Titania and the fairies A MIDSUMMER NIGHT'S DREAM 1935, dir. Max Reinhardt, William Dieterle
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@labelaluna
Titania and the fairies A MIDSUMMER NIGHT'S DREAM 1935, dir. Max Reinhardt, William Dieterle
The Midnight Gospel, o guia de episódios
Referências, notas de bastidores & pontas soltas para curar ressacas existenciais
As informações que surgem em The Midnight Gospel são tantas que dá vontade de ficar 30 minutos seguidos olhando para a parede depois de assistir os episódios, só para conseguir absorver o tornado de referências.
Bom, eu fiz isso. O resultado foi essa reportagem que escrevi para o Tab UOL e também este guia, no qual destaco os pontos mais importantes de cada episódio e tento organizar um pouco — como se fosse possível — o caos psicodélico dessa obra baseada no podcast Duncan Trussell Family Hour e criada pelo Pendleton Ward, de Adventure Time, com o próprio Duncan Trussell, que empresta a voz ao personagem principal.
Trago ainda algumas referências, notas dos bastidores e pontas que aparecem soltas. E, para adicionar um pouco de drama, alguns amigos* me ajudaram a elaborar um ranking, baseado em critérios mais subjetivos do que o conceito de magia cerimonial do Homem Aquário do terceiro episódio. A classificação aparece no fim de cada texto, e você pode me xingar por aqui, se não concordar.
Boa viagem e namastex.
Episódio 1: Malditos zumbis
No episódio que abre The Midnight Gospel, somos apresentados ao spacecast do Clancy — que tem o nome da série — e ao seu simulador de mundos.
O primeiro destino do personagem é um planeta que sofre um apocalipse zumbi. O convidado do episódio é Drew Pinsky, um médico celebridade especialista em drogas. Ele interpreta um minúsculo presidente assassino de mortos-vivos. A discussão toda do episódio gira em torno do debate sobre substâncias ilícitas e das experiências pessoais do Clancy, como a meditação de atenção plena (mindfulness) e o budismo.
É no meio disso que o Dr. Drew dá umas das maiores lições do episódio. A de que drogas são substâncias químicas que não são nem boas, nem ruins, elas apenas existem. Ele dá o exemplo do diazepam: em uma colonoscopia, ele é excelente; já bebendo absinto em uma festa quando você precisa voltar dirigindo para casa, é péssimo. “Não porque diazepam seja bom ou ruim, mas porque a circunstância e a relação são ruins.”
Em seguida, os personagens têm uma conversa madura sobre psicodélicos — traduzidos para “alucinógenos”, na versão em português. Clancy compara a experiência psicodélica com uma pessoa entrando em um elevador que a leva até o último andar de um prédio. Ao chegar no topo, a porta se abre e a pessoa vê uma festa rolando, mas então a porta se fecha e a pessoa volta ao térreo e ao estresse da vida cotidiana.
O doutor questiona: e se a pessoa não voltar ao térreo? E se ela descer ao subsolo ou à garagem? Em outras palavras, como chegar lá em cima sem perder o controle?
O episódio deixa a questão em aberto. Mas Clancy realça os benefícios terapêuticos dos psicodélicos, comparando essas substâncias com a prática de mindfulness, que nos permite investigar as raízes dos nossos sentimentos. Assim como uma substância química, sentimentos não são bons ou ruins, eles apenas existem. E se, em vez de ignoramos aqueles que consideramos ruins, dermos um zoom neles, propõe Clancy.
No meio da conversa, os personagens fogem dos zumbis, encontram uma grávida que sabe falar “fenomenologia” sem se embaralhar, são mordidos, se tornam mortos-vivos e oferecem o final mais lírico já visto em uma história de zumbi. Eles descobrem que se transformar em um morto-vivo é como alcançar a iluminação. Com os corpos brilhantes e podres, eles cantam: “Já fomos cegos, mas agora podemos ver/ É tão bom ser um zumbi/ Vamos devagar porque não precisamos de correr”.
Posição no ranking: 4º lugar
Episodio 2: Medite como Cristo
No episódio em que o simulador de mundos começa a dar sinais de erro, aprendemos que Clancy comprou a máquina com dinheiro da irmã. A ideia é ficar rico com as entrevistas do spacecast e devolver o empréstimo em seguida.
O personagem visita um planeta em que pequenos palhacinhos nascem de frutos e são ameaçados por bichos fofos, porém estranhos, que parecem uma versão lisérgica do Falkor de História Sem Fim.
