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Motionless In White, Corey Taylor · Decades · Song · 2026
Memórias 9: parte 2 de
Continua daqui
Caminhávamos em fila indiana. A cada passo, o trilho estreitava-se. O mato fechava-se à nossa volta. O silêncio crescia e a curiosidade também — enquanto o bom senso ia ficando para trás. À medida que avançávamos, o trilho tornava-se cada vez mais ténue, até ser apenas a intuição a indicar-nos o caminho. De vez em quando, um pirilampo riscava a escuridão com um voo trapalhão e um breve lampejo, como se também ele andasse à descoberta.
Subitamente, já completamente engolidos pelo mato, pela escuridão e por um medo disfarçado de coragem, o F. desatou aos gritos. Dizia que tinha uma cobra enrolada nos pés.
Observámos, assustados, mas rapidamente percebemos que não passava de um galho que alguém vinha arrastando e que, ao libertar-se, chicoteou e enrolou-se numa das canelas do F.
Rimo-nos e gozámos com o F. durante alguns minutos. Ele jurava que tinha sentido a cobra a mexer-se, mas, se bem me lembro, isso só alimentou ainda mais o gozo.
Depois de recuperarmos o fôlego, seguimos caminho. Ninguém admitia, mas todos olhávamos agora com alguma desconfiança para cada galho, cada sombra e cada pedra. A curiosidade continuava a ganhar ao bom senso, embora o placard indicasse agora um resultado bem mais equilibrado.
Agora relendo e com as devidas diferenças, fiquei com a sensação de estar a ler uma qualquer aventura d’Os Cinco.
O trilho fez mais uma curva e, de repente, o mato abriu-se. À nossa frente surgiu uma pequena clareira. Pela primeira vez desde que saltáramos o muro, conseguíamos voltar a ver o céu. A única coisa que nos separava da continuação do trilho era uma poça de lama.
Falámos entre todos e concluímos que, apesar do risco, a melhor solução seria saltar da clareira, por cima da poça e aterrar no trilho do outro lado. Não sei bem porquê, mas decidimos que primeiro saltariam os rapazes.
O salto não era propriamente tranquilo: o trilho era estreito e corria junto ao topo de uma ravina, cujas encostas estavam escondidas por vegetação tão densa que nem se lhe via o fundo.
O T. — o mais corajoso ou o mais inconsciente — faria o primeiro salto. Aproveitou toda a extensão da clareira para ganhar balanço, saltou por cima da poça e aterrou no trilho com uma facilidade irritante. Irritar os outros, sem fazer nada por isso, era-lhe natural.
Era a vez do E. Imitou todo o movimento do T., mas, ao aterrar no trilho, desequilibrou-se, escorregou e só não caiu pela ravina abaixo porque no último instante conseguiu agarrar-se a um arbusto. Ficou suspenso durante um ou dois segundos, que nos pareceram muito mais. O T. virou-se de imediato, agarrou-o pelo braço e puxou-o de volta ao trilho. Só então uma gargalhada geral disfarçou o nervosismo de todos.
(continua — eventualmente)
Poema lido pela Ana Sofia. Obrigado.
RUMOR DE FOGO
como um fio de lâmina, onde o prazer aprende a caminhar descalço — onde cada passo acende um rumor de fogo entre a rendição do corpo e a fome selvagem; há portas que só o incêndio abre e sóis que nascem da cinza: o sangue abre rosas no escuro e o prazer bebe-lhes o perfume. a dor chega vestida de seda curta e escura, semeando brasas na curva do silêncio — o prazer reconhece-lhe os passos, como quem regressa a uma casa antiga construída entre espinhos e esperma.
Memórias 9: parte 1 de
Continua daqui
Ao contrário do habitual, esta memória vem com uma data. Mais exatamente, com um ano: 1989. O ano da estreia em Portugal de Clube dos Poetas Mortos. Porque é que isso importa? Já lá vamos. Os poucos casos em que consegui datar uma memória obrigaram-me a algum trabalho arqueológico. Este parecia dos mais simples. Até a Internet me trocar as voltas: afinal, o filme estreou apenas em outubro de 1989. Portanto, esta memória deve ser já de 1990. Os pirilampos, que felizmente não mentem tanto como a memória, apontam para o início do verão.
Se a memória anterior serviu de exemplo, já perceberam que éramos um grupo cheio de imaginação. A diferença é que, desta vez, também havia raparigas.
