Eu sei que você está me ouvindo, Dixie. A voz reproduzida pelo pequeno aparelho que jazia sobre sua mesa de centro ressoava por todo seu apartamento e por sua própria cabeça. Apenas encarava o objeto, incapaz de reagir às palavras de Leon. Desde o momento em que recebera uma das notícias mais devastadoras de sua vida, a mulher entrara em um estado catatônico. Seus olhos eram incapazes de produzir uma lágrima sequer, dormir parecia ser uma atividade distante e impossível de ser realizada, assim como se alimentar. Seu desejo e energia pareciam nulos. A única coisa ativa em seu corpo era sua mente. Incansavelmente repensava sobre todos os erros que cometera e que acabaram por dar um fim em um relacionamento que, aparentemente, tinha um prazo para acabar. Imaginar que Braiden pudesse ter passado seus últimos momentos de vida sozinho, que ele pudesse ter passado por algum momento de dificuldade, alguma dor ou pane sem ter ninguém ao seu lado para ajuda-lo, fazia com que ela se sentisse a pessoa mais imunda a colocar os pés naquele planeta. Sentia nojo de si mesma. Mas, principalmente, sentia-se triste pelo fato das coisas entre eles terem sido deixadas daquela maneira. Braiden Haynes havia morrido também achando que ela era uma péssima pessoa, tendo seu amor corrompido por seus erros estúpidos. Por que é que não podia ter sido ela no lugar do androide?
5 dias já se passaram. Seu cenho se franziu enquanto encarava o pequeno objeto que servia como porta-voz do rapaz que continuada do outro lado da porta. Havia perdido a noção do tempo. Um dia ou mês poderiam ter se passado, ela não saberia dizer. Assim que adentrara seu apartamento, após a noite mais confusa e deprimente de sua vida, decidira se isolar do mundo lá fora, principalmente das pessoas. Elas faziam perguntas demais, tocavam em assuntos sobre os quais não queria falar, davam palavras de apoio que quase sempre lhe causavam o efeito contrario e sempre compartilhavam suas próprias experiências com o intuito de tentar fazê-la não se sentir sozinha. Não, não queria encarar aquelas pessoas. Pessoas que a conheciam, ou pelo menos achavam que o faziam. Trancou qualquer entrada que pudesse ser usada por visitantes indesejados e desligou qualquer meio de comunicação, com exceção de um. Durante sua promoção, recebera de presente um walkie-talkie, que era usado pelos líderes do grupo Rebelde para comunicarem-se entre si. Além de saber que aquele objeto era usado apenas por Leon e Imogen, pessoas que nunca ultrapassaram o limite da intimidade ou agiram de maneira inconveniente, jamais conseguiria se desconectar completamente do restante do grupo. Apesar de seus problemas pessoas, ainda havia uma guerra lá fora e pessoas correndo risco de vida. Jamais perdoaria a si mesmo caso Enid tivesse se metido em alguma confusão e ela não estivesse presente para ajuda-la, ou Nemo, ou Gus ou qualquer outro membro da resistência. Carregaria o peso da culpa de sua traição e da morte de Brant pelo resto de sua vida, e aquilo era ruim o bastante, não havia o porquê adicionar ainda mais dor a isso. Sim, talvez Epsilon a conhecesse bem o bastante.
As próximas palavras do rapaz pareciam responder dúvidas que pairavam sobre sua cabeça. Poderia parecer infantilidade e fuga de suas responsabilidades sumir logo após se tornar Conselheira Rebelde, sem dúvida alguma as más línguas faziam comentários venenosos sobre aquilo, mas ela pouco se importava. Elas sempre encontravam um motivo para fazer comentários venenosos. Já não sabia mais se era uma parte importante eficaz naquele grupo, se ainda era necessária. E aquele sentimento não era algo recente, era uma insegurança que já a atormentava há algum tempo e que já havia a afastado anteriormente. Mas a cobrança viria de algum modo, ela ainda tinha responsabilidades dentro e fora de seus túneis, assim como os demais. De qualquer maneira, era reconfortante saber que seus líderes respeitavam seu espaço e seu luto. Bem, era de se esperar que eles fossem sobreviver muito bem sem a minha presença. Apesar de seu sentimento de gratidão naquele momento, ela continuava ali, inerte, apenas o escutando e se recusando a recebê-lo ou sequer lhe dar uma resposta.