Os entrevistados são os “Falkors”, interpretados pela escritora Anne Lamott e Rhagu Markus, diretor de uma associação dedicada a Ram Dass — psicólogo que foi expulso de Harvard com Timothy Leary, nos anos 60, por conta das experiências com psicodélicos, e se tornou um guru dedicado a entender o processo de morte.
Anne diz que teve contato com os livros de Ram Dass desde muito cedo. Talvez, venha daí sua ideia de que entender a morte como parte de um processo inevitável é libertador. Mas esse tipo de entendimento, tudo o que nos cura e nos ilumina, segundo ela, não vem em frases prontas de caminhão, é preciso batalhar para absorvê-lo.
No episódio mais cristão da série, Markus fala de sua experiência com Ram Dass na Índia. O convidado conta que recebeu um ensinamento poderoso ao meditar pensando em Cristo pregado na cruz, uma ocasião na qual, segundo ele, em vez de dor, o filho de Deus sentiu amor. Markus então compara Jesus a Hanuman, o deus macaco do hinduísmo, aquele que serve sem esperar resultados, sugerindo que Cristo e Hanuman representam o mesmo arquétipo.
Os personagens morrem algumas vezes durante a história, mas mantêm a consciência, enquanto assumem formas diferentes, mostrando que, assim como na natureza, no mundo simulado de The Midnight Gospel, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Posição no ranking: 6º lugar
Episódio 3: Vomita sorvete?
Clancy ignora os avisos de manutenção do simulador, antecipando alguns problemas que vão crescer nos próximos episódios. A única coisa que o personagem quer é ser levado para um planeta, “tipo um mundo do sorvete”, para poder trazer um sorvete ao amigo Daniel Cestinha, cujo pai o ameaça.
Lá, o spacecaster encontra o Homem Aquário que comanda uma tripulação de gatos marinheiros. O personagem é interpretado por Damien Echols — talvez o único convidado que tenha uma história pessoal tão transcendental quanto a do desenho.
Echols (o cara real mesmo, não o personagem) foi preso aos 18 anos, acusado de matar três crianças em um ritual satânico. Ele foi sentenciado à morte e ficou 17 anos esperando para morrer na cadeia. Em 2011, descobriram que o culpado tinha sido o padrasto das crianças. A história é contada na autobiografia dele, Vida Após a Morte (Intrínseca), e no documentário Paradise Lost, da HBO. Nada disso aparece na série, mas, no episódio, ele fala como os estudos de magia o ajudaram a se manter são na prisão, fazendo deste o episódio mais mágico.
O Homem Aquário começa dissolvendo essa ideia de magia como algo dos filmes do Harry Potter e explica que magia, basicamente, é intenção. As coisas acontecem de acordo com a energia a que nos dedicamos a ela. Não é tão glamuroso quanto Hollywood, mas é mais eficiente.
Esse conhecimento é transmitido através de um fluxo que passa de alguém mais experiente para alguém com menos experiência. Como ele explica, a magia é uma tradição oral, o que não significa um monte de histórias sendo contadas por velhinhos, mas, sim, uma corrente de energia sendo transmitida de pessoa para pessoa através de vibrações sonoras. O que confere à palavra um poder transformador.
Segundo Echols, existem duas razões para fazer magia. Uma é manifestar coisas, como uma vaga no estacionamento, um emprego dos sonhos… A outra é o que ele chama de “sustento espiritual”, quando você absorve conhecimento para crescer e mudar.
A história que começou em alto mar termina com uma batalha de gigantes que viveram um triângulo amoroso. O personagem acaba o episódio concluindo que o fim da espiritualidade não é atingir a iluminação. “O que consideramos iluminação é o primeiro passo de um processo mais longo.”
Posição no ranking: 3º lugar
Episódio 4: Ordenhando um corvo
No episódio que marca o meio da temporada, o simulador de mundos sugere a Clancy o planeta “Mercurita”, uma espécie de paraíso do swing. Para aproveitar a experiência ao máximo, o personagem ganha um avatar multi-pênis. Mas o cometa que levaria Clancy para a orgia namastex é desviado para um planeta medieval e sombrio.
Lá, ele encontra Trudy Goodman, psicoterapeuta e professora de vipassana, uma técnica de meditação indiana. Trudy é representada por uma cavaleira braba que tem uma égua chamada Cassiopeia (nome de personagem da mitologia grega e de uma constelação do hemisfério norte).
Enquanto os personagens discutem sobre sentimentos como o perdão, a solidão e a empatia, acompanhamos Trudy e Clancy no resgate do namorado de Trudy, que virou comida de um demônio que vive dentro da bunda do vilão do episódio, o qual traz o estereótipo do afeminado pervertido de quase todos os vilões da Disney — tipo o Ele, das Meninas Superpoderosas, só que embebido em LSD.
