscara que ele colocara logo depois; ela também era inteligente e só precisava ter cuidado, disse a si mesma, mas ela já tinha tomado sua decisão, e já estava praticamente forçando entrada para dentro. A última coisa que queria era ficar no frio do lado de fora “ Você disse que queria trocar favores, pois bem, aqui estou eu. Meus alunos queriam conversar com alguém de fora ” respondeu, direto ao ponto como sempre, sem se incomodar com simpatias de etiqueta. Já dentro da casa, aproveitou para observar o espaço dele, e sua curiosidade foi especialmente atiçada por vários papéis soltos e um caderno claramente bem utilizado - ela tinha vários daqueles diários em casa para reconhecer o uso. “ Eu posso procurar outra pessoa, se não quiser. Águia costuma ter boa vontade com essas coisas, pelo o que eu ouvi ” continuou, sua atenção dividida entre ler as anotações à distância e ele “ Acredite, a ideia não foi minha ” completou, virando-se de volta para ele apenas pelas aparências, mas a vontade de se aproximar da mesa e ler tudo era enorme.
Émile não negaria o prazer que sentia com a visita, ainda que de forma totalmente não planejada, fora de seu controle. Não era como se o inesperado não lhe caísse bem, de toda forma, porque caía, e ele era seu apreciador nato. Deslizou, voltando o corpo para dentro ao acompanhar a evolução dos passos alheios, parando para assistir os detalhes antes de encará-la de novo, agora com a visitante de pé sobre seu tapete. Riu e fechou a porta atrás de si. “Tire os sapatos.” Ordenou com um sorriso quase petulante ainda aos lábios, um movimento de queixo autoritário, apesar de charmoso o suficiente para não ser visto como um babaca completo. “Não vejo aluno algum por aqui, acho que o interesse é seu. Mas se ela tem assim tanta boa vontade, sugere que eu não? Porque está aqui, não está? Pode deixar, eu sou muito mais fácil do que eu pareço.” O dar de ombros fora calculado, lento, e a curva do sorriso se alongou, mesmo que sem expor os dentes. Émile mantinha-se frente à porta, e o cômodo era quente e convidativo, mas de repente parecia muito menor do que era. Deu-se conta que nunca havia recebido visitas.
A demanda lhe pegou desprevenida, e Kalyani franziu o cenho, quase em dúvida de se teria ouvido corretamente, surpresa com o fato dele se importar com o sapato no tapete - ele simplesmente não parecia o tipo de homem que pensaria na limpeza dessa forma, e isso o fez admirar ele um pouquinho. Também a fez ficar um pouco mais alerta em relação ao forasteiro, pois a recordou de que ele não era tão tranquilo e despreocupado como gostava que os outros pensassem de como se portava. Seu olhar passou dele para os seus pés no tapete alheio, mas ela não fez qualquer protesto e obedientemente foi se sentar perto da mesa para retirar os sapatos. O comentário de que ele era fácil arrancou um riso curto de seus lábios, mas Kaly manteve o olhar em retirar o coturno que usava, mesmo enquanto falava " Você certamente não esperava que eu trouxesse minhas crianças na sua casa sem ao menos falar com você antes, não é? " perguntou, a absurdidade da questão transparecendo no tom de voz. Quando conseguiu soltar os cadarços e retirar as botas e meias - arrumadas e colocadas com esmero na lateral do assento e fora do tapete - Kaly não pode deixar de ver que estava bem mais perto dos papéis e diário. Sua curiosidade tomou o melhor de si, não se importando muito com o conceito de espaço pessoal ou privacidade - eram coisas que a tarka tinha certa dificuldade em acatar, principalmente porque sua curiosidade vinha de uma vontade enorme de aprender. " De toda forma, eu vim até aqui, então por que não me fala o que espera em troca? " disse diretamente, levantando o olhar para ele por uns instantes antes de voltar para a mesa, seu cenho franzindo ao identificar anotações sobre os moradores da ilha.
Ler estava se tornando um hábito para Arthien, era mais uma das suas válvulas de escape da realidade, além de um ótimo passatempo para quando estava pescando. As caminhadas até a biblioteca se tornaram rotina sempre que se preparava para as pescas do fim de semana e naquela semana não seria diferente. O clima dentro do estabelecimento era leve, ele gostava do cheiro amadeirado que rodeava o ar do lugar, junto ao silêncio quase absoluto do local.
