Asking for forgiveness, praying to got your love back. — Supernatural.
Ele merecia a condenação eterna.
Dentre todos os pecados do mundo, todo o vasto arsenal de coisas sacras e divinas a serem violadas, dentre tantas mentiras a serem ditas, dentre tantas e tantas dores que consumem o ser humano e os fazem sentir vontade de mais e mais, ele teve de cometer o maior dos perjúrios. Tristan nunca teve uma vida fácil, sendo que nem mesmo ter um teto sob sua cabeça havia sido uma tarefa conquistada sem empecilho algum. Ele jamais conseguiu algo realmente importante fazendo uso da sua boa aparência e sorrisos galantes - podia, podia sim. Mas o caráter honrado do shadowhunter sempre o impediu de tirar proveito dos demais. Trabalho árduo era seu sobrenome, levar belos tapas na cara pelas luvas do destino igualmente caíam bem em sua formação. No entanto, quando pensou ter transposto todas as barreiras encontradas entre o céu e o inferno, sendo até mesmo inimigo irrevogável do Satã encarnado e andando livremente pela Terra, tudo perdeu sentido. Foi queimado, despedaçado, todos os problemas viraram contos de fada no minuto onde sua maior provação foi colocada diante dos implacáveis olhos pintados pelo verde que testemunhara mais atrocidades do que o permitido para sua sanidade. Seu maior fardo, sua tarefa final… Ela viera de cima. Filha de Deus, amiga dos homens, redentor dos pecados. Juiz dos pecados e guerreiro mais antigo da humanidade.
Sua maior dor era um arcanjo.
Sua maior dor tinham olhos azuis que transpunham suas vestes e deixavam-no completamente nu. Despido da usual arrogância, da coragem habitual, das mentiras ditas há tanto tempo que nessa altura tinham se tornado uma verdade em sua vida.
Sua maior dor era amar quem o tinha criado como um pai.
E amado como homem.
Dor maior que dilacera o coração e te reparte a alma em duas, refaz seus conceitos e grita aos quatro ventos que tudo que viveu durante seus longos anos foi uma mentira. Uma mentira deslavada, pois tinham lhe contado que não existe paraíso na terra.
Então por que sempre sentiu como se abraçasse um pedaço dos céus todas as vezes onde tinha os braços ao redor de Michael? Michael, Michael Draven. O nome da sua perdição divina e sobrenome do receptáculo que há muito tinha perdido lugar para o arcanjo. O mesmo espadachim por quem tinha simplesmente abandonado o Instituto em New York em prol de encontrar sua redenção. Sentia-se sujo, imundo, abarcado por Lúcifer em pessoa sempre que seus olhos fechavam e as pálpebras não conseguiam conhecer o sono. No princípio do envolvimento entre ambos, houve o alento. Seus episódios de terrores noturnos esvaíram-se como se nunca houvesse perdido uma noite acordado desde a infância. Passaram por todos os passos necessários: afeição, aproximação, carinho, dependência, amor. Amor em sua mais pura e sublime forma, um amor límpido e tão claro nas suas vistas quanto na de qualquer testemunha que os visse juntos. Pois a despeito de nunca ter escutado uma declaração do mais velho, as batidas erráticas no peito dele sempre foram prova o suficiente do sentimento que os mantia em comunhão. E foi por ele que acordou um dia decidido a abandonar seu cargo de Comandante, caminhando à esmo por toda América afim de eliminar a maior quantidade possível de demônios que encontrasse.
A cada mísera oportunidade onde sua lâmina desfazia uma inimigo, era como se estivesse mais perto do perdão divino. Como se Deus, em sua grande benevolência, fosse perdoar a si mesmo e a Michael pelo pecado que cometiam ao mesclar sacro e mundano. Sagrado e humano. O eterno e o efêmero. Precisava daquilo, precisava eliminar todos os Sete e seus discípulos, precisava ter seu nome ecoando por aí. Quanto mais conhecessem Tristan Crowley, maior seria seu grito. E quanto mais alto gritasse mais rápido Deus o atenderia. Era um ato egoísta de sua parte esconder-se do homem que amava mais do que a si próprio, mas era necessário. O arcanjo possuía milênios de distância para ser sábio, forte e controlado. Tudo isso em contraponto do jovem agora com vinte e anos, aniversário feito na semana anterior e dividido com um pedaço de cheesecake e alguns latas de cerveja amassadas no canto do hotel (com qualidade digna de um motel, ou ainda pior) onde se hospedara. Estava nessa jornada há quase cinco meses, e nesse meio tempo havia feito uma tatuagem na altura do peitoral, um símbolo tão antigo quanto a raça humana. Supracitado item o impedia de ser encontrado por qualquer criatura sobrenatural.
Por cinco meses Tristan Crowley esteve abaixo do radar de anjos e demônios.