Trudy reflete sobre a importância de se buscar apoio quando necessário. Ela cita Rumi, um poeta persa do século 13, ao falar: “Abra sua mão se quer ser ajudado”. Clancy relaciona isso ao fato de que, muitas vezes, não estamos realmente escutando os outros.
Para a psicoterapeuta, temos a capacidade de perceber quando as pessoas nos escutam, e somos atraídos por elas: “Temos um sonar para quando as pessoas realmente nos ouvem”. Ela afirma que ouvir é um exercício de mindfulness, já que temos que aprender a reconhecer o que está acontecendo nas nossas mentes enquanto escutamos os outros.
Clancy diz que é por isso que, mais do que um exercício para a morte, ou para a vida, a meditação é um treinamento para a escuta — um tema que retorna no episódio 8. O personagem compara a escuta à respiração, que nos conecta com o Universo.
Depois de recuperar o namorado de Trudy e de retornar ao mundo real, Clancy percebe que seu avatar poderia ter morrido, já que ele foi feito para aproveitar os maiores êxtases da vida, incluindo a própria morte (que será comparada a um orgasmo gigante no episódio 7). Clancy planta no seu jardim a rosa mágica curadora que ganhou de Trudy. Depois, vomita em cima dela.
Posição no ranking: 5º lugar
Episódio 5: Rei das colheres
Um dos episódios em que mais precisamos fazer força para controlar a dissociação entre falas e imagens é, na verdade, o primeiro em que o tema da discussão tem impacto relevante nas cenas retratadas.
O avatar de Clancy é um arco-íris musical chamado Fofinho, e o cenário é um planeta que guarda uma prisão de almas, a qual é habitada por “seres simulados avariados tão furiosos com o medo existencial que arrancaram sua própria língua”. O lugar também pode ser entendido como uma metáfora nada sutil para a prisão da ignorância.
O convidado é o escritor e futurista Jason Louv, que se define como um anti-guru. No desenho, ele é representado por um “pássaro de almas”, que vive acorrentado a um prisioneiro mudo chamado Bob.
Logo no início, aprendemos que Clancy está emaranhado no fio da vida de Bob, e que vai acompanhar todo o seu ciclo de morte e reencarnação. É o que Jason chama de “Ciclo do Bardo”, em referência ao Livro Tibetano dos Mortos, famoso texto budista que é uma espécie de guia para a consciência atravessar os “reinos do pós-morte”.
Enquanto os ciclos acontecem, a discussão descamba para uma das conversas mais insanas da temporada. Jason cita a teoria hindu da Teia de Indra (ou Rede de Indra), segundo a qual todas as consciências do Universo estão conectadas.
Na visão hindu, o importante são os nós dessa rede, que representam cada consciência individual. E cada consciência individual é um deus único, explica Jason. Buda, no entanto, questiona essa ideia, e propõe que, na verdade, não são os nós, mas as conexões que importam, uma vez que nós sequer existimos.
Para o budismo, as coisas não têm uma qualidade inerente. Uma cadeira, por exemplo, só é uma cadeira porque atribuímos um significado a ela, e convencionamos chamá-la desse jeito. Da mesma forma, são os seres humanos. Por trás dos conceitos e significados, nós não existimos de fato.
Esse entendimento também ocorreu a Jason durante uma experiência com DMT — mesma substância psicodélica da ayahuasca, mas que, fumado, surte um efeito rápido de cerca de dez a vinte minutos.
Ele diz que, ao experimentar a sensação de vazio fundamental, resolveu batizá-lo de “o nada, mas brilhante”. Foi nessa experiência que ele concluiu que, se os franceses chamam o orgamos de “pequena morte”, então a morte poderia ser chamada de um “grande orgasmo” — ideia que se conecta com o episódio 4, que sugere ser a morte um dos maiores êxtases da vida.
Depois de várias mortes, o prisioneiro Bob finalmente entende que ele só vai conseguir fugir da prisão quando parar de lutar contra sua realidade e aceitar sua condição. Quando isso acontece, ele interrompe o ciclo de morte e vida e acessa um estado novo de consciência.
Descobrimos que ele tem uma língua e uma voz de rouxinol, que canta: “Ver meu colega de cela chorar/ Enquanto borrifava mijo quente em seus olhos arrancados/ Isso era liberdade pra mim/ Mas agora é fácil ver/ A prisão estava dentro de mim/ E na verdade eu estava mijando nos meus próprios olhos arrancados”.
