Sábado de manhã, havia chovido a madrugada toda e a julgar pelas nuvens, a chuva ainda iria cair durante o dia. Da cama amarrotada no canto do quarto, Violet olhava para janela, para ela o dia estava perfeito. Perfeito para ficar em sua cama, com um par de meias velhas e quentes, lendo o livro mais bizarro que ela encontrasse. Mas hoje não era dia para isso, haviam muitas tarefas e compromissos a serem cumpridos. Sentou-se, deu uma ultima olhada para os travesseiros, suspirou, e se levantou. Primeiro esforço pessoal do dia. Vestiu-se com a roupa mais próxima na gaveta, e até que a combinação cinza e azul de sua blusa era harmoniosa as cores do dia. Seu primeiro afazer na lista de tarefas era ir até o centro da cidade, entregar documentos pessoais no seu novo emprego. Violet trabalharia a partir da próxima semana na maior livraria da cidade, cuidando da organização e reposição dos livros, o salário não era grande coisa, mas era um ótimo emprego. Como sempre, ela estava atrasada, e iria até lá andando, se apressou e saiu em passos acelerados para fora de seu apartamento.
Violet era uma garota silenciosa, não gostava de fazer barulho, de falar alto, se controlava ao máximo para não derrubar as coisas, não trombar em ninguém. Em seus 22 anos, sempre foi tímida a sua medida, não tímida o suficiente para que isso se tornasse um problema em sua vida, mas o suficiente para a caracterizarem com esse adjetivo. Seu cabelo, liso e castanho, cobria boa parte de seu rosto, deixando apenas seus olhos amendoados e atentos contrastando em tons com sua pele branca. Nesse dia em especial, ela tinha o cabelo preso em um coque desgrenhado feito com uma caneta, lhe deu um certo ar de bagunça, porem, o visual lhe caiu bem.
Chegando na livraria, suas mão suavam, o nervosismo estava presente mesmo tendo em mente que o emprego já era seu. O simples fato de estar concretizando isso, de ser algo certo, que realmente fosse acontecer, fazia com que ela suasse, tremesse, mas de um jeito saudável. Quando entrou, foi abordada por uma das atendentes da loja:
- Bom dia, posso ajudar? - disse a moça vestindo uma camiseta vermelha com o nome da livraria.
- Bom dia, eu preciso entregar esses documentos para a gerente. - Violet ria por dentro ao pensar na formalidade em que conversavam, sendo que seriam colegas de trabalho em questão de dias.
A moça a guiou até o balcão onde a gerente se encontrava, uma mulher alta, velha e elegante.
- Você deve ser a Violet, veio em um horário bom, vou arquivar seus documentos e buscar seu uniforme, enquanto isso você pode ir conhecendo a loja!
- Obrigada, irei andar por ali - disse sinalizando o setor de literatura inglesa - adoro aquele corredor.
- Então você já conhece a loja? - disse a mulher em tom surpreso.
- Esse lugar é meu playground desde que aprendi a ler - sorriu.
A gerente sorriu, e saiu por uma das portas atras do balcão. Violet foi até seu corredor preferido. Cada corredor era largo e tinha três estantes repletas de livros organizados em ordem alfabética. Ela conhecia bem aquele lugar, então foi direto para o titulo que lhe interessava no momento. Levou uns cinco minutos analisando a capa, as paginas e folheando o livro, mal poderia esperar para lê-lo, pretendia compra-lo no seu primeiro salário. Colocou o livro de volta na prateleira, mas quando o soltou, sentiu em sua mão outra mão.
- Ei, distraída. - disse o garoto do outro lado da prateleira.
- Anthony ?! O que você faz por aqui? - Violet tremia, de felicidade e nervosismo, tudo ao mesmo tempo.
Anthony era o melhor amigo de Violet desde o ensino médio. Eles se falavam regularmente desde sempre, mas não se viam muito, desde que descobriram que haviam evoluído a amizade para algo mais dentro deles, eles decidiram não ser presentes fisicamente na vida um do outro. Por que? Pelo medo. Gostavam tanto da amizade que tinham que não ousavam a botar em risco por nada. Violet o amava com o calor de dois sóis, mas nunca tocou no assunto, contia isso dentro dela como quem cuida de um bibelô de cristal na estante da sala, intocado. Já Anthony parecia ter superado, vivia contando a Violet sobre seus casos e descasos com as outras garotas que ele conhecia. De certo modo, chegava a ser cruel com ela, pois ele contava das suas incansáveis aventuras de conquistas e relacionamentos, e quando Violet estava disposta a supera-lo, a esquece-lo, ele surgia com historias sobre o quanto ela era especial para ele, o quanto ela o fazia bem. Estar perto dele a deixava desconfortável, simplesmente pelo fato dela ter que esconder a empolgação e o cuidado que ela tinha que tomar para não ficar paralisada olhando em seu rosto.
