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one day we'll reveal the truth @ colin macdougal | flashback
Sempre correra por suas veias a incapacidade de fingir uma emoção que não a envolvia. Ou disfarçar algo que ocupasse sua mente. Obviedade era uma palavra que poderia facilmente definir Elsa, mas ao mesmo tempo não abranger toda a sua personalidade. Restringia-se às reações acerca do mundo que a abrigava e à simplicidade de seus sentimentos. O nervosismo, então, se estampava em seu rosto desde o momento no qual atravessara a primeira das portas do St. Mungus. Geralmente aquelas gigantescas portas separavam um mundo de cores do interior branco, asseado, esterilizado. Porém era inverno. A neve caía incessantemente há mais de duas semanas e o resto do mundo se assemelhava a um grande quarto de hospital. Elsa encarou o céu por sobre a sua cabeça antes de adentrar o local que chamava de “residência de sua mãe”. Deixou alguns flocos de neve caírem por sobre seu rosto, cada qual com um desenho individual. Tão distintos quanto pessoas. Ela jogou o cabelo por sobre o ombro esquerdo. Não haviam pessoas nos corredores para lhe informar o caminho a percorrer. Aquilo dificultara suas primeiras idas até lá, porém, com o tempo, a garota decorara as curvas a virar e portas a entrar. Até mesmo quais locais deveria evitar para não ter que se encontrar com pessoas indesejadas. Pacientes que insistiam em falar por horas e horas para a primeira pessoa que aparecesse, médicos apressados e cheios de si, enfermeiras de péssimo humor que tentavam retirá-la de lá e fazê-la esperar na sala de espera com todos os outros. Elsa prendeu o cabelo. Soltou-o novamente alguns instantes depois e jogou-o por sobre o ombro direito. Geralmente andava por toda a Ala B, atravessando-a até chegar à Ala C para que pudesse encontrar com sua mãe. Porém, naquele dia específico, a menina caminhou apenas até metade da Ala B. Virou em um corredor que até então não lhe era muito familiar e parou logo antes de uma das poucas portas abertas. Demorou um pouco para dar seus próximos passos, porém o fez. E recostou no batente da porta. Haviam duas pessoas dentro do pequeno cômodo. Uma senhora de cerca de oitenta anos, que sorria e cobria de elogios a outra pessoa: um homem de pouco mais de trinta anos que parecia muito concentrado em todas as palavras da mulher diante de si. Ela o chamou de atencioso e mesmo vendo-o de costas, Elsa soube que ele sorrira. Nenhum dos dois pareceu reparar em sua presença silenciosa e ela se sentiu como um fantasma. E caso fosse um, não se incomodaria em passar os próximos minutos apenas observando a interação entre Colin Macdougal e uma de suas pacientes. Mas houve lembrete de que era de carne e osso. A senhora a avistou e sorriu, fazendo com que sua companhia olhasse por sobre o ombro. Houve um breve momento no qual seus olhos azuis se encontraram com os da menina, também azuis. “Hey”, ela disse. E retirou o cabelo dos ombros.
Senhora Brown. Apenas Ruth, como preferia (e exigia) ser chamada. Oitenta e três anos, viúva e com quatro “netinhas adoráveis”. Ela não se lembrava do que havia feito naquela manhã, mas podia contar com riqueza de detalhes a respeito da sua época em Hogwarts e como o charmoso Albus Dumbledore possuía aquela barba ruiva muito parecida com a do doutor que ouvia suas histórias com paciência.
A mente de uma adolescente de quinze anos, o corpo de uma velha senhora, tempo restante de vida tão incerto quando o de um ser frágil.
Ruth reservou a última semana para falar sobre o ano em que se formou, e o homem com ela sempre apreciou as narrativas de seus pacientes mais velhos. Pessoas cujas experiências e conhecimento, apesar das doenças que os definhavam, eram imensuráveis. Os ouvia, a todos, com atenção e respeito.
Colin já não cuidava da mulher desde que descobriu qual era a origem da doença e suas causas. Não tinha cura. No entanto, era sempre visto no quarto que Brown ocuparia até a sua morte. A senhora doce e nostálgica possuía uma enfermidade degenerativa que até então não tinha tratamento. As principais evidências da doença eram alterações bruscas e humor e perda de memória frequente. Visto que seu caso estava avançado, não havia muito que fazer além de controlar esses sintomas.
