nesta porta começa a necrologia. e quando eu entrar o meu nome passará a constar nela: faleceu Bruno Miguel Marques Ribeiro… bom homem… dedicado…
nunca mais cai a noite para depressa vir o amanhã.
este corredor está mais apertado todos os dias, a cada um vejo as paredes mais curvadas e o teto mais próximo da minha cabeça. vale-me o pequeno pátio interno, entre este corredor e o edifício onde trabalho, para respirar fundo antes de morrer. acho que estas fileiras de apartados não existem – seis anos a passar aqui e nunca vi nenhum a ser aberto.
estranho! não está ninguém no pátio a fumar. eu já não devo ir a tempo, nem me interessa ir, se são quando me mato as únicas alturas em que sei estar vivo, mas será que todas as pessoas ganharam juízo? isso ou despediram-se, que no fundo é o mesmo.
por vezes, uma porta pode esconder as flores que queremos dar a um amigo, mas atrás desta há apenas uma longa e larga escadaria para o deserto. subi-la é uma manifestação de solidão. mesmo que me cruze com alguém, a escadaria é tão larga que também esse será um momento solitário. a cada degrau, o chão aquece e derrete, afundando-me mais os pés e tornando-a cada vez mais difícil.
enquanto subimos as escadas, nas paredes alternam-se fotografias de antigos presidentes da empresa com quadros onde podem ler-se frases motivacionais. algumas são verdadeiros tesouros e a única coisa que conseguem é, em alguns dias, fazer-me sorrir. a escada termina a meio de um amplo corredor, com janelas enormes, todas elas com vista para o pátio na entrada e que une duas grandes salas de trabalho, ambas organizadas em espaço aberto e onde, em cada uma, trabalham cerca de trinta pessoas, quase todas em grupos de três ou quatro.
eu trabalho na sala do lado esquerdo e para entrar tenho primeiro que passar por aquilo a que chamamos de “sala do café”, mas que não é mais que uma pequena copa, sem mesas nem cadeiras e onde a administração pôs uma máquina de café e uma outra – dispensadora de água. quer o café, quer a água, são gratuitos. apesar de não ser uma ideia desprovida de segundas intenções, parece-me uma grande ideia. é a sala mais democrática da empresa. nela, administradores e simples trabalhadores de base, podem encontrar-se e falar de assuntos mundanos. todos ao mesmo nível: de pé.
já estou aqui há duas horas. altura do meu terceiro café. espero não encontrar ninguém na copa. detesto conversas de cortesia e ninguém aqui lida bem com o silêncio. não percebo a necessidade que as pessoas têm de falar quando estão juntas. nos meus tempos de adolescente tinha um amigo, com quem a intimidade e cumplicidade eram tão grandes, que estávamos confortavelmente numa esplanada, a tarde inteira, sem falar. nunca mais encontrei ninguém com quem o conseguisse fazer. hoje, olhando para trás, admito que talvez exagerássemos, mas, voltando ao presente, agradava-me muito se as pessoas reduzissem as conversas ao essencial e ao humor. quando as palavras são áridas e, nelas, nada floresce, o silêncio é a mais resiliente e vantajosa semente.