A falha empática lhe oferecia uma série de malefícios, já que sua missão de deteriorá-la tornava-se cada vez mais próxima de um sucesso pela forma como se sentia implodir, contudo, oferecia-lhe também uma quantidade boa de preparo, apenas o suficiente para que não enlouquecesse diante de sua terrível realidade como algo que existia em prol de entreter aos que moravam naquele mundo. Precisou, claro, deixar-se transbordar daquelas emoções presas e tempestuosas para que, só então, “o copo” tornasse a encher, gota por gota, até a próxima transborda ocorrer. Porque, ainda que odiasse, assim era Go Haein: tudo ou nada, vazia ou cheia, calma ou agitada. Nunca o meio termo. Nunca 50%. 8 ou 80. Vivia em estado de introspecção e, agora, ciente de tudo que lhe ocorrera, a cabeça latejava entre conformar-se e seguir a vida dessa forma, ou tentar se rebelar e agir de forma imprevisível até para si mesma, seguindo a lógica do livre arbítrio que resolvera aplicar em sua situação atual, com seu deus.
Mas, como poderia ela? Fosse ou não fruto da imaginação de alguém, ainda era tão ela, que a tentativa de não ser só levava a possibilidades negativas dentro de sua mente analítica. E detestava isso. Mas não sabia, ao menos até o momento atual, como não ser o que era. Precisava ser o que era. Afinal, já não tinha nada. Se não tivesse a si mesma, aí todos os seus propósitos estariam perdidos. E, se havia uma característica impregnada e talvez, a mais marcante de todas que lhe foram atribuídas, era o desejo voraz de sobreviver. Assim sendo, desistiu de sua breve confusão mental para retomar um de seus hábitos adquiridos no luto sem fim: a jardinagem. Com o cabelo preso em uma fita vermelha, vestiu-se com os trajes de sabe-se lá quem, e foi explorar a parte de fora daquele lugar com calma, as mãos calejadas dedilhando as flores brancas, enquanto os olhos tentavam encontrar o material de cuidados que deveria ter por ali. Então caminhou pela chuva sem temê-la, visando encontrar o que desejava.
Foi no meio de sua busca que escutou os passos, e, sem se pronunciar observou com curiosidade a figura que se aproximava com seu guarda-chuva. Não soube dizer com certeza o motivo, mas bastou colocar os olhos sobre aquela silhueta que o corpo se arrepiou, e as mãos, como sempre faziam em momentos instintivos, foram ao mesmo maldito cristal que, ainda agora, não tirava do pescoço por nenhum segundo. “Ou é você que se assusta fácil.” Comentou, ponderando se devia oferecer pelo menos um sorriso, já que não queria parecer tão na defensiva. Acabou negando o pedido da outra, mas não esboçou desgosto. Queria na verdade perguntar coisas e sanar dúvidas, já que tirando isso, não tinha o mínimo interesse em ser amigável de verdade. “Não tem problema pegar chuva. Acredito eu que, se eu ficar mesmo doente, vou me sentir mais humana.” Comentou, sem realmente sentir nada a respeito, estava em seu momento indiferente e anestesiado. “E eu gosto de jardinagem.”