Estirado na cama, quase incapaz de se mover, manteve o olhar fixo no teto por dez longos minutos. Os olhos azuis de vidro sustentavam atenção imperturbável sobre os feixes de luz que atravessavam as frestas da veneziana da janela e alcançavam as paredes brancas do quarto. Lentamente, recuperava a consciência de si e do ambiente ao seu redor ao mesmo tempo em que aguardava o momento em que os batimentos acelerados de seu coração finalmente retornariam à normalidade.
Tinha sono leve há muitos anos. Estava acostumado e não tinha zelo por sua própria saúde ao ponto de se importar com isso. No entanto, episódios como aquele, em especial, eram recentes. Acordava no meio da noite, acometido por uma súbita sensação de pânico, e então não conseguia mais voltar a dormir. Era quase como se pudesse sentir o sangue pulsando em suas veias; uma sensibilidade que lhe era estranha. Sua respiração descompassada se fazia audível. Uma dor de cabeça latente fazia com que o travesseiro sob sua nuca parecesse quente demais.
Estava suando frio.
Ergueu-se sobre os cotovelos e desviou o olhar sobre o relógio de pulso que havia deixado acima do criado-mudo; então, esticou o braço e encostou o dedo trêmulo no vidro translúcido. O toque sobre a tela fez com que os ponteiros se iluminassem – quatro horas da manhã.
Ansiedade. Leon já tivera várias experiências com isso. Durante a infância, quando fora obrigado a assistir e suportar violência doméstica. Durante a adolescência, quando passara a tomar para si mesmo responsabilidades que não deveriam ser suas. Durante a juventude, quando fora obrigado entrar para o exército. Durante sua reintegração à vida civil em Gallica l, quando sua mãe desaparecera e sua irmã se voltara para o lado dos opressores. Finalmente, durante sua inserção no grupo rebelde.
No entanto, quando assumiu o posto de vice-líder, Leon passou a tentar controlar os próprios sentimentos de forma a nunca mais se permitir ser fraco ou sentir medo. Havia se tornado um ponto de apoio e esperança para as outras pessoas; não podia se dar ao luxo de viver por sua individualidade. Vivia pelo coletivo. E assim podia, também, manter-se ocupado o suficiente para escapar aos momentos de crise existencial. Dessa maneira, Leon deixara de pertencer a si mesmo; pertencia aos outros. Pertencia à Resistência. À Revolução.
No entanto, quanto mais velho Leon ficava, mais era acometido pelo maior dos males da vida adulta: a dúvida. Por mais que não admitisse em voz alta, muito menos a si mesmo, Leon sentia, em seu íntimo, uma enorme amargura ao pensar no rumo que sua vida havia tomado. E não podia evitar os eventuais “e se” que lhe acometiam a cabeça – sonhos de realidades muito distantes daquela que havia se condicionado a aceitar.
Nesses momentos em que acordava com o coração palpitando, cheio de um misto de arrependimento e culpa, não conseguia mais voltar a fechar os olhos. Tomado por uma terrível sensação de urgência, levantava-se da cama e tentava ocupar a cabeça com algo além de seus próprios problemas. Era inteligente e maduro para muitas coisas, mas tinha uma preocupante dificuldade em lidar com seus bloqueios e inseguranças. Preferia permanecer alheio a isso, ignorando a própria saúde mental até o momento em que o corpo eventualmente passava a dar sinais de que algo estava errado. Surgiam, assim, as crises de ansiedade: o motivo pelo qual havia acordado àquela altura da madrugada.
Levantou-se, descalço; em seguida, atravessou o quarto até alcançar o corredor. Antes de seguir para a sala, porém, lançou um rápido olhar para dentro do quarto de Gale, localizado de frente ao seu. Por mais que o caçula dos Epsilon tivesse deixado de ser criança há muito tempo, para Leon era simplesmente instintivo inclinar-se sobre a fresta da porta e verificar se estava tudo bem.
Talvez simplesmente não suportasse a ideia de perder mais alguém e, por isso, precisasse constantemente provar a si mesmo que o irmão não estava correndo perigo.
À distância, Gale rolou para a outra borda da cama e soltou um profundo ronco.
Tudo estava bem.
Ainda um pouco abatido pelo despertar violento, Leon caminhou até alcançar a porta da sala. Lançou-se para fora de casa e sentou-se nos degraus que ligavam a entrada da sacada frontal ao jardim. Respirou profundamente e então se pôs a observar as luzes da cidade, radiantes à distância. Uma brisa fria arranhou seu rosto quente e úmido de suor.
“Sempre que estiver nervoso, querido, procure respirar três vezes enquanto pensa em coisas boas”, dizia Rileea.
Leon fechou os olhos.
Inspira.
Olhando o jardim descuidado, lembrou-se dos irmãos erguendo bonecos de neve durante o inverno, cerca de vinte anos antes.
Expira.
Inspira.
A lembrança que se seguiu, naturalmente, foi a de sua mãe. Em seus dias bons, Rileea costumava recostar-se sobre o batente da porta enquanto observava os filhos brincando.
Expira.
Inspira.
Por fim, ergueu o queixo e abriu os olhos. Na enorme cúpula escura que se erguia acima dos telhados de Gallica l, mal se podia ver as estrelas; mas Leon sabia que ali, em algum lugar, havia a constelação Canis Major. Nela, a estrela Adhara – a segunda mais brilhante, depois de Sirius.
Pensar na garota loira de olhos escuros foi inevitável.
Subitamente, sentiu uma dor no peito. Mais um sintoma de ansiedade, talvez. Ou quem sabe Leon fosse apenas covarde demais para admitir a si mesmo o quanto sentia falta dela. Adhara.
Só então percebeu que havia prendido a respiração por tempo demais.
Soltou o ar pela boca, sentindo os batimentos cardíacos latentes novamente. Não podia, afinal, deixar de notar que suas melhores lembranças vinham exclusivamente de memórias de tempos muito distantes. Principalmente, não podia ignorar o fato de que estas eram protagonizadas por pessoas que não mais faziam parte de sua vida: sua mãe, Cleo, Adhara.
Restava-lhe apenas Gale e nada mais.
Dessa vez, nem mesmo o melhor dos mecanismos de defesa pôde afastar Leon do pensamento que mais lhe afligira desde o momento em que abrira os olhos azuis. Pensamento esse que, agora, se traduzia na mais pura e simples sensação de angústia.
Na calada da noite, às quatro horas e meia da manhã, Leon Epsilon se deu conta de que estava profundamente sozinho.