Passar o tempo lendo não era mal algo incomum para Neftis, depois da coroação passara tempo demais com todos os livros possíveis, todos indicações dos tutores e dos professores do instituto como forma de ajudar na familiarização com os deveres de monarca. Havia escolhido o saguão principal para isso, felizmente não estava tão cheio e a rainha já havia enjoado dos outros lugares pelos quais já havia passado encontrando ali um cenário novo para a leitura. Entretanto, nem mesmo o lugar novo conseguia dar conta de deixá-la atenta ao livro, especialmente naquele dia despertou com certa inquietação e ler não conseguia lhe tirar a agitação. Desta forma, acabou guardando o livro dentro da mochila e partiu de onde estava, rumando em direção a cafeteria do instituto.
Não demorou para chegar e foi logo fazendo o seu pedido quando deu de cara com sua prima. Neftis não era tão próxima de sua família indiana, mas conhecia Laksh e lembrava-se de passar algum tempo em seu reino quando Maya decidia visitar seus irmãos, um deles o atual Maharaj e pai da moça a sua frente. “Laksh? Mashallah! Que ótimo te ver, como está?” abriu um sorriso mais alegre agora, Neftis gostava muito de rever parentes, era sempre reconfortante quando eles não estavam mortos como seu irmão. “Acho que faz um tempo que não te vejo, e não a vi na minha coroação. Teve algum problema?”
Para Rajaram, ser a primogênita e herdeira do poder da dinastia Maratha não parecia suficiente enquanto ela não desenvolvesse em si um falo e se tornasse um indivíduo do gênero masculino. Muitas das suas decisões eram prejudicadas somente por ser uma mulher e tinha um atraso de vida enorme dependendo da aceitação de Rajaram. Necessariamente, em algum momento aquilo lhe cansava e por pura teimosia ela conseguiu com que o Maharaj lhe enviasse com suas irmãs para RANU e para o Instituto novamente apó o intervalo que enviou alguns herdeiros para Aspen e após a tragédia com os vermelhos. Lakshmi Bai tinha o gênio forte, contudo, com palavras dóceis conseguiu a permissão do governante e ali jazia após ter chego em um dia nas instalações americanas. Decidiu, portanto, por pedir ali um Chai, bebida típica e com sabor de casa, ainda que jamais se equiparasse àquele feito pelos cozinheiros do palácio. Sentou-se em uma das mesas do local e trajava vestes tipicamente ocidentais, não fosse pela enorme quantidade de pulseiras nos pulsos e brincos tipicamente indianos. Até mesmo o Nath foi substituído por uma jóia mais simples, afinal de contas no meio da multidão ela claramente destoaria vestindo um sári ou um lehenga e os deixava para situações mais importantes, como um casamento ou uma coroação. Ainda sentia-se irritada pelo fato do pai ter proibido a si e às suas irmãs de comparecer ao evento em que sua própria prima havia finalmente tornado-se uma rainha. Laksh sabia muito bem a razão e o preconceito islâmico, além das mágoas entre tia Maya e o seu pai, mas por muito criava na cabeça que era a paranóia de que Rajaram não queria deixá-la assistir ao evento, já que não cabia a uma mulher tornar-se a governante de uma nação. Arey baaba, não tivessem nomeado-me de Lakshmi bai, como a Rainha dos Jhansi em primeiro lugar.
Murmurou um dhanyavaad em agradecimento quando a jovem trouxe-lhe o pedido e corrigiu-se pronunciando a palavra obrigada no idioma oficial do país, com um sorriso logo em seguida. Pegou o pequeno bule de leite depositado ao lado e despejou-o lentamente dentro do copo e misturou-o com a colher antes de bebericar com cuidado, uma vez que era uma bebida quente. Quando levantou seus olhos, encontrou a figura egípcia da prima em sua frente e sorriu com certo ânimo verdadeiro, ainda que com certa culpa lembrando-se do que havia justamente pensado anteriormente. Definitivamente a mente era poderosa o suficiente para atrair aquilo que era pensado, como sua avó costumava dizer-lhe, o que não era má coisa no caso da aparição de Neftis.
—— Neftis! Venha cá, sente-se comigo. —— Exclamou ao mesmo tempo em que a rainha pronunciava o seu nome. —— Namastê! —— Cumprimentou-a de maneira tipicamente hindu, largando a xícara sobre a mesa para unir as mãos, reconhecendo a presença da egípcia, assim como a outra utilizara expressão típica de sua religião. Em um momento tão singelo como aquele Lakshmi via o quão estúpida eram as convicções de seu pai e de alguns grupos radicais de seu país. História era importante, mas ódio não devia ser disseminado tão explicitamente. —— Digamos que constantemente e eternamente irritada devido á alguns problemas e imensamente triste pela perda do meu querido mamērā bhā'ī, mas posso imaginar como está sendo para ti. Como está lidando com tudo que está acontecendo, mamērī bahana? —— Ternamente, Laksh esticou a mão para tocar o dorso da de Neftis, com a expressão verdadeiramente sentida pela situação toda. —— Ah, quanto a essa desfeita... deve-se ao meu baldi. Eu acho que você está familiarizada com a mágoa entre ele e tia Maya, então ele proibiu à mim, Shanti e Kali de comparecermos ao evento e à cerimônia fúnebre de Kamil. Peço minhas sinceras desculpas por conta disso. —— Ela inspirou o ar profundamente, ainda sentindo-se impotente diante das decisões do Maharaj. Contudo, ambicionava mudar toda aquela situação quando enfim pudesse assumir o controle daquilo que lhe pertencia por direito de nascimento, mesmo sendo apenas uma mulher.