A prateleira de livros de suspense era sua favorita, gostava da adrenalina que sentia ao ler cada página do livro, de tentar adivinhar as probabilidades do futuro, tudo isso era agradável para o garoto. Seus dedos foram direto a uma das capas mais atraentes da prateleira, queria ler a sinopse do livro para ter certeza que seu conteúdo seria tão bom quanto sua capa, mas ao sentir o calor de outra mão sobre o mesmo livro, levou seu olhar até a pessoa ao seu lado. Kalyani estava ali ao seu lado, o rapaz deu um sorriso pequeno para a mesma, tentando parecer alguém educado. - Desculpa, não tinha te visto! - comentou. - Posso apenas ler a sinopse? Achei a capa interessante e não sei o conteúdo do livro. - explicou para a garota - quero apenas saber se é bom e alugar o livro depois que você devolver. - finalizou, enquanto encarava a garota.
Kalyani conhecia a biblioteca como sua segunda casa; aliás, as vezes passava mais tempo por lá do que em sua própria casa. Com certeza já era conhecida por todos os funcionários, e já precisava refazer sua ficha de empréstimo umas cinco vezes devido à quantidade absurda de livros que pegara quando começara a ler e a aprender. Hoje em dia, pelo menos, ela costumava dividir sua atenção entre livros comprados e emprestados. Ainda assim, o lugar era um refúgio para o qual ia com frequência - tinha algo melhor do que ficar cercada por livros e sem a menor expectativa de interação social? Um pouco por isso - e mais um pouco porque ela simplesmente era assim, andando com propósito, eficientemente e sem perder tempo - que fora diretamente para a sessão que tinha em mente para aquele dia. Seus olhos passaram pela ordem alfabética com facilidade até encostar na lombada, e apenas então percebera o homem lá. Instintivamente sua mão recuou do livro, e achou estranho não reconhece-lo automaticamente, considerando que sentia algo diferente a seu respeito, algo que geralmente associava aos tarka. Só então sua mente o localizou, a lembrando de que era o único caso de um tarka que havia voltado para o mar, e então de volta à ilha " Você é o que voltou " comentou, direta e sem firulas como sempre, e só então se deu ao trabalho de ser educada, recuando um pouco na frieza " Me desculpe, eu ainda tenho problemas com traquejos sociais, simplesmente não vejo propósito em circular uma questão quando posso falar diretamente " se explicou, o tom indicando que era uma tentativa de desculpa " Mas fique à vontade com o livro, eu normalmente acabo descobrindo o final de toda forma, e tenho uma lista em casa, posso esperar que você termine "
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Controlando suas expectativas, Kalyani deu um gole tímido no copo de bebida que tinha comprado depois da insistência de Nantier de que era bom. Ela nem fazia ideia se ele bebia ou não, pelo o que sabia, podia simplesmente estar implicando com ela depois de ouvir a história sobre como ela experimentara vinho e não gostara. Tinha sido uma tentativa de se livrar da grande festa em Magdalene, mas ele não tinha aceitado sua recusa e a convenceu a experimentar um drink, argumentando que o gosto era muito diferente de vinho. E de fato, era. " Tudo bem, não é tão ruim " concedeu " Como disse que isso se chamava mesmo? " perguntou, agora sabendo de uma bebida que gostava, não que pretendesse passar muito tempo por lá; o seu ideal de noite normalmente girava em torno de sua fogueira com livros e chá.
Não sabia dizer exatamente como se sentia em relação à gargalhada que ele dera; sabia que era a sua custa e que provavelmente deveria estar indignada ou até ficando com raiva, mas a verdade é que não sentia isso, mas tampouco conseguia nomear o que era. Para se distrair da confusão, aproveitou para espelhar o movimento dele e tomar mais um gole de seu drink, que já estava quase no final, ao contrário do dele, que fora esquecido. Aparentemente, o problema de Kalyani não era com o álcool, mas com sentir o gosto dele - e aquele drink mascarava a bebida bem até demais. Se não tomasse cuidado, poderia acabar se embebedando, já tinha ouvido e lido relatos o suficiente sobre isso, mas não parecia ser o que acontecia com ela, estava se sentindo até leve! Sabia que ele estava certo e que a experiência era uma excelente forma de aprendizado, e assentia levemente com a cabeça enquanto terminava um gole longo demais de seu copo; o problema era que Kalyani se sentia mais confortável em aprender de forma controlada, e dificilmente isso aconteceria se jogando nas experiências do mundo como Nantier fazia - ela não se sentia corajosa o bastante para isso. “ Ahn… não. Tenho quase certeza de que eu penso antes de falar desde que pisei nessa ilha. E posso falar com certeza que nunca fiquei delirante de tesão desde que cheguei. Antes eu não posso falar nada, já que não lembro. Já se perguntou como era que nós… Deixa para lá, não vem ao caso. ” se interrompeu na divagação com uma negativa de cabeça. Não era incomum que a mente da tarka se ampliasse de acordo com o assunto falado, mas normalmente ela conseguia arquivar a curiosidade para depois em vez de interromper uma conversa “ O fato é que a experiência que eu tive deixou a desejar em relação aos livros. E eu me sinto confortável aprendendo com meus livros, do que me serve me jogar na experiência se simplesmente vou me fazer de boba como você disse, e me arrepender depois? E nem valer a pena ” sua mente vagou para o homem e a experiência em questão, a única que tivera de sexo na ilha, e seu olhar se perdeu um pouco enquanto tomava outro gole. Não conseguia se imaginar perdendo a consciência naquela noite.
