Kaly não gostava muito quando invadiam seu espaço pessoal, e parecia ser algo que Nantier gostava imensamente - ela tinha certeza que era para irrita-la. Embora normalmente isso despertasse um sentido de teimosia ou até algo meio instintivo predatório de não recuar - algo que ela suspeitava que era da natureza tarka, embora nunca pudesse pesquisar a respeito ou confirmar, para sua infinita frustração - dessa vez foi diferente. Não sabia se era porque o bar estava lotado e barulhento, mas ali naquelas poltronas no canto pareciam ser envolvidos em uma bolha de privacidade no meio da multidão, era interessante de ser perceber. Ou talvez fosse porque estava se sentindo bem mais leve e aberta, o que achava que era por causa do álcool; isso sem contar que precisava estar perto para realmente entender o que dizia. Voltando sua atenção ao que ele dizia agora que seu drink acabara, Kaly se viu surpresa por ele ter concordado com ela; mais surpresa ainda quando ouviu o resto do que falava - e realmente fazia sentido. Sua expressão, geralmente já muito transparente, agora era quase cômica sob efeito do álcool que nunca tomava “ Eu não acredito que realmente vou dizer isso mas.. ” ela iniciou, depois de alguns segundos o encarando com o choque estampado no rosto e a cabeça rodando com as novas informações que ele passava “ Acho que está certo ” finalizou, chegando à conclusão de que, apesar de um tanto paradoxal, ambos estavam certos no ponto de vista. “ Ahn, eu as vezes me perguntava como os tarkas procriam quando comecei a ler sobre o assunto. E então sobre sexo de modo geral e que não é comum que as outras espécies sejam tão fissuradas por isso como os humanos. E tem toda a parte fisiológica que eu não lembro como nós éramos fisicamente, quer dizer, tínhamos os mesmos órgãos? ” perguntou, suas sobrancelhas arqueando ao questiona-lo, mas não fez uma pausa longa, sabendo que ele também não saberia “ E tem a parte química, eu soube que os hormônios que o sexo libera fazem maravilhas, mas não sei se posso atestar nesse quesito, e pelo o que você disse, provavelmente podem levar a falar coisas que se arrependam depois, mas eu só lembro de… ” nesse ponto, ela percebeu que estava realmente falando em voz alta o que pensava, algo que nunca lhe ocorria; seus olhos passaram então para o copo vazio à sua frente, franzindo o cenho como se percebesse que ali estava o culpado. Mas Kalyani tinha plena confiança em suas capacidades, bastava que se controlasse um pouco, correto? “ Quantas pessoas acha que configuram uma amostragem? ” perguntou de pronto, seus olhos voltando para ele “ E claro que eu não tenho como ter certeza se escolhi alguém melhor ou não, o que é realmente frustrante ”
Aquela gargalhada retornou a Nantier, dessa vez com o prazer de ouvir Kalyani dizendo que ele estava certo. Era a primeira vez na existência da relação deles? Fazia um ano, e ele não lembrava de ter ouvido algo assim antes. O fez pensar, de repente, se eles se conheciam antes de Saint Abbon de Fleury ou não. De toda forma, sua resposta foi aquela risada, as palmas se chocando por duas vezes diante do corpo. Respirou, então, concordando com o movimento da cabeça que dizia “prossiga”, o sorriso no rosto enquanto o queixo apoiado na canhota, decidido a prestar atenção. Não podia dizer que nunca havia se questionado aquelas mesmas coisas, talvez não daquela forma... científica. Nantier chegou a abrir a boca como se quisesse respondê-la, porém não desejava interromper seu fluxo de pensamento. Na realidade, desejava sacudi-la um pouco, para que falasse mais, ansioso quando ela se deixou parar. Estalou a língua no céu da boca, mas Kalyani prosseguiu, e quando falou não dizia mais o mesmo que antes. O franzir do cenho do tarka refletiu a confusão de informações dentro da própria cabeça. Como haviam chegado até ali, mesmo? Ele já não sabia, e em realidade não se importava com isso. “Calma, vamos lá.” Ajeitou-se, a mão diante de si como se precisasse conter algo fisicamente, quando era apenas o ritmo da conversa. Talvez ele já estivesse um pouco alterado pelo álcool. Talvez, ela também. “Eu acho que tínhamos o mesmo corpo lá. Sei lá, acho que tínhamos. Estou acostumado com esse corpo, sei usá-lo muito bem, não me parece novo, entende? Acho que eu era exatamente assim. De toda forma, parece estranho que com esse exato corpo se fizesse sexo debaixo d’água, porque... Bem, não é igual. Eu tive a experiência, e não é tão fácil como fora d’água. Não impossível, funciona, sabe? Mas não é tão...” Nantier tossiu, de repente parecendo sentir algum constrangimento inédito, buscando a melhor palavra. “Não desliza igual.” A breve timidez de pronunciar aquilo para Kalyani se refletiu numa careta que tomou seu rosto. Mesmo assim, logo ele riu novamente, pronto para qual fosse a próxima. Superava rápido. “Me faz pensar se lá existe ar. Ar mesmo, como esse que respiramos. Será que tudo é realmente água? Talvez exista os dois, e sejamos bem adaptados aos dois por isso? Esse tipo de coisa. Quanto à sua amostragem” Nantier sorriu novamente, a expressão antecipando qual absurdo ele diria dessa vez. Quando falou, no entanto, sua voz se manteve amigável, confortável. “Sinceramente, Kaly, falo um monte pra te irritar, mas não acho realmente que é sobre números. Talvez você só deva ir adiante quando realmente se sentir puxada para isso. Deixar o corpo guiar. Sem saber se escolheu melhor, mas vai sabendo que fez porque sentiu muita vontade, e portanto vai ter conhecido o que leva as pessoas a isso. Seria um começo.” Recostou-se, satisfeito com sua palestra, mas sentindo falta de um toque final. “Diz que vai me contar quando tiver falado um monte de merda constrangedora, por favor.”