It was because they were two parts of a whole. He did not belong to her. And she did not belong to him. It was never about belonging to someone. It was about belonging together.
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A ousadia dele de se aproximar mesmo quando ela praticamente o rejeitava só contribuiu para que sua raiva aumentasse, dando a Eillela a certeza de que se Salazar não estivesse segurando seus pulsos naquele instante, ela teria acertado-lhe a face com um tapa, tamanha era sua indignação. Seu querido tio afirmava as coisas com tanta propriedade que acabava a induzindo a questionar-se, levantar questões quais antes ela nem ao menos fazia questão de responder e constatar isso depois de ser pressionada por ele certamente a tirava do sério. Contudo, mesmo que por dentro estivesse fervendo de raiva, já havia entendido onde ele queria chegar; além de observadora, Eillela não era burra e tampouco idiota e, por este motivo, conseguia enxergar claramente o quanto ele se divertia por colocá-la em situações como aquela, a satisfação que brincava naqueles lábios por provar que estava certo. Pelos Ares, ela não sabia mais separar o desejo do ódio que sentiu dele naquele momento mesmo que, por fora, sua expressão estivesse impassível. Não daria a ele motivos para vangloriar-se a respeito dela, não mais; não depois de ser traída pelo próprio corpo.
Longos segundos se passaram até que ela absorvesse as palavras finais dele, minutos estes que foram usados para que ela decidisse qual era a melhor atitude para ser tomada. Poderia muito bem empurrá-lo novamente e deixá-lo ali sozinho. Poderia também lhe acertar a face e gritar que exigia respeito, que ele não tinha direito de trazer a tona aquela noite em que permitiu que ele a tivesse como quisesse, mas não; Leela optou por entrar na dele, envolvê-lo novamente naquele jogo de sedução qual ela já se via acostumada a jogar. Encarando-o diretamente nos olhos, Eillela sorriu. Diferente de qualquer outro sorriso que ela havia oferecido a ele durante o tempo em que partilhavam aquela biblioteca, este transbordava segundas intenções e lembranças da noite que haviam passado juntos na torre.
— Não pareceu importar-se com isso quando era você que eu montava, uh? Como meu cavalo de equitação particular. — Sem dar tempo para uma reação imediata, foi sem esforço que ela soltou os pulsos das mãos masculinas e o trouxe para mais perto de si, consequentemente deixando-se encostar na mesa.
Nas pontas nos pés, fez com que as mãos delicadas percorressem o peitoral largo, sentindo no tato o tecido caro que compunha as vestes dele quando na verdade almejava sentir sua pele. Alcançando seus ombros, a princesa inclinou o rosto de modo que os lábios róseos alcançassem o maxilar marcado; a barba por fazer roçando neles. Um, dois, três, quatro beijos languidos foram o necessário para que sua boca alcançasse o que podia do pescoço tristemente coberto; os dedos da mão destra se perdendo entre os cabelos castanhos, as unhas se arrastando suavemente no couro cabeludo. A outra mão, por sua vez, aventurava-se no tronco forte; sua imaginação fértil a levando a recordar-se de como era bom sentir aquela parte do corpo dele em sua boca e a calma que ela agia só contribuía para que ela desejasse cada vez mais um contato maior com ele. Eillela suspirou. — Porque se isso fosse relevante, meu tio, você teria reclamado, não? E não me recordo de ouvi-lo reclamar… Só de ouvi-lo gemer. — Ao pé do ouvido dele, a voz meliflua era suave, arrastada, quase que sussurrada; propositalmente provocativa, ela diria. Sabia que era jogo baixo, mas se ele podia… Por quê não? — E até onde eu sei, gemidos são um sinal de prazer nesse caso em especial, certo? Parece que não é o único que sabe reconhecer quando o outro está sentindo prazer… — Sorrateiramente, a mão que o acariciava no abdômen escorregou mais abaixo, permitindo que ela sentisse em seus dedos a rigidez da parte mais íntima do corpo masculino. Imaginar maneiras que poderia tirar proveito disso levou-a a morder o lábio. — E parece-me que não sou a única aqui a senti-lo, não é mesmo? — Sarcástica, mas nem por isso desprovida de malícia, ela finalizou. Arrastando os dentes no lóbulo de Salazar, Eillela usou como benefício a aparente falta de reação do homem para afastar-se e foi para perto da poltrona que ele antes ocupava; nos lábios um sorriso divertido e prepotente ameaçando dar o ar das graças. Aquela “brincadeira” de fato não tinha efeito só nele e iflingir uma distância segura era necessário.
De certo a reação de Eillela não fora, de longe, a que ele esperava. Envolvido pelo véu daquelas provocações, suas atuais intenções eram irrita-la como já o fazia, pela simples diversão de tê-la daquela forma, quando não podia tê-la nua. Aquele sorriso que ela lhe direcionou, entretanto, indicava que algo estava muito errado; e então, levando as semelhanças às suas lembranças mais uma vez naquela tarde, ele a viu na torre, minutos antes de ser deixado para trás com sua excitação evidente, seu corpo clamando por algo que ele não teria ali novamente. Parecia, afinal, que ele não era o único a gostar de jogar; daquela vez, no entanto, ele não a deixaria sair vitoriosa.
O maior erro de Salazar fora esperar muito das atitudes, mas nada das palavras, sendo precisamente estas últimas a deixa-lo sem reação por preciosos instantes que fariam toda a diferença para o curso que aquilo estava tomando. “Como meu cavalo de equitação particular”; ele não podia acreditar que a mesma garota que fazia birra sobre suas atitudes segundos antes era a mesma que proferia tais palavras. Como se o incendiasse, a frase percorria por suas veias, causando nele aquela raiva característica, sempre acompanhada pelo desejo dissonante que ele sentia pela princesa. Se Eillela achava que ele era dela de qualquer forma que fosse, estava muito enganada; pelo menos, era isso o que ele dizia a si mesmo.
Um passo involuntário foi dado quando ela o puxou consigo, os olhos observando brevemente as mãos dela se movendo sendo apenas mais um elemento na expressão impassível. Controlando precariamente seus instintos, ele apoiou suas mãos na mesa, uma de cada lado do corpo dela, esperando o que viria a seguir. Seus dedos apertaram-se na madeira maciça ao ter a pele arrepiada por aqueles beijos que ele gostaria de desprezar, mas desejava mais do que se permitia admitir. Sabendo que ela não poderia vê-lo, seus olhos se fecharam quando os dedos finos entraram em contrato com seu coro cabeludo, as unhas arranhando o local sensível, fazendo ele mexer sutilmente a cabeça em aprovação, sem que saísse de sua postura defensiva. Contudo, nada havia sido mais difícil de controlar do que o que ele sentiu quando ela voltou a falar.
