AS ONDAS DO MAR MENTEM? 🌊
"Estou afundada no passado, é como se eu estivesse vivenciando ele novamente."
14 de Março de 1997, meus pais estavam planejando uma ida à praia mais próxima e eu não estava tão empolgada assim. Sempre fui filha única e não me divertia bem sozinha. Dificilmente fazia amizades porque era muito tímida. Meus pais se preocupavam muito comigo, enquanto eu estava tranquila estando sozinha, eles me diziam que eu devia procurar novos amigos, que eu poderia chamar uma colega pra ir em casa ver um filme ou brincar de boneca comigo. Acredito que eles tinham medo de eu envelhecer e me tornar antissocial.
Neste dia que fomos para a praia, eu nunca vou me esquecer de nada que me aconteceu lá. Absolutamente nada. Até me lembro de tudo que comi, de cada passo que dei (parasita: Acho que Lilly exagerou quando escreveu isso, quem se lembra até dos exatos passos ?).
Mesmo que eu fique velha de pele enrugada, mais enferrujada do que já estou agora, minha memória para esse dia nunca ficará ruim.
Eu coloquei meu biquíni dentro do carro, mamãe brigou porque ela havia me dito pra eu fazer isso em casa, mas eu priorizei outras coisas e acabei nem obedecendo-a. Meu biquíni era roxo, eu adorava roxo, era minha cor favorita, se me dessem a opção de escolher a cor de alguma coisa eu diria roxo, se não tivesse em roxo, eu choraria até dizer chega. Isso tudo quando eu tinha apenas 9 anos, enquanto hoje eu nem sequer me importo em qual é minha cor favorita, nem sequer tenho tempo pra me importar.
Então, após vestir o biquíni eu fui e fiquei perto dos meus pais escutando suas conversas. Estavam em uma daquelas prosas de adultos, que nenhuma criança se importa e não tá afim de saber. Pense em como eu estava, prestando atenção em cada palavra, quase dormia em cada vírgula. (parasita: Acredito que você estava demasiadamente entediada, Lilly)
Papai me viu e disse que eu poderia ir para a praia dar um mergulho ou então fazer castelos de areia. Disse-me que eu deveria aproveitar esse dia especial.
“Não vai ser nada divertido você prestar atenção nas nossas conversas e não recrear agora mesmo. Há um sol quente hoje, vá senti-lo, querida.” sempre tão atencioso, se ele não tivesse me dito isso eu ficaria por perto deles até o dia acabar, e fico feliz que ele me deu essa ordem de sentir o sol na pele, eu fui fazer isso.
Caminhei até o mar contando cada passo, sentindo o sol na pele e a areia nos pés, o som das gaivotas que por ali voavam e até hoje o cheiro do protetor solar me lembra esse dia. Eu amava o mar e tudo que ele guardava em si, mas eu não sabia nadar. Então eu só fiquei na ponta das ondas, sentada na areia onde a água encostava um pouco. Alí eu fiz vários castelos de areia sozinha e senti o vento balançar meu cabelo vagarosamente da forma mais gentil possível.
Um garoto surgiu e me assustou, eu quase o dei tapas porque eu estava tão concentrada que me esqueci de todo o resto, até mesmo do que estava fazendo, eu parecia uma alma penada naquele instante. A aparição inesperada dessa criatura me fez gritar e meus pais vieram ver se eu estava bem, o carinha não se cansava de tanto rir do susto que me deu e meus pais chegaram até a praia preocupados, eu fiquei tão envergonhada que disse a eles que gritei porque tinha visto um peixinho.
“Lilly, apenas grite dessa altura se estiver em perigo, sua boba!”, vi ambos saindo felizes da praia porque viram o garoto ali e sinto que ficaram animados achando que eu já havia feito amizade com ele. Queria ter dito a eles que nem o conhecia e tinha 100% de chance de odiá-lo a partir daquele segundo. Mas não, mesmo que Murphy tenha me deixado furiosa antes de sequer saber meu nome, viramos grandes amigos e me entristecia toda vez que o pensamento de que logo eu teria de ir embora me atormentava.
Murphy e eu depois de tanto rir, brincar de construir castelos, decidimos ir “nadar”, eu sabia nadar? Naquela altura não, mas eu disse a ele que sabia porque fiquei com muita vergonha dele caçoar de mim. Então a mentirosa foi junto, foi se afundando na água e até mesmo disse:
“Ah, Murphy, você tá mesmo nadando neste raso aí? Venha para onde estou!”, ele rapidamente riu
“Lilly, minha mãe disse que eu não devo ir muito para o fundo”
“Ela nem está te vendo, pode vir”, me pergunto de onde tirei tanta rebeldia, eu sempre fui muito obediente aos meus pais e me pergunto porque eu estava incentivando ele a desobedecer a mãe dele. Percebi, depois de alguns tempos pensando nisso, que eu estava - de forma perdida - tentando parecer legal para aquele garoto, eu estava tentando - da forma mais boba possível - conquistá-lo.