O que vou contar aconteceu espalhado por várias noites. Como já não sei em que noite aconteceu o quê, vou fingir que aconteceu tudo na mesma. Se não ficar muito credível, culpem a memória.
Num habitual passeio pela cidade, descobrimos uma estreita rua, ladeada por pequenas casas muito velhas, pintadas com cores berrantes e com paredes que pareciam feitas de terra seca. Apesar de ficar em plena cidade, o ar ali era leve e cheirava a lareira.
A rua desembocava num largo onde se destacava uma pequena igreja. Num dos lados havia um muro com cerca de meio metro de altura. Bastava espreitar por cima do muro para perceber que estávamos na colina que domina a praça das portagens da Ponte 25 de Abril. Para quem conhece a A2, no sentido de Lisboa, era a colina do lado direito, pouco antes da ponte.
Quando espreitámos por cima do muro, descobrimos também um estreito caminho que começava por ali e desaparecia na escuridão, engolido pelo mato da colina. Não foi preciso discutir. Rapazes e raparigas, saltámos o muro e seguimos pelo trilho para ver onde ia dar.
Bastaram alguns segundos para a cidade desaparecer atrás de nós. À nossa volta havia apenas escuridão, mato e árvores. Sabíamos que a A2 e a praça das portagens ficavam ali ao lado, mas já não as víamos. Só o ruído constante dos carros denunciava a sua proximidade.
(continua — eventualmente)
lentamente.
passos,
passos,
passos, morte.
sem adeus.
passos,
passos, morte.
para que serve o caminho?
passos, morte.
lentamente.
passos.
passos.
não!
a violência de um pássaro ausente
*2004
depois, por vezes, surgiam homens vestidos de sombra e o beijo da escolha tornava-se demasiado pesado, a violência de um pássaro ausente fazia-se medo e silêncio, a roda gigante, no topo do parque, parava e eu não queria lá estar, mas, no final do verão, as aves seguem sempre o mesmo caminho e nem o cheiro a carne putrefacta me desviava dos trilhos marcados, nem essas estradas há muito desenhadas me pareciam as minhas.
era então quase como que fugir amar o delírio dos outros, fechar-me nesse sedento mundo de mentiras, que alguém inventou, para que pudesse eu nesses dias de eclipse inventar-me de novo. como se cada página fosse um nascer imaginário do sol, fazia meus os sorrisos lá inscritos e, às lágrimas, ignorava-as, como se afogá-las no sangue ferrugento de velhos fantasmas, fosse como censurar as noites escritas a vermelho pelas dúvidas.
tenho na língua um deserto cruel de palavras, um áspero e vazio sabor a ferro vermelho e a pedaços de árvores queimadas pela noite. vejo nitidamente o nascer de novas estrelas para além dos limites das três mil galáxias, mas não consigo ouvir-me no universo local. enquanto o medo das reticências canta elegias, (o mesmo poema infinito que cantam os átomos no momento da rotura dos músculos de mozart), o barómetro vai indicando o silêncio máximo e o iodo acumula-se nas feridas sem as tapar. pouco importam os leitos secos e o leite derramado: já não sei se sou eu que não falo ou tu que não ouves, já não sei se quero ficar ou ir para nenhum lado.
in Insónia
O cantarolar do sal que prolonga a insónia
nem sempre o fumo e a luz demasiado velha conseguem transformar o silêncio em sono mas com a regularidade ambígua das dunas o cantarolar do sal que prolonga a insónia para além dos limites da carne e do sol faz crescer a água secreta das palavras até que um ciclone de sangue enfurecido varra as memórias para onde não podem sê-lo.
in Insónia
Memórias 8: parte 2 de
Continua daqui
Ao fim de algumas idas àquele local, já conhecíamos os carros e já tínhamos vítimas preferidas. Uma delas era um Mini creme. Não porque a vista fosse melhor, mas porque, por muito que abanássemos o carro, os proprietários insistiam em voltar ali. Expulsá-los tornou-se uma questão de honra. Honra de adolescentes — com a qual não se brinca.
Sempre que víamos o Mini estacionar, trocávamos olhares e nem era preciso combinar nada. O ritual era sempre o mesmo: esperávamos que as luzes se apagassem, dávamos algum tempo para que o romance entrasse em velocidade de cruzeiro e avançávamos em silêncio.
