Sobre o que sempre fica
Escutamos desde muito cedo que nada dura para sempre. Mas e se eu te disser que algumas coisas ficam?
E elas não ficam por obrigação, por princípios ou por morais absolutas.
Algumas coisas, poucas coisas, ficam por amor.
Porque é amor quando fazemos as pazes com aquilo que parte. E é por amor que certas partes de nós nunca verdadeiramente nos abandonam.
É amor quando o quarto da infância deixa de ser paredes e concreto para se tornar um lugar de livre acesso dentro da alma.
Só o amor é capaz de revelar aquilo que sempre seremos.
Como um feitiço, sou aquilo que escrevo: aquilo que nasce na minha alma e encontra seu lugar de direito no papel.
Escrevo hoje para trazer à superfície aquilo que está enraizado na minha carne:
Eu sou. E isso não muda.
Eu sou todos os alvoroços nos horários de almoço.
Eu sou todas as discussões para decidir quem vai dar comida aos cães.
Eu sou cada madrugada cercada por essas fotos na parede.
Eu sou cada domingo com cheiro de batatas fritas.
Eu sou as verdades ditas sem pudor.
Eu sou a falha da perfeição, herdada de geração em geração, e que me cai tão bem.
Eu sou as conversas atravessadas na minha cama depois do consultório.
Eu sou os sustos, as brigas e as reconciliações que nunca exigiram esforço.
Nada muda quando amamos o simples que faz morada dentro da complexidade.
Vou ser para sempre apenas uma garota que sente demais.
Uma garota que pensa demais.
E uma garota que, talvez, escreve demais.
Enquanto eu estiver por aqui, eu sou, eu serei e eu fui.
Tudo junto e misturado.
Não preciso de linhas cronológicas que me expliquem o que é presente, futuro ou passado.
Porque eu sei que existem coisas que ficam.
Fica aquilo que é,
Sem medida.
Sem tempo.
Sem lugar.
Sem morada.
Permaneço com tudo aquilo que me fez ser.
E, no fim, continuo sendo apenas uma garota que é muito amada.
















