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Uma identidade brasileira em palavras
Beatriz Esmeraldo
18 de maio
Sou uma miscigenação de ausências e presenças súbitas. Se você me olhar, não procure um espelho; não sou branca, não sou caucasiana. Sou o silêncio do sangue Karipuna que corre, denso e secreto, do Rio Jamary, das terras áridas de Guaporé, onde um povo foi quase totalmente apagado do mapa. O que restou deles vive no ritmo do meu pulso.
O resto? O resto é um mapa que não ajuda a esclarecer nada, porque esclarecer é limitar, e eu sou um derramamento. Como explicar o sol português aquecendo a terra do Ceará, o pálido fantasma holandês vagando por Sergipe, a sombra espanhola estendendo-se sobre o Pantanal alagado, a fria disciplina alemã do Paraná e o pesado anseio italiano, preso à terra, no Rio Grande do Sul? Todos estão dentro de mim, lutando e amando, criando um ruído interno que parece um zumbido silencioso e vibrante.
Sou brasileira, das quatro costas do Brasil, o que significa que sou feita de água que nunca para. Mais do que isso, sou uma mulher do continente de Amarakka — uma vasta extensão de terra pulsante que me acolhe mesmo quando escorrego por entre seus dedos.
Ser tantas coisas é uma forma de não ser nada. É uma vertigem.
Sou um estrangeiro em minha própria terra. Caminho por ela com o estranhamento de quem acaba de chegar de outro planeta, mas reconheço cada pedra. Não tenho pátria; minha pátria é o exato momento em que respiro.
E como não tenho chão, tenho fome. Não é fome de comida; é fome de existência. Quero poder falar a língua universal da paz — não a paz do silêncio, mas a paz que surge quando tudo finalmente se compreende. Quero um lugar para repousar a cabeça, um pequeno recanto do universo que diga: silêncio, você está aqui.
É por isso que escrevo. Escrevo com a urgência de quem está ficando sem tempo, mesmo que o tempo não exista. Deslizo meus dedos por esta areia virtual, nesta arena virtual, sabendo que a maré do éter digital irá varrer tudo. Mas, por ora, a palavra é meu único alicerce. Estou me escrevendo antes que o vento mude de direção.
© Beatriz Esmer
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O SAGRADO NÃO-SABER
Beatriz Esmeraldo
mai 2
Às vezes, o que eu não sei é tão vasto que se torna a minha própria pele. Eu não sei de quase nada, e esse não-saber me arranha a garganta.
Como explicar o veneno que governos destilam sobre seu próprio povo? É uma lucidez fria que me escapa. E as crianças, ah, as crianças, que caem sob o peso de um metal que cospe morte, segurado por mãos que ainda guardam o cheiro do giz e do pátio. São meninos matando meninos, e o ferro é mais pesado que a alma.
Sinto o mundo oscilar. O planeta cambaleia, um gigante tonto, e nós, em nossa arrogância miúda, nos recusamos a dizer: "fui eu". Negamos a culpa enquanto o chão treme sob nossos pés. Tornou-se um erro social, quase uma falta de etiqueta, compartilhar a dor.
Silenciamos as perguntas como quem esconde uma mancha feia no vestido.
Eu não sei. Realmente, não sei!
Mas, no centro desse deserto, há um latejo. Existe um Coração Sagrado batendo bem no meio da ferida, e ele não pede licença para pulsar. Eu sei, e essa certeza me queima, que quando nos olhamos nos olhos e lembramos de quem somos, o mundo, por um segundo, respira. É um suspiro de esperança que vem do fundo do estômago.
O que me resta? Amar a partir do meu próprio centro. Um amor que nasce das entranhas e se torna a fonte de tudo o que vive. Mesmo quando tropeçamos, mesmo nesse nosso desamparo desajeitado, não estamos sós. Podemos escolher o amor como um ato de resistência contra a brutalidade. Podemos fazer das dúvidas do coração um ritmo comum, uma graça que se divide como pão.
Haveria outro caminho? Que tipo de vida seria essa, se não houvesse o risco da esperança?
Eu não sei... sinto que não sei de nada. Mas talvez esse "não saber" seja o meu modo mais profundo de existir.
O mistério é a minha única certeza.
© Beatriz Esmer
"Ler é afogar-se no mar"
Jeferson Tenório
em
Jeferson Tenório: tornar-se literatura
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