A sexta-feira deságua com esse aroma ambíguo de finitude e aurora, mas em mim ela ancora. Enquanto o mundo se borda de brilhos e urgências, eu me revisto de ausências. Lá fora, a cidade acende seus incêndios festivos; aqui dentro, sou apenas o silêncio que observa.
Os risos atravessam a rua como flechas que não me alcançam. Mensagens pulsam em telas frias, mas minha mente é um claustro sem frestas, onde pensamentos insones caminham em círculos, gastando o assoalho da memória.
O coração, esse operário exausto, bate contra o peito como quem esmurra uma porta esquecida. Dizem que a sexta é leve, mas há um nó de ferro em minha garganta, uma anatomia que desconhece a lógica dos calendários.
O sábado aproxima-se como um espelho vasto e impiedoso. Ele reflete a geometria árida do quarto: a colcha sem vincos, a ordem excessiva de quem não tem com quem bagunçar a vida. O tempo não flui; ele estagna, pois não há destino para onde minha pressa possa fugir.
O domingo chega com seu céu de cinza e pálpebras caídas. Traz um silêncio que grita mais alto que qualquer multidão. A solidão, já íntima, puxa a cadeira e serve-se à mesa; tomamos um café amargo enquanto ela me narra, em detalhes, todos os meus "quase".
Minha cabeça é um museu de hipóteses, repleto de diálogos que ensaiei e nunca proferi. Sinto a melancolia de quem perdeu um tesouro que sequer teve a chance de tocar.
Quando a noite de domingo tomba, a rotina estende seu tapete de espinhos. O despertador é o carrasco da aurora; as horas são marcos de uma semana que se alonga como um corredor sem janelas. Monotonia não é apenas repetir; é a erosão da esperança pelo hábito. É deitar-se com o mesmo fardo e acordar sem o susto da novidade.
• A sexta dói pelo que se espera.
• O sábado pesa pelo que falta.
• O domingo silencia pelo que se sabe.
E eu, suspenso entre os dias, cultivo uma esperança franzina: a de que algum fim de semana finalmente mude o tom, troque o eco pelo abraço e transforme este deserto em cais.