Ainda que Kalyani falasse, a risada de Nantier continuava, diminuindo num eco do que fora, mas o suficiente para manter seu corpo balançado em ondas. O sorriso largo ficou ali, com ela discordando dele ou não, e provavelmente era assim pelo simples fato de estarem tendo aquela conversa. Ele se inclinou, então, interessado. A boca chegou a abrir como se as palavras estivessem surgindo, mas não vieram. O tarka permaneceu inclinado para a frente, absorvendo as informações e a cabeça dando voltas, pensamentos atropelando pensamentos. Sim, ele já se perguntou. De toda forma, manteve a atenção por ali, porque não podia se permitir deixar escapar alguma informação que Kalyani desse. Quando seria a próxima vez que ele conseguiria tirar tanta coisa assim dela? Seus olhinhos brilharam, orbes castanhas com intenções secretas, as mãos unidas frente ao corpo, braço apoiado nas coxas. “Aí você alcançou um ponto chave.” Os lábios estalaram. “E isso também é físico. Qualquer energia gasta sem recompensa passa a ser considerada como dispensável para o corpo, porque não vale mesmo a pena.” Deu de ombros, mas sua postura continuou a mesma, antecipando que não acabara ali. “Então, tudo bem, não vou dizer que está errada. Não nisso. Mesmo assim, errada em não se permitir experimentar com alguém melhor, de preferência permitir-se o tesão delirante, e usar de comparação. É amostragem.” Piscou, o sorriso retornando em desafio. “Aliás, o que você dizia sobre como era que nós...?”
Kaly não gostava muito quando invadiam seu espaço pessoal, e parecia ser algo que Nantier gostava imensamente - ela tinha certeza que era para irrita-la. Embora normalmente isso despertasse um sentido de teimosia ou até algo meio instintivo predatório de não recuar - algo que ela suspeitava que era da natureza tarka, embora nunca pudesse pesquisar a respeito ou confirmar, para sua infinita frustração - dessa vez foi diferente. Não sabia se era porque o bar estava lotado e barulhento, mas ali naquelas poltronas no canto pareciam ser envolvidos em uma bolha de privacidade no meio da multidão, era interessante de ser perceber. Ou talvez fosse porque estava se sentindo bem mais leve e aberta, o que achava que era por causa do álcool; isso sem contar que precisava estar perto para realmente entender o que dizia. Voltando sua atenção ao que ele dizia agora que seu drink acabara, Kaly se viu surpresa por ele ter concordado com ela; mais surpresa ainda quando ouviu o resto do que falava - e realmente fazia sentido. Sua expressão, geralmente já muito transparente, agora era quase cômica sob efeito do álcool que nunca tomava " Eu não acredito que realmente vou dizer isso mas.. " ela iniciou, depois de alguns segundos o encarando com o choque estampado no rosto e a cabeça rodando com as novas informações que ele passava " Acho que está certo " finalizou, chegando à conclusão de que, apesar de um tanto paradoxal, ambos estavam certos no ponto de vista. " Ahn, eu as vezes me perguntava como os tarkas procriam quando comecei a ler sobre o assunto. E então sobre sexo de modo geral e que não é comum que as outras espécies sejam tão fissuradas por isso como os humanos. E tem toda a parte fisiológica que eu não lembro como nós éramos fisicamente, quer dizer, tínhamos os mesmos órgãos? " perguntou, suas sobrancelhas arqueando ao questiona-lo, mas não fez uma pausa longa, sabendo que ele também não saberia " E tem a parte química, eu soube que os hormônios que o sexo libera fazem maravilhas, mas não sei se posso atestar nesse quesito, e pelo o que você disse, provavelmente podem levar a falar coisas que se arrependam depois, mas eu só lembro de... " nesse ponto, ela percebeu que estava realmente falando em voz alta o que pensava, algo que nunca lhe ocorria; seus olhos passaram então para o copo vazio à sua frente, franzindo o cenho como se percebesse que ali estava o culpado. Mas Kalyani tinha plena confiança em suas capacidades, bastava que se controlasse um pouco, correto? " Quantas pessoas acha que configuram uma amostragem? " perguntou de pronto, seus olhos voltando para ele " E claro que eu não tenho como ter certeza se escolhi alguém melhor ou não, o que é realmente frustrante "