Bastavam alguns abanões mais vigorosos na carroçaria e o motor pegava poucos segundos depois. O Mini arrancava de forma apressada, enquanto nós desaparecíamos a rir, convencidos de que tínhamos acabado de prestar um serviço público.
Hoje percebo que devíamos ser um pesadelo. Na altura, achávamos que éramos apenas uns miúdos cheios de tempo livre, imaginação e um conceito de diversão que hoje me parece, no mínimo, discutível.
Curiosamente, o casal do Mini nunca desistiu daquele lugar. E nós também não desistimos deles. Foi uma espécie de guerra fria entre adolescentes e namorados, travada à custa de sustos, gargalhadas e uma enorme falta de juízo.
(continua — eventualmente)
Memórias 8: parte 1 de
Continua daqui
Não sei bem que idade tinha, mas a avaliar pelos companheiros e pela natureza bastante hormonal desta aventura devia ter dezasseis ou dezassete anos.
Perto de minha casa havia um terreno enorme, já loteado, mas ainda sem qualquer construção iniciada. Apenas os arruamentos estavam feitos. Viria mais tarde a tornar-se um bairro com milhares de pessoas, mas então não passava de um enorme descampado, dividido em lotes.
Durante a noite, aquele sítio transformava-se em local de peregrinação de vários casais que usavam os carros como quarto. Provavelmente, aquele seria o único local onde conseguiam manter a intimidade só deles — assim pensariam. Nós, por outro lado, tínhamos tempo, bicicletas, skates e hormonas suficientes para alimentar uma pequena cidade.
Foi precisamente por causa dessas hormonas que, numa tarde qualquer, alguém teve uma ideia. Vista hoje, parece absurda. Vista pelos rapazes que éramos, era praticamente inevitável.
Todos concordámos que seria um excelente plano aproximarmo-nos dos carros, escondidos pela erva alta dos lotes, para espiar os casais. Obviamente, não era.
Durante algumas semanas, o plano correu bem — ou, pelo menos, era isso que nós achávamos. Não me parece que se possa chamar "correr bem" interromper momentos de intimidade e, muitas vezes, assustar casais que, naturalmente, não esperavam encontrar um grupo de adolescentes escondido na erva a observá-los.
Como acontece frequentemente na adolescência, ao fim de pouco tempo já estávamos fartos. Mudámos de estratégia: aproximávamo-nos dos carros, rodeávamo-los, abanávamo-los e gritávamos o mais alto que conseguíamos, apenas para assustar os casais que ali iam simplesmente namorar.
Só muitos anos mais tarde percebi que aquilo era uma tremenda falta de respeito.
(continua — eventualmente)
Memórias 7: parte 2 de 2
Continua daqui
Mentiria se dissesse que a alta facilitou tudo. Apesar de ambicionada, a verdade é que deixei de ser tratado por pessoas que estudaram para cuidar de criaturas na minha condição, para passar a ser tratado por pessoas que me amavam, mas cuja experiência mais próxima era tratar de bebés. Isso não foi, no entanto, nem de perto, a pior coisa. O pior era lidar com a ansiedade que eu próprio provocava ao querer corresponder a expetativas que não existiam.
Como é natural, durante anos procurei perceber o que me tinha acontecido. No entanto, passados todos estes anos, continua sem se saber ao certo o que provocou o AVC. Os médicos suspeitam de um problema congénito. Eu e a M. inclinamo-nos mais para o stress. A verdade é que ninguém sabe. Certo é que, se voltasse atrás, relaxava mais e fazia muito mais exames de rotina, que, confesso, desprezava por completo.
Admito, no entanto, que nem tudo foi mau no AVC: publiquei vários livros e deu-me também a oportunidade de regressar aos estudos na área em que me tinha formado e trabalhado. Algumas pessoas saíram da minha vida e outras entraram. Acima de tudo, foi o AVC que aprofundou o lugar que o amor ocupa na minha vida: amo mais e sou mais amado.
Estudar é algo que valorizo muito e que, sem o AVC, duvido que a vida me tivesse permitido voltar a fazer. E como estuda um tetraplégico? Oiço. Online. O curso é totalmente online.
Felizmente — e isso é tão importante como a vontade de voltar a andar ou como foi voltar a falar —, a minha luta é travada ao lado de pessoas que me ensinaram que a vida não acabou: modificou-se.