- Eu vim ver se encontrava um livro que há tempos eu não via. - disse Anthony.
- Eu fui contratada aqui, te mandei mensagem ontem, acho que você não viu, não respondeu nem nada…
- Ah, sim, desculpa. Passei o dia na casa de uma amiga, esqueci do celular. - ele parecia envergonhado em falar - Então… o que vai fazer agora?
- Eu… eu…- Violet gaguejou, não conseguia parar de pensar, ele havia passado o dia na casa de uma amiga, outra garota pra lista dela. - Eu tenho que fazer umas compras no mercado.
- Ótimo! Também preciso, vamos juntos, aí conversamos.
Ótimo. Violet só pensava no quão torturante seria ouvir sobre os novos casos de Anthony enquanto se esforçava para não demonstrar sua repulsa a cada garota que ele citasse.
A gerente apareceu segurando algumas camisetas:
- Essas são suas camisetas, e seus documentos já estão sendo encaminhados para o RH. Te vejo segunda, Violet.
Anthony e Violet saíram da livraria, o Sol estava todo coberto por nuvens carregadas. Violet, se distraiu olhando para o céu enquanto andava, e tropeçou em uma poça de agua com lama. Sua blusa cinza estava cheia de manchas de lama, e sua calça, nem se fala. Anthony a ajudou a levantar e tirou o suéter que estava usando por cima da camiseta e entregou a ela. O cheiro do suéter era o cheiro típico de Anthony, cheiro de outono, de amarelo, de perfume amadeirado, de canela, de tarde nublada. Violet respirou fundo e agradeceu.
- Você vai almoçar aonde? - disse Violet.
- Não sei. Ia te convidar para almoçar em algum lugar…
- Vamos almoçar em casa, aí eu ja posso te devolver seu suéter - Violet o interrompeu.
Passaram no mercado, Violet comprou o que precisava. Anthony decidiu que queria sopa, ela amava sopa, e assim foi decidido o almoço. Chegando em seu apartamento, Violet corou, ela havia esquecido que sua cama estava uma bagunça após ter saído apressada de manhã. Violet não gostava de receber visitas com a casa em desordem. Foi em direção a cama para arruma-la, Anthony a acompanhou,
- Deixa que eu te ajudo. - disse enquanto esticava o lençol por baixo do cobertor - A propósito, você ficou bem com o meu suéter, pode ficar com ele.
- Ele fica melhor em você. - disse Violet, com as bochechas vermelhas - Não posso aceitar.
Anthony sorriu de canto. Ela não conseguia imaginar o quão difícil seria para ela ter uma peça de roupa de Anthony, com o cheiro dele, a sua disposição. O silencio começou a ficar desconfortável, então Violet, para puxar assunto, decidiu se ferir um pouco.
- E a amiga, a que você passou a tarde ontem, você não me falou sobre ela.
- Ah, é uma amiga da faculdade, foi bom conversar com alguém diferente.
Alguém diferente? Violet estava confusa.
- Como assim alguém diferente? Vocês conversaram sobre o que? - disse enquanto ajeitava os travesseiros.
- Alguem diferente, só me abro com você, precisava me abrir com outra pessoa. Aliás, por que você tem tantos travesseiros? Nossa.
- Me sinto menos sozinha antes de dormir.
Silencio. Violet não conseguia parar de pensar no porquê ele precisaria de outra pessoa para se abrir. Talvez estivesse em busca de um relacionamento mais serio.
- Foi bom conversar com ela? - disse Violet ainda ajeitando os travesseiros, não queria encará-lo.
- Foi diferente, mesmo porque o assunto foi bem diferente do que geralmente eu e você conversamos.
- Que assunto? - Violet estava intrigada.
- Você parece estar com ciúme. - Anthony riu, e em seguida ficou tenso - O assunto… bom, o assunto era você.
- Sim. Acho que… - Anthony gaguejou- que nós precisamos conversar… senta.
Violet se sentou na ponta da cama, Anthony sentou do lado. Na cabeça dela, ao mesmo tempo se passava tudo, e nada. Anthony pegou em sua mão, e disse suavemente:
- Vi, eu vou sair do país.
O suéter que ela vestia parecia ser feito de chumbo agora. O chão parecia estar mais perto, e o teto também. Anthony continuou:
- Estou indo essa semana, para a Turquia. Vou trabalhar em um sítio arqueológico lá. Não tenho previsão de retorno.
Uma lagrima escorreu pelo rosto de Violet.
- Eu estou feliz por você, juro, ignore minhas lágrimas. - disse enquanto ele tentava secar o que escorria por seu rosto. - Vou sentir sua falta.
- Eu precisava te dizer umas coisas antes de ir, talvez eu volte e você esteja casada, com filhos, e eu nunca mais tenha essa chance. - ele ficou serio - Violet, lembra no ensino médio, que a gente tinha decidido se ver menos para não sentirmos mais paixão um pelo outro?