(2) para um starter de muse batendo à porta/chegando na casa de Émile
onde: Vesper, casa de Émile
com quem: @kaly-se
A escolha daquela casa não foi por acaso. Sua permanência ali só aconteceu após vencer certa (muita) resistência, o aluguel altíssimo sendo todo encaminhado para a chefia da ilha. Prefeitura? Governo? Ele nem sabia dizer que espécie de administração a ilha possuía, tudo ali parecia à parte da realidade, e de fato pouco importava. Ele pagava — e pagava muito bem —, por isso morava em meio à tarkaiada em Vesper. Nada, repetindo, por acaso. O som, firme, de um punho à porta o fez levantar da poltrona com alguma surpresa, ainda que calma confiante. Não era comum que recebesse visitantes, ao mesmo tempo que parecia estar sempre disposto a estes. As anotações de toda sorte espalhadas à mesa, junto com aquele tipo de diário de capa de couro arreganhado, enorme de gordo com anotações e papeis colados, pontas dobradas, marcadores. Deixou a porta deslizar aberta diante da visita, essa sim fazendo-o arquear as sobrancelhas em espanto, de fato. Um sorriso, somado a um cruzar dos braços e um apoio de lado no batente, casual demais para ser realmente casual. “Pois a que devo essa visita?”
Ela sabia que aquilo definitivamente não era uma boa ideia. Sabia que era arriscado deixar que sua curiosidade sobre os forasteiros tomasse conta, porque ela podia facilmente se deixar levar e acabar contando alguma coisa sensível. Kalyani estava na ilha há apenas um ano, e seu perfil acadêmico fazia com que não tivesse problema com nenhum assunto, e quisesse saber e conhecer tudo. É claro que isso só poderia ser ruim, se repreendeu novamente, mas seu punho já batia na porta de Émile - logo ele, quem sabia que era o mais perigoso de todos, o mais observador. Ela também era observadora, se relembrou, vendo a surpresa e a máscara que ele colocara logo depois; ela também era inteligente e só precisava ter cuidado, disse a si mesma, mas ela já tinha tomado sua decisão, e já estava praticamente forçando entrada para dentro. A última coisa que queria era ficar no frio do lado de fora " Você disse que queria trocar favores, pois bem, aqui estou eu. Meus alunos queriam conversar com alguém de fora " respondeu, direto ao ponto como sempre, sem se incomodar com simpatias de etiqueta. Já dentro da casa, aproveitou para observar o espaço dele, e sua curiosidade foi especialmente atiçada por vários papéis soltos e um caderno claramente bem utilizado - ela tinha vários daqueles diários em casa para reconhecer o uso. " Eu posso procurar outra pessoa, se não quiser. Águia costuma ter boa vontade com essas coisas, pelo o que eu ouvi " continuou, sua atenção dividida entre ler as anotações à distância e ele " Acredite, a ideia não foi minha " completou, virando-se de volta para ele apenas pelas aparências, mas a vontade de se aproximar da mesa e ler tudo era enorme.
Irei te ensinar um truque legal, venha aqui. Coloque seus cotovelos assim. _ Pegou os braços alheios e os colocou pelo cotovelo nos buracos dos braços de uma camisa de manga comprida, o que dificultava seus movimentos. _ É bem simples, tudo o que você precisa fazer é tentar sair.
No entanto, Marco amarrou as pontas da manga atrás no corpo da pessoa, abaixou suas calças e correu o mais rápido possível para o outro lado.
A comoção pelo aparente truque foi alta o bastante na praça para que Kalyani levantasse os olhos de seu livro, sentada tranquilamente em uma das mesas do lado de fora do café. Ela tinha uma visão livre, então conseguira ver o rapaz amarrando o outro, e não foi difícil imaginar os planos dele a partir disso. Dito e feito, ela observou enquanto a vítima ficava vermelha de vergonha e saía correndo, tropeçando um pouco pela falta de equilíbrio devido aos braços - ou falta deles. " Not very nice " comentou com a atenção parcial, seus olhos novamente fixados no livro em seu colo, mas tinha visto a aproximação do homem pela visão periférica.
