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lip-alex:
𝓭𝓪𝓷𝓼 𝓵𝓮 𝓷𝓸𝓲𝓻?
Se dissessem a June de um ano atrás que hoje ela estaria na França feliz e contente em um encontro, tagarelando animada sobre game shows, ela com certeza não acreditaria. Diria até que nem gosta desse tipo de programa. Mas lá estava ela. Verdadeiramente se divertindo sem enxergar um palmo na sua frente com um completo desconhecido. O mundo, pensou, realmente dá voltas. “O suspense de Quem Quer Ser um Milionário? é único. Recomendo bastante. Só cuidado pra não cair tanto no buraco que nem eu. Parece que não, mas é algo que te pega de uma hora para outra. Quando você se dá conta já está viciado. Outro dia, de madrugada, me vi pensando em procurar a versão britânica pra assistir na internet. Aí até eu admito que já é meio demais…” Riu quanto ao questionamento do rapaz sobre o Burger Quiz, era de fato um conceito curioso. "Não, mas seria legal se fosse. É quase tão zoado quanto, as perguntas são bem aleatórias e tudo no programa é temático. Os times se chamam ‘Ketchup’ e 'Maionese’, as perguntas iniciais são os 'Nuggets’ e por aí vai…“ Enquanto falava pensou no quanto esse submundo parecia meio ridículo quando explicado, estranho, no mínimo. Se não tivesse sido cooptada a assisti-los, os associaria para sempre apenas com sua avó e olharia torto para qualquer outro que os levasse tão a sério assim. Estava em Paris há pouco tempo e achava interessante reparar nessas pequenas mudanças que a troca de ares já havia lhe causado, o que por si só já era uma certa questão para alguém que nunca foi maior fã delas. "Sem querer me gabar nem nada, mas sim, minha avó é o melhor ser humano que já pisou na face da Terra.” Ao ouvir a resposta positiva de Alex sobre seu plano não pode deixar de, aliviada, abrir um grande sorriso. Talvez não fosse tão estranha quanto achava. “Eu preciso soar realista. Tudo pela arte, sabe? Também acho que a gente consegue, mas… posso saber, por acaso, qual é essa desculpa?” Quando, então, ouviu seu comentário sobre a noite estar sendo ótima, o sorriso ficou ainda maior. Pensou em dizer algo também, mas não sabia exatamente o que, em vez disso, por puro reflexo, só perguntou “Tudo bem?” em reação a sua tosse. Quando se deu por si, ele já havia mudado de assunto e ela tinha deixado o timing passar. Seu lado racional dava graças, pensando que assim talvez as expectativas fossem mais fáceis de controlar. Já a grande romântica que morava dentro de si, ainda com o mesmo sorriso bobo, queria ter falado sobre o quão nervosa estava antes de vir e o quanto aquela era uma surpresa agradável. Queria falar sobre quanto tempo fazia desde a última vez que havia se dado tão bem com alguém de primeira e que, sim, apesar de muito diferente do que estava acostumada, estava sendo ótimo. Mas nada disso fez, apenas seguiu o fluxo da conversa. “Sim e não. Quero dizer, não no momento. Estudo jornalismo, mas tranquei para vir…” 'passar o semestre aqui’ era a resposta natural. Naquele momento, porém, não conseguiu completar a frase. Era idiota, eles mal se conheciam e June sabia que não deveria estar dando peso para aquilo agora, mas era mais forte que ela. Tomou um gole de água para disfarçar a pausa, o que logo percebeu como uma estratégia falha. Alex não podia vê-la e duvidava que ele conseguiria ouvi-la o suficiente para entender o que havia feito. “…para cá. E você?” por fim, continuou como se nada tivesse acontecido. Assentiu com a cabeça, de forma automática, mais uma vez se esquecendo da escuridão. Gostava de saber um pouco sobre as estatísticas do divórcio, a ajudava a manter os pés no chão. Apesar de ter várias anotadas em seu caderninho de bolso, não tinha muitos números decorados. No mínimo, se esforçava para sempre ter em mente o quão altos eram. “Tem, mas, sinceramente, eu não lembro direito. Faz um tempo já que pesquisei