Os músculos do corpo másculo se retesaram, as juntas dos dedos esbranquiçaram-se tamanha a força que ele exercia sobre o objeto que segurava, os olhos abriram-se de súbito, a íris queimando em fúria. Salazar nunca gemia para uma mulher; independente do prazer, sua honra como homem era muito mais importante. No dia da torre, entretanto, sua cabeça estava tão cheia de problemas, seu corpo estava tão farto de todo aquele estresse e a mulher com quem se deitava era tão… diferente, que ele deixou-se levar, como sempre fazia quando estava com ela. Se arrependera naquele mesmo momento, segurando-se para levar seu plano – de esperar até que ela acabasse – adiante.
Não podia negar que era extremamente difícil concentrar-se em sua raiva enquanto ela disferia carícias por seu corpo, a mão no abdômen preparando-o para o que ele sabia que viria a seguir; e ela não o decepcionou. Os dedos delicados fecharam-se sobre seu membro rígido envolto pela calça, levando uma carga elétrica por todos os outros músculos do Conselheiro. Tentando manter a calma, mordeu levemente os próprios lábios, os olhos fechando-se por breves segundos, grato por ela não ser capaz de ver sua expressão. “Garotinha insolente…” seus pensamentos permeavam entre a irritação e a diversão que ele sentia, enquanto seus braços caíam ao lado de seu corpo, dando espaço para ela fugir, o que ele sabia que a princesa faria. Mais uma vez Eillela não quebrou suas expectativas; agora era a sua vez de jogar.
Virando lentamente na direção onde ela se encontrava, parou apenas quando seus olhos encontraram os dela, tão castanhos quanto os seus, tão característicos da família Arkauss. Tão confiante, tão prepotente, sua sobrinha parecia se divertir excepcionalmente com a mesma estratégia que usara no dia da torre, provavelmente imaginando que conseguiria o mesmo fim. Pensando nisso, Salazar sorriu; um sorriso sujo, perverso. Sem nada dizer, caminhou a passos lentos até estar frente à princesa, fazendo-a recuar até a parede que fazia o intervalo entre duas estantes, uma delas inibindo a visão para a porta de entrada. Ao tê-la com as costas contra a pedra fria, ele parou; mediu-a então com os olhos de cima a baixo, até parar novamente em seus gêmeos, encarando-os. – Vossa alteza não acha que eu a deixarei repetir os feitos daquele fatídico dia, acha? – A voz baixa arrastava-se da mesma forma como a dela havia feito minutos atrás, os rostos a centímetros de distância. Uma das mãos grandes pousou-se no quadril, escorregando sorrateiramente para a coxa de Eillela, enquanto a outra tirava os cabelos do pescoço delicado, liberando-o para que ele arrastasse os lábios por sua extensão. – Eu creio que não. – Sussurrou quando sua boca estava próxima a orelha da morena, a barba por fazer roçando no maxilar frágil, a mão antes ocupada agora pousada sobre a cintura fina. Arrastando lentamente sua bochecha sobre a dela, ele finalmente pôde encara-la nos olhos novamente, os lábios próximos, os narizes não se tocando por milímetros. – Pois sabes que não cometerei o mesmo erro, e não te deixarei sair daqui até que peça por favor para que eu te faça gozar enquanto te fodo da forma como eu sei que você gosta. – E então, com apenas um pequeno puxão, levou uma das coxas da sobrinha até seu quadril, encaixando os corpos.
“Leela?”. Uma voz aguda chamou quando a porta da biblioteca foi aberta, fazendo Salazar congelar no lugar. Atordoado, o ex-príncipe encarou a princesa com o cenho franzido por alguns segundos, até escutar passos se aproximando. Não podia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Sabendo que deveria tomar alguma atitude, socou a parede ao lado da cabeça de Eillela com raiva, desvencilhando-se dela e dando as costas para poder sair daquele lugar. Passou por sua sobrinha caçula sem ser capaz de direcionar a ela sequer um cumprimento, batendo a porta do cômodo ao passar. Mais uma vez deixava um local agraciado pela presença da morena com as calças desconfortavelmente apertadas, e nada naquele dia poderia deixa-lo mais irritado que aquilo. Mais uma vez, as coisas não seguiram como o planejado; estava tornando-se um hábito quando perto de Eillela.
Aquele sorriso não era bom sinal. Mesmo que, ela era obrigada a admitir, tornasse o rosto bonito ainda mais atrativo, a reação que esperou dele era muito oposta àquela - ou assim ela dizia a si mesma -. Sustentando veemente o olhar que a fazia queimar por dentro, foi involuntariamente que a princesa recuou; era como se fossem dois imãs de polos iguais, a proximidade com ele a fazia querer recuar ao mesmo tempo em que tudo o que ela mais queria era estar junto dele. Todo seu corpo já reagia àquela atmosfera de caça e predador imposta por ele; já estava arrepiada, sua boca sedenta pela dele e o corpo saudoso por seus toques; que tipo de desejo era aquele que a consumia tão rapidamente? Logo ela, que sempre fez questão de manter-se no comando - fosse de seus sentimentos, de suas atitudes ou de seu corpo -, estava pateticamente excitada por causa de um homem que nem a tinha tocado ainda. Sua ruína foi permitir que ele se aproximasse demais para que o fizesse.
Encontrou-se sem saída quando as costas tocaram a parede de pedra. Encostando a cabeça ali, Eillela observou-o despi-la com os olhos de tal maneira que a fez querer que ele a despisse no sentido literal da palavra. Mordendo o lábio inferior, deixou que as palavras penetrassem em sua mente assim como o queria dentro de si; o rosto junto ao seu e os lábios que ela almejava a tão poucos centímetros de distância sendo os responsáveis por impedir que ela raciocinasse direito, que ela o afastasse como deveria fazer. O único pensamento que rondava sua mente era o quanto ela desejava beijá-lo, sentir sua boca percorrendo-lhe o corpo e causando sensações novas e viciantes, porém, ainda existia uma minúscula parte de seu cérebro que desaprovação tudo aquilo: a forma que ele jogava e a manipulava, a posse que ele parecia achar ser dele toda vez que a tocava; a mesma posse com que a tocou naquele exato instante. Foi quase automático: a mão rude tomou-lhe os quadris e Leela finalmente reagiu, agarrando o colarinho das vestes reais masculinas para afastá-lo de si; entretanto, a ideia dissipou-se tão rápido quanto veio, bastou senti-la escorregar até sua coxa e os lábios quentes lhe acariciando a pele para que em vez de empurrá-lo, os dedos presos no tecido tentassem trazê-lo mais para perto. Fechando os olhos durante aqueles torturantes segundos em que ele aproveitava-se de sua clara condescendência, a herdeira demorou para abri-los quando novamente sentiu a respiração dele próxima a sua, encontrando o par de olhos idênticos aos seus querendo enxergar através de sua alma. Entreabrindo os lábios, foi por eles que um quase imperceptível suspiro saiu no instante em que ela associou as últimas palavras dele. Nunca, desde que iniciara sua vida sexual, um homem portou-se de forma tão insolente assim em sua presença, e tampouco dirigiu-se a ela usando daquela linguagem baixa. Piscando algumas vezes, Eillela mais uma vez perdia-se na dualidade que ele insistia em colocá-la com suas atitudes; foi pela segunda vez naquele dia que ela quis estapea-lo e beijá-lo, gritar com ele e, pelos céus, gemer o quanto ela queria aquilo; o quanto ela o queria. Salazar a deixava dividida de maneira irritantemente eficaz. A confusão estampada nos olhos dela deu lugar ao desejo cego e ela estava pronta para encerrar aquele jogo de "quem aguenta mais" quando o destino decidiu intervir; "Leela?" ela ouviu bem ao fundo a voz de sua irmã. Nunca sentiu-se tão desgostosa e frustrada pela presença de Melorie como naquele momento; não entenda mal, Eillela amava sua irmãzinha de todo seu coração, contudo, a desaprovava por ser naquele momento, seu algoz. Salazar afastou-se antes que Eillela pudesse dizer alguma coisa a deixando lá, sozinha, excitada e frustrada, exatamente como ela o havia deixado no dia da torre. A reação de seu tio, porém, deixava claro que ela não era a única a sentir-se assim, por isso vê-lo dar-lhe as costas foi no mínimo... Desapontante. Melorie pôs-se no campo de visão da irmã mais velha alguns minutos depois, obrigando a princesa herdeira a disfarçar o estado em que se encontrava. Acompanhou-a e escutou o que ela tinha a dizer, mesmo que sua mente estivesse bem longe dali, presa aos pensamentos mais impuros e impróprios acerca de uma pessoa qual ela devia manter-se afastada. Não que ela se importasse, afinal, o que era mais um "erro" em meio a tantos outros?
