Talvez…
Talvez tenha sido a janela aberta e a chuva caindo. O espaço entre a cama e a escada, distância infinda entre lá fora e nós dois. Talvez seja uma noite e os assovios do escuro, a espera do bem-te-vi agourar um ninho cheio. A luz que invade o quarto, tão branda quanto o toque dos lençóis, revela o sono morno, fotografia dos segredos deitados nos travesseiros.
Talvez seja o doce e o amargo, papo de prato e de língua, gotas de mel, trufas e trunfos de um dia vencido. A garganta arranha e a fera mansa saliva um banquete que não vem. Talvez seja um prato quente, um colo amigo e um perene perigo, deitados no chão inundado de sonhos. Talvez seja a hora de fugir da cidade e morar no interior de qualquer coração abandonado.
Talvez seja a incerteza. Canto vazio da cabeça onde o possível brinca e o medo vigia. Lugar de decanto da saudade do futuro. E o domingo gasto, como as bolhas de sabão, fica no olho miúdo, tal encanto de criança, memória e esperança, de quando será a minha vez.












