ANÁLISE: MEGHAN TRAINOR - TITLE
Um debut single bombástico é uma faca de dois gumes: é um ótimo começo para uma carreira, obviamente, mas sobrecarrega o artista com uma cobrança fora do normal. É preciso que o resto do álbum – que no segmento pop costuma ter de dez a quinze faixas em sua versão comum – seja tão bom quanto o carro-chefe – ou pelo menos bom o suficiente para convencer. No caso de Meghan Trainor, missão cumprida.
Title, o álbum, foi precedido por um EP de mesmo título. “All About That Bass”, o único single lançado do EP e que também aparece no álbum, é comprovadamente um dos maiores hits de 2014. A fusão de pop chiclete, os vocais doces e o vídeo simples e colorido foi o bastante para dar à cantora sucesso suficiente para a produção de um álbum com muita visibilidade e promoção.
Seguindo a linha do single de estreia, Tittle é essencialmente pop, mas incorpora elementos muito sutis de outros estilos, como R&B e soul. Pense em Adele, mas sem a carga emocional pesada da britânica. É introduzido por “The Best Part”, que em apenas 25 segundos mostra o que vem a seguir. Redondinha e linda.
A já citada All About That Bass e Dear Future Husband – que também apareceu no EP – poderiam facilmente ser parte da trilha sonora de uma comédia romântica. Pensei em “Noivas em Guerra” e “O Diabo Veste Prada”, ambos estrelados por Miss Anne Hathaway.
“Close Your Eyes” também não é novidade, mas sempre surpreende quando executada. Novamente me lembra Adele, mas dessa vez com uma breve semelhança ao álbum de estreia de Ariana Grande, Yours Truly – que em minha humilde opinião é INFINITAMENTE melhor que My Everything, a não ser talvez pelos singles. O gancho é bom e o backing vocal é bem perceptível, o que acrescenta muito.
“3am” poderia estar facilmente em um álbum de 2003, quando os trabalhos pop da época receberam forte influência do movimento R&B. Os vocais de Trainor são novamente um ponto alto. Não são fortes, mas encantam e são radiofônicos. A seguinte, “Like I’m Gonna Lose You”, é um dueto com John Legend, então por aí já se pode imaginar o grau de romantismo da canção. Apesar disso – ou talvez por causa disso – não se destaca. Não faria nenhuma falta, na verdade.
O doce da faixa anterior é completamente esquecido em “Bang Dem Sticks”, que seria de Miley Cyrus se fosse mais sexualmente explícita. A música tem a cara do “Bangerz”, além de uma leve referência ao dubstep britânico, inserido no pop por Britney Spears e, a partir daí, copiado por todo mundo até perder a graça. Aqui, no entanto, se sobressai.
“Walkashame” daria uma ótima música natalina se não fosse o conteúdo lírico, que trata de atos e consequências de um porre (ou talvez até seja uma música de natal, dependendo de como você o comemora. E quem nunca? HAHAHA). “Title”, a faixa-título, é bonitinha e um dos pontos altos aqui. O break dá um novo fôlego e poderia ser ainda melhor se fosse uma parceria com o britânico Olly Murs.
“What If I” deixa o clima melancólico em um claro efeito Adele e seria uma boa alternativa para evidenciar a versatilidade artística de Meghan, por mais arriscado que isso seja do ponto de vista comercial. A versão simples do álbum termina com “Lips Are Movin”, inteligentemente escolhida como segundo single. Tem a mesma pegada despreocupada de All About That Bass e tem feito bonito nos charts, que afinal de contas é o objetivo principal aqui. A versão deluxe incorpora três música que são suficientemente boas para serem faixas bônus.
“Title”, no final das contas, não é profundo e conceitual. Longe disso. É aquele CD que poderia tocar inteiro no rádio sem cansar, para ouvir no carro durante uma viagem ou para relaxar em casa em um dia de tédio, o que é ótimo. No âmbito comercial, os números não mentem: o álbum estreou em primeiro lugar na parada americana e tirou o reinado de Taylor Swift – que ainda assim deve continuar vendendo que nem água com seu delicioso 1989, só para constar.
Meghan, assim, não decepciona. Faz bonito e deixa gostinho de “quero mais”.