❝ —– Uma parte de Felix, uma pequena e quase inexistente parte, sentia-se um pouco mal por não estar dando a mínima sobre tudo o que estava havendo no palácio. Ainda não entendera o motivo de tamanho estardalhaço porque uma selecionada fora pega aos beijos com um guarda ou sabe-se lá o que. Tudo aquilo de cortar relações com a China, banir a garota e retirar o posto do não-mais-tenente parecia um completo drama na visão do Turner. Quase como as novelas mexicanas que uma de suas tias adorava ver e o arrastava para ver junto. Acontecia que ele não tinha cabeça, tempo ou a mínima paciência para dramas, jamais tivera e jamais teria. Felix via a vida com simplicidade, ele pegava o que ele queria e fazia o que ele queria, sendo meio sensato vez ou outra para impedir que fosse preso ou exonerado da única coisa que amava na vida, seu cargo. E o incêndio, bem, isso lhe gerou um pouco de desconforto, para alguém que gostava tanto de água o fogo não era nada perto de um amigo, todavia, ninguém morrera e a única ‘vítima’ estava bem, não havia com o que se preocupar. A única real irritação se dava pelo fato de que a princesa Rebekah era a razão por ele estar ali e agora que a morena precisava de tratos médicos isso só significava que sua estadia seria prolongada ainda mais. O que não o animava nem um pouco. Só queria desesperadamente voltar para casa.
Graças a qualquer entidade por aí, Felix estava parcialmente bêbado. Quando estava aborrecido seu humor se inclinava para o mau humor e ele se odiava dessa maneira. Virava um tremendo pé no saco reclamão e irritante. Parecia Hector, só que com muito menos classe. “Não é óbvio? Eu sou a pessoa mais interessante que você vai conhecer aqui, oras.” A pergunta soou tão ridícula que o Turner exibiu uma careta em seu semblante. Não estava brincando a respeito daquilo, ainda que muitas pessoas acreditassem que seu ego inflado era apenas uma camada falsa. Tombou a cabeça para um lado e para o outro no segundo seguinte, titubeando sobre a questão exposta. “Depende do stalker, é claro.” Deu de ombros, pensando que um Marcus menos mau humorado do que o que havia conhecido sem qualquer dúvida seria considerado um stalker bem sexy aos olhos de Felix, nada que ele pretendesse dizer em voz alta. Preferia manter a zona de segurança por alguns minutos.
Um inconsciente sorriso cresceu nos lábios do Capitão. Basicamente só se referiam a ele como Turner no trabalho e a sensação de ouvir o sobrenome vindo dos lábios do Veja soou bem mais interessante do que usualmente era. O olhar que mantinha sobre as orbes negras alheias agora detinham um pouco mais de curiosidade do que a primeira vez que o encontrara. Felix, em partes, acreditava que todos tinham uma história para explicar seus jeitos de ser. A não ser ele, é claro, Felix era apenas um babaca por motivo nenhum. Porém, as pessoas em sua volta sempre tinham suas razões para serem alegres ou para serem amargas. E Marcus? Não lembrava-se de ter conhecido alguém amargurado como ele em toda a vida. “Erro seu pensar que eu irrito os outros. As pessoas meramente se incomodam consigo próprias e seus receios de serem quem são. Eu sou eu, não tenho vergonha disso ou problemas de mostrar. O que leva a quase toda a realeza e nobreza me abominarem por não poderem ser elas mesmas. Sabe o nome disso? Inveja. Não de mim, mas da minha liberdade.” Geralmente guardava tais pensamentos para si ou, no máximo, os dividia com Hector vez ou outra, porém, ele estava bêbado e entediado, o que o tornava um tagarela que geralmente tendia a passar da conta. Estreitou os olhos para o herdeiro mexicano, vendo apenas uma muralha em sua frente, mas questionando-se o que havia além e se valeria ou não a pena tentar descobrir. “Então eu suponho que você seja uma pessoa extremamente presa já que quase chego a ver completo desgosto em seus olhos quando direcionados a mim.” As sobrancelhas foram erguidas. Nenhuma de suas palavras soou irritada ou incomodada, apenas colocava os pensamentos tortuosos para fora em uma análise ridícula sobre uma pessoa que sequer conhecia.