Titan poderia chamar uma certa pessoa para fazer o trabalho, porém, estava tão claustrofóbico dentro da clínica veterinária que... Realmente, passear com todos os cachorros de pequeno porte não parecia uma ideia tão ruim. Suas forças de empuxo tão fracas que ele sustentava as alças todas numa só mão, a livre esfregando os olhos de mais uma noite mal dormida. Os sonhos. Imagens ainda mais confusas do que antes e, ao mesmo tempo, mais claras. Titan rosnou com a própria insuficiência. "Gorila, não. Mais uma mordida no Gigante e você volta para a gaiola." Foi nesse momento que passou ao lado de MUSE. Seus olhos fizeram um 360º nas órbitas e ele gemeu, frustrado. "Por que sempre dão nome de cachorro grande para as miniaturas?" Perguntou, ou desabafou?, para a mais nova companhia.
" Provavelmente porque gostam da ironia " respondeu de pronto com uma hipótese lógica e provável, como era seu costume. Tinha sido mais no automático do que qualquer outra coisa, visto que estava com a atenção repartida entre seu copo de café, as imagens de sua mente e a aproximação de Titan com os cachorros. Não era nada pessoal, claro; desde que ele a ajudara com a égua em sua casa, tinha se tornado mais amigável em relação ao tarka. Era porque sua mente trabalhava ainda mais para ter um resultado inconclusivo que a deixava simplesmente frustrada. Ela não tinha dormido bem, assaltada com sonhos que eram tão reais que pareciam lembranças, mas simplesmente não faziam sentido. Soltando um suspiro e decidindo largar a atividade mental exaustiva, virou-se completamente para ele " Seria triste pensar que os donos na verdade queriam um cachorro grande e isso foi só uma forma de realocar as frustrações " ela podia gostar mais de gatos e animais que a permitissem seu espaço pessoal, mas não queria dizer que não gostava de cães.
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Controlando suas expectativas, Kalyani deu um gole tímido no copo de bebida que tinha comprado depois da insistência de Nantier de que era bom. Ela nem fazia ideia se ele bebia ou não, pelo o que sabia, podia simplesmente estar implicando com ela depois de ouvir a história sobre como ela experimentara vinho e não gostara. Tinha sido uma tentativa de se livrar da grande festa em Magdalene, mas ele não tinha aceitado sua recusa e a convenceu a experimentar um drink, argumentando que o gosto era muito diferente de vinho. E de fato, era. " Tudo bem, não é tão ruim " concedeu " Como disse que isso se chamava mesmo? " perguntou, agora sabendo de uma bebida que gostava, não que pretendesse passar muito tempo por lá; o seu ideal de noite normalmente girava em torno de sua fogueira com livros e chá.
Não se afastou para aumentar o espaço entre eles quando Nantier se inclinou para frente, apesar de normalmente não gostar muito das pessoas invadindo o seu espaço pessoal; ainda assim, sabia que ele fazia aquilo principalmente por causa de sua reação, e não dar uma era melhor quando ele a desafiava assim. “ Pode ser que tenha um ponto, mas tudo tem lógica, mesmo as coisas mais emocionais e carnais. Somos programados assim, é só um fato. Mesmo em momentos carnais, emocionais ou desesperados, é possível prever um comportamento até certo nível, porque somos programados para seguir uma lógica ” respondeu depois de alguns instantes ponderando sobre o argumento dele, porque apesar de gostar de provoca-lo sobre estar sempre errado, Kalyani não era o tipo de pessoa que desmerecia as palavras alheias, ou que se recusava a enxergar qualquer ponto de vista além do seu - e o dele realmente fazia sentido. Não era possível esperar uma lógica totalmente racional de qualquer pessoa em um momento carnal ou de forte emoção - exceto que ela aja de acordo. E esse era exatamente o seu ponto: seres programados, tudo tinha certa lógica. O resto de sua argumentação, todavia, não era algo que ela conseguisse retrucar com facilidade - primeiro porque o problema não era a quantidade de livros que consumia, era porque esse não era um assunto que ela conseguisse simplesmente estudar em livros. E ela tentara. E segundo, porque ela não tinha muita prática para ter pensado tanto assim no assunto, mas se recusava a ficar envergonhada por isso “ Não me surpreende, mas eu não sou como você, e por acaso os livros que eu leio costumam ser de outros assuntos. Está me dizendo que eu deveria estudar sexo, é isso? ”
