Make me forget ♕ Eillela & Salazar
Sentia-se sufocada. E apesar de ter motivo suficiente para culpar o espartilho que lhe apertava a cintura, não era por isso. Antes fosse, pois seria um problema fácil de ser resolvido, afinal, assim que se livrasse da peça estaria livre e poderia respirar. Porém, o aperto que ela sentia no peito não era algo meramente físico; era interno, um tipo de dor que infelizmente não podia ser curada apenas soltando as amarras, como era com seu corset.
Mystras passava por tempos difíceis e não havia como negar. Depois do terrível massacre, a fome e a miséria se tinham alastrado como uma praga e, por mais que desejasse com todo seu âmago, não havia nada que pudesse fazer a respeito daquilo. Como se não bastasse o sentimento de impotência que se apossava de seu ser perante aquela situação, ainda estava tendo que lidar com a repentina mudança de rotina; fora arrancada de seu lar e, como se o destino lhe pregasse uma peça para testar seus limites, a vida de sua irmãzinha fora tirada com uma brutalidade descomunal e desnecessária. Nunca saberia descrever a dor que sentira quando, na manhã seguinte, após passar toda a madrugada acordada, recebeu a notícia do falecimento de Cambrya. A caçula de Athanasius teve sua curta vida tirada com violência, e entristecia o coração já ferido de Eillela pensar que sua irmãzinha sequer teria oportunidade de ter uma vida. Encontrou-se com sua morte ainda em tenra idade, e lembrar-se dos olhinhos doces e abraços calorosos a faziam se questionar: como poderia alguém ter coragem de fazer tamanha maldade com uma criança? Uma não, aliás, várias. O canto fúnebre ainda assombrava os pensamentos da princesa herdeira e, se fechasse os olhos, podia enxergar os corpos desfalecidos e cabeças decepadas espalhadas pelo chão. E tinha cheiro do sangue… Sentia a bile voltar a boca e os olhos marejarem apenas por pensar naquilo. Porém, pesar de ser o sentimento predominante, não era apenas tristeza que ocupava a primogênita do rei, não. Era raiva. Ódio, revolta, e sobretudo indignação.
Para ela, tudo aquilo não passava de um ultraje. A decoração exageradamente cara, toda a fartura de comida e bebida que a riqueza dos Kasnier podia proporcionar, ali, à mercê do Rei. Do Rei que dias antes, teve a cidade atacada. O Rei que teve crianças sacrificadas em prol de sua vida. O mesmo Rei que perdeu a filha, agora estava ali, recebendo uma festa; poderia alguma vez existir coisa mais absurda? Na cabeça de Eillela, não. Nunca. Era a primeira vez em que deixava seus aposentos desde o dia em que pusera os pés no Castelo dos Kasnier. A família real, como de costume, fora recebida à base de mimos e palavras gentis da parte de Aldith Kasnier, que não poupava esforços para agradá-los. Leela, porém, não estava em condições de demonstrar simpatia ou sequer gratidão, e por isso, bastou encontrar-se no quarto que por enquanto seria seu para isolar-se do mundo exterior, permitindo-se aproveitar do próprio luto. Sabia que deixar a residência dos anfitriões estava completamente fora de cogitação — Athanasius se engarregara pessoalmente daquilo —, então o que poderia ela fazer ali? Socializar com pessoas que não desejavam sua presença e a culpavam? Ou com pessoas que, ela imaginava, sentiam-se da mesma forma que ela? Não, não tinha força de vontade nem para si mesma, quem dirá para vestir a máscara de educação e polidez que sua posição exigia dela. Sobretudo, decidiu dar um basta naquela noite. Ao ser informada por uma das criadas que diariamente iam levar para ela suas refeições (as únicas pessoas que permitia que entrassem) sobre uma Celebração que ocorreria naquele dia, foi o fim para ela. Quer dizer que centenas de pessoas, entre elas crianças e sua própria irmã, haviam morrido e Athanasius pedia por uma festa?! Ele só podia estar louco! E se não estava, ficaria logo, pois Eillela faria de seu objetivo pessoal força-lo a enxergar o quão ridículo era aquilo. A diferença era que dessa vez, ela tentaria usar da razão e da racionalidade com calma. Expor sua opinião sem se alterar, por mais que seu pai conseguisse tirá-la do sério de uma forma que ninguém mais fazia. E agora lá estava ela, o veludo escarlate do vestido em nada deixava a desejar suas intenções. Contrastando com o preto que a maior parte de sua família usava, ela fazia daquilo um tipo de protesto. Era comum ouvir de sua boca suas razões para estar usando a cor berrante quando todos pareciam estar de luto; ela queria mostrar o quanto aquilo era errado. Simbolizar no vermelho que vestia o sangue de todos os inocentes e injustiçados. Queria se impor e fazer questão de deixar clara sua insatisfação, sua discordância quanto àquela festa. Afinal, o que estavam celebrando ali? Era a vida do rei e a morte de outros? Onde estava a justiça naquilo? Ela simplesmente não conseguia enxergar e revoltava-se com quem o fazia com tamanha facilidade.