Com um suspiro, afastou-se do contato visual, não sabia se estava com cabeça para uma conversa séria. Marcus não parecia o tipo de pessoa que ouviria sua opinião e, ainda descordando, respeitaria. O que soava bastante hilário, mas não para um Felix bêbado e com os instintos aflorados. “Mas bem, eu estou aqui por puro e completo tédio. Odeio ficar longe do meu habitat natural, ficar cercado de câmeras e pessoas que insistem em exigir uma espécie de educação que eu não tenho. Então cá estou, tentando esvaziar minha cabeça.” Ambas as mãos se ergueram no ar, com o mais velho passando a atenção para o local em sua volta. O Vega bem que poderia ter escolhido um canto mais claro para se embebedar, caso a conversa corresse para um rumo ruim Felix sem dúvidas que acabaria adormecendo ali mesmo. Apontou o dedo indicador na direção do mexicano, mas ainda sem olhá-lo. “E você nem ouse pensar que minha cabeça já é vazia só porque não vai com a minha cara. Eu não vou com a sua e nem é por isso que penso tal coisa a seu respeito.” A inquietação do Turner era bastante visível. Os dedos ainda batucavam sobre a mesa e os pés se remexiam contra o chão. Deslizou o corpo um pouco mais para trás no intuito de que as costas alcançassem a parede e pudesse tombar a cabeça na mesma. As orbes verdes voltaram para Marcus, ainda se questionando se a melhor ideia teria sido ir logo para seu apartamento ao invés de investir sua falta de paciência ali. “Your turn. Answer.❞
Em retesar quase instintivo da própria mandíbula, o mais baixo meneou a cabeça em um negar quase aborrecido pela lida com o outro homem; Em maneirismos quase inéditos, Felix se fazia capaz de eliminar os já parcos traços de paciência que ainda restavam no âmago do herdeiro latino. A sensação de desagrado, conquanto, veio a tomar vertentes do desaparecer efêmero ao que a careta se deu por sobre as feições do mais velho - e veio a arrancar um replicar quase que imediato de Marcus. ‘ Eu lamento em discordar… Mas já conheci cavalos mais interessantes do que você durante a minha estádia. ’ O terminar dos dizeres se deu auxiliado por um discreto curvar de lábios do moreno, em um velado sinal do provocar ao qual se faziam as palavras por si ditas - o ato, por sua vez, claramente compelido pela quantia de álcool já ingerida por si, em modos de adormecer uma ínfima fração de seu mau humor tão típico.
O silêncio veio a se recair sobre si nos momentos seguintes, onde a atenção jazia apenas no que o Capitão dizia - e, talvez em corolário das bebidas sorvidas, o Vega conseguia encontrar sentido na linha de raciocínio agora exprimida pelo norte-americano; Principalmente porque conseguia encontrar-se com perfeição em meio as palavras alheias. ‘ Talvez você esteja certo nesse ponto… ’ Começou ao que os dígitos mais uma vez criavam o enlace em volta do copo vítreo que levava fronte a si, antes que um novo gole fosse dado na bebida cujo o nome já lhe escapava a memória. ‘ Ou talvez as pessoas apenas, pura e genuinamente, não gostem de você e façam questão de serem claras sobre isso… Não acredito que todos os membros da monarquia sejam reprimido quanto ao que realmente são, e isso não impede que elas se irritem com você. ’ O sorriso que outrora se fazia apenas como um esboço passou a adornar suas feições em maneira ampla, e unicamente dirigido à Felix pelo tópico quase interessante que havia trazido à tona.
A situação apenas veio a se desviar com os novos dizeres do mais alto, que eram a síntese da verdade que tanto incomodava. O sorriso vacilou e se desfez por completo antes que os olhos viessem a abandonar os esverdeados em um sinal inconsciente do desconforto que sentia com a nova situação. A respiração, então, escapou ao príncipe em um bufar reprimido e mais alguns segundos foram por si utilizados antes de voltar a se dirigir ao Capitão em sua não planejada companhia. ‘ Ou talvez meu desgosto seja apenas porque, tanto quanto outras pessoas, eu falho em te suportar. ’ A meia verdade deu-se em único mecanismo de defesa ao que o acertar do outro lhe causava incômodo. O olhar voltou a se focar na figura sentada em sua frente no decorrer da resposta para a questão erguida apenas poucos instantes atrás. Mais uma vez conseguindo se encontrar no que Felix dizia, Marcus cedeu ao breve relaxar da tensão que havia o acometido segundos antes, enquanto até mesmo os traços se suavizavam em busca de uma atmosfera menos dotada do que preferia deixar para depois.
O novo curvar dos lábios se deu em maior discrição dos apresentados até então ao que os dizeres de Turner se anteciparam à resposta que, de fato, rondava os pensares levemente turvos do príncipe. ‘ Eu não ia dizer nada do gênero. ’ Respondeu ao encolher breve dos ombros, enquanto analisava os movimentos do mais velho - que, ao contrário de si que jazia em uma imobilidade atípica, parecia se agitar por motivos que pouco conhecia. ‘ E eu sei que vou me arrepender disso em alguns minutos, mas… O que você pensa ao meu respeito? ’ Não resistindo à urge de questionar, o herdeiro Vega apoiou ambos os braços sobre a mesa e veio a se inclinar sutilmente para frente conforme a atenção se postava ao militar em em toda a sua totalidade. ‘ Well… I was bored. And tired. ’ Deu levemente de ombros no começar dos dizeres ao que se deixava terminar a bebida que levava em mãos. ‘ Muita formalidade, muita tensão, muitos problemas, sabe bem como é… Às vezes até eu preciso de uma folga e achei que esse fosse o melhor lugar para fugir de qualquer rosto conhecido que eu pudesse encontrar pelo palácio. … Até você aparecer e me provar que eu não fui longe o suficiente para escapar de conhecidos. ’