lip-hana:
🌹⠀⠀⠀ › em seu primeiro dia de folga, hana decidiu aproveitar a aura romântica da cidade. não fosse uma romântica por si só, diria que havia algo de errado com certeza. sentia-se, finalmente, tranquila — sabia que não havia ninguém lhe esperando em casa com uma cara fechada, pronto para lhe gritar os diferentes tipos de xingamentos que só ele sabia. a vivência em paris não estava sendo fácil, mas certamente era melhor do que o ambiente em que se encontrava anteriormente, contudo duvidava que conseguisse se manter por mais tempo ali e temia que acabasse na rua — pois para gwangju não voltaria, não após fugir. atentamente vigiava cada passarinho que pousava nas árvores, cada turista — que assim como ela — encantava-se com a beleza da cidade. construía, em seu celular velho, um dossier com fotos do local, esperando pelo dia em que sua mãe seria capaz de vê-la.
então, como um pesadelo, seus olhos escuros fixaram-se em alguém que tinha não só um pintinha abaixo dos olhos, mas duas. seus ombros caíram de imediatamente e o peso do mundo pareceu distribuir-se em suas costas. hesitou entre fugir correndo para o apartamento para chorar e confrontá-lo; desejou que sua mãe estivesse ao seu lado para lhe ajudar nessa árdua escolha. @lip-hyeontae não havia mudado um fio de cabelo sequer desde que havia lhe abandonado nas garras daquele monstro, não havia uma única ruga de preocupação consigo e com sua mãe e este era o motivo pelo qual formava-se, em sua garganta, um nó difícil de desfazer. andou a passos incertos em sua direção a medida em que se agarrava a sua bolsa no estilo carteiro, procurando forças, coragem, para enfrentá-lo, e não havia dito nada ainda, mas já sentia os olhos arderem de saudade e raiva. ━━ h-hyeontae? ━━ fraquejou ao perguntar, embora não estivesse em dúvida sobre a identidade alheia.
Além dos calorosos pães que costuma tirar diariamente do forno, não há nada que Hyeontae ame tanto quanto uma tarde gentil e ensolarada. Aquele tom intensamente alaranjado pintando o céu de maneira abstrata, o tímido sol se pondo atrás das nuvens, sem falar no inconfundível clima sereno que o permitia ler por horas e horas seguidas, completamente imerso nos incontáveis parágrafos de seus livros favoritos. Portanto, por cumprir devidamente todos esses mesmos requisitos, o dia em questão não poderia ser muito menos que impecável. Consigo, carregava seu tão queridíssimo O Estrangeiro, romance escrito por Albert Camus. Ultimamente, tão envolvido na filosofia do absurdo e do existencialismo, costumava ser acompanhado por uma nuvem nublada de melancolia. Jurava ter perdido seu propósito, se é que havia algum, e solitário como sempre foi, Hyeontae cedia à pensamentos repletos de ansiedade.
Nem mesmo a imensurável beleza da Cidade dos Apaixonados era suficiente para erguer seu ânimo, uma vez que estava perdido em um imenso abismo de deprimência. Quem conhece o padeiro, não tem dúvidas que é incomum vê-lo sem ser com seu doce sorriso, mas será que há algo que possa mudar essa situação? Longe das poucas companhias que possui, privado de ter um amor genuíno e verdadeiro, impossibilitado de estar com a sua única família... Não eram muitas as opções que restavam para Hyeontae — até aquele momento. Momento abrupto, imprevisível, que nunca pensou que chegaria, mesmo após noites acordado sonhando apenas com tal.
A principio, o impacto não havia sido tão estrondoso. Aquela voz não lhe soava familiar, por mais que o sotaque presente em suas palavras não aparentasse ser tão distante do próprio. Foi quando decidiu erguer o seu rosto, encarando diretamente a presença que se mantinha diante de si. Era como um delírio. Poderia confundir qualquer um, menos a sua irmã mais nova. Hyeontae lembrava de cada minimo detalhe do seu rosto, especificamente os olhos, que eram inconfundíveis para si. Se aquela mulher não revelasse ser Hanareum, era uma réplica perfeita de quem ela havia se tornado. Há tanto tempo imaginava que tipo de pessoa a pequena poderia ser, se ela era tão diferente de quando ainda eram crianças. “Sim, o meu nome é Hyeontae.”, as palavras quase não saíram, devido ao amargoso nó que estava entalado na própria garganta. “É você, yeodongsaeng? Hanareum?”, o maior questionou. Mesmo que se esforçasse para manter a compostura e a firmeza no tom de voz, era notável o quão afetado estava. Faltavam os olhos começarem a lacrimejar, de tanto que pesava a ideia de aquela ser a sua irmã. A sua mente clamava para que atendesse o impulso instantâneo de abraçá-la, mas mesmo que fosse Hanareum, sabia que ela não estaria nada contente em vê-lo. Haviam tantas questões sem uma resposta sequer, tanta mágoa e saudades, e por ser o mais velho dos dois, era o seu dever controlar a situação. Precisava ser forte, por um e por outro, e pelo laço até então inquebrável que tinham.












