Depois do saboroso jantar de ervilhas, purĂȘ de batatas e carne assada - eu nĂŁo prestei atenção no gosto -, eu estava exausta: mais da conversa de meus pais na mesa - sobre mim, nĂŁo comigo - que do enorme dever de casa de literatura que eu e Joel passamos a tarde fazendo.Â
O efeito do xarope tambĂ©m começava a ir embora.Â
Eu estava na soleira da porta, tentando nĂŁo encarar os olhos dele fundo demais - passo uma quantidade vergonhosa de tempo tentando encontrĂĄ-los nos perĂodos que temos juntos. Ăs vezes Joel me procura de volta, Ă s vezes ele senta atrĂĄs de mim para conversarmos sobre nada (meus dias favoritos), Ă s vezes eu nĂŁo existo.Â
â Tchau Sra. Powell! Obrigado pelo jantar! â Ele repetiu, antes de deslizar o olhar para nossos pĂ©s.Â
O ar da Pensilvùnia começava a ficar especialmente frio, e jå era oito e meia da noite.
â Obrigado por fazer dupla comigo â Joel disse pela primeira vez, mas as palavras pareciam significar outras coisas. JĂĄ fizemos dupla outras duas vezes e ele nunca havia agradecido. Por que agora? Eu nĂŁo entendia aquela lĂngua.Â
â Tudo bem â Dei de ombros.Â
Joel desaparece da escola, Ă s vezes, por semanas corridas. Uma vez quase chegou a um mĂȘs. Eu nĂŁo tenho ideia de para onde ou porquĂȘ ele some, tambĂ©m nĂŁo acho que temos intimidade para eu perguntar, ainda que eu passe a maior parte do tempo criando diĂĄlogos entre nĂłs em minha cabeça. Engulo em seco, me demorando para fechar a porta.Â
â Quando quiser â Acrescento, com um sorriso tĂŁo contido que provavelmente beira o antipĂĄtico.
Era terceira vez que fazĂamos isso. NĂŁo era sĂł o dever de casa. FormĂĄvamos dupla na aula de literatura para que eu possa fazer a tarefa, depois nĂłs ficamos chapados com o xarope para tosse a base de codeĂna que Joel trĂĄs, e entĂŁo deitamos no chĂŁo, ouvindo mĂșsica ou assistindo a algum filme, para termos uma desculpa silenciosa para ficarmos sozinhos e longe de todos por mais algum tempo.Â
Ao menos eu gostaria que fosse. Também gostaria que fosse mais frequente, mas não acontece por sua presença na escola.
E normalmente ele nĂŁo fica para o jantar.Â
Hoje foi a primeira vez, na verdade. Â
Nos olhamos nos olhos por alguns segundos, até que eu não consiga mais:
â VocĂȘ quer dar uma volta no quarteirĂŁo? Queria fumar um cigarro antes de ir para casa â Joel quebra o silĂȘncio.Â
â SĂł nĂŁo posso demorar muito â Digo fechando a porta atrĂĄs de mim.Â
Caso eu pedisse autorização, não poderia ir.
NĂłs descemos os degraus da varanda e começamos nossa caminhada, em silĂȘncio. Depois de virarmos a esquina ele saca o maço de cigarros e acomoda um entre os lĂĄbios. Olho para o outro lado enquanto ele acende, desesperada para nĂŁo me perder no encanto daquela imagem. Seus cabelos claros estavam mais longos que o normal e se moviam com o vento, as bochechas coradas pareciam mais angulosas, em algum momento seu rosto começou a se fundir com o de um homem adulto, mas eu o perdi.Â
Seus lĂĄbios estavam mais cor-de-rosa.