Os lábios unidos numa fina linha, ele mantinha sua expressão satisfeita, o sorriso que escondia ali, num humor implicante que agora ele — e os outros — podiam dizer ser característico. Aquela felicidade numa dose particular era pelo simples fato de estarem sequer tendo aquela conversa. Nantier se divertia mais do que seria previsto, e permitiu que ela falasse sem oferecer interrupções, sua pose ainda aberta com as costas apoiadas no encosto, confortável. Uma risada veio à tona com o questionamento de Kalyani, repentina mas breve, o fazendo erguer o queixo ao virar a cabeça para trás. Se aprumando, o sorriso agora exibindo o eco daquela gargalhada, o tarka bebeu mais um gole daquele drink, quase esquecido na pequena mesa entre os dois. “Definitivamente, não estou dizendo isso. Talvez o oposto disso.” Dispensou o assunto com um movimento da mão no ar, como se dissesse: nada de livros, nada de estudo. “Você é uma garota esperta, poderia dizer esperta até demais, mas isso não existe. Basta se permitir algumas experiências mais mundanas e você aprende assim.” O som de um estalar de dedos percorreu o ar próximo, alcançando ambos ouvidos. Nantier, professor de luta, se vendo como o único professor possível para dizer aquelas palavras, e feliz demais ao fazê-lo. “Usando suas palavras, é possível prever um comportamento até certo nível. Depois, o corpo age por si só. Só fazer o que se quer fazer, por isso carnal. Um exemplo: nunca olhou pra trás, vendo coisas que você fez ou disse, principalmente disse —” Uma careta que indicava uma memória particularmente constrangedora. “Num momento de muito tesão, e que não soavam como algo que você faria ou diria em sã consciência?”
Não sabia dizer exatamente como se sentia em relação à gargalhada que ele dera; sabia que era a sua custa e que provavelmente deveria estar indignada ou até ficando com raiva, mas a verdade é que não sentia isso, mas tampouco conseguia nomear o que era. Para se distrair da confusão, aproveitou para espelhar o movimento dele e tomar mais um gole de seu drink, que já estava quase no final, ao contrário do dele, que fora esquecido. Aparentemente, o problema de Kalyani não era com o álcool, mas com sentir o gosto dele - e aquele drink mascarava a bebida bem até demais. Se não tomasse cuidado, poderia acabar se embebedando, já tinha ouvido e lido relatos o suficiente sobre isso, mas não parecia ser o que acontecia com ela, estava se sentindo até leve! Sabia que ele estava certo e que a experiência era uma excelente forma de aprendizado, e assentia levemente com a cabeça enquanto terminava um gole longo demais de seu copo; o problema era que Kalyani se sentia mais confortável em aprender de forma controlada, e dificilmente isso aconteceria se jogando nas experiências do mundo como Nantier fazia - ela não se sentia corajosa o bastante para isso. " Ahn... não. Tenho quase certeza de que eu penso antes de falar desde que pisei nessa ilha. E posso falar com certeza que nunca fiquei delirante de tesão desde que cheguei. Antes eu não posso falar nada, já que não lembro. Já se perguntou como era que nós... Deixa para lá, não vem ao caso. " se interrompeu na divagação com uma negativa de cabeça. Não era incomum que a mente da tarka se ampliasse de acordo com o assunto falado, mas normalmente ela conseguia arquivar a curiosidade para depois em vez de interromper uma conversa " O fato é que a experiência que eu tive deixou a desejar em relação aos livros. E eu me sinto confortável aprendendo com meus livros, do que me serve me jogar na experiência se simplesmente vou me fazer de boba como você disse, e me arrepender depois? E nem valer a pena " sua mente vagou para o homem e a experiência em questão, a única que tivera de sexo na ilha, e seu olhar se perdeu um pouco enquanto tomava outro gole. Não conseguia se imaginar perdendo a consciência naquela noite.