Posição no ranking: 2º lugar
Episódio 6: Mente superlotada
O mundo “real” de Clancy é o protagonista deste episódio, no qual descobrimos que o spacecaster se mudou da Terra para a “Faixa Cromática” a fim de fugir de situações mal resolvidas. É o único episódio que dedica mais tempo ao histórico e ao contexto do personagem do que às conversas profundas com seres de outro mundo.
Descobrimos ainda que foi Clancy quem estragou sua relação com a irmã. E logo fica claro que o que Clancy realmente quer, ao visitar mundos simulados em busca de entrevistados, é fugir da realidade.
O personagem tenta fazer amizade com os vizinhos oferecendo uma torta Messias, mas sem sucesso. Enquanto isso, seu simulador dá sinais cada vez mais insustentáveis de falta de manutenção, demonstrando o quanto Clancy é relapso. Na ânsia de fugir para os mundos postiços, ele esquece da sua própria vida. A ajuda vem na figura do capitão Bryce, que o orienta a passar na máquina o óleo verde extraído das vacas de Chernobyl.
Só depois que ele conserta o computador é que conhecemos o convidado do episódio: o professor de budismo David Nichtern, que também já ganhou prêmios Emmy pelo seu trabalho de direção musical em séries. Para conversar com Nichtern, que é representado por um instrutor de meditação humano, Clancy assume a forma de um polvo xerife.
O personagem chega à conversa espumando de raiva, mas aceita a sugestão de Nichtern para treinar meditação. A mente de Clancy está agitada. Logo no início, ele se distrai com um macaco telefonista — que faz referência à ideia comum de comparar a mente a um macaco louco.
Mas essa ideia é logo rebatida quando Nichtern afirma que tratar a mente como um adolescente rebelde, que precisa ser parado, é uma agressão. Clancy completa a ideia, dizendo que: melhor do que enfiar um plug anal na bunda da mente, é aceitar a ideia de que existe um enxame infinito de pensamentos, e que você pode apenas observá-los até perceber que não está necessariamente ligado a eles.
Clancy volta para casa se dizendo iluminado, sem lembrar que, como dito no episódio 3, a iluminação é só o começo.
Posição no ranking: 7º lugar
Episódio 7: Papo com a morte
Clancy persiste no seu delírio de iluminação e pede ao simulador que o leve a um planeta livre de distrações, o planeta Bola Vazia. Seu avatar é uma figura igual a ele, mas feita de creme. Nada acontece lá, então o personagem saca um tobogã de sua bolsa mágica. Ao procurar por uma mangueira, ele acaba caindo dentro da bolsa e dá início à aventura do episódio.
Diferente das discussões sobre a morte que acontecem nos outros episódios, que são mais metafísicas, desta vez, Clancy reflete sobre o caráter físico da morte. Isso porque a convidada da vez é Caitlin Doughty, escritora e agente funerária conhecida no YouTube. Assumindo a imagem da Morte tradicional, ela fala sobre a evolução no tratamento dos corpos e critica o que chama de complexo industrial da morte. Ela explica que a ideia de achar que um corpo morto pode transmitir doenças só é verdade em casos de infecções, já que, ao morrer, cessamos todas as atividades biológicas. Não existe urgência depois que a pessoa já se foi. Não é preciso correr para fazer com que o defunto não se pareça um defunto. Com isso, tratamentos como embalsamentos e aqueles dados pelas funerárias são uma forma de incluir o processo de morte num sistema capitalista de produção.
O episódio é rico em simbologias. Mas um símbolo específico (com vários pontos coloridos interligados por linhas) se destaca em diversas cenas. Em um momento, Clancy até pergunta ao símbolo se ele é uma metáfora, mas o objeto não sabe responder. Trata-se da Árvore da Vida da Cabala, uma simbologia judaica que mapeia toda estrutura do mundo físico, espiritual e emocional. Entender o seu funcionamento é entender o funcionamento da própria vida. Logo, sim, o objeto é uma metáfora não só para o episódio mas para a série inteira.
Alem disso, aqueles mais ligados no tarô podem identificar vários dos arcanos maiores durante o trajeto dos personagens. São as 22 cartas que através de arquétipos — como o Louco ou a Papisa — representam um mapa da vida humana, desde o nascimento até a busca por conhecimento e a morte.
Nas cenas, é possível identificar arcanos como o Julgamento, que é representado pela sala de espelhos e o anjo saxofonista, o Diabo, o Imperador e a própria Morte, que é protagonista.
