sohcee:
“às vezes não sei se esse seu otimismo me anima ou me estressa.” o tom simples indicava que estava pensativa, realmente ponderando a respeito. embora o peso das palavras pudessem indicar certo desgosto, o que, no fim das contas, não deixava de ser um fato. aquele era, sem dúvidas, um traço do garoto que lhe tirava a paciência. e ela até poderia culpar os hormônios da gravidez se já não fosse uma pessoa naturalmente adversa ao otimismo. “faz sentido, ao mesmo tempo que sinto que devo estar fazendo pessoas se revirarem nos túmulos por uma afirmação tão absurda.” não se importou em concordar com ele, mesmo que isso indicasse que não era tão inteligente quanto acreditava. sohee não tinha as respostas para tudo, e definitivamente, já havia provado que não era nem um pouco esperta. ficou a espera, os olhos piscando como um cachorrinho abandonado ao vê-lo hesitar. estava fora de si ou ele pretendia negar-lhe alguma coisa? claro que não. porque pouco depois sorriu ao notar os hashis flutuando em sua direção. encheu a boca, os olhos transformando-se em pequeninas fendas em um perfeito eyesmile. “só hoje? você não dita as regras, quem faz isso sou eu.” deixando a etiqueta de lado, falou com a boca cheia; escondendo-a com a palma da mão. mastigou compulsivamente ao perceber que o ato não fazia seu estômago embrulhar e ainda que a massa não fosse nenhuma novidade, lhe pareceu a melhor coisa que já provara em semanas. “nem ferrando.” negou em ímpeto, roubando os hashis dele apenas para encher a boca uma segunda vez. “eu não quero descobrir nada sobre maternidade, não agora. ainda estou em pânico com essa ideia, e não quero começar a me desesperar ainda mais por causa do parto, por exemplo.” só de pensar nos vídeos que viu sentia calafrios, sendo um dos únicos momentos onde pensava seriamente em desistência. “já sei que ele vai ferrar todo o meu corpo e a minha cabeça. isso já me parece o bastante.” se estava preocupada com como o seu corpo ficaria depois de tudo? evidentemente. porque já começava a pensar em cirurgias plásticas para corrigir todos os possíveis traumas que a gestação deixaria por seu corpo. “não acho que seja uma boa ideia. meu pai não é amigável.” não brincava, seu maior medo era a reação do seu pai justamente por não poder prevê-la, o homem era bastante bruto. “ele pode tentar obrigar a gente a casar.” fez uma cara de nojo ao citar a palavra casamento, sentindo outro calafrio. “deprimente mesmo seria eu perder a oportunidade de te agredir fisicamente” concordou com a cabeça sendo ela quem sorria amarelo daquela vez, com os olhos assassinos. “exato, um presente para um amontoado de células que sequer tem pernas ainda, seu idiota.” deu-lhe um tapa logo em seguida, irritada. “se fizer isso de novo sem me consultar, corto um membro do seu corpo. você sabe bem qual.” e mais um, sem tanta força daquela vez. e sem mais delongas roubou a marmita que ele segurava; enchendo a boca. “shh, não quero mais ouvir você. meu mau humor são os hormônios que seu filho tem deixado de cabeça pra baixo.” murmurou, mais uma vez com a boca cheia e agora, com os olhos marejados ao olhar os sapatinhos sobre a caixa. sohee estava mesmo uma bagunça de sensações. “droga, esses sapatinhos são a coisinha mais linda que já vi na vida. eu quero chorar e a culpa é sua.”
“tendo comida e um teto embaixo da cabeça, o que vier é lucro” completou seu pensamento simplista, porque sorte para ele era ainda ter as duas primeiras coisas quando acordasse. “o feijão vai ter pernas pra correr atrás da gente e braços pra poder fazer carinho em cachorros. igual você. o resto que se dane” não conhecia ninguém que gostasse mais de animais do que sohee, então na sua cabeça, aquela analogia poderia fazer efeito e fazer o humor da garota melhorar um pouco. seu rosto ficou alguns graus mais quente ao ver ela sorrir, especialmente ao perceber a curvinha que os olhos femininos faziam junto da expressão. era tão fofo que poderia matar. “eu preciso fingir que tenho algum resquício de poder, sabe. mas tudo bem, você está comendo, então.. acho que não tem problema” observou enquanto ela devorava seu jantar após roubar seus hashis, nem pensando em protestar porque já previa que isso aconteceria em algum momento. no entanto, prestou atenção no que ela dizia. claro que ela deveria estar assustada, havia uma criança em seu ventre, e eventualmente ela precisaria sair. até junho sentia calafrios pensando naquilo. “então eu vou nas aulas pra ser um pai minimamente decente e saber o que fazer com ele. mas uma hora a gente vai precisar conversar sobre isso” concluiu, não tendo certeza de onde aquela assertividade havia saído. junho sempre enrolou absolutamente tudo em sua vida, se ele morresse em algum momento próximo, não precisaria resolver nada, e por isso continuava deixando tarefas acumuladas. no entanto, parecia ansioso quando o assunto era sohee e sua gravidez. mexeu no cabelo, tentando disfarçar que também não estava com vontade de encarar os pais da mais nova, mas não podia deixá-la sozinha. “e você ir sozinha? nem pensar. você mesma disse que não dá pra ficar aqui pra sempre, então eles vão ter que saber em algum momento. e tipo.. seus pais são religiosos, né? vai ver eles podem achar que o bebê é uma bênção, essas coisas” lembrava dos pastores e padres que acolhiam ele e o irmão de vez em quando e sobre como todas as vidas tinham propósitos. nunca acreditou naquele tipo de coisa, mas precisava agarrar qualquer argumento naquele momento. deu um risinho fraco. “você realmente odeia a ideia de casamento, né?” era um clichê bonito para si, se tivesse dinheiro para tal um dia, gostaria de realizar ao menos uma cerimônia simples. no entanto, sabia que a outra odiava até a mera menção do evento. “mas, hee, se você me cast- ai!” resmungou em resposta ao tapa, fazendo um leve beicinho com seus lábios. céus, ela tinha uma mão pesada quando queria. abriu a boca para argumentar de volta, mas as reações totalmente desproporcionais dela apenas fizeram com que ele abrisse um sorriso curto e se aproximasse lentamente, envolvendo-a em um abraço e fazendo com que suas cabeças se encostassem em um ato carinhoso. “pode me odiar, mas vai ter que me agradecer por ele não pisar em um prego depois igual eu fiz quando criança. eu te dei a minha palavra e eu vou cumprir, estou cuidando de vocês dois” afagou o cabelo dela com cuidado, limpando a bochecha dela com o polegar. “tinha molho ali. termine de comer, ou eu vou roubar de volta”








