ENTREVISTA COM THIAGO RONEY
Arcângelo Ferreira – Thiago, no conto A doença do mundo do seu primeiro livro, O estouro da artéria de um cavalo húngaro, uma personagem, se não me engano Úrsula, bebe sêmen para curar sua depressão, você já teve a doença do mundo? Tomou o leite da Úrsula?
Thiago Roney – (risos), sim. Não exatamente o leite de Úrsula, criei meu leite. Quando passei mais de um mês deitado na cama sem conseguir colocar um lençol sequer comecei a inventar meu próprio leite a partir da decepção e do vazio. Minha doença do mundo foi minha fábrica de contos, dito de outra forma, meu leite forjado foi a literatura, um leite que não tomei, na verdade vomitei, vomitei O estouro da artéria de um cavalo húngaro.
Arcangelo Ferreira – E qual foi tua doença do mundo?
Thiago Roney – Ah, um troço chato aí. Um desequilíbrio. Umas tretas familiares com excesso de trabalho. Trabalhava na época nos três turnos dando aula de matemática em escolas estaduais e municipais. Comecei a ter sintomas da síndrome de burnout e descobri que estava quase com úlcera no estômago, uma gastrite da pesada. Sentia ânsia de vômito todo dia de manhã ao ir trabalhar. Ficava meio puto com isso, achava que era frescura, que era um luxo ficar passando mal com tanta escrotidão por aí. Mas a parada era meio séria, como a depressão que é punk e a galera acha que é pagode. Larguei dois turnos de trabalho, fui deitar no colchão sem lençol e tomar mais de um mês um quilo de omeprazol e de letras, saiu então o primeiro livro e a doença do mundo virou literatura. Em certo sentido, assim como Flaubert era a Madame Bovary, eu fui a Úrsula.
Arcangelo Ferreira – Porra, então ministrar aulas de matemática para a garotada da periferia não é fácil. Ou tu também é um pouco o Mânfrede, aquele personagem do conto O caçador de made in’s que odeia o trabalho em geral e ficou chocado ao ler em um pórtico de cemitério a inscrição Laborum meta?
Thiago Roney – Certamente. Quem em sã consciência, falando em trabalho alienado e opressivo como é o da grande maioria da população, gosta de trabalhar? É uma raridade e privilégio quem consegue um trabalho que goste e sem tal característica. A própria etimologia da palavra trabalho – tripalium - em latim, referência a um instrumento de tortura, já emana sofrimento. Porra, ainda tem essa ideia escroto que a meta da nossa vida seria trabalhar até morrer. Não podemos cair nessa. Não acredito nisso. Esse é um dos motivos que a Ambev, por exemplo, não para de cagar lucros. Já imaginou todo mundo sendo torturado sem poder no final de uma jornada semanal de tortura não poder se entorpecer tomando uma cerveja? Como seria enfrentar o amanhã para ser torturado de novo? Um belo mote para um conto, nâo?, o dia em que o álcool sumiu, o trabalho sucumbiu. (risos). Acho que estou precisando tomar uma. (risos). Enfim, nesse sentido, acho que sou um pouco Mânfrede também.
Arcângelo Ferreira – Realmente vejo nos contos do ‘Estouro’ o trabalho como temática de fundo, também a família e a loucura. Era disso que queria falar nos contos?
Thiago Roney – Tem mais coisas lá. Mas basicamente sim, era isso. Esses três pontos meio imbricados. Acho que a maioria das formas de loucura da ordem vem da família e do trabalho. Como dizia meu professor de filosofia lá da UFAM, o Paulo Monte, acho que citando alguém: se cercar a família com muro vira um hospício, se cobrir com uma lona vira um circo. Arcângelo Ferreira – Então teve que cercar a tua casa e depois colocar uma lona para escrever o primeiro livro? Estava lendo qual livro na época?
Thiago Roney – (risos). Nem precisava, minha família é um circo-hospício permanente. Arca, não sei se vou lembrar de todos os livros que li na época, mas lembro que estava fascinado pelos contos do Horacio Quiroga e pelo livro Pássaros na Boca da escritora argentina contemporânea Samanta Schweblin recém lançado no Brasil na época. Indico fortemente esse livro. Acho também estava relendo A metamorfose do Kafka, O estrangeiro do Camus e Mendigos e altivos do egípcio-francês Albert Cossery.
Arcângelo Ferreira – Qual foi o livro ou o escritor que quando tu leu pela primeira vez ouviu ele falando pra ti: Thiago, tu tem que escrever também?
Thiago Roney – Acho que foi o Cossery. Quando li o Mendigos e altivos e Cores da infâmia, pensei: cara, tenho que fazer isso, escrever. Ouvi também a voz estranha do Kafka e a melódica do Garcia Márquez dizendo isso. A certeza surgiu quando conversei com o Manuel Scorza lendo A dança imóvel e o Bom dia para os defuntos. Aí, já era. Estou aqui. Todo dia ouvindo os escritores dizerem: vai, senta bunda e escreve, porra.