Um iluminado do reddit compilou as principais representações que surgem no episódio:
Outro detalhe interessante é que, no meio do episódio, o Imperador destrói o saxofone do anjo. Com pena, o Diabo arranca o próprio chifre e dá ao ser celestial, por quem está apaixonado. No fim, para retornar ao seu mundo, Clancy toca esse chifre (que é diferente da corneta dos outros episódios), que algumas pessoas associaram ao shofar — um instrumento que, entre outras coisas, segundo os judeus, tem a capacidade de nos despertar para os verdadeiros objetivos da vida.
Ao retornar ao seu mundo, Clancy desiste da ideia de ser iluminado, dizendo que não é tão importante assim. Ele, então, termina o episódio cantando: “Mesmo que sua vida esteja desafinada/ Você ainda pode cantarolar com ela/ É melhor ser você e desafinado/ Do que agir como alguém que encontrou a luz”.
Posição no ranking: 8º lugar
Episódio 8: Como eu nasci
Ao entrar no simulador, Clancy recebe uma visita inesperada da simulação de sua mãe, Deneen Fendig. Diferente dos outros episódios, que têm intervenções narrativas dos convidados, este último usa os áudios originais da conversa que Duncan Trussell (o Clancy) teve com sua mãe em duas ocasiões — uma delas, três semanas antes dela morrer de câncer, em 2013. É por isso que Deneen não chama Duncan de Clancy, como os outros.
Por ser tão pessoal e profundo não é raro que este episódio toque o espectador na mesma proporção.
A conversa com a mãe de Duncan, que é psicóloga, gira em torno de detalhes sobre sua circuncisão e reflexões metafísicas. Ela retoma a discussão do episódio 4, dizendo que a meditação pode ser entendida como um treinamento para a morte. E que é só quando nos entregarmos a esse conceito e aceitarmos a impermanência da vida que a ideia da morte deixa de doer. “Chorar quando precisar e encarar a morte, mesmo que tenha medo, não vai te machucar. Veja o que ela tem a ensinar, ela é uma ótima professora, e de graça.”
Deneen mostra, através de um exercício prático de meditação, os benefícios de se exercitar a presença consciente. “Se aprendermos a nos perceber e a nos sentir por dentro, nosso estado de consciência muda.” Mas para contemplar esse sentimento é preciso abrir o coração. O problema é que, como diz Ram Dass, isso dói. Deneen lembra: “Quando você analisa essa dor, percebe que ela, na verdade, é amor. Hoje, estou melhor do que nunca, porque estou conscientemente vivendo e morrendo, simultaneamente as duas coisas.”
Para além do ciclo de morte e vida, o desenho ilustra a ideia de transcendência do tempo e do espaço, dando uma pista do que seria o fluxo de conhecimento transmitido de forma oral, citado pelo Homem Aquário no episódio 3.
Quase no final, quando já está sob a forma de um planeta sendo engolido por um buraco negro, a mãe de Duncan diz que, mesmo partindo para um novo plano, o amor que ela sente nunca vai sumir, numa das cenas mais emocionantes da série.
De volta ao mundo real, Clancy descobre que o pai de Daniel Cestinha, do episódio 3, o denunciou por fazer uso ilegal do simulador. Os policiais invadem sua casa com brutalidade, mostrando que até nos desenhos o abuso de autoridade existe, e acabam explodindo tudo, causando um apocalipse. No fim, Clancy pega um ônibus com todos os convidados da série sem saber se está vivo ou morto.
A quem não consegue exercitar a paciência e quer saber logo o que acontece, Duncan Trussell deu uma pista ao Mashable: “Se tivermos uma segunda temporada, eu gostaria de explorar a ideia de gênesis, criação e ressurreição, o que costumam chamar de ‘atravessar o abismo’. Fizemos um bom trabalho explorando o apocalipse, mas depois de um apocalipse, você tem que ter o gênesis.”
Posição no ranking: 1º lugar
Por Nathan Elias-Elias
* Agradeço à saúde mental dos amigos Alexandre Aragão, Alex Chagas, Bruno Mota, Julia Rodrigues, Luiza Buchaul, Ramon Fontes e Vinícius Santos, que conseguiu se manter intacta depois de ver todos os episódios e fez com que eles me ajudassem no ranking. Um salve para a Ivy e a @peaoxonado por lembrar do tarô, no episódio 7.
La vampira nuda 1970
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Snow White and the Seven Dwarfs (1937) dir. David Hand.
ig: @tuvozenaerosol
My Heart Is That Eternal Rose (Patrick Tam, 1989)
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