Com os olhos marejados e a cabeça baixa comecei a analisar os tantos anos que se passaram. Pessoas que chegaram e saíram da minha vida. Pessoas que eu nunca pensei que perderia. Mas a vida não é como um filme indie, depressivo e cool. A vida é muito mais superficial que discursos de finais de temporada. Onde todos assumem os seus erros e todos voltam a ser parte um da vida dos outros. Na vida real as pessoas somem, desaparecem e nunca mais voltam. Elas fingem um bem estar, para aos poucos evaporar de qualquer convivência com você. E tudo ok! Talvez você simplesmente não quer ter o trabalho de ter confrontos desgastantes em que não lembrará metade das coisas que queria esclarecer. Calço meu par de all star branco encardido. Desgastado pelo uso e a preguiça de lava-lo. Não me preocupo muito com ele. Quanto mais surrado for, mais personalidade vai ter. Saio de casa com aquele casaco marinho enorme comprado em um brechó por 5 reais. As pessoas me olham estranhas. Em uma cidade tão pequena é estranho ver uma garota tão jovem vestida com roupas tão largas. Será que alguém pensa que eu estou escondendo uma gravidez? Ignoro o dono da padaria que cochicha algo no ouvido do cara ao lado e passo de cabeça erguida. Os pensamentos frustrantes voltam.Aquele turbilhão de estímulos cerebrais que me fazem recordar coisas que eu queria esquecer. Pessoas que eu queria esquecer. Porque as pessoas somem das nossas vidas? Porque me enganar? Ok, eu sinto falta dele. SIM É DELE. Aquele que eu sussurro o nome a noite. Quase como um segredo de mim mesma. O nome dele me vem a mente várias vezes por dia. Quando acordo, quando vou dormir, quando vou tomar banho, quando sento a mesa. Eu quero dizer o nome dele. Em voz alta pronunciar todos os fonemas do seu nome.Seria como de alguma forma chama-lo sem chamar. Seria como poder encostar uma parte dele, da alma dele, em mim. Fecho os olhos andando, mesmo sabendo que eu posso me machucar batendo a cara em alguma placa.Paro para o sinal de pedestres pensando em quão perigoso é atravessar a rua. E se eu tropeçasse nesse exato momento? Aquele carro provavelmente passaria por cima de mim e eu não teria muitas chances de sobreviver. Afasto esse pensamento da mente e presto muita atenção ao chegar ao outro lado da via. Chegando na parada me deparo com uma antiga colega de colégio. Fico incomodada com o ar de deboche dela. Ou o que eu interpretei como deboche. Como já disse, as pessoas por aqui tem um senso estranho de moda. E não respeitam o meu, que é usar roupas maiores que eu. Tiro o celular do bolso, checando alguma ligação ou notificação.Mas não existe nada. Nenhum sinal de vida ou uma mensagem de reencontro. Afasto esse pensamento e me concentro no livro que puxo da bolsa. Estou lendo Orgulho e Preconceito pela terceira vez. E todas as vezes sofro internamente com os desencontros de Mr. Darcy e Elizabeth. Absorvo-me na leitura. Ultimamente tenho lido muito. Muito, mesmo. Consigo sair da minha mente e viver outras vidas. Outras lembranças, outros sentimentos, outros amores. O meu ônibus chegou. Subo, e acordo já sentada no banco alto do coletivo. Me impressiono em como vivemos no automático que ações simples do dia-dia parecem ser apagadas da nossa mente. Me volto à leitura, depois de mentalmente sussurrar o nome dele. Olho para fora, o sol se poe entre os prédios da cidade. Meu caminho é curto. Mais uma noite dedicada a uma carreira ainda em construção. Afasto novamente a vontade de falar o nome que não pode ser dito. E mergulho em outra mente. Uma mente que não é a minha, sem o nome dele.