Quando afundei na água, eu não prendi a respiração, eu era tão tola ao ponto de nem isso saber, então as coisas pioraram daí, tanta água entrou no meu nariz e começou a arder mas eu não sabia voltar porque estava no fundo. Meu afogamento foi desesperador e agradeço muito que Murphy não era um mentiroso como eu, ele realmente sabia nadar e fazia isso muito bem, ele foi até onde eu estava afogando e muito assustado ele saiu me puxando até a superfície. Uma criança salvando a vida de outra.
Eu preferia ter dito a verdade a ele, seria muito menos vergonhoso do que aquilo.
Murphy, após ter me ajudado, começou a gargalhar alto, eu até hoje não sei se ele estava rindo porque foi engraçado ou se ele estava rindo de desespero mesmo. Então, envergonhada eu contei pra ele a verdade, eu não sabia nadar.
“Você nem sequer precisava me dizer, você acha que não percebi?”, então ele gargalhou mais de mim até dizer que seu estômago estava doendo de tanto rir, daí ele tentou se acalmar.
“Isso lhe deu uma lição? Se tivesse sido verdadeira comigo, não teria se afogado e eu teria te dado truques para você aprender a nadar.”
“Eu pensei que se tivesse dito a verdade, você iria me zoar, Murphy”
“Não, por que eu faria isso? Há um tempo atrás eu também não sabia nadar” fiquei em silêncio após ele ter dito isso, comecei a ficar assustada com meus pensamentos, e se meus pais descobrirem? e se eu tivesse morrido? Meus olhos se encheram de lágrimas e eu comecei a chorar como um bebê na frente do garoto que há um minuto atrás eu estava tentando impressionar. Ele me olhava em silêncio, acho que ele não sabia o que dizer mas quando percebi que ele estava se preparando para perguntar, eu respondi antes.
“Eu estou muito bem. Só me dê um abraço porque tudo isso me deixou muito assustada agora.” então ele veio até mim e o abraço que esse garotinho me deu acalmou qualquer onda do meu coração, foi um abraço inocente e aconchegante de duas crianças. Nunca - novamente irei dizer - nunca irei esquecer.
Enxuguei as lágrimas, acalmei tudo e voltamos a brincar. Só que então acredito que ele não se aguentou e começou a me contar que estava rindo de mim naquela hora não porque foi engraçado, mas porque ele estava muitíssimo orgulhoso de si mesmo por ter me salvado.
“Por que você ficou tão orgulhoso?”
Vi um sorriso que foi de orelha a orelha se estampar no rosto dele, e então ele me disse que queria ser como seu pai.
“Sim. Ele era salva-vidas, antes de largar isso, acredito que ele tenha salvado milhares de vidas aqui”
“Que legal! Seu pai era um herói, por que então ele parou de fazer isso?”
“Ele me disse que as ondas do mar chegavam perto do céu. Vejo que depois de ter concluído sua razão de ter vindo ao mundo, ele se cansou e foi além do mar.” Quase comecei a chorar ao ver o rosto feliz rapidamente passar para o tão dolorido, tão pequenino e já não tinha mais o seu pai. Hoje eu fico muito feliz de pensar que na idade que tinha, ele havia alguém com quem se inspirar, tinha a que passos seguir, o do pai que salvou milhares de vidas.
Direi algo que nunca vou deixar de pensar, minha tarde na praia teria sido muito mais entediante se eu tivesse me divertindo sozinha. A solidão às vezes cansa bastante, eu estava precisando da companhia daquele menino para ter uma tarde divertida, a aparição dele deixou meu dia mais incrível que todos os outros, teria sido muito diferente se ele não tivesse alí.
Era o fim do dia, estava na hora de dizer adeus. O meu desespero aumentou, eu não queria - não mesmo - ter que ir embora. Eu desde este dia, enterrei essa memória comigo, no oceano do meu coração. Guardei no baú que se encontra no fundo do mar.
Meus pais vieram me dizer que eu tinha um momentinho para me despedir de Murphy.
“Murphy, obrigada por ter salvado minha vida.”
“Já disse que não precisa me agradecer por isso. Se você não tivesse se afogado eu teria demorado mais para sentir a presença do meu pai. Você me deu a oportunidade de senti-lo mais uma vez.” Eu por um momento pensei que após ele dizer essas palavras iria chorar como eu, mas ele sorriu, ao invés de ficar triste ele sorriu como mais um dos sinceros sorrisos desenhados em seu olhar.
“Será que iremos nos ver novamente algum dia? Se sim, como?”
“Não. Eu não tenho, e você?” Naquele momento eu nem parei pra pensar que poderia ter oferecido para ele o número dos meus pais e assim quem sabe ele poderia, no futuro próximo, ligar para algum deles e conversar comigo. Eu não pensei nisso na hora.