As frases comumente interrompidas por falhas em sua oratória, assim como as mudanças bruscas no humor eram ignoradas pelo healer que dedicou incontáveis madrugadas daquele ano em prol da descoberta e tratamento da senhora com quem conversava. Seu turno havia terminado há pelo menos uma hora, mas prometera que a faria uma visita antes de ir embora. Estava cansado. O corpo inteiro evidenciando o esgotamento físico e emocional pelo qual passava diariamente. Ossos do ofício. Ainda assim, permitia-se sorrir diante de alguma lembrança aleatória que tomava a mente da idosa e escapava inconscientemente através de seus lábios. Sempre acompanhadas de um olhar muito longe e sorrisos juvenis.
“Vá, querido, já tomei muito de seu tempo.” A velhinha balançava suas mãos espantando o homem que jazia acomodado na poltrona ao lado do leito. “Sua carinha não nega o sono.” Observou passando a mão enrugada pelo rosto do ex-Ravenclaw com um carinho que só uma avó – ou uma mãe – era capaz de dar. “Prometo vir aqui mais vezes essa semana.” Anunciou sentindo-se culpado por ter sido descoberto. Deu de ombros afastando-se um pouco e se levantando por fim. Ruth havia se aconchegado sobre a cama mais uma vez, e parecia naquele momento, mais cansada do que o próprio homem. Ajudou-a se deitar e arrumou os travesseiros para que ela se sentisse melhor acomodada, e recebeu um sorriso como recompensa.
Como um hábito que ela tinha adquirido naqueles anos, despejou alguns elogios despertando a timidez que o médico tentava a todo custo se livrar. Limitava-se então a sorrir enquanto sentia o sangue circular com mais rapidez em algumas áreas do seu rosto, causando o tom rubro. Antes que pudesse completar mais uma frase, no entanto, a velha senhora direcionou um sorriso surpreso para a porta. Por mais reflexo do que curiosidade, virou-se encontrando uma garota de cabelos loiros e olhos azuis como os seus. Não deixara de sorrir nenhuma vez. — Hey — respondeu com um aceno de mão. — Veio visitar a senhora Brown?
When the hurt and the healer collide — Colin & Siobhan
Apesar do healer tentar tranquilizá-la com gestos simples, o choque em seus olhos claros ao ver a extensão dos ferimentos de Siobhan era evidente. A própria menina chocara-se quando, ao inclinar levemente a cabeça, viu o estrago que causara a si mesma, ainda que não intencionalmente. Pela primeira vez, sua pele não parecia fundir-se com a roupa de cama branca.
Recostou a cabeça no travesseiro assim que o rapaz se afastou, tentando abstrair sua mente do incômodo em sua pele que, agora, entrava em um estado de ardência latejante. As frações de segundo de alívio vinham acompanhadas de perto de minutos de aflição.
- Usei Lumus maxima. Não fazia ideia de que isso aconteceria. - Afirmou. Repassou o momento do acidente em flashes na sua mente: o tropeço, as gavinhas do visgo enroscando-se em seus pulsos e tornozelos, a luta para alcançar a varinha, o feitiço gritado atrapalhadamente e o clarão seguido da pior dor que já sentira.
O healer voltou ao seu lado, trazendo um recipiente cujo conteúdo Siobhan não conhecia, mas que julgava ser uma poção, já que o mesmo foi entregue em suas mãos. Ao ingerir o líquido, a dor cessou parcialmente - não estava completamente ausente, mas decaiu a um nível suportável.
Não ligava muito para o fato de ter que ficar ali por alguns dias. Não queria voltar à presença do pai, que com certeza a censuraria por mais ou menos duas semanas por ter sido tão idiota. Idiota por ter caído no visgo-do-diabo, e mais idiota ainda por ter tentado livrar-se daquela forma. Como se existisse outra.
- Não tem importância. - Replicou, dando de ombros com indiferença. Por quanto mais tempo pudesse fugir do pai, tanto melhor. - Por quanto tempo terei de ficar aqui? - Perguntou, mais a critério de curiosidade do que por vontade efetiva de ir para casa.
Franziu o cenho diante da informação dada pela garota. Apesar de já ter ouvido casos como aquele relatado, era algo absolutamente raro. Incomum ao ponto de acontecer episódios isolados, tão infrequentes quanto a doença que levara sua mãe. A menina sentada com o recipiente nas mãos não demonstrava o tipo de personalidade rebelde que a faria se aventurar em locais proibidos. Principalmente onde o visgo-do-diabo se fazia presente. — Não foi culpa sua, não teria como saber — respondeu a afirmação depois de alguns instantes, depositando a mistura já preparada no criado mudo ao lado da cama de sua paciente.