Pela mesma razão que os insulanos tendiam a se sentirem desconfortáveis quando ela os analisava, supunha que Nantier sentia o mesmo - e, a julgar pelo comportamento que ela via em resposta ao que falara, não era difícil concluir que ela tinha acertado algum nervo. Ele podia desmerecer como quisesse, ela sabia que era apenas uma forma de escudo, tentando se proteger e não precisar avaliar realmente suas palavras, e o que ela tinha aberto dentro dele. Diante da expressão descrente e dispensa nas palavras, Kaly deu de ombros, seu rosto bastante tranquilo naquilo que dizia. Ela tinha uma teoria de que todos os que escolheram subir à superfície precisavam ter decidido isso por alguma razão, qualquer que fosse, e isso provavelmente significava que a vida deles antigamente faltava algo. Por isso mesmo ela acreditava quando colocou para ele que todos estavam em busca de um propósito “ Não importa que não dê nomes ou coloque algum diferente, propósitos vêm de todas as formas a depender da pessoa, e isso só me prova certa ” avaliou tal qual uma estudiosa “ Eu valorizo conhecimento, então foquei em estudar e aprender tudo o que eu conseguisse, você valoriza vivência, e talvez esteja buscando um propósito em meio a todas as experiências que vivencia, ou esse seja o propósito em si. Sentir. Não é isso que busca? Não é por isso que faz qualquer das coisas que faz? Para se sentir vivo? ”
De cabeça apoiada na destra, o cabelo passando a ficar desgrenhado pelos dedos inquietos por ali, Nantier assentiu, extremamente impaciente. Aquela mesma mão deslizou por cima da boca, uma tentativa extra de manter-se quieto, mas todo seu corpo parecia começar a se mexer em agonia. Até quando piscou, o fez de forma beirando a hostilidade. Ele já não ouvia, não absorvia qualquer palavra dita por ela, só queria se ver livre daquela interação. Ele bufou, um som muito mais similar a um rosnado do que qualquer outra coisa. “Certo, certo, certo.” Arrumando a postura, a coluna repentinamente ereta, ele parecia uma criança esperando ser liberada para brincar no parquinho. Já entendi, posso ir agora? As íris castanhas brilhando de ansiedade enquanto ela prosseguia, e então rolaram nas órbitas. Contendo outro rosnar, ele se levantou. “Entendi, muito legal. Bem legal, mesmo, Kalyani, adorei essa conversa. Eu só prefiro assistir minha grama crescer, mesmo, nada pessoal. Vou lá, beijo, até mais.”
This is a closed starter for @serpenteandc : 1ª noite do festival, toalhas do jardim antes do show
Seu olhar subiu lentamente e pesado em crítica para o homem que se aproximava por trás dela, mesmo depois que tinha mudado sua rota. Ele por acaso a estava seguindo? Entendia que havia uma quantidade limitada de toalhas e apoios para sentar no jardim e assistir aos shows, mas não era tão limitada assim. Quais as chances deles estarem indo para a mesma toalha mesmo depois que ela mudou seu percurso? Será que ele estava bêbado e perdido? Kalyani normalmente não se esforçava para ser simpática, e tinha decidido dar uma chance nesse festival em nome do simbolismo da boa convivência, mas aquilo parecia excessivo para ela. Finalmente respirando fundo e se virando para ele, perguntou em um tom um tanto frio " Posso ajudá-lo? "
Kalyani o olhou de cima a baixo e de volta em uma avaliação rápida dele, sem se incomodar em ser muito discreta - eram poucos os trejeitos sociais que ela se importava de fingir sem que sentisse a necessidade. O fato dele ter se aproximado um pouco mais lhe rendeu um arqueio de sobrancelha por parte da tarka, sua expressão ainda bastante fechada, o que, por si só, já fizeram muitas pessoas se afastarem antes. “ Uma troca? ” apesar da entonação de pergunta, seu tom deixava claro a descrença; ela não havia pedido nada a ele e dificilmente conseguia pensar em algo que quisesse dele naquele momento. Era racional e sabia que provavelmente ele tinha uma experiência de vida e fora da ilha que seriam invejáveis e bastante interessante de seu ouvir, mas sabia também que não era boa notícia ele ter permanecido com os amigos, ainda mais quando parecia o líder deles, pelo o que ela observara “ No que acha que posso te ajudar, e o que daria em troca? ” perguntou, o entretendo em nome do espírito do festival - isso e, é claro, estava apenas um pouco curiosa.
FLASHBACK
Por si só, a ausência de um recuo era uma resposta, e Émile permitiu uma breve sensação de vitória diante daquilo, bem breve, antes de voltar ao ato de aproximação. Dessa vez, não a física. Ele permitiu um concordar em som, sem abrir a boca, diante da pergunta que era uma repetição do que ele já havia dito, por mais que ela soasse cética ao fazê-la. Se havia algo em comum entre os dois, esse algo era a curiosidade. E o francês marcou aquilo, aquela pequena informação, num caderno mental antes de prosseguir, antes de seguir por onde esperava descobrir outros pontos. “No que eu sei que você pode ajudar, ou se possível utilizar uma palavra melhor, agregar. Sou um estudioso, sabe? Como você, sendo outra, já deve ter descoberto. Provavelmente sabe tudo que poderia saber sobre tudo. Mas eu tenho algumas informações, experiências que livros não passariam de forma tão real, e que você gostaria. E quem melhor do que você para me ensinar o que eu não sei?”