Não estou aqui como seu chefe, estou aqui como um amigo. E então aquela fala a pegara de surpresa. De maneira alguma esperava escutar aquilo vindo de Leon Epsilon, um rapaz que sempre demonstrara ser uma pessoa séria e fria. Sequer podia imaginar que ele era capaz de dizer algo assim, principalmente para ela. Um nó, subitamente, se formava em sua garganta. E eu trouxe suco e um sanduíche de atum antes que você morra de inanição. Um riso fraco escapou de seus lábios enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. Aquilo era adorável. Imaginar que alguém se importava tanto assim com ela era comovente. Por mais que pudesse estar machucando alguém com seu isolamento súbito, aquela era sua reação natural ao enfrentar situações e sentimentos como aqueles, pois era sua maneira de privá-los de um sofrimento ainda maior. Era impossível não imaginar como a vida de Braiden teria sido caso ela tivesse se afastado a tempo, caso não tivesse se deixado envolver ao ponto de submetê-lo a tantas situações desagradáveis, caso tivesse privado de sua existência. Maldito Marfik! Até mesmo o ressentimento que sentia por seu pai havia retornando durante toda aquela confusão. A criação do homem com o objetivo de protegê-la havia sido seu maior presente, mas também sua maior maldição. Aquela era sua mente, um emaranhado de dicotomias que não faziam o maior sentido para a mulher já exausta, que já não aguentava mais aquela maldita montanha-russa. Quando é que tudo aquilo faria sentido? Quando é que descobriria seu propósito?
Agora as lágrimas escorriam pelo seu rosto, que logo fora enterrado em suas próprias mãos. Como navalhas, as palavras do homem a atingiam, fazendo com que parte dos sentimentos que conseguira suprimir com sucesso, atingisse a superfície novamente. Era exatamente aquilo que ela tentava evitar, deixar com que pessoas se aproximassem o bastante para ver suas fraquezas e sua vulnerabilidade. Seus sentimentos cabiam apenas a ela e a mais ninguém. Seria ela realmente capaz de superar aquele golpe? Um dia podia considerar-se uma mulher forte, mas será que ainda continuava a mesma? Até mesmo os lutadores mais fortes tinham suas fraquezas e sua primeira derrota, até o momento em que já não conseguiam mais lutar. Desejava acreditar em Leon, ter a certeza de que estava certo, mas ela não podia. Não conseguia se forçar a acreditar que tudo ficaria bem e que ela ainda poderia ajudar os demais rebeldes a também conquistarem sua felicidade. A lista de pessoas a quem amara, a quem magoara e perdera durante todo o percurso parecia apenas aumentar, e Dixie já não sabia o quanto mais seria capaz de aguentar, mesmo sabendo que não era a única a enfrentar dificuldades e estar naquele barco. Era triste pensar que se daria por vencida, mas aquela parecia ser uma possibilidade próxima de se concretizar.