O tempo correu, mas para ela era como se pudesse sentir cada segundo passando lentamente, a mantendo cada vez mais e mais presa àquilo. A taça de vinho na mão direita servia apenas de enfeite, visto que não pusera sequer uma gota de álcool na boca. A postura não convidava ninguém a se aproximar, pois sempre que isso acontecia as respostas eram curtas, ácidas, e ao mesmo tempo, tristes e cheias de compaixão. Nada ali parecia certo, inclusive ela. Próxima de sua família, Eillela mantivera-se quieta. Se contentava em observar e absorver, tentando controlar dentro de si o fervente desconforto que sentia. Até o momento tudo estava bem, dentro do possível. Não perdera sua educação, afinal, e tudo permaneceria dessa maneira se não pescasse no ar uma conversa de seu pai. Posteriormente, não saberia responder o que exatamente nas palavras no Rei foi o gatilho para que ela explodisse. Os minutos em que se seguiram resumiram-se em: Uma gargalhada escapando por entre os lábios da mulher, consequentemente atraindo atenção alheia para ela. Uma gargalhada de puro deboche, que acabou fazendo com que Athanasius estremecesse, preparando-se para o que viria a seguir. Não era do feitio de Eillela trazer as discussões “familiares” à público.
— Você realmente não tem noção, não é mesmo? — Ela começou, segundos após seu riso cessar. — Na verdade, nenhum de vocês tem noção alguma. Ficam aí festejando, comendo, bebendo e dançando como se nada estivesse acontecendo. Acho que já ficou bem claro para todos aqui que estamos em guerra. Após o último acontecimento não há dúvida alguma e… Eu não consigo deixar de questionar-me: Como conseguem? Como conseguem fingir que nada mudou, que tudo está como era antes? Não tem vergonha?
As palavras não foram ditas para ninguém em especial, a não ser seu pai. Porém, toda a nobreza de Mystras estava presente e obviamente seriam atingidos pelas palavras da mulher. Ela não mentia, afinal.
— Existem pessoas passando fome lá fora. Morrendo de frio, doenças, ferimentos causados por essa maldita guerra em que fomos postos, e o que nós fazemos? Brindamos a isso, porque é só para isso que servimos, não é? Ostentar riqueza. Brindemos, então! Às almas que foram levadas, às vidas das crianças precocemente tiradas e arrancadas dos colos de suas mães, ao sangue inocente que pinta as pedras de nossas calçadas. E, principalmente, ao reinado do excelentíssimo Rei de merda que é Athanasius Arkauss, que prefere dar uma festa quando devia estar lamentando a morte de sua caçula, minha irmã! — A taça ainda cheia foi erguida no ar no mesmo instante em que um estalo fez-se ouvir. O barulho da palma e dos cinco dedos do Rei encontrando-se com a face da filha chamou atenção, além de fazê-la impulsionar o rosto para a direita. Sentia a pele arder, os olhos lacrimejaram como reação ao impacto do tapa, mas ela se manteve parada. Os segundos em que passou em silêncio serviram apenas para que ela raciocinasse que havia atingido seu objetivo. Quando voltou a encarar o Rei, um sorriso de satisfação brincava nos lábios. O inferior, cortado no canto, deixava escorrer um pequeno filete de sangue que foi limpo pelo polegar dela, que entregou a taça a qualquer servente que passava de modo que tivesse as mãos livres.
— A verdade dói, não é, papai? — Ela disse baixo. — E eu sinceramente espero que doa muito mais do que este tapa, pois a minha dor vai passar, já a sua… Agora se me dão licença. — Fazendo uma reverência exageradamente comedida a Athanasius e aos que o acompanhavam, Eillela deu as costas e rumou para a saída. A cabeça erguida, o sorriso ainda no rosto, e o sangue nas veias fervendo como nunca antes. Foi só cruzar as enormes portas de carvalho para que instantaneamente sentisse o peso do mundo em suas costas, finalmente podendo extravasar a raiva que sentia desde o momento em que escolhera comparecer àquela festa. A verdade doía em Athanasius, sim, mas infelizmente doía nela também. E doía muito.












