Ser feliz é um exercício contínuo de escolha.
Não uma escolha ruidosa, dessas que se anunciam em frases prontas, mas uma decisão silenciosa, diária, quase cansada. Ser feliz dá trabalho. Às vezes, ser feliz é lutar contra a própria exaustão, é insistir mesmo quando o terreno está duro demais para florescer.
Pensei nisso enquanto atravessava dias ásperos: um trabalho que me sugava como solo pobre, uma disciplina da faculdade que parecia estéril, e um relacionamento que, como planta esquecida num canto, já não recebia sol suficiente. Pensei nisso porque era algo que minha avó costumava dizer. Não como um mantra otimista e vazio, mas com a simplicidade de quem entende que a vida é feita de escolhas que, muitas vezes, ferem antes de curar. Como podas necessárias: doem, sangram, mas permitem que algo novo respire.
Minha avó dizia muitas coisas. Mas havia uma que ela repetia como quem planta sementes com cuidado: que eu merecia todo o amor do mundo. Sempre me foi difícil acreditar nisso. Talvez porque eu tenha crescido aprendendo a me esconder à sombra, como planta que teme o próprio desabrochar.
Lembro-me de um daqueles eventos canônicos da adolescência queer: a invasão da privacidade, a busca obsessiva por provas, como se minha existência precisasse ser documentada para ser condenada. Minha mãe queria algo concreto, algo que pudesse ser exibido como erva daninha diante da família, sobretudo diante da minha avó. Havia nela a crença torta de que, se minha avó pedisse, eu deixaria de ser quem sou, como quem arranca uma raiz pela força.
Recordo o medo. Um medo denso, com cheiro de mofo e ferrugem. A maneira como comecei a me afastar das pessoas, como passei a imaginar que qualquer palavra, qualquer gesto, qualquer troca de afeto poderia ser transformada em arma. A tecnologia virou terreno minado. Conversar só pessoalmente parecia mais seguro, como se o vento pudesse apagar rastros. Mas esse isolamento também afastou pessoas que eu amava. Plantas que murcharam por falta de cuidado, não por falta de afeto.
E então veio o dia. A suposta prova. Que não era prova alguma, apenas um comentário inocente sobre uma fanart de Percy Jackson. Lembro da mensagem enviada no grupo da família. Lembro do frio no estômago, do desespero, da vontade de fugir de casa, de desaparecer. Lembro de pedir ao universo, em todas as línguas possíveis, para morrer, porque morrer parecia mais fácil do que continuar sentindo.
Mas lembro, sobretudo, da minha avó.
Lembro da voz dela se erguendo como cerca viva, me defendendo diante de todos. Dela dizendo, quase aos gritos, que eu era o neto dela, acima de qualquer rótulo. Que ela me amava. Que queria conhecer meu namoradinho. Lembro do acolhimento como quem lembra de um cheiro bom depois da chuva, de terra molhada, de flor abrindo à noite. Ela disse que só queria que eu fosse feliz. E que isso era tudo o que importava.
Hoje, alguns dias atrás, percebi que voltei a me sentir como aquele adolescente. Aquele menino acuado, que andava em silêncio pelo próprio jardim com medo de ser visto. Traumas criam hábitos: esconder o celular como quem esconde sementes, usar senhas difíceis como cercas, estremecer quando alguém pede para ver as horas, quando um amigo toca no aparelho, quando meu namorado se aproxima dele. Foi um escudo que construí, não por desconfiança, mas por sobrevivência.
E, ainda assim, me vi novamente com treze anos. Com medo de fazer amigos. Com medo de existir sem calcular consequências. Sentindo que qualquer gesto pode provocar um drama que não deveria existir. Voltei a ser aquele menino que acreditava que desaparecer seria mais simples do que continuar sentindo.
Mas talvez, e digo isso com cautela, ser feliz seja exatamente isso: retornar ao jardim ferido, reconhecer as plantas quebradas, sentir o cheiro da terra remexida e, mesmo assim, escolher cuidar. Escolher podar. Escolher regar. Mesmo com as mãos tremendo. Mesmo sabendo que algumas escolhas machucam antes de florescer.
Porque, no fundo, minha avó tinha razão.
E talvez eu mereça, sim, todo o amor do mundo, ainda que esteja reaprendendo a acreditar nisso, devagar, como quem aprende a confiar no próprio jardim outra vez.









