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祝日 / Permanent Vacation
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@manjericante
Carta pra você.
Eu estava pensando que quando eu era criança, você dizia pra eu tomar cuidado com minhas escolhas. Por que um dia você não ia estar mais aqui e eu ia me arrepender. Ia me arrepender de não ter feito algo, de não ter passado tempo com você. De não ter aproveitado "da forma certa" enquanto você estava aqui. Na época, eu não sabia o que era a forma certa, eu era só uma criança., mas depois descobri que era, basicamente, fazer as coisas do seu jeito. Eu não entendia, mas eu acabava sucumbindo à isso, realmente com medo de, no futuro, acabar me arrependendo. Eu acho que isso mexeu muito comigo, mais do que eu achava que tinha mexido.
Hoje em dia, depois de anos, noto que sempre guardei comigo a teoria de que eu iria me arrepender se eu não fizesse algo do seu jeito. Eu me deixei apagar muito. Fiz o que você queria que eu fizesse, da sua forma, em vez de o que eu queria fazer. Eu imaginava que assim eu teria uma segurança maior de que eu não me arrependeria depois, ou pelo menos teria menos medo de que isso acontecesse. Só que viver sua vida pelos outros não é o jeito ideal de viver.
Quando chego num momento no qual eu não sei o que é o melhor a se fazer, acabo pedindo a sua ajuda e a sua opinião. Mas ultimamente tenho percebido que o seu jeito de fazer as coisas nem sempre é o melhor pra mim. Eu noto que muitas das coisas que você faz são pra você mesmo, faz o que é o melhor pra você, o que é mais conveniente pra você. Então eu parei de confiar tanto no seu julgamento, parei de acreditar que você de fato sabe o que seria melhor que eu fizesse para evitar arrependimentos.
E aí eu cresci. Passamos por várias situações e eu me senti deixada de lado e abandonada várias vezes. Agora, quando você chega pra mim e diz ou age como se eu fosse me arrepender de não ter aproveitado algo (por que um dia eu não vou mais ter você na minha vida), só consigo pensar que, na verdade, quem está arrependido é você. Quem me perdeu foi você. E quem não está mais na sua vida sou eu. Depois de todo esse tempo quem acabou indo embora foi eu.
Eu noto um leve desespero da sua parte tentando me pegar de volta, mas sem conseguir, como se você tivesse trinta braços e trinta pernas. Quem tem tanto braço e tanta perna acaba não sabendo usá-los direito, acaba tropeçando, fica todo desastrado. Fico triste, por que não gosto de ver as pessoas que eu amo passando por isso. Mas quem eu menos gostei de ver passando por isso foi eu. Minha vida toda eu tive trinta braços e trinta pernas. Mas gora, talvez, eu tenha um pouco menos e, talvez, eu saiba controlá-los melhor, mesmo que isso doa em você.
Eu sei que você nunca admitiria que isso dói, nunca. Mas eu sei que dói, por que doeu em mim. Doeu em mim quando eu senti que eu não estava tão próxima assim de você e que eu nunca ia estar. Que nunca vou estar. No final das contas, ninguém sai ganhando. Viver as custas de uma ameaça vazia é se colocar no caminho de ser a vítima delas depois.
"O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores do que os répteis?"
- Ferrante, E (2019). A Vida Mentirosa dos Adultos.
A Vida Mentirosa dos Adultos - Resenha Fiquei atraída por esse livro, inicialmente, por causa da capa. O título combinado com a imagem de uma máscara quebrada por cima do rosto de uma garota me despertou uma curiosidade enorme. Com meus meros 20 e poucos anos me perguntei se estaria inclusa na categoria "adulta" mentirosa. Com essa idade, acabamos de sair da adolescência, mas ainda não nos sentimos adultos de fato. De repente, estamos na eminência de nos tornar pessoas de quem sempre nos distanciamos a vida inteira, dando início a vida adulta, mas sem uma linha de partida nítida. Acho que por isso jovens dessa idade são (somos) tão confusos. A leitura é fácil e flui muito bem. Eu, particularmente, gosto de romances filosóficos, então se você curte mais um estilo de história com enredo fechado, talvez não curta tanto. Esse livro, ao invés de contar uma história específica, se desenrola em cima das várias situações cotidianas da vida da protagonista a partir do momento em que ela escuta, por trás da porta, seus pais a chamando de feia. No decorrer da história conseguimos identificar claramente (fácil quando é com os outros) o momento de partida da jovem na vida adulta e o caminho que ela percorreu para chegar até ali, os dilemas que ela enfrentou e os desafios que encarou. Ferrante cria uma personagem bem carismática através da descrição das suas melhores qualidades e piores defeitos e usa uma linguagem simples com orações muito bem construídas para nos guiar pela história. Ao final da leitura, posso dizer que ela conseguiu me fazer sentir que realmente estive em Nápoles durante os anos 80.