Observava a albina com curiosidade genuína. Apesar do grande susto que o episódio causara Colin não viu nenhum descontrole habitual em jovens daquela idade ao acordarem numa cama de hospital. — Vai sumir — referiu-se às marcas espalhadas pelo corpo da menina que demonstrava apenas certo espanto em constatar a quantidade de ferimentos que o incidente havia provocado. — Não se preocupe — tentou tranquiliza-la enquanto ela terminava de ingerir a poção que oferecera pouco antes.
Se dissesse que não havia surpresa em seus olhos quando notou a impassibilidade no dar de ombros, estaria mentindo. Ergueu as sobrancelhas olhando para a loira com certa curiosidade. — Poucos dias. Uma semana, no máximo — anunciou perguntando-se a respeito da razão da criança se portar daquela maneira. Tirou o objeto que permanecia seguro entre as mãos da adolescente e colocou no lugar seu preparo medicinal. — Gostaria que você passasse essa pomada onde sentir dor, sempre que sentir dor. Vai ajudar a curar sua pele — explicou procurando pela ficha com os dados a fim de obter mais informações sobre a paciente.
Siobhan Rosier, ele já sabia. Dezesseis anos e visitas frequentes ao St Mungus. Deixou a prancheta de lado, e a preocupação familiar apareceu. O sobrenome poderia explicar bastante coisa, mas o healer não acreditava que ela compartilhava dos mesmos hábitos que o restante da família. — Siobhan, sim? — indagou erguendo a cabeça e sorrindo-lhe mais uma vez naquele dia. Somente o primeiro nome, pois não via muito sentido em falar mais alguma coisa. — Sou o Colin.
When the hurt and the healer collide — Colin & Siobhan
Um tropeço. As gavinhas do visgo-do-diabo enroscando-se com força inexorável nos tornozelos magros. 150 batimentos por minuto, a varinha quase escorregando dos dedos finos e encharcados de suor frio. Um feitiço gritado, um clarão enchendo os olhos desprotegidos. Uma dor estancada apenas para sequenciar outra ainda pior. Pontos pretos e brancos dançando em sua visão. E, em seguida, o silêncio.
(…)
“Você não tem jeito, Siobhan. Até quando faz algo certo, faz errado."
A voz de seu pai ecoava de modo falho na mente da garota. Os pontos pretos e brancos ainda vagavam em seus olhos - o único sinal de vida que seu corpo emitia, além da dor extrema que parecia cobrir toda a sua pele. Cada músculo de seu corpo estava imóvel, cada segundo mais doloroso e agonizante do que o anterior. A aflição era tão intensa que a garota não conseguia emitir som algum; todo o seu organismo estava paralisado, como se esperasse que, assim, a dor passasse.
E então, abruptamente, sua consciência voltou. Siobhan abriu os olhos lentamente, sentindo a luz branca os ferir levemente. Sua visão focalizou-se aos poucos, até encarar o que lhe parecia ser o teto branco já conhecido. Estava no St. Mungus.
Seus ouvidos aguçaram-se ao som de uma voz desconhecida que parecia se dirigir a ela. Virou-se lentamente na direção da voz e encarou o healer que, pôde concluir, cuidava dela. A albina demorou alguns segundos até entender o que ele perguntava.
- Enrosquei-me em… em uma hera de visgo-do-diabo. Tentei me livrar e… - Não conseguia entender exatamente por que o feitiço havia a ferido. Até onde sabia, apenas a luz solar a machucava. Não sabia que um feitiço tão simples como o Lumos maxima poderia agredir sua pele.
Olhos cor de violeta o procuraram ainda confusos, e não pode fazer nada além de sorrir daquela maneira confortante que dizia “Está tudo bem.”, mesmo que a sua mente questionasse sobre o motivo de uma criança estar próxima de uma planta tão perigosa. Uma coisa que Colin aprendeu naqueles quase quinze anos tratando do mais variado tipos de pacientes, era que nunca deveria interrogá-los a respeito do acidente que os levou até o hospital antes que eles se sentissem à vontade ao ponto de falar espontaneamente.
