Jade encolheu-se no abraço do deus, suspirando em uma mescla de angústia e alívio ao que se sentia ser apertada gentilmente por ele. Angústia ao ter de recordar aqueles sentimentos corrosivos; alívio por saber que Rantalor estava disposto a ficar do seu lado mesmo em um momento tão difícil, mesmo que não quisesse preocupá-lo com sua dor.
Foi por isso que, embora estivesse tentando ao máximo contê-las, as lágrimas tornaram a rolar por seu rosto, ainda mais intensas do que antes. A princesa não viu outra escolha a não ser manter-se escondida no peito forte do outro, ocultando, ao menos um pouco, seu estado deplorável ao único olho do Leão; os dedos finos apertando-lhe contra si, quase como se estivesse pedindo para que não se afastasse.
— Eu sei que não devo — sua voz, sempre tão firme, falhou de início ao que um tremor muito sutil correu por seu corpo —, porém não quero simplesmente envolvê-lo em um problema que não é seu. Me importo com você, Rantalor. O suficiente para não querê-lo sofrendo junto comigo nessa história — respirando fundo, a Tigresa tomou a devida coragem para se distanciar, apenas o suficiente para que os olhos intensamente verdes encontrassem o dele. Suas lágrimas, aos poucos, diminuíam de intensidade, ainda que continuassem a marcar a face rosada da mulher com o caminho feito pelas gotinhas salgadas. — Eu… — Por um momento, ela hesitou, imaginando o quão doloroso seria para ele se distanciar como seu coração agora desejava que fizesse, a fim de poupá-lo de mais momentos angustiantes como aquele que vivenciavam.
Sabia bem do amor que o Senhor da Guerra nutria por si, sabia o quanto importava para ele e não pôde evitar de pensar a dor que causaria ao outro se lhe fizesse um pedido como aquele, o quão preocupado ficaria se não pudesse ter notícias de si, se não pudesse ajudar.
Isso fê-la se calar, limitando-se a encará-lo por mais alguns instantes enquanto sua mente trabalhava nesses pensamentos. As lágrimas, lentamente, começaram a cessar mais uma vez e tão logo a princesa tomou uma decisão, sua mão destra buscou a esquerda dele, apertando-a delicadamente ao que se esticou um pouquinho em sua direção, apenas o suficiente para que pudesse tocar-lhe os lábios com os seus em um selinho muito breve e singelo.
— Não quero obrigá-lo a compartilhar esse momento comigo, não quando não há nada que nenhum de nós possa fazer, mas… — proferiu, baixinho, ao se afastar. Seus dedos, que antes seguravam os dele apenas, enlaçaram-se gentilmente, ainda que os tivesse apertado de levinho. — Eu também quero que fique aqui, comigo — seu olhar se abaixou por um instante, quase como se estivesse envergonhada do que estava prestes a pedir. — Você aceitaria ficar ao meu lado?
Tal qual acontecia com o animal escolhido de Gardhall, foi com ele que ficou o talento natural para amenizar a tristeza daqueles que estão deprimidos. Rantalor, por outro lado, instigava ferocidade e força para aqueles que partem rumo à batalha. Mesmo assim, ele tentou. E continuaria tentando mesmo que sua presença e seu consolo não estivessem surtindo efeito sobre a princesa. Ela precisava dele. E o Leão não seria capaz de deixá-la para trás apenas porque aquele não era um “problema seu”.
Assim que Jade se afastou, a primeira coisa que o Senhor da Guerra fez foi usar a canhota para enxugar o rosto dela, limpar os caminhos secos deixados por suas lágrimas. Embora ele tivesse mãos ásperas devido ao manuseio de suas armas, seu toque era delicado demais, uma gentileza sua que era exclusiva para ela.
---- Pode ter certeza de que eu sofreria muito mais se não pudesse vê-la, sabendo que está precisando de mim ---- murmurou, pelo que sua mão foi pega e ganhou dela um beijo tão delicado quanto o toque dela.
Quieto e ansioso, com um coração martelando dentro do peito, aguardou por qualquer outra coisa que Jade quisesse lhe dizer, imaginando que ela insistiria naquela ideia de preferir não preocupá-lo. Foi por isso que, no momento em que a princesa finalmente se expressou, o Leão ficou surpreso e por muito pouco não esboçou um sorriso de puro alívio. Ainda assim, ele sorriu e se inclinou para depositar um beijo no topo da cabeça dela antes de dar sua resposta:
---- Você não está me obrigando a nada, meu amor ---- disse, enfim,a boca ainda muito próxima dos cabelos negros dela. ---- E mesmo que me dissesse para não ficar, eu viria todos os dias perguntar aos outros sobre você ---- encostou a testa na dela. ---- É claro que aceito.