E assim como ela, o rapaz pareceu desistir de sua missão, o que fez com que ela imediatamente se levantasse e pegasse o aparelho de cima da mesa, e então desse alguns passos em direção da porta antes de ordenar que suas pernas parassem. Havia ganhado aquela disputa, porque é que tentava reverter o resultado? Aquele era um homem que confiara nela desde o inicio, que sempre fizera de tudo para ajuda-la a manter-se forte e focada, que servia como um exemplo de garra, maturidade e comprometimento, não podia permitir que ele saísse dali daquela maneira. Devia ao menos uma explicação a ele, pois lhe devia respeito. Daria um fim àquela infantilidade, pelo menos por ora.“Espere, já vou abrir a porta.” Disse pelo walkie-talkie com uma voz rouca e baixa. Permaneceu parada por alguns instantes, respirando fundo e recolhendo coragem para recebê-lo e enfrentá-lo. Quando finalmente decidiu que estava pronta, deus os últimos passos faltantes e abriu a porta. “Me desculpe.” Disse automaticamente sem nem ao menos encará-lo, evitando olhar para seus olhos. Logo em seguida, virou-se e partiu de volta para o sofá, sentando-se logo em seguida e deixando a porta aberta para que ele pudesse adentrar o local. Jogou a cabeça para trás, para que assim encarasse o teto sob sua cabeça.“Eu sei que devo explicações pra você e pra Imogen, assim como pro resto do grupo, mas… Me desculpe.” Falava sem permitir que o outro comandasse o rumo do diálogo, ainda que fosse incapaz de completar o que dizia. Talvez, se focasse aquela conversa em suas responsabilidades, apenas escutasse os sermões de seu superior, ela se tornasse menos dolorida e fácil de ser enfrentada.
Cedendo ao incômodo da perna direita, que passara muito tempo em uma mesma posição rígida, Leon deixou que o estofamento da primeira poltrona que encontrou na sala envolvesse seus ombros com gentileza. Subitamente, uma forte sensação de alívio lhe preencheu o corpo, como se sua musculatura agradecesse a rara trégua. Na maior parte das vezes, era difícil para Leon aceitar que não tinha mais o preparo físico de antes, ainda que fosse jovem. Era a consequência e o eterno fardo de um acidente que lhe roubara uma das pernas cedo demais.
Detestava ceder a um eventual cansaço ou à dor. Mas passara muito tempo lá fora.
Respirou fundo, mais à vontade do que imaginara que ficaria. Talvez Dixie considerasse seu ato como uma afirmação de poder ou invasão de espaço, mas preferia passar essa impressão do que admitir, em voz alta, que simplesmente sua perna lhe limitava os movimentos.
Não era nada pessoal. Dixie era provavelmente a rebelde em que mais confiava além de Imogen, sem contar que sabia que a mulher já tinha consciência de seu problema - provando isso com o presente de Natal que lhe dera meses antes. O dilema real era que Epsilon não era capaz de admitir essa certa fraqueza nem para si mesmo.
Lançou um olhar grave para ela, indicando a poltrona à sua frente, como se pedisse para que ela se sentasse. Quanta presunção, Dixie pensaria. A casa nem é dele.
— Eu não quero suas desculpas.
A voz rouca saíra mais séria do que Leon esperava. Pigarreou, tentando corrigir-se antes de receber um olhar constrangido por parte de Dixie.
Às vezes, sentia que todo o crescimento pessoal realmente significativo que tivera durante sua infância e adolescência se desfizera durante e após o exército. Julgava ter perdido a facilidade de lidar com situações daquele tipo, tornando-se alguém inatingível e difícil de ler. Mesmo que tivesse se acostumado com essas novas características, uma constatação daquele tipo, naquele momento de incômodo silêncio, lhe pareceu a confirmação de um destino extremamente injusto. Leon sempre fora, por natureza, extremamente verdadeiro e comunicativo; era estranho pensar em como os anos pareciam estar tirando isso dele, ainda que não soubesse até que ponto ele mesmo não tentava se reprimir pelo medo de tornar a ser o Leon inconsequente e infantil de antes.
Fechou os olhos por um momento e, então, concentrou toda a sua atenção no rosto da rebelde. Da amiga.
— Dixie, por que você acha que eu e Imogen resolvemos te dar um cargo de tanta importância? Honestamente. — Agora havia serenidade em sua voz, um tom que surpreendeu até a si mesmo. — Porque te achamos... invencível? — Abriu um leve sorriso sem humor. — I mean, look at me.