- Como esquecer, sofri como se tivessem rasgado minha copia de Senhor dos Aneis autografada pelo Orlando Bloom. - riu.
- Então.. você acha que deu certo?
- Não sei… para você deu?
O rosto de Violet ardia. Ela o amava, mas o odiava com a mesma força. Ele decidiu dizer isso agora, que ia embora em três dias. Seu apelido deveria ser Tortura.
- Você ta querendo dizer que… que você ainda sente algo por mim? - disse Violet, insegura.
- Sempre senti, só não disse para não estragar seus outros relacionamentos, sempre achei que você soubesse dos meus sentimentos, afinal você nunca me contou de outros garotos, imagino que para não me ferir.
Violet queria socá-lo. Mas só o abraçou.
- Eu te odeio, sabia? Vamos logo fazer o almoço, estou com fome. - ela o soltou e riu.
Anthony parecia meio triste. Violet não iria falar de seus sentimentos, não tinha coragem. Enquanto cortavam os legumes e conversavam sobre filmes, sobre o cachorro da vizinha, Violet só conseguia pensar em como dizer a ele o que ela sentia, e ainda mais se ela deveria dizer algo. Sopa pronta, sentaram na mesa e Violet começou a dizer antes que seu estômago embrulhasse e ela perdesse completamente a fome:
- Sabe, Tony, nós não deveriamos ter feito acordo nenhum, deveríamos ter deixado a vida fluir como ela deve. - as mãos de Violet suavam frio - No caso, não funcionou para você, e para mim foi uma tortura completa.
- Uma tortura? - Anthony olhava confuso para o prato de sopa.
- Sim, Tony, ou você acha que foi fácil te ouvir falando de todas essas garotas, não me apaixonar por mais ninguém porque eu estava ocupada demais pensando em você, esconder todo meu sentimento que me corroia cada vez mais, - as lagrimas escorriam em seu rosto - para você chegar, me dizendo que vai embora e que nunca me esqueceu.
Violet levantou da mesa e foi para a sala. Anthony ficou lá, na mesa, por um tempo. Cinco minutos depois ele se levantou e foi até a sala.
- O que a gente faz agora? - ele olhava fixamente o rosto dela.
- Não sei, Tony, não sei.
- Acho melhor eu ir embora. - os olhos de Anthony lacrimejavam como se ele fosse explodir em lagrimas a qualquer momento.
Violet não reagiu, estava sentada no sofá fitando a parede. Anthony se levantou e foi em direção a porta. Antes de sair, deu uma ultima olhada para trás, Violet ainda estava imóvel. Assim que a porta bateu, Violet desabou em lagrimas, dessa vez com muito mais força. Sentia como se seu coração estivesse sendo enlatado, aprisionado em uma caixinha. Junto com suas lagrimas, começou a chuva. Quanto mais ela soluçava, mais a chuva apertava. Violet se deitou no sofá, e enfiou a cara em uma almofada, até que alguém tocou a campainha. Ela não ia atender. Seja lá quem fosse, não podia ver ela daquele jeito. A campainha não parava. Com raiva, Violet se levantou e foi atender. Quando abriu a porta, Anthony estava em seu tapete, lavado de chuva. Naquele momento, um milhão de substancias químicas foram liberadas em seu organismo. Violet não pensou duas vezes, agarrou o rosto de Anthony e o beijou com toda a força com que ela chorava. Anthony a acompanhou e foi guiando os dois para dentro do apartamento e fechou a porta. Se beijaram por um longo tempo, até que Anthony parou e disse:
- O que ta acontecendo? Eu nunca achei que isso fosse acontecer.
- Cansei de “achar” - disse Violet tocando em seu peito, ensopado de agua da chuva - Você vai ficar gripado.
Violet irou sua blusa como o diabo tiraria o terço da mão do crente jurado a queimar no inferno. Anthony, surpreso, sorriu de canto e a beijou de novo. Não que houvesse escolha para ele. Violet estava ali e nada a pararia naquele momento. A Terra se alinhou com todos os planetas da galáxia. A calça de Anthony se perdeu em algum canto daquela casa, e na cama de Violet não sobrou nenhum travesseiro. Para uma mulher silenciosa, aquela tarde ela fez um escândalo. Depois do jantar o ciclo se repetiu, de novo, e de novo, até que não havia mais energia, e o sono ordenou que parassem. Anthony iria embora, mas teria motivos para voltar.
Domingo de manhã, havia chovido a madrugada toda e a julgar pelas nuvens, a chuva ainda iria cair durante o dia. Da cama amarrotada no canto do quarto, Violet olhava para janela, para ela o dia estava perfeito. Perfeito para ficar em sua cama, com um par de meias velhas e quentes, lendo o livro mais bizarro que ela encontrasse. Mas hoje não era dia para isso.