𝐒𝐩𝐚𝐫𝐤𝐬 𝐢𝐧 𝐲𝐨𝐮𝐫 𝐞𝐲𝐞𝐬 | 𝐒𝐚𝐤𝐮𝐦𝐨 𝐇𝐚𝐭𝐚𝐤𝐞
Avisos: Não contém hot, pois não apoio esse tipo de literatura. As imagens na capa são do Pinterest (créditos aos usuários).
Sinopse: Após uma missão falha, Sakumo Hatake retorna para casa gravemente ferido.
ᴏʙꜱ: ᴄʟɪǫᴜᴇ ᴀǫᴜɪ ᴘᴀʀᴀ ɪʀ ᴀᴛé ᴀ ᴍᴀꜱᴛᴇʀʟɪꜱᴛ ᴅᴇꜱꜱᴇ ᴘᴇʀꜱᴏɴᴀɢᴇᴍ.
As noites na Residência Hatake costumavam ser tranquilas.
A árvore fora da janela revelava, como habitual, sua vida silenciosa por meio do farfalhar das folhas e a cortina ondulava com a brisa leve, todas essas pequenas coisas constituíam uma tranquila harmonia doméstica. A energia do seu lar.
Hoje, em especial, tudo parecia desandar, até mesmo nos pequenos momentos. Até o saleiro que derrubara no chão da cozinha enquanto preparava o jantar parecia te contar alguma coisa. Não tivera coragem de limpar nada.
Talvez fosse a ansiedade pela chegada de Sakumo, já que ele não informara seu estado desde que partira para uma missão de alto risco. Nem uma carta sequer.
Aquilo a fazia remoer todos os pensamentos negativos que pairavam em sua mente e, com vergonha de pensar tantas coisas horríveis, logo tentava expulsá-los com um falso otimismo.
Um único puxar em sua camisola a tirou do transe. Nem havia percebido que alisava repetidamente o tecido de renda, como se buscasse algum conforto.
—Aconteceu alguma coisa com o papai? —Kakashi falou com sua típica voz monótona. Parecia consciente demais da situação, mesmo sendo apenas uma criança.
—Ele ainda não falou com a mamãe, querido. Pela hora, já deve estar chegando. —Tentou tranquilizá-lo, alisando os cabelos brancos e desgrenhados. Parecia um pequeno pinheiro coberto de neve.
Embora muito bem intencionado, seu consolo pareceu ter sido em vão, já que Kakashi apenas respirou fundo e encostou o rosto em sua camisola.
—Eu tô com um mau pressentimento, mamãe. —Falou com a voz abafada e cheia de sinceridade.
—Kakashi. —Você o chamou com um sorriso, ajoelhando-se à sua frente. Com as mãos em cada lado daquele pequeno rosto, continuou. —O papai prometeu voltar. Ele sempre cumpre as promessas dele, não é?
Ele acenou a cabeça, ainda sem expressar qualquer reação por trás da máscara. Porém, havia algo em seu olhar que a incomodava.
—Então, meu amor, ele está bem. —Pausou por um momento. De repente, percebendo que precisava ser sincera com ele. —Talvez ele volte com alguns arranhões, mas nós vamos cuidar dele, tudo bem?
A batida na porta de entrada da casa fez com que o semblante de Kakashi se iluminasse feito o brilho das estrelas lá fora. Seu olhar se voltou a você novamente, com um pouco de receio. Entretanto, aquele toque era inconfundível e peculiarmente tranquilo.
Não havia dúvidas de que aquele na porta era Sakumo.
—É o papai, Kakashi. Pode abrir a porta. —Você fez um cafuné rápido em seu cabelo, antes que ele se desvencilhasse do seu carinho e corresse até a porta, como se tivesse ganhado o maior presente de sua vida.
A porta rangeu. Os calafrios correram por todo o seu corpo ao passo que um inusitado odor férrico preenchia o ar. Aquele cheiro, por si só, fez suas pupilas contrairem — no fundo, já sabia o que aquilo significava.
A imagem impregnou-se na sua mente assim como o sangue ressecado que parecia estar em todos os tecidos que Sakumo usava.
Os olhos de Kakashi piscavam freneticamente e, por um momento, o único pensamento que teve foi em arrumar qualquer motivo para tirá-lo dali. Protegê-lo daquela cena horripilante tornou-se sua principal missão.
Embora o garoto estivesse acostumado com esses cenários, aquilo o traumatizou profundamente.
Aproximou-se do pequeno, enquanto Sakumo lentamente se debruçava sobre a porta, com a cabeça erguida e os olhos firmemente fechados.
