Você me falou que não gosta de estar mal com as pessoas, que evita conflito. Eu te disse que sou honesta, que não sei esconder, não sei fazer as coisas só pra agradar. Você me disse que seus pais nunca brigam, eu acho que você nunca viu como uma briga pode esclarecer as coisas. Como parece que gritando é mais fácil falar a verdade, mesmo se ferir.
Não duvido que suas intenções fossem boas, mas você me enrolou. E enrolou direitinho, porque é muito mais fácil enrolar sendo honesto. “Agora não dá.” “Se a gente tivesse no Brasil” “Em junho a gente vê”. Você já sabia que não queria, se quisesse tinha brigado, tinha me procurado, tinha visitado. Foi levando pensando naquelas de “vai que um dia eu quero”, pra que queimar pontes né?
Mas ali, eu era sua, por inteiro. Sem querer cobrar, sem querer compromisso, sem pedir grandes esforços, mas com a porta escancarada pro que viesse. Eu vi um futuro inteiro. Vi um companheiro pra uma vida cigana. Um amigo na distância. Um relacionamento mutável pela vida. Eu olhei pra você e vi o que eu nunca achei que fosse achar. Alguém que veio mais ou menos do mesmo lugar que eu com uma sede que nem a minha de ver o mundo. Alguém que entendesse querer ser cigano, mas que ia ter saudades da mesma casa que eu.
Você sumiu. E eu entendo não querer um compromisso. Mas não conseguia ver como alguém que viveu a mesma viagem que eu podia não tá louco pra me contar coisas aleatórias de vez em quando. Como nunca queria procurar. Não sei, talvez você só seja assim.
Você viu como eu tava. Você viu o quanto eu queria. Você entendeu como incomodava você não procurar. Você sabia que você não queria nada, que isso não ia mudar de acordo com o calendário ou a geografia. E acho que eu sabia também, só não queria ver.
Pra alguém que se diz tão honesto, tão preocupado com a confiança, você omitiu muita coisa. Não responder manda um recado, mas deixa espaço pra um milhão de perguntas e alguns centímetros de esperança. E quando a gente quer alguma coisa a gente ignora qualquer sinal contra. E quando eu quero alguma coisa, eu quero com tanto de mim que eu justifico qualquer erro.
Você podia ter falado que não era a hora sem falar que em junho podia ser. Você podia ter cancelado Milão sem falar de reveillon ou viagens pós provas. Você podia ter falado alguma hora que não estava tão envolvido. Deixar muita coisa cinza, contradizer entre palavras e ações, é pior. É muito pior, porque isso tira qualquer chance de futuro. Tira qualquer confiança que eu tenha em você, me faz questionar tudo que você fala.
É, eu acho que acabou. E não foi culpa da distância.