A CASA DOS DEMÔNIOS
Certa vez passei uma temporada na Chapada dos Veadeiros e lá na Vila onde me instalei morava um pintor. A parte externa de sua casa era repleta de desenhos com figuras demoníacas. Ele não saia durante o dia e, de madrugada, pintava demônios nas árvores, postes e muros. Ninguém o via e todos morriam de medo dele. Certo dia eu disse: "Vou lá bater na porta e falar com ele!". Todos me reprovaram, disseram que eu estava louca e que ninguém entrava lá ou falava com ele. Essas informações só fizeram com que eu confirmasse minha decisão! E lá fui eu... Bati na porta e... nada! Bati mais algumas vezes e vi uma sombra passando pela janela. Esperei mais um pouco e ele abriu uma fresta da porta sem dizer uma palavra. Então, sussurrei:
- Oi, meu nome é Isabela. Eu queria conhecer você. Queria saber sobre seus desenhos.
Ele fez sinal com a mão para que eu entrasse e assim que coloquei os pés na sala ele trancou a porta. Comecei a puxar conversa, enquanto olhava os desenhos que tomavam conta da casa toda, mas ele não falava nenhuma palavra. Fui entrando nos cômodos enquanto ele apenas me observava com a cabeça baixa. Ela era pequeno e um pouco curvado, mas não sei ao certo como era seu rosto, a casa era muito escura. Então, entrei em um quarto onde haviam muitas tintas, quadros e um computador antigo. De repente ele falou:
- Você sabe mexer em computador?
A voz era estranha, a dicção não era normal e ele tinha muita dificuldade em pronunciar as palavras. Respondi:
- Sei sim. Mas não muito bem. Está quebrado?
Ele balançou a cabeça positivamente. Tentei ver se poderia fazer algo, mas nem tomadas tinham.
- Não dá para ligar sem tomadas.
Ele continuou mudo e abaixou mais a cabeça. Em seguida pegou alguma folhas e foi me dando, uma por uma. Eram desenhos e mais desenhos de demônios. Falei:
- Por que você não mostra esses desenhos? Por que não expõe?
Ele disse, com dificuldade, porém, docemente:
- Eu tenho medo das pessoas.
- Então é por isso que você desenha esses demônios? Para afastar as pessoas?
- Sim.
Levantei a manga da minha blusa e mostrei minha tatuagem, uma diabinha. Imediatamente ele sorriu e me abraçou, muito emocionado.
- Obrigado por ter vindo aqui. Não tenho medo de todas as pessoas agora.
No dia seguinte o vi, na rua, durante o dia. Ele passou por mim e sorriu de maneira angelical.
Pois é, nem tudo é o que parece. Conheci um anjo que morava em uma casa de demônios.