—Kakashi, eu cuido disso. Por enquanto, só pegue um pano molhado e as bandagens, ok? Elas estão naquele armário do banheiro.
Kakashi acenou a cabeça desnorteadamente, imediatamente correndo para o banheiro.
Seu olhar se voltou a Sakumo novamente. Será possível que teria sido pego em uma emboscada? Situações como essas eram comuns, mas dessa vez parecia quase ter perdido a vida em campo.
Com as pernas trêmulas, tropeçou no meio do caminho até ele, enquanto aquela sensação de nervosismo se intensificava cada vez mais. Sakumo a observava com o semblante mais puro que já vira.
As centelhas que emanavam de seu olhar não remetiam a um ninja que assassinava pessoas sem hesitação. Lembravam um marido que, mesmo nas situações mais difíceis, nunca deixou de pensar na esposa.
—Como...? —Foi tudo o que saiu de seus lábios atormentados.
—A missão... Foi um fracasso. —Sua voz suave continha uma obscuridade dolorosa.
Ele estava se culpando pelo fracasso da missão. Não apenas por essa, mas desde que fora promovido ao cargo de “Capitão de Equipe”, se culpava por quaisquer erros cometidos durante a atuação.
O que mais a preocupava era o estado de seu marido. Aparentava não haver ninjas médicos em campo, já que ferimentos como aqueles deveriam ter sido imediatamente tratados.
O homem de cabelos brancos ainda sangrava, tendo corrido uma longa distância até em casa.
—Você veio sozinho até a vila? O que aconteceu com os seus colegas?
—Eu dei um toque de recuar e esperei um tempo até que parássemos de ser perseguidos. A missão se tornou mais perigosa do que me foi informado... —Pausou, colocando a mão sobre o abdômen ensanguentado. —Não queria trazer perigo para cá e, mesmo assim... Eu falhei tanto.
—Não, querido, você preferiu abandonar a missão do que pôr em risco a vida dos seus companheiros. Isso não foi uma falha, Sakumo, foi compaixão. —Você o abraçou fracamente, com medo de machucá-lo ainda mais.
Sakumo, pelo contrário, a envolveu completamente em seus braços, descansando a cabeça em seu ombro.
Em um rápido instante, Kakashi já estava de joelhos ao seu lado com tudo o que havia pedido. Imediatamente, despiu-o daqueles equipamentos pesados e começou a limpar as feridas. Foi agonizante ouvir os suspiros exasperados de Sakumo a cada toque com o pano umedecido e, desde então, se tornou ainda mais evidente o quanto as pessoas podiam ser cruéis.
Pelo menos, agora estava em seu lar, onde ele seria cuidadosamente amado e poderia se recuperar em paz — ao menos fisicamente, já que parecera ter sido mentalmente golpeado pela culpa.
Kakashi segurou firmemente a mão calejada durante todo o tratamento, como se temesse que ele fosse desaparecer a qualquer momento. Você pôs a mão sobre aquela tão pequenininha, e assim que atraiu seu olhar infantil e aflito, sorriu reconfortantemente para ele.
“Vai ficar tudo bem, amor.”, seus olhos diziam.
“Eu sei, mamãe. Nós vamos cuidar dele.”, os dele responderam, com aquelas covinhas que tanto amava em cada canto.
A madrugada foi tomada por uma atmosfera estranha, mas consoladora.
O mundo parecia ter parado completamente, envolto em silêncio, exceto pela coruja que piava no galho de uma árvore distante.
Colocara Kakashi para dormir — mas não antes da leitura que ele exigia que fizesse todos os dias — e, logo após, foi deitar-se ao lado de seu marido.
Os lençóis finalmente estavam aquecidos novamente, com a chegada de Sakumo, e seu perfume tão singular de pinheiro enevoado estava nas cobertas. Sentira tanta falta daquele aroma, que as noites se tornaram incômodas sem ele.
Depois de tê-lo tratado, seu corpo estava quase inteiramente coberto pelas bandagens brancas, que já se tornavam amareladas e o odor férrico havia desaparecido completamente, substituído por um bálsamo herbal.
Sakumo demorou a adormecer, virando-se na cama com cada fisgada dos ferimentos. Em uma tentativa de acalmá-lo, seus dedos acariciavam levemente os cabelos nevados, enquanto a respiração tensa diminuía em tranquilidade. Após tantos dias atormentado pela insônia e o medo das espreitas, o sono acabou tomando-o por completo.
Agora, completamente adormecido sobre o travesseiro emplumado e a abraçando com a pouca força que lhe sobrara, era certo que logo ele se recuperaria.
Sakumo sempre estivera seguro ao seu lado.