Começo a ficar nervosa a medida que avançamos pelas casas, em direção ao parque. A verdade é que Joel sempre me deixa nervosa. Ele me enerva quando olha para mim e meu olhar estå lå, apenas o esperando para confirmar de que seremos uma dupla; me enerva quando escolhe passar mais tempo do que precisa comigo; me enerva quando encurta nosso tempo juntos; me enerva quando indaga coisas extremamente pessoais, sem autorização:
Ele segura o cigarro com o polegar e o indicador e acho tĂŁo charmoso que quero morrer.Â
â Acho que sim â Respondo â NĂŁo tenho certeza.Â
Ele me oferece um trago do cigarro, mas desta vez eu aceito. Eu nunca aceito.Â
Eu e minha melhor amiga, Sarah, roubamos os cigarros que minha mĂŁe fuma escondido e fumamos escondido quase todo fim de semana. A Ășnica razĂŁo pela qual eu sempre recuso quando Joel me oferece Ă© para conseguir lhe dizer nĂŁo. Trago fundo trĂȘs vezes, atĂ© sentir minha pressĂŁo começar a cair.Â
â VocĂȘs duas? Nunca imaginei â Ele ri, como se debochasse, mas nĂŁo exatamente o fazendo.Â
â NĂłs roubamos os cigarros que mamĂŁe fuma escondido tipo, todo fim de semana.
â VocĂȘ nĂŁo Ă© tĂŁo certinha quanto pensei.
â Por que vocĂȘ acha que faço dupla com vocĂȘ? Ficar chapada de codeĂna Ă© uma de minhas coisas favoritas â Porque o faço com ele. Talvez se estivesse sozinha em meu quarto sĂł ficasse me sentindo mais leve, mas continuasse insuportavelmente existencial. Parece que vivo uma vida na minha cabeça (boa) e uma na vida real (meh).
â EntĂŁo vocĂȘ sĂł nĂŁo gosta de gente? â Joel sorri. Seus dentes da frente sĂŁo sutilmente quebrados porque ele gostava de comer gelo quando era pequeno, ele me contou.Â
â VocĂȘ nunca vai Ă s festas.Â
â Eu nĂŁo quero incomodar meus pais.Â
Joel fica em silĂȘncio. Ele enlouquece os pais.Â
â O jeito que seus pais falam com vocĂȘ â Ele começa, atirando a guimba do cigarro no asfalto molhado e vasculhando os bolsos dos jeans. Fico em silĂȘncio pois quero ver aonde Joel que chegar â Eles estĂŁo sempre te cobrando notas, falam bastante de carreira, mas vocĂȘ ainda estĂĄ no segundo ano â Ele pausa â Sua mĂŁe atĂ© mencionou aquele idiota da Lugen sĂł porque os pais dele tĂȘm status.Â
Joel sabe disso porque eu lhe disse.Â
Na verdade, eu dei a entender que uma vez saĂ com Tommy, um garoto da escola privada mais pomposa do condado, a Lugen. Tommy fuma maconha como uma chaminĂ©, parecia uma estrela do rock e devia ser vinte centĂmetros mais alto que Joel. AlĂ©m do mais, seu pai Ă© praticamente dono da cidade â o que agradou muito meus pais, nĂŁo importa quanta erva ele fume. Â
Eu nĂŁo disse a Joel que Tommy, nĂŁo sĂł teve a coragem, como me beijou no Ășltimo fim de semana. Nem mesmo depois que Joel me contou que foi ao cinema com uma garota de sua aula de ĂĄlgebra, e como havia sido desinteressante e horrĂvel e que ela reclamava dos cigarros.Â
Tommy era legal e tinha os olhos azuis mais bonitos que eu jĂĄ vi, e eu o beijaria de novo, mas ele nĂŁo Ă© Joel.
Percebo que eu nĂŁo disse nada.Â
â O que vocĂȘ quer dizer com isso? â Digo.
â Sei lå⊠â Joel tira do bolso da jaqueta um pacote de chiclete de canela. Ele me oferece um. Eu aceito.Â
â Depois que vocĂȘ me fez provar se tornou meu sabor favorito â Ele sorri, talvez mentindo, e olha para mim enquanto ponho dois na boca. Joel sabe que gosto de mascar chiclete de dois em dois.Â
â Fico feliz â Digo. Sinto. Me pergunto se Joel consegue mascar chiclete de canela sem pensar em mim. Espero que nĂŁo â Mas aĂ, o que vocĂȘ quer dizer com suas observaçÔes do jantar?