Então se limitou a acenar positivamente demonstrando entendimento nas poucas palavras.
Não era necessária nenhuma outra explicação, porém, para que o healer compreendesse o que havia acontecido com a estudante. Pessoas albinas, muito mais sensíveis à iluminação do que qualquer outro com níveis de melanina normais na pele estavam mais propensas a sofrerem algumas complicações.
Visgo-do-diabo é uma planta comumente usada por bruxos das trevas, matando por asfixia qualquer ser vivente que se aproxime dele. Não se dá bem com a luz e o calor, definhando instantaneamente ao encontro com estes. A melhor maneira de se livrar da trepadeira, é invocando a luz.
Então foi isso.
— Qual feitiço você utilizou para se livrar do visgo? — indagou caminhando pelo quarto amplo onde Siobhan fora posta. Buscava por algumas poções e pomadas específicas, não querendo imaginar a dor que a criança havia sentido na hora. Poderia ter morrido, certamente poderia. E se não fosse pela luz intensa de encontro com a pele extremamente frágil, seria pela planta letal sufocando-a até o último suspiro.
Não fazia ideia da própria sorte.
Entregou-lhe um pequeno recipiente cheio até a borda com uma poção já pronta que tinha a função de impedir qualquer possível dano na tez da menina, enquanto preparava uma simples mistura de ingredientes para passá-los em pontos expostos do corpo com o mesmo intento. — Receio que você terá de ficar alguns dias aqui, sob meus cuidados — disse, pela primeira vez, com uma expressão séria e voz em tom profissional. Seguramente, haveria muxoxos e reclamações, como todo e qualquer adolescente em férias escolares. Colin Macdougal, todavia, sabia ser firme quando via necessidade.
When the hurt and the healer collide — Colin & Siobhan
Um caso urgente.
Para um healer, se mostrar disponível em época de férias escolares acabava com qualquer plano que não girasse em torno do tratamento ou cura de seus pacientes. Incluindo nesses planos, o desejo de descansar uma noite inteira sem que fosse interrompido por algum Patronus carregando uma notícia urgente ou qualquer aparatação inesperada relatando um novo caso grave e solicitando a presença imediata no hospital. Mesmo em seus dias de folga, era chamado em St. Mungus devido algum imprevisto como o habitual desfalque no grupo de healers. Esse era o caso daquela madrugada absurdamente quente, e Colin nunca negava trabalho. Estava irremediavelmente cansado, mas uma enorme preocupação o acometeu quando ouvira o os sintomas da menina que acabara de chegar, antes de jogar o jaleco branco sobre o corpo e correr até a sala em que a próxima paciente estava sendo levado. Uma criança. Eram inúmeros casos que as levavam até seu local de trabalho diariamente: magia acidental em excesso, poções tóxicas ingeridas, feitiços errados, uma breve distração dos pais sobre algum pequenino levado. Estava familiarizado com aquele tipo de coisa.
No entanto, existia uma grande diferença entre familiaridade e falta de preocupação. A garota muito, muito branca que adentrou em sua sala ainda não tinha nome, história ou diagnóstico. A dúvida a respeito desses tópicos fez com que Macdougal afastasse todos que estavam em sua volta e desse atenção exclusiva à possível estudante de Hogwarts. — O que aconteceu com você, criança? — divagou em um murmúrio enquanto empunha a varinha e a passava paralelamente ao corpo pequeno e esguio, examinando-a. A menina que não tinha mais do que dezesseis anos lembrava-lhe Elsa Olsen, uma outra criança que muito lhe despertava interesse, mas que não era sua prioridade no momento.
Sua expressão era séria, e suas mãos habilidosas.
Seu nome era Siobhan Rosier, uma adolescente albina. Sangue puro, pertencente à uma família rígida e tradicional. Havia utilizado um feitiço contra si própria, cujo nome ou intuito ainda eram desconhecidos. Fora obrigado a reanimá-la, a fim de fazer um exame mais completo e terminar com as dúvidas. Um feitiço silencioso fora ministrado para acordar a estudante, e o healer já a aguardava com um sorriso tranquilizador no rosto. — Como se sente? — indagou enquanto ajudava a menina de aparência frágil sentar-se. Serviu-lhe uma poção que impedia algum possível enjoo e aguardou que a criança dos Rosier dissesse algo a respeito de seu estado. Vê-la com os olhos abertos, mesmo com a expressão totalmente confusa já era um grande alívio.