Arcângelo Ferreira – Scorza é um escritor que utiliza seus romances na perspectiva de se pensar e fazer uma literatura subversiva da ordem dos valores vigentes. Essa postura influenciou a tua literatura?
Thiago Roney – Em certo sentido sim, mas misturo outras influências para construir o meu tom. Um texto é sempre a reescritura de vários textos, né?, já dizia Borges e outros. Acho que é uma reescritura antropofágica a partir do nosso fígado, no sentido em que os gregos antigos davam ao fígado. Talvez, o meu segundo livro A merda do mundo, escrito em parceria contigo tenha um pouco disso, não? O que tu acha? (risos).
Arcângelo Ferreira – Sim, mas não venha subverter a nossa ordem aqui, o entrevistado é você (risos). Falando nisso, o que representa o livro A merda do mundo? Conta como foi o processo de criação para você.
Thiago Roney – O Merda é um livro de asfixia. Desde sua concepção. Lembro que quando escrevia uma frase ou lia uma frase escrita por você, para fazermos os contos a quatro mãos, além de ver o tom enigmático do enredo por vir, já que não conversamos antes sobre o tema, vi surgindo uma narração com dificuldade em narrar como forma construindo o conteúdo. Por isso, depois, descobrimos juntos o mostro montado, quando recolhemos os contos inscritos na temporalidade da ditadura militar. Arca, não te contei, mas fiquei uns dois dias ouvindo alucinadamente os gritos dos Waimiri Atroari depois que escrevi o conto Apiemieke? (um dos únicos contos do livro escrito somente por mim), após ler o relato dos indígenas no relatório da comissão da verdade do Amazonas.
Arcângelo Ferreira – O conto realmente é forte, mas me diga uma coisa, o livro O estouro da artéria de uma cavalo húngaro saiu primeiro pela editora Multifoco do Rio, depois pela thysanura edições de rua, a mesma que publicou o nosso A merda do mundo. A thysanura é uma pequena editora fundada por você. Por que decidiu entrar na empreitada editorial? Quer ficar rico com literatura ou sentir o amargor da falência?
Thiago Roney – Sentir o amargor da falência (risos). Entre essas duas opções com certeza a falência é o único caminho. Talvez só a falência faça literatura. Outra coisa, não tem como ficar rico sendo pobre, só sendo já rico. Aliás, é meio impossível ganhar dinheiro vendendo literatura e livro de arte, não é? Até o Cosac se fodeu. A proposta inicial da thysanura é publicar literatura e teatro com qualidade e preço acessível. Ser uma traça no mercado literário. Acho que num futuro próximo as pequenas editoras vão comandar a cena toda. Já vemos os sinais disso.
Arcângelo Ferreira – Escritor, editor, militante de esquerda, professor, mestrando. Quer ser um camaleão ou um personagem de si mesmo?
Thiago Roney – todos somos meio um personagem camaleão. Uma metamorfose aqui outra ali, sobra os intervalos. Somos mesmo é o intervalo das metamorfoses.
Arcângelo Ferreira – TR, acho que tu vai ficar meio puto comigo, mas fiquei sabendo que tu anda fazendo inserções na poesia, é verdade? Pode deixar um registro para finalizar a entrevista?
Thiago Roney – é verdade, come-bosta! (risos). A poesia nunca foi meu forte. Ando tentando... Nada consolidado ainda. Não sei se irei publicar. Vou reescrever alguns dos poemas. Mas se sair algum dia um livro já tenho o título: Corponismo. Deixo aqui um risco inacabado.
Partículas beckettianas
O corpo vibra enquanto
Algo rompe o campo sufocado
A imagem desce
Visualizam-se as partículas
Não há mais um corpo apenas
Há átomos domados pela compulsão
Alguns continuam a acreditar
Enquanto outros dizem não
Estes afirmam:
O movimento é um esquete sem história
Aqueles, entanto, pulam fora
Estoura a película de aço
Nasce então o diálogo:
- O corponismo fracassou!
- Eu sei, queremos fracassar melhor.
Thiago Roney é um escritor e editor de Manaus. Autor dos livros de contos O estouro da artéria de uma cavalo húngaro (Multifoco/RJ e thysanura edições de rua/AM), recentemente lançado também em e-book pela editora Mombak na coleção Latitudes coordenada pela escritora Maria Valéria Rezende, e A merda do mundo (thysanura edições de rua/AM), em coautoria com Arcângelo Ferreira. Publicou também o conto A panela velho do mundo pela e-galáxia na coleção formas breves. Para sobreviver, formou-se em Matemática pela UFAM e faz mestrado em literatura na UEA.