isso e lembro de achar os dados um pouco confusos. Se eu não me engano, nos Estados Unidos eles chegam a 50%, mas posso estar errada.” Se recordava que os países europeus, na verdade, eram, via de regra, os com as taxas mais altas, mas como não tinha certeza achou melhor deixar essa informação de fora. "Pouquíssimos! Por isso mesmo queria conhecer mais. Acho que consigo contar em uma mão só…“ Parou por um momento enumerando todos os lugares que já tinha visitado. "É, contando com a própria França e as belas horas que eu já passei fazendo escala em Amsterdã, foram exatamente cinco países. O que é meio absurdo porque venho para cá desde pequena, mas quase nunca saiamos da França. O voo direto até aqui dá umas 7 horas, mais ou menos. Com conexão, só Deus na causa.” Achava fofo a especie de rivalidade que Alex sentia quanto aos ingleses e sorria toda vez que trazia isso a tona. “Pior que não. Isso vai soar muito estranho, mas minha mãe tem um certo medo de ilhas… Quer dizer, não é bem medo, mas ela definitivamente não gosta. Então, é, apesar de ter vontade, nunca fui a terra da rainha, a única outra vez que vim para cá sem ela só fui a Bélgica de diferente que, no caso, seria minha terceira colocada. Empatadas em primeiro e segundo ficam França e Espanha, já que o aeroporto da Holanda não é dos mais divertidos e eu era muito pequena quando fomos a Suíça para lembrar direito. Qual seu top 3? Pode falar, Inglaterra é o primeiro, né?” disse com um tom levemente provocador, mas riu logo depois. Mesmo sem esteriótipos físicos para se basear, ele mais uma vez acertava na descrição. Não que seu cabelo fosse dos mais curtos, mas longo com certeza não era. Seu coraçãozinho ficava feliz com o acerto, enquanto seu cérebro focava na vitória. Se acabassem em empate, provavelmente acabaria argumentando que, na verdade, o comprimento era médio, não curto, mas isso era problema para depois. Achou graça de seu comentário sobre o ski e disse com a voz mais séria que conseguia: “Hockey, por favor.” Fez um certo suspense quanto sua próxima suposição, mas, dessa vez, não pensou muito antes de falar, foi com o que realmente achava. “Curto? Talvez… Hm… Eu acho que você não usa barba.” Ainda ria com a piada de Alex quando o garçom voltou com as sobremesas o que só a fez achar tudo mais engraçado. Só conseguia imaginar na sua frente um prato cheio de baratas e no quanto provavelmente estariam muito gostosas e, por isso, classificadas como alta gastronomia. Tentava manter a compostura, mas não só não conseguia parar, como ria cada vez mais. Toda vez que chegava perto de se acalmar pensava no quanto a cena não deveria estar fazendo sentido nenhum e voltava as gargalhadas. “Desculpa” tentava dizer no meio de toda a crise, sem muito sucesso.
“A única british version que eu acho que tem um consenso que foi melhor que qualquer outra versão foi Skins. Eu particularmente não curti a série em nenhuma versão, mas é o que dizem por aí.” disse ao se lembrar dos comentários feitos entre sua prima e Sarah “Eu acho que tentei assistir Skins quando já não era um adolescente rebelde, por mais que eu ache que nunca tenha sido” riu com o próprio comentário. De fato sabia que era um ótimo filho, sua mãe não tinha o que reclamar sobre o quesito desobediência com Alexander, talvez recebesse permissão para reclamar sobre suas notas, mas nada além disso. “The Office a versão americana dá de dez a zero na versão britânica também. Mas enfim, mudei o assunto um pouco pra séries” mesmo com a venda nos olhos, Alex semicerrou os olhos tentando imaginar como seria o reality em que June se referia. Não parecia um dos mais bem produzidos e premiados, mas poderia ser com certeza bem interessante para passar o tempo. “Eu não curto muito ketchup, ia pedir pra ser do time da maionese. E você?” perguntou curioso “Tudo pela arte.” concordou com a garota.