"O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores do que os répteis?"
- Ferrante, E (2019). A Vida Mentirosa dos Adultos.
Reescrevi a história que inventei quando era criança.
A viagem da fadinha Bia e o Pinguinho
Toda vez que chovia, Bia não desgrudava da janela de casa. Ela gostava de ver a chuva caindo lá fora e, principalmente, de escutar o som dos pingos de água contra o vidro. Era o único momento que ela deixava os outros brinquedos de lado e ficava em silêncio. Ela ficava calmamente observando enquanto as gotas se juntavam, se separavam, caiam e continuavam a escorrer.
Bia não podia deixar de imaginar que as gotas, de alguma forma, viviam suas próprias histórias, uma longa vida que durava todo o comprimento daquela janela. Toda vez que dois pingos se juntavam, ela sentia que estavam apaixonados e se casaram. Quando se separavam, torcia para que se reencontrassem mais embaixo. Alguns desciam se esbarrando nos próximos e quando chegavam ao fim do vidro estavam largos e gordos. Desses ela ria bastante, pois imaginava que eram pingos bem desastrados e que faziam muitos amigos. Já outros desciam o caminho todo se desviando dos demais, e por esses ela ficava triste, pois chegavam ao fim bem pequenininhos como ela.
Esses pinguinhos eram especialmente importantes para Bia, pois sentia que ela era a única que os via, a única que sabia das suas histórias, já que eles não tinham encontrado mais ninguém ou tinham se separado dos outros ainda ao topo da janela. Ela lhes mantinha companhia até acabar de chover. Naquelas horas ela sentia que estava com alguém que lhe entendia.
Na sala de aula, Bia também era a menor, como bem gostavam de apontar. Seus pais não davam muita bola, diziam que ela ainda ia crescer muito, bastava ter paciência. Como eles iam saber se nem mesmo pequenos eles eram? E se ela acabasse como aqueles pinguinhos no fim da janela? Ainda pequenos depois de uma vida toda? Sem ter as respostas para essas perguntas, Bia se contentava em observá-los.
Um dia, a professora explicou algo sobre o ciclo da chuva e Bia, que andava sempre distraída, prestou bem atenção dessa vez. Ela descobriu que, para que chovesse, era preciso que a água da chuva anterior voltasse para o céu e lá se juntasse até formar uma nuvem. Bia então pensou nos seus pinguinhos voltando para o céu e se reunindo com todos os outros em uma grande nuvem muito mais larga e gorda do que qualquer uma das gotas que ela costumava observar. De repente, ela ficou contente de saber que eles não ficariam pequenos para sempre e sentiu que talvez também pudesse crescer e virar nuvem.
Se um dia Bia fosse nuvem, ela não choveria. Guardaria todos os pingos para si para que nunca se separassem. Mas se realmente tivesse que chover, buscaria todos os pinguinhos solitários e os traria de volta. Jamais deixaria um pinguinho sozinho por muito tempo e cuidaria deles até ficarem largos e gordos. Ensinaria para eles o caminho de volta pra casa para que nunca ficassem perdidos e, ao final de tudo, os pinguinhos voltariam sempre para onde pertencem.
"Tenho cá para mim que no fundo nada pode surpreender quem se permite ouvir nos outros a própria voz." - Carvalho, B. (2019). Nove noites.
20 minutos de diferença https://www.instagram.com/p/CQE9tWHjbdO/?utm_medium=tumblr
it’s time to look at some photos of pikas carrying plants and flowers in their mouths
Terminei de ler Crime e Castigo hoje.
O Menino, Toupeira, a Raposa e o Cavalo - Charlie Mackesy
Harland Miller art just hit different
Uma sensação estranha
de que o tempo fica no topo de uma pirâmide
e que a qualquer momento
o vento pode derrubá-lo
Mas enquanto ele está lá em cima
parece que o mundo para
que não há ninguém na rua
e que o dia não acaba
Na cidade que eu moro só venta às vezes
tem dias que tudo passa rápido
e outros que nem uma folha se mexe
não importa quantos minutos passem
mas quando a ventania vem
ela é tão forte
o tempo voa
e não dá tempo de fazer nada
Two right-wing shitstains, Bolsonaro and Trump, race to see who can kill more of their own citizens