"Eu também não tenho. Temos que arranjar uma forma de receber notícias um do outro, você é minha melhor amiga agora. Não posso e não quero perder contato com você, Lilly."
"Que tal a gente vir na praia outros dias e se ver?"
"Eu…" ele ficou tão pálido como uma cebola, demorou alguns instantes pra completar o que ia dizer. "Eu nem moro aqui. E vou viajar para casa amanhã. Eu vim todos os dias antes e hoje é uma despedida daqui."
" Poxa, então nunca mais iremos nos ver?" Quase comecei a chorar, aí me lembrei que no mínimo havia chorado 5 vezes na frente dele, ele já havia descoberto meu lado sensível de chorona.
"LILLY! EU SEI COMO PODEMOS SE CONECTAR E SABER DE NOTÍCIAS UM DO OUTRO." Senti tanta empolgação nele, ele falou tão alto que até as gaivotas que voavam por ali por perto conseguiram escutar.
"Você pode me dizer como está se sentindo contando tudo para as ondas. Quando eu entrar em contato com elas, irei saber como você está!"
"O quê? como posso acreditar que isso vai dar certo?" Quase o zoei porque na minha cabeça ele estava dizendo baboseiras.
"Claro que vai dar certo!"
Eu não estava entendendo aquilo e meus pais me deram mais cinco minutos, eu deveria me despedir rápido e ir. Havia uma pergunta que não me deixava em paz então eu fiz para ele
"E se as ondas mentirem?"
"O quê? verdade... eu nem pensei nisso."
Agora quem havia chamado era a mãe dele.
"Lilly, tenho que ir, minha mãe não é nada como seus pais."
"não, se eu pedir um tempo ela virá aqui me dar uns tabefes na sua frente" nós dois rimos imaginando ele apanhando da mãe, que constrangedor! Toda criança temia apanhar na frente do seu melhor amigo, digo isso porque era também um de meus pesadelos. Mas eu sabia que meus pais eram muito tranquilos e não fariam isso comigo, mesmo que às vezes eu precisasse. As coisas eram sempre resolvidas com diálogos, se eu fizesse algo errado, meus pais me chamavam a atenção e eu não faria novamente.
Eu o abracei tão forte e disse pra ele ficar bem. Falei também que se ele quisesse, poderia se tornar o melhor salva-vidas do mundo.
Eu fui até meus pais com lágrimas no rosto, eu não deixei que Murphy visse que eu estava chorando, mas meus pais perceberam.
"Não fique assim, minha pequena. Terá uma próxima vez!" mamãe olhou pra mim com cautela e limpou as lágrimas do meu rosto
"Não terá, mamãe. Não terá outro dia como esse."
"Terá melhores, amor." Disse papai que também estava tentando me consolar.
Entrei no carro e fiquei próxima a janela olhando as paisagens até chegar em casa
"Seu dia foi tão incrível ao ponto de te arrancar lágrimas quando chegou ao fim? Me diga as coisas boas que lhe aconteceram, Lilly."
"Conheci Murphy, viramos amigos e brincamos juntos, eu me afoguei e ele me salvou. Ele também me disse sobre seu falecido pai e que havia sentido a presença dele quando fez algo que o mesmo fazia enquanto era vivo."
"Nossa, estou muitíssimo impressionado. Então o pai dele era salva-vidas?"
"Isso mesmo, e ele me disse que queria ser como o pai quando crescesse."
"Muito bom ele ser tão jovem e já saber o que quer ser, fico encantada." disse mamãe. "E você? Pensa nisso também? nunca nos contou nada"
"Eu quero escrever sobre isso tudo que aconteceu hoje enquanto o pôr do sol chegar nessa praia."
"Isso é algo que deseja, não que quer ser."
"Tudo bem, ser humana e fazer isso que eu desejo já me deixará muito realizada até o fim da vida." sorri de felicidade para eles e eles ficaram sem me entender.
Olá! Esta história, com suas palavras tecidas em sonhos e tinta, pertence a mim. A cada página, a cada linha, a cada sussurro de emoção, reside um pedaço do meu coração. Que ela encontre um lar em sua mente, um espaço em seu tempo, e que, ao final da leitura, você possa sentir a mesma chama que a alimentou.
Eu fiz isso, o sol já estava indo embora e eu sussurrei baixinho às ondas o quanto eu estava feliz. Desejei tanto naquele momento que o cara que conheci muitos anos atrás, em algum dia de março (Parasita: No começo da história Lilly colocou a data certa e agora ela diz "em algum dia de março", cadê tua memória? ) Almejei então que ele entrasse em contato com as ondas e conseguisse absorver toda minha felicidade para si. Profundamente eu pedi que ele assim como eu nunca tenha se esquecido desse dia.