â VocĂȘ Ă© muito jovem pra ser infeliz.Â
A maior parte do tempo eu me acho mais inteligente que Joel, mas Ă s vezes ele fala coisas que nĂŁo consigo decifrar. Ă como se ele soubesse sobre dimensĂ”es, partes do Universo que eu nunca tive a oportunidade de conhecer.Â
â Como assim? Me dĂĄ um cigarro? â Emendo as perguntas e ele busca o maço nos jeans:
â A sensação que eu tive Ă© que vocĂȘ vive sua vida de modo que agrade eles â Ele acende o cigarro em minha boca â De modo que nĂŁo os incomode, como vocĂȘ disse. Â
Aquilo dĂłi porque Ă© verdade. Eu nĂŁo faço escolha alguma antes de pensar em como os meus pais vĂŁo se sentir. JĂĄ toquei nesse assunto uma vez com Sarah, mas nĂŁo deixei chegar muito longe.Â
â Faz sentido â Trago profundamente enquanto sinto meu nariz arder, sei que meus olhos vĂŁo começar a marejar. Torço pra Joel nĂŁo perceber.Â
Acho que tambĂ©m nĂŁo quero incomodĂĄ-lo.Â
Minhas lĂĄgrimas sĂŁo mais rĂĄpidas que eu. Elas escorrem por minhas bochechas, quentes, e tento fazer com que minha voz nĂŁo trema, jĂĄ que minhas mĂŁos nĂŁo param. A verdade Ă© que se minha mĂŁe me dissesse para começar a namorar Tommy eu provavelmente o faria, porque âele Ă© tĂŁo bonzinhoâ ou âos pais dele sĂŁo tĂŁo âlegais'â. Eu provavelmente racionalizaria a ârejeição" de Joel com o fato dele ser tĂŁo escorregadio: Ă s vezes ele estĂĄ lĂĄ, Ă s vezes acho que o criei em minha cabeça.Â
Nasce em mim uma espĂ©cie de raiva: eu odeio que Joel saiba mais sobre quem eu sou que eu, apesar de me ver tĂŁo pouco. Eu odeio que ele seja tĂŁo inconsequente, que seja tĂŁo livre e fiel a si mesmo. Odeio nĂŁo ter a coragem dele. Me sinto como a porra de um pĂĄssaro enjaulado o assistindo voar livre, nos mais diversos cĂ©us.Â
â VocĂȘ tĂĄ bem? â Ele pergunta enquanto me assiste arrastar as costas da mĂŁo pela bochecha pelo que deve ser a terceira vez.Â
â NĂŁo! Nem um pouco â Vomito â Ă tĂŁo injusto que eu tenha que viver a vida que alguĂ©m estĂĄ escolhendo para mim e que vocĂȘ possa perder aulas, sumir para sei lĂĄ onde e nem sequer me dar seu telefone! â Percebo que estou gritando â VocĂȘ Ă© tĂŁo⊠Livre!, e a Ășnica razĂŁo pela qual passamos algum tempo juntos Ă© que eu quero me sentir como vocĂȘ! â Minto. Mais ou menos â Ă quando eu me sinto normal!, e melhor ainda quando estou chapada. Eu nĂŁo sou feliz! Eu nĂŁo tenho nenhum controle sobre a minha vida. Sou sĂł uma idiota domada pelos pais cujas escolhas me fazem querer morrer oitenta por cento do tempo! E se vocĂȘ viu atravĂ©s de mim, eu fico feliz! PorquĂȘ nĂŁo tenho que explicar! â As palavras soam mais como soluços agora â Eu odeio minha vida e nĂŁo me parecia certo dizer isso em voz alta. Minha vida Ă© normal. Eu sou o problema!Â
Olho para Joel, que estĂĄ em silĂȘncio.Â
Ele tem um sorriso escondido no rosto.Â
â Por que vocĂȘ tĂĄ rindo? â Quase grito, minha cara molhada.
â Como vocĂȘ soou agora â Ele segura um riso â Ă como minha cabeça soa o tempo todo. To meio feliz que vocĂȘ nĂŁo é⊠Perfeita.
Ele Ă© perfeito, mas nĂŁo digo isso.Â
â Posso dizer porque eu passo tempo com vocĂȘ? â Ele continua.