Sair de seus planos estava se tornando mais constante do que ele gostaria de admitir; no entanto, sempre que percebia que as coisas estavam fora de controle, já era tarde demais. Aquele momento era um bom exemplo; quando a viu entrando naquela biblioteca, sua intenção era deixa-la irritada, fazê-la sentir um pouco da vergonha que ele mesmo sentiu no dia da torre, sem que parasse de agir como deveria: um príncipe envolto pela cordialidade. Ao contrário disto, lá estava ele, debruçado sobre o corpo voluptuoso, prendendo-o contra uma mesa de maneira totalmente desrespeitosa se considerados os fatos: ela era uma dama, além de ser a futura rainha de Ishtar. Não podia ser hipócrita e dizer que se importava com aquilo exatamente; o que o atormentaria mais tarde – como sempre acontecia depois de estar na presença da mulher – era a forma impulsiva como ele se portava quando estava junto a ela.
— Não seja tola, Eillela; nem você sabia o que exigir deles até o dia de hoje. — Ele continuou usando o mesmo tom, desta vez olhando para o perfil do rosto levemente corado, seu nariz quase encostando na bochecha dela. Não podia negar que aquelas palavras o irritavam; ele, como homem, sentia-se ultrajado por ela estar citando outros em sua presença, quando eles na verdade não deveriam nem mesmo ter existido na vida de uma princesa. Eillela, no entanto, não era nada convencional, muito menos razoável, e ele sabia que ela escolhia as exatas palavras para atingi-lo de alguma forma. Por este motivo se conteve, continuando precariamente aquele jogo perigoso que ele mesmo havia começado.
Salazar percebeu, infelizmente tarde demais, que seu controle não estava nos melhores dias; quando sua audição foi capaz de absorver a última frase solta pelos lábios rosados, ele soube. Seu corpo tensionou, seu maxilar travou e suas mãos pressionaram levemente as que estavam abaixo, antes de desvenciliar-se. Após aquilo, ele não pensou, apenas agiu.
Sua mão grosseira apanhou rapidamente a parte mais baixa da saia do vestido que podia alcançar, erguendo-a até que seus dedos pudessem ter livre acesso pela região que ele desejava. E então, sem nada dizer, ele a tocou entre as pernas; delicadamente, contrastando com a forma como se sentia. Notou instantaneamente a umidade íntima, e um sorriso perverso surgiu em seu rosto após tal constatação. — Eu também sei. — Sussurrou, sério, antes de recolher a mão, levando os dedos aos lábios, limpando-os enquanto endireitava a postura, sem mover-se mais que o necessário.
Toda aquela impertinência e aquele tom exageradamente confiante davam-na vontade de acabar com a graça dele de todas as formas que pudesse; melhor, da forma que ela melhor conhecia e sabia que o tirava do sério: abrindo feridas no ego imenso que ele carregava. Autoconfiante em demasia, Salazar sabia reconhecer seus dotes e tinha tanta certeza que a tivera nas mãos no noite em que passaram juntos - o que não deixava de ser verdade -, que o deixava frustrado não tê-la perseguindo-o por aí em busca de mais do que ele a tinha oferecido. Ele estava corretíssimo quanto a parte dela não saber o que procurava até aquele dia, até ele; porém, isso não significava que na primeira oportunidade Eillela se jogaria em seus braços pedindo por mais, - pelo menos não até chegar ao seu limite -. O orgulho que ostentava era tanto seu pior defeito e sua melhor qualidade, pois ao mesmo tempo em que a impedia de baixar a cabeça, a levava a tomar atitudes e decisões um tato quanto estúpidas. A manhã em que provocou-o para depois deixá-lo sozinho e excitado naquela torre fria era um claro exemplo daquilo; ela, desejando pagar na mesma moeda a provocação e a frustração que havia sentido quando ele vestiu-lhe o espartilho, teve que abrir mão daquilo que tanto almejava sentir de novo, pois sim, sabia que se não fosse por sua interrupção teriam feito daquelas paredes de pedra seu refúgio uma vez mais e teriam transformado aquela manhã fria em uma calorosa sem haver necessidade de um sol. É claro que sua primeira reação ao prazer de dar o troco foi ficar eufórica e satisfeita, mas depois, na privacidade de seu quarto e mergulhada na água morna, uma parte da princesa arrependeu-se; como ele mesmo havia dito, “fugiu quando teve a oportunidade de sentir prazer” e admitir para si mesma que ele estava certo fê-la sentir raiva; o sangue fervendo dentro das veias e as mãos fechadas em punho contra a mesa de madeira. Ela, por sua vez, pareceu não ser a única a ficar irritada ali.
