Aquele era apenas mais um dia normal no hospital bruxo St. Mungu’s. Grace Hookum estava vivenciando um raro momento de tranqüilidade no trabalho, porem o nervosismo e a ansiedade ameaçavam dominá-la enquanto conferia mais uma vez os pacientes em repouso que estavam sobre seus cuidados e tentava não fazer nenhuma besteira. Ronan estava fora da cidade naquele dia em alguma conferência e, apesar de não se sentir completamente confortável na presença do chefe, não se sentia nada confortável sem ele por perto para supervisioná-la e se certificar de que ela estava no caminho certo. Sabia que precisava aprender a agir por si só, caminhar sozinha, e aos poucos aprendia a tomar conta das coisas sem supervisão e sem entrar em pânico. Quando estava exercendo a profissão de seus sonhos era o único momento em que ela se sentia confiante de si mesma. Porém, naquele dia em especial se sentia mais agitada que o normal. Desde que acordara tinha uma estranha sensação no peito, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Ela sabia que era besteira, mas o sentimento estava bem ali, a obrigando a checar seus pacientes mais uma vez para ver se estavam todos estáveis. Quase pensou em ir até Raizel, Matthew ou Zara para ver se tinham algum trabalho para mantê-la ocupada, mas ela tinha sua própria responsabilidade e precisava mantê-la até o fim, por mais nervosa que se sentisse com relação a isso. Enquanto fazia sua ronda mais uma vez, acabou por pensar em Daisy. Talvez aquele mau pressentimento fosse apenas uma consequência dos acontecimentos recentes, pensou. Aquele ataque à Hogsmead a havia deixado mais preocupada do que já era e ela sentia vontade de ter notícias da irmã a cada cinco segundos, mas sabia que apenas estaria perdendo seu tempo e atrapalhando o horário de estudo da mais nova. Estava tudo bem, ela repetiu para si mesma, tentando convencer a si mesma de que aquilo era verdade. E era, ela sabia que sim, então focou em preencher alguns prontuários que estavam atrasados. Seu expediente estava quase no fim e em breve Willa chegaria para saírem juntas, então ela já teria esquecido toda aquela baboseira de mau pressentimento.
Ou pelo menos, assim ela pensava.
Porém Grace jamais esperara pelo que aconteceria em seguir. Repetira tantas vezes que aquele mau pressentimento não era nada que passara a acreditar. Estava tranquila mais uma vez, apenas esperando Willa chegar, quando ouviu a comoção. Como qualquer um ali, não era estranha a casos de emergência que chegavam causando alarde no hospital, então apenas aprumou os ouvidos para ver se não seria necessária, mas duvidava disso. Porém, seu coração gelou ao ouvir um healer mais velho comentando com outro que se tratava de um auror. Harold era auror. Toda vez que um auror dava entrada em estado grave no hospital, Grace não podia deixar de se preocupar com o irmão mais velho e sempre ia dar uma olhada no paciente, mesmo que não fosse seu. Porém nunca era ele, e quando chegava em casa fazia questão de abraçar o irmão o mais forte que era capaz. Ele nunca entendia e ela nunca explicava, mas precisava fazer aquilo para se certificar de que o irmão estava realmente ali, bem e inteiro, sempre ao alcance dela.