Fico em silĂȘncio. Engulo o choro. NĂŁo era o que eu esperava. NĂŁo tenho ideia do que vem por aĂ, mas torço para que ele diga que gosta de mim. Algo do tipo. Para que eu possa dizer de volta.Â
â VocĂȘ me faz sentir como a vida estivesse em ordem â Os olhos de Joel correm pela vizinhança, mas nĂŁo param em mim â Eu⊠Eu⊠Eu meâ NĂŁo sei o que ele estĂĄ tentando dizer. Joel parece caçar as palavras no ar. Â
â Me sinto seguro quando estou com vocĂȘ â Ele admite, olha para baixo e engole em seco.Â
Meu coração despenca, nossos olhos se encontram, mas continuamos andando. Eu busco a mĂŁo dele, seus dedos respondem, entrelaçando-se aos meus. Percebo um sorriso sutil em seus lĂĄbios. NĂŁo sei dizer se estou sorrindo, mas nĂŁo sinto como se estivesse em meu corpo. Ă melhor.Â
â Quando estou muito chapado, eu noto que vocĂȘ senta por perto. Como se quisesse estar ali caso algo aconteça.Â
Continuo em silĂȘncio, mas Ă© verdade.Â
â Ă engraçado porque Ă© quando eu consigo afastar todo mundo.Â
Joel nĂŁo responde. Estou nervosa. Â
â Eu me sinto seguro â Ele repete.Â
â VocĂȘ pode contar comigo â Prometo.Â
â Eu sei â Joel sorri. Um sorriso de verdade. Â
Ficamos andando em silĂȘncio alguns minutos, nossas mĂŁos ainda juntas, nossos chicletes sendo mascados, dividindo um sĂł cigarro.Â
â Joel⊠â Digo, talvez baixo demais, engolindo em seco â Eu nĂŁo quis dizer que sĂł passo tempo com vocĂȘ para me sentir livre ou ficar chapada â Admito â Eu gosto da sua companhia â "Eu gosto de vocĂȘ", eu queria dizer.Â
â Ă bom ouvir isso â Ele diz â Ă raro te ver⊠Feliz â E dĂĄ de ombros.Â
â Duas, na verdade â Me corrijo â Desculpe ter gritado com vocĂȘ hĂĄ pouco. E⊠â Deixo minha curiosidade falar â Para onde vocĂȘ vai quando some da escola?Â
â Se eu te dissesse nĂŁo poderia sumir, poderia?
Ele parte meu coração. Eu grudo as partes antes que ele perceba. Antes que eu sinta. Percebo que a curiosidade era cuidado disfarçado.Â
â Me desculpe te dizer isso, mas vocĂȘ consegue ser bem egoĂsta com sua inconsequĂȘncia. Â
â Eu nĂŁo tenho que te dizer tudo sĂł porque vocĂȘ admitiu que Ă© infeliz - Ele rebate quase instantaneamente.Â
â Vou voltar pra casa â Anuncio, determinada. E dou meia volta, andando, chorando mais uma vez.Â
Joel estĂĄ certo. Ele nĂŁo me deve nada sĂł porque minha vida Ă© um labirinto. Ele Ă© sĂł uma entrada sem saĂda. Mais uma delas. NĂŁo. Nenhum pouco. Joel Ă© o garoto com o qual eu sonho desde que o ano letivo começou e seu melhor amigo me perguntou se eu estava saindo com alguĂ©m. O verdadeiro autor da pergunta era Joel. Ele Ă© o centro de metade de meus poemas, das entradas de meu diĂĄrio. Eu gosto tanto dele que, quando ele nĂŁo aparece, me desfaço. Dia apĂłs dia, assisto no espelho minhas camadas sumirem pois estĂŁo com ele sei lĂĄ onde. A pele, os mĂșsculos, meus ossos, ĂłrgĂŁos. Talvez ele seja mesmo menos inteligente que eu, talvez ele nĂŁo entenda a complexidade do que pode fazer uma garota sentir. Eu gosto tanto dele que me odeio mais um pouquinho, odeio senti-lo em doses homeopĂĄticas, odeio que quando estivemos juntos nenhum de nĂłs teve coragem de tocar no outro. Eu quero que ele me toque, quero que ele me beije, quero que ele continue me desafiando, que ele seja um espelho trincado no qual enxergo minhas escolhas que nĂŁo sĂŁo minhas, eu detesto de ser tĂŁo jovem e amar alguĂ©m que nĂŁo estĂĄ lĂĄ. Ăs vezes o vejo esparramado numa carteira no fundo da sala e seu campo magnĂ©tico me puxa para um lugar adjacente, tentando desesperadamente que nĂŁo seja Ăłbvio. Mas Ă© Ăłbvio. Todos teriam que ser idiotas para nĂŁo ver. Ele deve ser um idiota para nĂŁo ver.Â
EntĂŁo algo pior me ocorre: talvez ele veja, e ignore.Â
â Hanna! â O escuto e diminuo o ritmo. Eu quero que ele diga que gosta de mim. Talvez eu mesma diga â Me desculpe! â Ouço a distĂąncia e sinto mais lĂĄgrimas escorrerem, mais rĂĄpido.Â
Ouço seu correr e nossos corpos se esbarram. Joel me segura, estamos frente a frente.