Foi inevitável sorrir no instante em que a compreensão o atingiu e seu corpo reagiu aquilo. Eillela pode sentir os músculos do corpo masculino, muito próximo do dela retesarem, a respiração acelerar e a mudança instantânea no ambiente, mas ao contrário do que ela imaginava, ele não afastou-se e saiu gritando porta afora, como ela esperava que fizesse, não; a atitude seguinte de Salazar seria responsável por deixar Eillela surpresa durante os próximos dias. Impedida de mover-se pelo peso que ele exercia sobre si, foi incapaz de fazer algo quando percebeu que ele lhe levantava a saia de seu vestido fora protestar com palavras. Ela virou a cabeça para trás como podia na intenção de ver o que ele faria, e quando viu o caminho que a mão dele tomava a princesa arregalou os olhos; os dedos a tocando intimamente responsáveis por fazê-la fechar as pernas rapidamente. Seu corpo imediatamente estremece e ela sentiu-se apertar-se internamente em torno do nada, ao passo que a umidade concentrada agora nos dedos dele entregava e deitava suas mentiras ao chão. A princesa de Ishtar amaldiçoou-se mentalmente, porém, não esboçou nenhuma reação física, nem quando ele recolheu as mãos nem enquanto o observava lamber os dedos, seus olhos escurecendo em reação a quão erótica aquela atitude parecera. Contudo, por mais que seu corpo traidor desejasse, gritasse pelo toque dele, a herdeira ainda sentia-se ultrajada tamanha fora a ousadia de seu tio.
Fosse ele qualquer outro homem ou se não a tivesse pegado tão desprevenida, sem dúvida alguma o esbofetearia e exigiria respeito, a única coisa que ela quis durante a vida inteira e não conseguir reagir só fez aumentar a raiva que ela sentia. Era uma bagunça muito grande de sensações dentro da mulher e ela não soube o que fazer durante os minutos que sucederam a última frase de Salazar, entretanto, quando a névoa em sua mente começou a se dissipar Leela moveu-se com um rompante; as mãos espalmando-se naquele peitoral largo e dessa vez sem nenhuma intenção além de afastá-lo de si. — Como ousa tocar-me sem minha permissão?! — Questionou, o ultraje presente em cada palavra proferida mesmo que não tivesse aumentado o tom de voz numa nota sequer. — Com quem acha que estás lidando? Uma das putas que é acostumado a foder? Sou sua sobrinha, Salazar, uma dama, e acima de tudo herdeira do trono de meu pai e exijo que me respeite. Não tem o direito de tocar-me a não ser que eu queira que o faça.
O gosto da mulher a sua frente era muito mais apurado em seu paladar do que qualquer outro que ele já havia provado; não podia dizer o porquê, apenas era. Dançando em sua boca, o sabor da excitação da princesa o fazia sentir vontade de beija-la, de possuí-la ali mesmo de maneira selvagem, castigando-a por ser tão teimosa, por irrita-lo como ela o fazia. Tinha que evitar, no entanto, sair mais do controle do que ele já havia se permitido sair.
Ele já esperava que a reação de Eillela não fosse das melhores; sabia que havia passado dos limites. Não podia, entretanto, controlar aquele instinto de provar que sim, estava certo; sim, ela estava mentindo; mas, principalmente, sim, ela o desejava. Era mais do que claro que Salazar estava satisfeito com tal constatação, afinal, aquela era a primeira vez que alguém o negava tão descaradamente, e mesmo estando longe de ser um homem que se gabava por seus feitos, estava acostumado à receptividade feminina, coisa que sua sobrinha insistia em negar-lhe verbalmente.
Abaixou os olhos para as mãos espalmadas em seu peito, o sorriso petulante, insolente, permeando seus lábios, a irritação da morena sendo combustível para seu âmago; mas não apenas isto. Dentre todas as coisas, o ex-príncipe havia aprendido a apreciar as feições de sua não-tão-adorável sobrinha, e estas pareciam tornar-se ainda mais atrativas para o homem quando tomadas pela raiva e ultraje que ele a causava.
As palavras proferidas pela voz melíflua o fizeram olha-la nos olhos, o divertimento tomando conta de si, ainda que a raiva permanecesse ali. Dando um passo na direção de Eillela, Salazar segurou seus pulsos, sem poder evitar relembrar do momento muito parecido na torre abandonada, mesmo que seu aperto desta vez fosse suave. — Se bem sei, uma dama não sai por ai montando em homens como se fossem seu cavalo de equitação. — As palavras fluíram ácidas, o tom baixo em evidência enquanto ele mantinha seus corpos próximos. A provocação era clara, já a ereção que se fazia presente dentro de suas calças permanecia em segredo.
A ousadia dele de se aproximar mesmo quando ela praticamente o rejeitava só contribuiu para que sua raiva aumentasse, dando a Eillela a certeza de que se Salazar não estivesse segurando seus pulsos naquele instante, ela teria acertado-lhe a face com um tapa, tamanha era sua indignação. Seu querido tio afirmava as coisas com tanta propriedade que acabava a induzindo a questionar-se, levantar questões quais antes ela nem ao menos fazia questão de responder e constatar isso depois de ser pressionada por ele certamente a tirava do sério. Contudo, mesmo que por dentro estivesse fervendo de raiva, já havia entendido onde ele queria chegar; além de observadora, Eillela não era burra e tampouco idiota e, por este motivo, conseguia enxergar claramente o quanto ele se divertia por colocá-la em situações como aquela, a satisfação que brincava naqueles lábios por provar que estava certo. Pelos Ares, ela não sabia mais separar o desejo do ódio que sentiu dele naquele momento mesmo que, por fora, sua expressão estivesse impassível. Não daria a ele motivos para vangloriar-se a respeito dela, não mais; não depois de ser traída pelo próprio corpo.
Longos segundos se passaram até que ela absorvesse as palavras finais dele, minutos estes que foram usados para que ela decidisse qual era a melhor atitude para ser tomada. Poderia muito bem empurrá-lo novamente e deixá-lo ali sozinho. Poderia também lhe acertar a face e gritar que exigia respeito, que ele não tinha direito de trazer a tona aquela noite em que permitiu que ele a tivesse como quisesse, mas não; Leela optou por entrar na dele, envolvê-lo novamente naquele jogo de sedução qual ela já se via acostumada a jogar. Encarando-o diretamente nos olhos, Eillela sorriu. Diferente de qualquer outro sorriso que ela havia oferecido a ele durante o tempo em que partilhavam aquela biblioteca, este transbordava segundas intenções e lembranças da noite que haviam passado juntos na torre.
— Não pareceu importar-se com isso quando era você que eu montava, uh? Como meu cavalo de equitação particular. — Sem dar tempo para uma reação imediata, foi sem esforço que ela soltou os pulsos das mãos masculinas e o trouxe para mais perto de si, consequentemente deixando-se encostar na mesa.