Alex tinha um certo problema com relação a seus estudos. Nunca foi o aluno destaque, muitas das vezes era apenas o mediano o suficiente para graduar-se numa série. Ainda lidou com problemas nas exatas que o fez ficar anos frequentando psicopedagogos e reforços escolares, tudo para conseguir finalmente se concentrar em fazer os cálculos da forma que era orientado. Muito provavelmente esses foram os motivos que o levaram a pensar em adiar cada vez mais a faculdade e, por um lado, ultimamente isso o incomodava e não era pouco. Via seus amigos se graduando e trabalhando em grandes empresas, seguindo a vida com um diploma em mãos e ele sentia muito de não estar conquistando aquilo também. Conversou com a psicóloga e consigo mesmo sobre não precisar se igualar aos outros e que cada um tem seu próprio tempo, contudo por mais que quisesse acreditar naquilo, toda vez que alguém tocava no assunto de certa forma o incomodava. June seria jornalista um dia e jornalismo foi uma das áreas que tinha cogitado em se arriscar um dia, mas talvez algum curso de história ou literalmente turismo seria uma boa escolha para si mesmo nos dias de hoje. “Deve ser legal jornalismo, você quer ser tipo apresentadora de jornal ou escrever? Desculpa, eu não tenho lá uma visão tão ampla de jornalismo. Eu não estudo.” afirmou com certo pesar na última frase “Minha mãe tem uma empresa de turismo, eu trabalho com ela já tem um tempo. Agora faz sentido eu gostar tanto de museu e ponto turístico, uh?” riu sem muito humor.
“Gostou de Amsterdã?” perguntou ao se lembrar da experiência que teve na cidade. Não era o maior fã das terras holandesas, achou tudo muito cheio na capital e admitia que se perdeu não apenas uma, mas várias vezes nas ruas estreitas de Amsterdã. “Ah, você só fez escala então? Acho que deve ser muito cansativo mesmo ficar tantas horas dentro de um avião, a única coisa que vale a pena em algumas companhias aéreas são as comidas.” não podia negar que alguns serviços de catering de companhias aéreas, principalmente as da Air France, eram das melhores. “Top 3? Difícil” ficou alguns segundos pensativo e não muito certo de sua escolha colocou os países europeus “Irlanda… sem ser a do norte, tá bom? Só pra constar que não vou colocar um país com domínio da Elizabeth” brincou “Dinamarca e Itália. Talvez colocasse também a Alemanha, mas a Itália me convence com o sorvete” riu.
“Hockey? Certo” riu ao ser corrigido por June. Não era tão assim próximo ou conhecedor do Canadá, imaginou que talvez o ski pudesse ser o mais comum a se fazer lá, mas de fato estava errado. Sabia pouco sobre hockey, talvez só o básico que deveriam jogar uma espécie de lacrosse no gelo e com umas roupas estilo futebol americano. Um jogo peculiar, diria.
“Talvez?” Pensou. Diria que a pontuação provavelmente tinha ido para ele, ao menos gostaria de acreditar naquilo “Barba? O que te leva a pensar que eu não uso barba?” perguntou com uma curiosidade relativamente alta. De fato ele não era a pessoa com mais propensão de um dia ter uma barba cheia, talvez precisasse se contentar com falhas e um bigode tipicamente de alguém que ainda está passando pela puberdade. “Eu posso ser um viking, sabia disso?” brincou ao se recordar dos atores do seriado que estava hospedado na Netflix.
Diria que sentia um certo alívio ao ouvir as risadas de June com seus comentários. Agradecia muito que aquele encontro não estava sendo tão estranho como imaginou que seria e que June era de fato uma ótima companhia. Acompanhou a risada dela, imaginando que logo em seguida comeria baratas com uma perfeita cobertura de caramelo. “Tá tudo bem” disse quando finalmente conseguiu segurar a risada. Tateou a mesa a fim de pegar um dos garfos e assim que fez, com certa dificuldade garfou um pedaço do que imaginou ser uma massa folhada e que com o barulho feito de uma massa crocante voltou a rir ao pensar na crocancia do inseto anteriormente comentado. “Tô com medo de ter acertado. Ou é uma massa folhada ou uma asa de barata. E a sua?”


