â Me desculpe. Eu nĂŁo tinha o direito de dizer aquilo.Â
â Aquilo foi muito escroto, Joel â As lĂĄgrimas continuam, mas minha voz nĂŁo treme. Estou com raiva. Quero beijĂĄ-lo.Â
â Eu sei. VocĂȘ me chamou de egoĂsta, aquilo doeu tambĂ©m.Â
Nos encaramos, sem ter certeza de onde estamos. Joel me parar agora foi o mais prĂłximo de contato fĂsico que jĂĄ tivemos, alĂ©m das mĂŁos dadas.Â
â Joel⊠â Engulo em seco â VocĂȘ realmente me machucou.Â
â Me desculpe. Saiu sem querer.Â
Eu abro minha boca, mas nada sai. Sinto minhas sobrancelhas dançarem em meu rosto, nĂŁo tenho ideia do que dizer. Eu sei o que quero dizer. Mas nĂŁo acho que posso, nĂŁo acho que ele entenderia. NĂŁo sei se ele aguentaria. Â
â Euâ Resmungo â Euâ Percebo que Joel segura minhas mĂŁos â Quer saber porque doeu tanto? â Minhas sobrancelhas permanecem juntas, estou com raiva.Â
â Por quĂȘ? â Ele quase me desafia.Â
â Por que eu â Solto sua mĂŁo e esfrego meus olhos.Â
â Eu gosto de vocĂȘ, Hanna â Joel interrompe meu raciocĂnio â De verdade. Eu penso em vocĂȘ⊠O tempo todo! Eu sei o quanto minha famĂlia fica brava quando eu sumo, e nĂŁo quero que vocĂȘ fique tambĂ©m. Por isso disse aquilo.Â
â VocĂȘ nĂŁo tem ideia, tem?
â Quando vocĂȘ some⊠â Arrasto as costas de minhas mĂŁos sobre os olhos â Eu jĂĄ sinto sua falta. Eu fico⊠Arrasada! â Confesso â E eu nĂŁo sou amiga dos seus amigos, nĂŁo posso perguntar nada. Fico me importando sozinha.
Vejo seus olhos se iluminarem.
Honestamente? Eu quero sair andando. Sozinha. Sem Joel. Quero mesmo. Eu preferia sofrer com sua ausĂȘncia sem que ele soubesse que a sinto. NĂŁo acho que minha frustração vai impedi-lo de fazer o que quer. Eu sĂł vou me sentir pior daqui para frente. Ă isso que acho.Â
â VocĂȘ se importa comigo?
â Eu⊠â Arrasto minhas mĂŁos sobre meus olhos â Eu sĂł quero estar com vocĂȘ â Me impeço de proferir que o amo â Eu quero que vocĂȘ me beije, me toque, me conte suasâÂ
Sinto os lĂĄbios de Joel apertarem os meus. Ele nos separa. Estou em choque, paralisada. Aquilo foi melhor que qualquer xarope. Ele chega perto lentamente e encaixa seus lĂĄbios nos meus. Joel tem gosto de tabaco e canela. Sinto suas mĂŁos segurarem meu rosto e meus braços envolvem seu pescoço. Eu mal consigo respirar. Ele tambĂ©m.Â
Fazemos o caminho de volta para minha casa abraçados. Precisou de muito para que eu nĂŁo lhe pedisse para entrar pela janela mais tarde. Agora que ele era meu, nĂŁo queria que escapasse.Â
Paramos na soleira da porta. Nossos lĂĄbios se grudaram novamente, por tempo indeterminado.Â
â Tchau â Disse Joel finalmente, andando em direção ao seu carro.Â
â Te vejo amanhĂŁ? â Gritei da soleira, mas ele nĂŁo me ouviu. Â Â