Mas aquele dia fora diferente e ela devia tê-lo previsto desde o início. Seu coração tentava lhe dizer isso, mas ela apenas ignorou, e enquanto andava na direção do auror ferido tudo o que conseguia pensar era: Por favor. Por favor. Por favor. Mas suas preces eram inúteis, e ela sentiu seus joelhos quase cederem ao ouvir as palavras que mudaram sua vida: “Oh meu Merlin, é o irmão da Grace!”. O mundo girava, mas ela não podia parar até alcançá-lo, mas antes que o fizesse sentiu fortes braços ao seu redor. “Grace, você não precisa ver isso, deixe que eles cuidem dele.” ela mal pôde identificar a presença de Ronan ali, nem mesmo pensando o que ele fazia de volta ao hospital, o desespero já dominando sua razão enquanto ela lutava para se libertar. Não percebeu que gritava de desespero até sentir sua garganta doer, mas estava firmemente presa nos braços de Ronan, sem poder correr para ajudar. - Me solte eu quero ajudar! - berrou. “Você não está em condições emocionais, Grace. Ele é seu irmão. Vai ajudá-lo melhor se apenas observar.” Ela sabia que ele estava certo, por isso só lhe restou parar de lutar e chorar. Ela não podia perder Harold, não sabia se aguentaria o peso daquela dor. Mas precisava fazer alguma coisa, por isso parou de chorar e secou as lágrimas, respirando fundo para se recompor. - Estou bem, já pode me soltar. - sua voz saiu em um murmúrio, mas estava firme, então o Thurkell a soltou relutantemente. Ela caminhou na direção da recepção e disse para a mulher que estava ali: - Por favor, mande um memorando urgente para Leonard Hookum no Ministério. Diga apenas que Harold está aqui, ele vai entender. - então olhou na direção onde Hal estava e se arrependeu, pois teve um vislumbre de seu rosto ensanguentado. As lágrimas ameaçaram voltar, mas ela as conteve, virando-se novamente para a mulher. - E mande também uma mensagem para Dumbledore em Hogwarts, fale que precisamos de Daisy Hookum aqui o mais rápido possível, ele também compreenderá. - e dito isso ela apenas se sentou em uma das cadeiras da sala de espera e esperou, como vira familiares esperando durante todos aqueles anos. Pelo quê exatamente, eles nunca sabiam, só restava torcer pela boa notícia.
Não saberia dizer quanto tempo esperou até que finalmente a liberassem para vê-lo. Poderia ter sido cinco minutos, ou cinco horas, mas Leo ainda não estava ali e ela duvidava que ele demorasse quando soubesse que Hal estava em perigo, então supôs que não se passara tanto tempo assim. Ao adentrar o quarto deparou-se com um Harold Hookum de uma forma que ela jamais o vira: vulnerável. As marcas no rosto e o sono profundo em que se encontrava tirara toda a sua altivez, e Grace sentiu lágrimas voltarem a invadir seus olhos por isso, enquanto puxava uma cadeira para sentar-se ao seu lado e poder segurar sua mão. Hal, que fora seu super herói sua vida inteira, estava deitado em uma cama de hospital parecendo mais frágil do que ela jamais fora, porém não havia nada que Grace pudesse fazer para ajudá-lo como ele sempre a ajudara. E ela queria. Ah Deus, como ela queria. Se pudesse tomava para si todos aqueles ferimentos e aquelas paradas cardíacas apenas para vê-lo parado ao seu lado como ela estava agora, dizendo algo como “Você vai ficar bem, little Gracie. Eu vou protegê-la.” porque era aquilo que ele fazia. Ele a protegia apenas com um sorriso, e tudo ficava bem. Mas ela? Ela não podia fazer simplesmente nada, nem mesmo fazê-lo sorrir ela era capaz, porque sabia que assim que ele acordasse começaria a chorar. Ela era fraca demais para proteger aqueles que amava e se odiava por isso. Não saberia dizer quando Leo e Daisy chegaram e nem se disseram alguma coisa, só conseguia encará-lo e pensar no quanto queria ser forte e inteligente o suficiente para buscar algo que pudesse ajudá-lo. Porém, quando Hal arfou repentinamente, voltou para a realidade com tudo. - Eu acho que ele está voltando. - murmurou o obvio, mas precisava dizer aquilo em voz alta para se certificar de que era real. Porém só teve certeza de que realmente era quando suas palavras seguintes vieram, fazendo com que as lágrimas que ela estivera segurando rolassem por suas bochechas. - Você não vai morrer, seu bobo. - disse, com a voz embargada - Nós não vamos deixar.