Nas pontas nos pés, fez com que as mãos delicadas percorressem o peitoral largo, sentindo no tato o tecido caro que compunha as vestes dele quando na verdade almejava sentir sua pele. Alcançando seus ombros, a princesa inclinou o rosto de modo que os lábios róseos alcançassem o maxilar marcado; a barba por fazer roçando neles. Um, dois, três, quatro beijos languidos foram o necessário para que sua boca alcançasse o que podia do pescoço tristemente coberto; os dedos da mão destra se perdendo entre os cabelos castanhos, as unhas se arrastando suavemente no couro cabeludo. A outra mão, por sua vez, aventurava-se no tronco forte; sua imaginação fértil a levando a recordar-se de como era bom sentir aquela parte do corpo dele em sua boca e a calma que ela agia só contribuía para que ela desejasse cada vez mais um contato maior com ele. Eillela suspirou. — Porque se isso fosse relevante, meu tio, você teria reclamado, não? E não me recordo de ouvi-lo reclamar… Só de ouvi-lo gemer. — Ao pé do ouvido dele, a voz meliflua era suave, arrastada, quase que sussurrada; propositalmente provocativa, ela diria. Sabia que era jogo baixo, mas se ele podia… Por quê não? — E até onde eu sei, gemidos são um sinal de prazer nesse caso em especial, certo? Parece que não é o único que sabe reconhecer quando o outro está sentindo prazer… — Sorrateiramente, a mão que o acariciava no abdômen escorregou mais abaixo, permitindo que ela sentisse em seus dedos a rigidez da parte mais íntima do corpo masculino. Imaginar maneiras que poderia tirar proveito disso levou-a a morder o lábio. — E parece-me que não sou a única aqui a senti-lo, não é mesmo? — Sarcástica, mas nem por isso desprovida de malícia, ela finalizou. Arrastando os dentes no lóbulo de Salazar, Eillela usou como benefício a aparente falta de reação do homem para afastar-se e foi para perto da poltrona que ele antes ocupava; nos lábios um sorriso divertido e prepotente ameaçando dar o ar das graças. Aquela “brincadeira” de fato não tinha efeito só nele e iflingir uma distância segura era necessário.
Broken isn’t the same as unfixable.
Marissa Meyer, Winter (via booksqouted)
Sair de seus planos estava se tornando mais constante do que ele gostaria de admitir; no entanto, sempre que percebia que as coisas estavam fora de controle, já era tarde demais. Aquele momento era um bom exemplo; quando a viu entrando naquela biblioteca, sua intenção era deixa-la irritada, fazê-la sentir um pouco da vergonha que ele mesmo sentiu no dia da torre, sem que parasse de agir como deveria: um príncipe envolto pela cordialidade. Ao contrário disto, lá estava ele, debruçado sobre o corpo voluptuoso, prendendo-o contra uma mesa de maneira totalmente desrespeitosa se considerados os fatos: ela era uma dama, além de ser a futura rainha de Ishtar. Não podia ser hipócrita e dizer que se importava com aquilo exatamente; o que o atormentaria mais tarde – como sempre acontecia depois de estar na presença da mulher – era a forma impulsiva como ele se portava quando estava junto a ela.
— Não seja tola, Eillela; nem você sabia o que exigir deles até o dia de hoje. — Ele continuou usando o mesmo tom, desta vez olhando para o perfil do rosto levemente corado, seu nariz quase encostando na bochecha dela. Não podia negar que aquelas palavras o irritavam; ele, como homem, sentia-se ultrajado por ela estar citando outros em sua presença, quando eles na verdade não deveriam nem mesmo ter existido na vida de uma princesa. Eillela, no entanto, não era nada convencional, muito menos razoável, e ele sabia que ela escolhia as exatas palavras para atingi-lo de alguma forma. Por este motivo se conteve, continuando precariamente aquele jogo perigoso que ele mesmo havia começado.
Salazar percebeu, infelizmente tarde demais, que seu controle não estava nos melhores dias; quando sua audição foi capaz de absorver a última frase solta pelos lábios rosados, ele soube. Seu corpo tensionou, seu maxilar travou e suas mãos pressionaram levemente as que estavam abaixo, antes de desvenciliar-se. Após aquilo, ele não pensou, apenas agiu.
Sua mão grosseira apanhou rapidamente a parte mais baixa da saia do vestido que podia alcançar, erguendo-a até que seus dedos pudessem ter livre acesso pela região que ele desejava. E então, sem nada dizer, ele a tocou entre as pernas; delicadamente, contrastando com a forma como se sentia. Notou instantaneamente a umidade íntima, e um sorriso perverso surgiu em seu rosto após tal constatação. — Eu também sei. — Sussurrou, sério, antes de recolher a mão, levando os dedos aos lábios, limpando-os enquanto endireitava a postura, sem mover-se mais que o necessário.
Toda aquela impertinência e aquele tom exageradamente confiante davam-na vontade de acabar com a graça dele de todas as formas que pudesse; melhor, da forma que ela melhor conhecia e sabia que o tirava do sério: abrindo feridas no ego imenso que ele carregava. Autoconfiante em demasia, Salazar sabia reconhecer seus dotes e tinha tanta certeza que a tivera nas mãos no noite em que passaram juntos - o que não deixava de ser verdade -, que o deixava frustrado não tê-la perseguindo-o por aí em busca de mais do que ele a tinha oferecido. Ele estava corretíssimo quanto a parte dela não saber o que procurava até aquele dia, até ele; porém, isso não significava que na primeira oportunidade Eillela se jogaria em seus braços pedindo por mais, - pelo menos não até chegar ao seu limite -. O orgulho que ostentava era tanto seu pior defeito e sua melhor qualidade, pois ao mesmo tempo em que a impedia de baixar a cabeça, a levava a tomar atitudes e decisões um tato quanto estúpidas. A manhã em que provocou-o para depois deixá-lo sozinho e excitado naquela torre fria era um claro exemplo daquilo; ela, desejando pagar na mesma moeda a provocação e a frustração que havia sentido quando ele vestiu-lhe o espartilho, teve que abrir mão daquilo que tanto almejava sentir de novo, pois sim, sabia que se não fosse por sua interrupção teriam feito daquelas paredes de pedra seu refúgio uma vez mais e teriam transformado aquela manhã fria em uma calorosa sem haver necessidade de um sol. É claro que sua primeira reação ao prazer de dar o troco foi ficar eufórica e satisfeita, mas depois, na privacidade de seu quarto e mergulhada na água morna, uma parte da princesa arrependeu-se; como ele mesmo havia dito, “fugiu quando teve a oportunidade de sentir prazer” e admitir para si mesma que ele estava certo fê-la sentir raiva; o sangue fervendo dentro das veias e as mãos fechadas em punho contra a mesa de madeira. Ela, por sua vez, pareceu não ser a única a ficar irritada ali.