Não podia dizer que estava realmente surpresa dele ter conectado os pontos tão rápido - ela não fazia nenhuma questão de fingir ser outra coisa que não uma estudiosa, e seu interesse em livros era uma novidade para absolutamente ninguém, sua fama de gostar mais de livros do que de pessoas bastante fixada na ilha. Pelo o que observara dos forasteiros, ele era esperto, curioso e também observador, então já esperava que ligasse os pontos sobre o que ele poderia agregar a ela - e que ela provavelmente cairia. Não via muito sentido em se fazer de difícil para ceder no final quando já tinha tomado sua decisão. No entanto, sabia que precisava ter cuidado com o que dizia a ele, e não se deixar levar pelo homem " Muito astuto " comentou com um repuxar de lábios que não era exatamente um sorriso - ao menos não sincero - sarcástico " Muito bem, e o que é aquilo que não sabe e eu posso agregar a você? " perguntou por fim, soltando o ar e decidindo que a proposta era algo que ela conseguia lidar, indicando com a cabeça para a toalha que ela assumira, razoavelmente distante da multidão de pessoas, exatamente como ela preferia. Era um convite claro o bastante para que ele se sentasse com ela.
O festival não era algo que a empolgasse tanto quanto o resto da ilha - e certamente não tanto quanto Dilara, se o que podia ver era qualquer indicação. Para ela, se tratava mais sobre o simbolismo e o lado antropológico de tudo, aquilo que podia analisar, geralmente de longe, que a atraía. No entanto, era impossível não se deixar contagiar apenas um pouquinho com a energia que emanava de Dilara; não era algo que conseguisse explicar, e cada vez menos buscava por essa explicação, sua decisão de apenas aceitar sendo cada vez mais certa. Ainda assim, o fato era que ela era familiar e a sensação que ela passava era de casa, apesar de todo o caos que a acompanhava. “ Acho que é um pedido válido se gosta de manter esse emprego. Mas seria mais certo você se empenhar se quer continuar ” comentou em um tom tranquilo, sem qualquer intenção de soar crítica, era apenas uma observação “ Talvez gastar o seu pedido com algo menos substancial e mais significativo. Um sonho, talvez? ”
✶ 。 FLASHBACK, segundo dia do festival 。✶
Para Dilara, as sensações sempre haviam falado mais alto do que a razão. Talvez fosse pelo estado frenético constante de sua mente, que decerto dificultava a formulação de um pensamento coerente, mas fato era que suas emoções costumavam ditar suas decisões. E isso parecia particularmente verdadeiro ao se tratar de Kaly. Como polos opostos, não parecia existir qualquer semelhança entre elas - além do fato de ambas terem saído das águas, sem qualquer recordação do passado. Porém, havia algo que a impelia em direção à morena, um laço tão forte que não poderia ser ignorado. “Eu me empenho! Eu juro! Mas parece que quanto mais eu tento, maior é o desastre. Lembra quando eu tentei ser mais rápida e melhor atendendo as mesas daquele café? Bom, eu acabei derrubando tudo e foi horrível! Alguns clientes até gritaram comigo.” A tarka se encolheu, uma careta tomando sua expressão. “É por isso que é mais fácil com os cachorrinhos. Acho que eles me entendem, sabe? Ou será que sou eu que entendo eles? Bom, a questão é que eles só querem correr um pouco! E eu não tenho problema com isso.” Ela tentou explicar-se, sem muito sucesso. “Hum… Eu acho que ainda não parei para pensar muito sobre isso. Qual o seu sonho, Ka?”
Ela não duvidava. Realmente não - já tinha acompanhado Dilara em várias tentativas de empregos, vendo-a de longe, tentando melhorar as situações quando possível. Ainda assim, era visível o quanto ela se empenhava e ainda tinha dificuldades, ou fazia algo 'errado'. " Eu sei, eu sei " garantiu, lembrando o fatídico dia que ela citara, e como ela realmente tinha sentido raiva dos clientes que foram tão rudes com ela, apesar do sentimento não ser algo comum para Kaly. A escutou com atenção, como sempre o fazia, independente do que dizia, e assentiu com a cabeça, tentando compreender o lado dela; supunha que fazia sentido. Os cachorros eram animais principalmente movidos a necessidade, vontade e emoção, e costumavam ser carinhosos. " Também não sei se parei para pensar sobre sonhos " respondeu com um suspiro, mas decidiu ser mais honesta e menos monossilábica, acreditando na conexão que sentia com Dilara " Mas quanto mais eu conheço, mas fascinada eu fico " confessou " Tudo o que leio é tão interessante que eu não posso evitar de me perguntar como é o mundo lá fora verdadeiramente, sem ser na página dos livros "