A ciência deve estar perto. E eu quero estar pronto.
(continua — eventualmente)
Os teus pés parecem lebres e fintas o destino
ao som do riso das sereias.
Em escarpas, o meu corpo permanece
imóvel, gasto e queimado pelo tempo.
Ouvi as serras a ecoar as tuas rápidas
pisadas. Na madeira, o calor de um fado.
Fui cinza, ainda antes do anoitecer.
Ana Sofia Alves
Memórias 7: parte 1 de 2
Continua daqui
O que vou contar neste capítulo não é exatamente uma memória — não é algo de que me lembre. Até porque, ao que sabemos hoje, o nosso cérebro tem a notável tendência de apagar do índice a localização de ficheiros potencialmente traumáticos. Os ficheiros continuam lá, mas já não são facilmente acessíveis. Ao longo dos anos, tentaram-se vários métodos para recuperar essas recordações, incluindo a hipnose. Hoje sabemos, porém, que esse tipo de recuperação está longe de ser fiável e pode até criar falsas memórias. Até 2006 tive o que se pode chamar uma "vida normal". Bem, na realidade, não foi assim tão normal, mas já lá iremos. Primeiro quero contar o que terá acontecido em agosto de 2006. Digo "o que terá acontecido" porque não me lembro de rigorosamente nada. Tudo o que sei foi-me contado. E isso, para mim, não são memórias. Ao contrário das recordações, estas histórias não me obrigam a acreditar nelas. Aliás, se até da memória devemos desconfiar, como já vimos, porque haveria de confiar cegamente na memória dos outros? Posso até estar a escrever um livro inteiro baseado em relatos errados. Ou inventados. (Que ninguém me ouça dizer isto.) Em agosto de 2006 aconteceu aquilo que mudou definitivamente a minha vida: tive um AVC grave e fiquei tetraplégico. Alguns consideram um milagre eu ter sobrevivido. Eu considero apenas sorte. Apenas. Tudo começou de madrugada. Acordei indisposto e com uma forte dormência no lado direito do corpo. Eram sintomas que desconhecia e, como passaram rapidamente, ignorei-os. Nem sequer acordei a M. Na manhã seguinte, como era relativamente habitual entrar um pouco mais tarde no trabalho, nem eu nem ela estranhámos quando lhe disse que iria mais tarde. Daí até a M. voltar para almoçar sabe-se apenas que telefonei ao INEM. Ainda consegui dizer o nome da rua, mas já não o número da porta. Resultado: seis horas apagado, sem qualquer assistência. Os médicos dizem que, no meu caso, esse tempo não fez diferença. Eu continuo convencido de que fez. Quando a M. chegou, eu estava caído no chão, inconsciente e a sangrar. Tinha batido com a cabeça ao cair. Deve ter sido uma experiência horrível para ela. A M. diz que ainda hoje sente o cheiro a sangue. Segundo ela, os breves segundos entre abrir a porta, chegar até mim, abraçar-me e perceber que eu estava vivo, pareceram-lhe uma eternidade, como se o tempo tivesse deixado de avançar. Foi ela que, sem nunca me largar, telefonou ao INEM para pedir ajuda. Pouco depois, chegou a equipa de emergência médica. Mandaram a M. para outra divisão para ela “não atrapalhar”. Eu prefiro acreditar que foi para não a deixarem assistir ao pior. Fizeram um bom trabalho e, como é óbvio, mantiveram-me vivo. Duvido que, se tivesse morrido, estivesse agora a escrever este texto. Dei entrada no hospital já em coma e quase morto. As primeiras horas foram absolutamente sufocantes para quem me acompanhou. As pessoas que mais me amavam não sabiam sequer se eu estava vivo. Quando finalmente deram notícias minhas, mais valia terem ficado calados: — O indivíduo não deve sobreviver a esta noite. Indivíduo? Não bastava dizerem que eu ia morrer; ainda me chamaram indivíduo. Felizmente, enganaram-se. Feita a previsão, perguntou quem me queria ver. A M. adiantou-se e disse logo que ia ela. Apesar de todos os avisos do médico, ela contou-me que, naquele momento, ver-me foi um misto de alegria e choque. Por um lado, eu estava vivo; por outro, nem em séries tinha visto alguém com tantos fios e tubos. Depois daquela primeira noite, passei lá mais cento e quinze. Cerca de cem em coma.
(continua — eventualmente)