Foi inevitável sorrir no instante em que a compreensão o atingiu e seu corpo reagiu aquilo. Eillela pode sentir os músculos do corpo masculino, muito próximo do dela retesarem, a respiração acelerar e a mudança instantânea no ambiente, mas ao contrário do que ela imaginava, ele não afastou-se e saiu gritando porta afora, como ela esperava que fizesse, não; a atitude seguinte de Salazar seria responsável por deixar Eillela surpresa durante os próximos dias. Impedida de mover-se pelo peso que ele exercia sobre si, foi incapaz de fazer algo quando percebeu que ele lhe levantava a saia de seu vestido fora protestar com palavras. Ela virou a cabeça para trás como podia na intenção de ver o que ele faria, e quando viu o caminho que a mão dele tomava a princesa arregalou os olhos; os dedos a tocando intimamente responsáveis por fazê-la fechar as pernas rapidamente. Seu corpo imediatamente estremece e ela sentiu-se apertar-se internamente em torno do nada, ao passo que a umidade concentrada agora nos dedos dele entregava e deitava suas mentiras ao chão. A princesa de Ishtar amaldiçoou-se mentalmente, porém, não esboçou nenhuma reação física, nem quando ele recolheu as mãos nem enquanto o observava lamber os dedos, seus olhos escurecendo em reação a quão erótica aquela atitude parecera. Contudo, por mais que seu corpo traidor desejasse, gritasse pelo toque dele, a herdeira ainda sentia-se ultrajada tamanha fora a ousadia de seu tio.
Fosse ele qualquer outro homem ou se não a tivesse pegado tão desprevenida, sem dúvida alguma o esbofetearia e exigiria respeito, a única coisa que ela quis durante a vida inteira e não conseguir reagir só fez aumentar a raiva que ela sentia. Era uma bagunça muito grande de sensações dentro da mulher e ela não soube o que fazer durante os minutos que sucederam a última frase de Salazar, entretanto, quando a névoa em sua mente começou a se dissipar Leela moveu-se com um rompante; as mãos espalmando-se naquele peitoral largo e dessa vez sem nenhuma intenção além de afastá-lo de si. — Como ousa tocar-me sem minha permissão?! — Questionou, o ultraje presente em cada palavra proferida mesmo que não tivesse aumentado o tom de voz numa nota sequer. — Com quem acha que estás lidando? Uma das putas que é acostumado a foder? Sou sua sobrinha, Salazar, uma dama, e acima de tudo herdeira do trono de meu pai e exijo que me respeite. Não tem o direito de tocar-me a não ser que eu queira que o faça.
Não é preciso dizer que a reação que teve como resposta da sobrinha não fora como ele esperava; pelo menos, não a parte em que ela o tocava. No mesmo instante em que teve as mãos dela sobre suas vestes, seus músculos tensionaram, desta vez de uma maneira desagradável; como Salazar gostava de dizer, Eillela era previsível demais, ao passo que saber que aquela atitude dela não lhe renderia bons frutos era inevitável. Nada fez, no entanto; apenas esperou, escutando atentamente as palavras de tom cínico da morena, sua expressão controlada impassível até que ela tocasse a pele descoberta de sua nuca. Arrepiou-se, agradecendo suas vestes longas por ela não poder notar aquilo.
A sensação desconfortavelmente agradável, no entanto, durou pouco.
Primeiro, veio a raiva; irracional e crua, que queimou em seus olhos. Esta, no entanto, não tinha motivos para estar ali se não pelo ego do ex-príncipe, ou por aquele instinto possessivo que era seu de natureza. Desta forma, logo se foi, influenciada pelo controle precário que ele preparara para aquela conversa. Depois, então, o desconforto: como ela ousava confirmar aquilo que ele já sabia em palavras? Verbalizar, mesmo que sutilmente, que já deitara-se com outros homem senão ele? Enfim o sentimento vingativo retornou, fazendo-o sorrir de maneira cruel assim que ela se afastou.
— Tão cômico quanto vossa alteza insinuando que outros já fizeram seu corpo estremecer como estremeceu quando me abrigou em si, enquanto certamente deitara-se, antes de mim, com homens que sequer sabiam ler, quem dirá fazer uma mulher chegar ao seu máximo. — Ao contrário do que suas palavras indicavam, não existia presunção em sua voz; apenas o desprezo presente em sua referência a homens de classes mais baixas. Enquanto falava – o tom leve, contido, dissimulado – novamente aproximava-se da princesa, parando exatamente atrás desta ao final de suas palavras.
Sem esperar que ela reagisse ao que havia dito, rapidamente levou suas mãos rudes para sobre as pequenas e delicadas, fazendo-as parar de folhear aquele livro. Como consequência, inclinou seu corpo sobre o dela, o tronco colado nas costas, os quadris separados apenas pelas peças de roupas. Não podia negar o quão erótico aquilo era para si; no entanto, para que cumprisse seu objetivo, encostou os lábios na orelha esquerda, ignorando seus sentimentos vís. — Mulheres que temem o prazer. — As palavras arrastadas pela voz sussurrada, rouca, foram seguidas pelos dentes do homem, que arrastaram-se lenta e sutilmente pelo lóbulo sensível da mulher a sua frente. Não havia planejado toca-la; entretanto ela, como sempre, o fazia sair dos eixos.
Precisou de mais que alguns minutos para absorver as palavras ousadas. Pouco a pouco seu semblante contorceu-se em ultraje mas ela não teve reação, pelo menos não uma imediata. Sentiu-se incapaz de fazê-lo porque ao mesmo tempo em que achava falta de decoro a forma que ele se dirigia a ela, as palavras dele tiveram o efeito desejado, causando um pequeno alvoroço em seu corpo. Como era possível reagir a uma mera frase? Recusava-se a aceitar que o desejo que sentia por aquele homem ia assim tão além do que imaginava; seu corpo, porém, parecia bem disposto a fazê-la ir contra às próprias afirmações. Era culpa dela, também; permitir que as lembranças daquela noite na torre abandonada invadissem sua mente justamente naquele momento era pedir por tortura, era confirmar o ponto dele e esse gosto ela não daria a Salazar. Desse modo, mais uma vez obrigou-se a ignorar todas as reações físicas que teve; o arrepio que lhe percorreu toda a espinha, a pequena falha na respiração e sobretudo o aperto que sentiu por dentro, num ponto bem abaixo de seu umbigo como se o corpo dela estivesse dizendo que sentia falta do dele.
Sua falha foi gastar tempo demais em tal tarefa; sentir as mãos grandes sobre as suas fez com seu corpo retesasse imediatamente, desejando se ver livre daquela encurralada. Porém, sua vontade logo se tornou inversa quando percebeu quão próximo do seu estava o corpo masculino; tão próximo que ela podia senti-lo. Ela assistiu todas as suas tentativas de manter-se neutra se esvaírem a medida que seu corpo mais uma vez esquentava, reagindo com uma rapidez estúpida ao tê-lo novamente tão junto a si, a sensação de reconhecimento enevoando a mente dela e trazendo um torpor que, ela sabia, faria com que suas pernas falhassem quando os dentes se arrastaram pelo seu lóbulo daquela forma tão erótica. Eillela firmou as mãos na mesa numa busca inconsciente por apoio e fechou os olhos momentaneamente, usando de toda sua força de vontade para não ceder àquela provocação irritantemente tentadora. Por sorte, foi com êxito que agarrou-se às palavras de seu interlocutor e ao que elas significavam; ao que tudo aquilo significava. Como se não fosse nada demais estar naquela posição com ele, a princesa riu e, após um meneio negativo com a cabeça, respondeu-o.