Seus dedos batucavam lentamente contra seu joelho ruim. Uma mensagem elegante e discreta.
— Quando minha mãe morreu, passei anos da minha vida em um estado que era um misto de adrenalina e sonambulismo. Me ocupava entre os dois, pulando de um a outro quando me cansava. Foi uma merda, porque não soube separar as coisas. Descontei a raiva que senti em todos os aspectos da minha vida. Foi assim que Imogen me conheceu: uma pessoa extremamente desequilibrada. Mais do que isso, tinha um histórico militar impecável que impedia que qualquer um do grupo confiasse em mim até para passar um pano no chão. Mas Imogen viu através disso. E, como você pode ver, estamos aqui.
De alguma forma, falar sobre aquilo era menos doloroso do que falar sobre sua perna. Talvez porque o assunto que agora vocalizava em alto e bom tom tivesse sido repetido tantas vezes que já não doía como antes.
— O que estou querendo dizer com isso é que você, Dixie, tem um potencial extremamente superior ao que eu tinha.
Desviou o olhar por um momento. Não podia deixar de notar o contraste entre o luxo do apartamento e a frieza que ele emanava.
— Em muitos aspectos, na verdade. Você sempre se mostrou uma pessoa confiável. Uma lealdade tão grande que conseguiu superar qualquer má impressão que poderia ter ficado depois do que aconteceu durante o Banquete. É justa, sabe controlar suas emoções na maior parte do tempo. Ajuda as pessoas a se defenderem. Tem tanto respeito pelo grupo que prefere se isolar a colocar uma ambição idiota de reconhecimento na frente da segurança dos outros. E poderia ter descontado toda a sua tristeza em mim, por estar invadindo seu espaço, e fechado a porta na minha cara. Mas não fez isso, diferentemente do que eu, algum tempo atrás, provavelmente teria feito.
Era uma avalanche de informações, mas Leon falava tudo com muito cuidado, como se quisesse dar a ela o tempo para digerir tudo. Havia uma certa leveza na maneira como se expressava naquele momento, uma leveza que não experimentava com frequência - a não ser pelas conversas com Gale. Era como se voltasse no tempo e tornasse a ser o Leon de antes do exército, o Leon que não tinha dificuldade para falar e, mais do que isso, não tinha dificuldade para falar com sinceridade.
Observou a morena por um momento, notando o modo com que suas olheiras cavavam profundas marcas em sua pele.
— Enfim. Se a Resistência precisasse de líderes perfeitos, Imogen não estaria lá. Eu, muito menos. — Passou os dedos longos despretensiosamente sobre a barba por fazer, pensativo. Sempre deixava de fazer a barba em momentos de muito estresse. — Se você alcançou o que alcançou, é porque provou seu valor justamente através da sua humanidade. Ganhou a admiração das pessoas com isso. Então, você tem todo o direito de sumir, se assim achar necessário. Não é todo dia em que se perde alguém que se ama, afinal.
— Além disso, ninguém... Ninguém espera que você seja um robô, Dignal. E você bem sabe que até androides têm sentimentos.
E aquela frase final pareceu pairar no ar entre os dois, como se fosse pesada demais para ser absorvida instantaneamente. Talvez não fosse o melhor a se dizer, mas essa é uma das inevitáveis consequências da sinceridade.
— Por favor, não olhe pra mim como se eu estivesse em outro andar. Isso não existe. É por isso que nós temos líderes e não chefes. Não me peça mais desculpas, a não ser que exista um motivo verdadeiramente válido para isso. Eu realmente estou aqui apenas porque eu, Leon, quis. O vice-líder não tem nada a ver com isso. Você pode até procurar por ele assim que precisar, mas ele não está aqui agora.
Soltou uma lufada de ar quente pelos lábios antes de sua voz grossa tomar o ambiente mais uma vez.
— Now... is there anything I can do for you?