— Sabe tão bem quanto eu que não há necessidade de saber ler para fazer o que eu exigia deles, Salazar. — Retrucou com insolência, logo em seguida virando um pouco o rosto de modo que pudesse enxergá-lo. — E você está errado sobre mim; eu não temo o prazer, apenas sei reconhecer quando o sinto e quando não. Agora, se me der licença e fizer a gentileza de me soltar...
Nada poderia estimular mais sua diversão se não aquele sorriso impertinente sumindo dos lábios rosados, demonstrando claramente que ela não esperava pelas palavras que Salazar pronunciara; ainda que Eillela se recusasse a agir como uma dama comum, havia sido criada como tal, e uma resposta como a que ele lhe dera obviamente a deixaria ultrajada. Ele sabia de tudo isso. Por este motivo continuou com seu próprio sorriso insinuante, enquanto a observava disfarçar o máximo que podia, pegando o objeto de seu interesse.
Esperou calmamente o fim da leitura da morena, deleitando-se com as formas que a face delicada assumia ao passo que a explicação para o que sentira com ele na noite da torre lhe era exposta. Salazar poderia, sim, tê-la deixado no escuro sobre aquilo, tê-la deixado achar que ele era capaz de fazer o inexplicável, mas acima de tudo, prezava pelo conhecimento; além de, é claro, não poder perder a oportunidade de fazê-la sair dos eixos depois do ela fizera consigo naquele começo de manhã frio.
Eillela certamente nascera na posição correta; mal conseguiria alimentar-se se dependesse da interpretação para isso. A mudança nas feições da princesa foram claras: as bochechas rubras transformaram-se no mais puro fingimento. Mesmo preparado para aquela reação, não pôde deixar de irritar-se; a teimosia dela o tirava do sério, fazendo-o querer cala-la da forma que mais o beneficiasse. Ainda assim, riu; riu descaradamente, a cabeça sendo inclinada levemente para trás e voltando ao lugar pouco depois. — Ah, querida sobrinha… Seu esforço é notável, de fato. — A voz suavizada nada combinava com a risada que terminara pouco antes, os olhos castanhos queimando sobre os outros da mesma cor. Lentamente levantou-se de sua poltrona, ficando frente a frente com a mulher dona de sua atenção. — No entanto, posso lhe garantir uma coisa: mulheres que nunca sentiram o que está aí escrito, não andam com esse seu sorrisinho insolente. Mas não é algo que você queria repetir, não é mesmo? Afinal, quando você tem a chance de se sentir assim novamente, você foge, eu suponho. — Àquela altura, seus corpos já estavam extremamente próximos, a expressão de Salazar não mais tomada pela diversão. Sério, ele a encarava enquanto a voz mantinha-se contida. — Muito comum mulheres como você terem medo do prazer. — Finalizou com um sussurro próximo a orelha dela, um quê de desdém tomando conta de seu tom, afastando o rosto logo em seguida. Esperava ansiosamente pela próxima reação da princesa e se ela - assim como as outras - seria manipulada.
Eillela nunca desejou tão ardentemente algo em sua vida como desejara fazê-lo calar-se, fazer cessar aquela risada que outrora fora tão agradável a sua audição, e parecia agora tão irritante. Ela, por sua vez, limitou-se a permanecer ali, dessa vez séria, esperando que ele terminasse de dar seu pequeno show. As mãos da mulher se encontravam agora juntas à frente ao próprio corpo e sua postura já não era mais de diversão. Ela ostentava a mais pura curiosidade acerca do que havia dito de tão engraçado e, além disso, o que ele ganharia fazendo aqueles joguinhos. Queria o que, afinal? Um pedido de desculpas de certo não ganharia e provavelmente tinha conhecimento de tal fato; de qualquer jeito, ela pacientemente aguardou. Salazar então se levantou, e sem dar um passo sequer para afastar-se, a princesa esperou que ele se aproximasse pois sim, sabia que ele o faria. A noite que tinham passado juntos fora o suficiente para que ele percebesse o quanto a proximidade dele a afetava, ela suspeitava; porém não estava disposta a dar o que ele queria. Não era manipulável assim.
Obrigada a manter a cabeça levemente inclinada para cima - culpa da diferença de altura - de modo a olhá-lo nos olhos, o sorriso insolente voltou a enfeitar a face da herdeira ao final do pequeno discurso de seu tio. Ela, após milésimos de segundos em silêncio, baixou o olhar para o tecido rico da vestimenta do homem; sua mão logo tomando lugar ali despretensiosamente.
— Está certo, meu adorado titio, talvez eu esteja mentindo, de fato… — Iniciou sua resposta ao passo que a outra mão se juntava a outra; as duas parecendo arrumar de alguma forma a gola das vestes dele, antes de descerem para as abotoaduras. — Só não entendo o que levou-o a chegar a conclusão de que eu; logo eu, estaria fugindo de alguma coisa. É cômico até, sabia? — O sorriso cresceu mais um pouco, assumindo um ar mais divertido. As mãos dela então lentamente tomaram lugar naquele peitoral que, querendo ou não, já era conhecido por ela, até que uma delas repousasse no ombro masculino e a outra na nuca. — O que quer que seja, fico feliz em esclarecer: não é o único homem do mundo, Salazar; e certamente não do reino. Não haveria motivos para que fosse o único em minha vida, também. — A última frase foi pronunciada com tanta naturalidade quanto as palavras ditas anteriormente. A voz suave era baixa, calma, e por trás de tudo aquilo uma nota de malícia era camuflada pelas atitudes calculadas da princesa. De certo não sabia como sua resposta iria repercutir em Salazar, mas já o tinha visto em seu estado de raiva. Talvez o certo fosse preparar-se para algo semelhante, se seu poder de tirá-lo do sério se provasse mais uma vez eficiente.
Tendo que ficar próxima demais para falar, Eillela, antes nas pontas dos pés, foi rápida em esquivar-se com desenvoltura do corpo que praticamente a prendia contra a mesa. Como que para disfarçar o nervosismo que mantinha escondido até o momento, ela abriu um livro qualquer sobre o tampo do móvel e o folheou preguiçosamente, fingindo dar uma atenção às palavras contidas ali. — Uh… Agora seria uma ótima hora para que o senhor explicasse o que quis dizer com “mulheres como eu”.
Please don’t fall in love and want to commit devastating sins, Please don’t caress my lips if you’ve wanted to leave from the start, Please don’t interlace my soul with your web of lies in hopes that it won’t be convoluted after a while, Please don’t snatch my heart away so my soul is left mystified yet estranged with bits of your reflection in my eyes. (Please don’t let me fall onto the cold, empty bed which is as empty as my heart without your love unfilled, Please don’t let my ardor fall into the black holes of this infinite galaxies, fabricated of dying stars. Oh, my love! My heart has been torn and ripped apart and yet My soul finds solace in your eyes, So please! Let me knock onto your door in the middle of the night with empty sleepless eyes and find semblance in peace With you in my life.)
(Please don’t) Leave me (a collab with @saniamushtaq123)
– Hã… Pra ser bem honesto, não tenho certeza se valeria a pena… – Sieghart mordeu o lábio inferior, pensativo. Não fazia ideia de por que é que era ele que estava sendo inquirido quando a pessoa a sua frente precisava de conselhos. Não que não quisesse ajudar, queria, mas talvez fosse novo demais para poder fazê-lo. – Não sei, mas tem coisas que às vezes precisamos deixar pra lá…
A incerteza era clara na voz do garoto, mas tudo bem. Ele havia se esforçado no pensamento, ainda que fosse um conselho mequetrefe.
— Acha mesmo? — Reforçou a pergunta, encarando a bolsa de pano que carregava no colo; esta por sua vez cheia de mantimentos que, minutos antes, haviam sido rejeitados por uma viúva que, mesmo de mão dada com sua criança, preferiu ser rude e passar fome a ter que aceitar algo que, nas palavras dela, “vinha do rei sujo”. Eillela, ofendida e chateada por ter sido mal interpretada daquela maneira, não soube como reagir diante das palavras da mulher e demonstrou sua indignação para a única pessoa que, ela arriscava, tinha prestado atenção na cena. — Mas eu não entendo… Só queria ajudar, o senhor viu quão magro o menino dela está? — Voltou os olhos piedosos para o comerciante por poucos segundos antes de, frustrada, sentar-se na mureta atrás deles. — E mesmo assim ela não quis aceitar minha ajuda como se tudo o que aconteceu fosse culpa minha. Eu não sou o meu pai. — Finalizou, soltando um suspiro antes de voltar a olhar para frente. Entendia que a maioria das pessoas culpava Athanasius pelo massacre da feira de Outono, ela mesma chegou a fazê-lo, mas odiava quando as consequências dos atos de seu pai refletiam nela e, consequentemente naquele caso, prejudicava alguém inocente.
Salazar não poderia negar que algo fora de seus planos havia acontecido. Era verdade que sempre soube que Eillela se tornara uma bela mulher, mas jamais imaginou que a olharia da forma como a olhava naquele momento. Por baixo de toda aquela raiva que alimentava pelas atitudes ousadas da princesa, o ex-príncipe a desejava, no sentido mais cru da palavra. Depois daquele primeiro beijo, ele começou a notar: a silhueta desenhada em suas curvaturas, os seios avantajados evidenciados pelos decotes que ela insistia em usar, os lábios rosados… Tudo parecia chama-lo para mais perto. Em sua atual situação, no entanto, ele não podia dar o braço a torcer e se deixar influenciar por estes detalhes.
Ele sabia que ela não o responderia de primeira – o que apenas deixava-o ainda mais irritado – por isso esperou, observando-a manter os olhos fixos no pergaminho. Revirou os seus próprios para tamanha previsibilidade, ajeitando a postura na poltrona, cruzando as pernas de forma que o tornozelo ficasse sobre o joelho oposto. As mãos grosseiras tamborilavam tranquilamente os dedos nos braços do móvel quando Eillela finalmente cedeu, caminhando em direção a ele, que não fazia a mínima questão de esconder a expressão suja que tinha no rosto. — Certamente vossa alteza carrega isto consigo; não costuma, afinal, negar-se quando eu tenho o carinho de conectar algo a você. — as palavras ambíguas pingavam sarcasmo enquanto os olhos soberbos encaravam os da mesma cor, as sobrancelhas erguidas juntamente com um sorrisinho certamente irritante que ele a lançava, ao passo que suas mãos empurraram o livro mais pro lado na mesa - para facilitar a leitura da mais nova - pouco antes de fechar o que estava sob este.
Salazar pode ver o sorriso que ela insistia em manter no rosto morrer aos poucos, dando lugar a uma expressão de puro ultraje. Arqueando as sobrancelhas como se não esperasse ouvir aquilo, ela se limitou a rolar os olhos e voltar seus olhos para as páginas envelhecidas do livro, expulsando com sucesso o rubor que ameaçou corar suas bochechas, resultado da provocação disfarçada entre palavras de duplo sentido. Ela então focou-se nas palavras contidas ali, que ao serem lidas juntas e finalmente darem a ela uma perspectiva acerca do assunto tratado fizeram-na franzir o cenho. Eillela trocou o peso de uma perna para a outra, visivelmente desconfortável. Seu dedo indicador sublinhava letra por letra a medida que ela lia, e por mais que ela soubesse que aquilo só fazia parte de mais uma das provocações dele, não pode conter-se e quis terminar de ler.
"(...) o corpo feminino tem como única finalidade a procriação. Porém, estive juntando depoimentos de prostitutas que declaram sentir sensações estranhas durante a relação sexual. Dizem que, muito próximo ao fim, seus corpos tremem, apertam, fazendo-as sentirem-se como estivessem a caminho do paraíso. Analisando as informações, creio que estes são sintomas que o prazer máximo pode causar. É algo, porém, facilmente considerado utópico, visto que são poucas as mulheres que ouviram falar e menos ainda as que afirmam terem sentido. Chamarei-o de orgasmo."
Os segundos que se sucederam ao término da leitura foram gastos encarando o livro. Ela bem sabia que, pela forma que as sentia quentes, suas bochechas estavam tão coradas que ela cogitava que o rosado já se aproximava do carmesim que tingia seu vestido na noite da festa oferecida à realeza. O coração bombeava o sangue fortemente pelo seu corpo, que já reconhecia com saudades as características citadas ali. Então era isso o que havia sentido com ele? Fazia sentido, até. A ideia era apresentada como uma hipótese, ou seja, era como se aos olhos de outras pessoas fosse algo impossível de se acontecer. Não era aos dela; não mais.
Fechando o livro com calma, Eillela teve tempo de se recompor antes de encarar seu interlocutor. O rosto feminino e delicado transbordava uma falsa incompreensão e questionamento, que não demoraram a ser manifestados. — Desculpe-me, senhor, mas por que deduziu que isto seria de meu interesse? — Empurrando o pesado e envelhecido livro pelo tampo da mesa, ela devolveu o objeto a Salazar. — Acredito que, assim como eu, o senhor pode observar que as palavras contidas ali são apresentadas como uma espécie de lenda, um conto. E de fato devem ser, pois não me recordo de sentir nada parecido, então… Temo dizer que perdi seu ponto. — Mentir descaradamente daquela forma não era a solução. Ela bem sabia que se ele havia se dado ao trabalho de mostrar aquilo a ela, era porque tinha conhecimento do que houvera naquela noite da torre, que agora parecia estar há anos luz de distância. No entanto, Eillela não daria a ele a satisfação de afirmar aquilo que ele já sabia; não, da boca dela ele não ouviria aquilo. Preferia enganar a ele e a si mesma com aquelas palavras sarcásticas e aquele sorriso fingido.