Abaixo do radar de Michael, impossível de ser detectado. Mesmo suas orações eram feitas diretamente ao nome de Deus, ou de Uriel. Sabia que o arcanjo era sombrio e sério o suficiente para mantê-lo longe do outro. Pro inferno com isso, provável que Uriel estivesse bem feliz com a desistência de assédio. Sabia que nessa altura muita gente conhecia o nome do repentino shadowhunter que matara trezentos e cinquenta e seis criaturas em poucos meses. Tinha desarmado um exército inteiro sozinho, geralmente entrando em covis, arriscando sua vida em busca de um perdão que parecia não vir. O fazia não por mera vontade, mas sim porque sabia… Ou melhor, tinha certeza, de que a cada inimigo derrotado fazia de Draven alguém mais forte. Em suas orações, o dedicava cada conquista. Talvez o arcanjo não soubesse de onde estava surgindo tanta força para ele, ou maluco como era, acreditasse que tinham criado alguma seita o adorando. Apenas não. Não, não e não. Todo o poder vinha de Tristan, Tristan que tentava se fazer perdoar, Tristan que esperava pelos céus azuis que encontrasse logo o motivo para essa jornada pessoal, Tristan que certa noite três dias atrás sonhara com Uriel dizendo ter uma mensagem para ele.
A mensagem era clara: estava se matando. Iria morrer sozinho caso continuasse nesse caminho, e apesar dos seus esforços, New York precisava da sua ajuda. Foi a hora de voltar e encarar o que tinha deixado para trás sem deixar aviso. Hora de encarar Michael e ver se sentia-se mais digno do seu amor. Manteve o pensamento quando colocou sua camisa de verde musgo, recorte no tórax mostrando um pedaço da tatuagem sagrada que o mantinha protegido e botas pretas de cadarços. A calça escura o fazia parecer um soldado de si mesmo, tão solitário quanto realmente se sentia sem o amado arcanjo beijando sua pele. Irônico que ao chegar na cidade uma verdadeira tempestade caísse dos céus, a chuva parecendo teimosa e disposta a levar consigo todos os seus pecados. Começar de novo, do zero. Era isso que ia fazer. Respirou fundo, mesurando todas as suas escolhas quando adentrou o prédio do ex-Diretor. Escadarias, elevador, corredores. Porta. A velha numeração indicando estar no apartamento correto, e nunca pensou que erguer a mão e bater três vezes na porta fosse tão pesado e difícil quanto aprender a manejar uma espada. Dali não havia mais volta para o shadowhunter abaixando a cabeça, seus fios ainda mais loiros pela exposição constante ao sol nos últimos tempos, a tez definitivamente bronzeada e os músculos mais fortes do que nunca. Apenas esperou, esperou. Bateu mais três vezes. E de três em três, mais três. Esperou que nove fosse seu número de sorte e trouxesse o rosto mais bonito da face da terra de volta para o esquadrinhar dos seus olhos.
O tempo corria de forma estranha para criaturas imortais. Era isso que os tornava tão desapegados aos humanos. Eles morriam em um espaço de tempo curto demais para serem notados. O que eram noventa anos para alguém que já vivera mais de noventa séculos? Se apegar a algo que tinha uma vida tão curta soava paradoxal demais no mundo dos anjos. Talvez por isso Deus não fosse a favor da ideia de vê-los apaixonados por um mortal. Seria como um humano se apaixonar por uma libélula e sua vida curta de vinte e quatro horas roubarem as chances de tal humano encontrar algo compatível com ele próprio. Se Michael fosse humano, talvez fosse do tipo que se apaixonaria por uma libélula. Enquanto arcanjo, deixava a metáfora desaparecer. Tristan não era só humano. Havia algo de divino nele, a despeito de sua maldição. Havia algo de anjo. Uma parte dele estava tão próxima do céu quanto Michael, mas a maior parte parecia eternamente presa à Terra e sua mortalidade. A maior parte de Tristan estava longe do arcanjo. Tão distante quanto estava o paraíso da Terra. E não bastasse a distância óbvia por serem de classes tão diferentes, havia agora a física, que levara seu shadowhunter para onde Michael não poderia ir. Dedicara tempo demais ensinando truques àquele idiota, constatou certa vez, enquanto observava a ilha de Manhattan do topo de um arranha-céu. Agora Tristan escolhera por si mesmo seguir um outro caminho, um que o tirava da trilha de Michael, que o fazia seguir pelas sombras, escondendo sua presença porém nunca seu nome. Michael ouvia os outros shadowhunters, ouvia os anjos, ouvia os demônios. As histórias lhe chegavam fáceis. Só conhecia um caçador capaz de eliminar tantos demônios em um espaço de tempo tão curto, sem se importar se morreria lutando, sem lutar pela própria vida, mas por alguém que julgasse merecer tal mérito.
Michael não queria ser esse alguém.
Não queria ter vitórias dedicadas a ele. Não enquanto tais vitórias viessem de tão longe. Reconhecia estar errado. O número de demônios eliminados fora de New York alegravam os céus, aos arcanjos, e definitivamente fortaleciam Michael. A distância entre eles dava aos anjos uma vantagem. O Arcanjo Michael não parecia mais apegado à bondade e sorrisos fáceis. Era como se tivesse retomado pouco a pouco a frieza comum a ele, as manias e idiossincrasias, afastando-se de conversas, dando ordens diretas e desaparecendo em seguida, cumprindo seu dever de arcanjo e ignorando pouco a pouco a paz de espírito que encontrava apenas nos olhos verdes que o fitavam e nos braços daquele que amava desde o primeiro contato na Terra, há tanto tempo que seria ridículo tentar calcular. Amava em loop infinito o mesmo humano, vida após vida, burlando as leis da reencarnação apenas para não se ver longe da única criatura capaz de despertar nele algo mais precioso que sua divindade. Mesmo cinco meses parecia uma eternidade para um imortal ficar sem alguém que ama. Enquanto trocava noites de sono -- um hábito plenamente humano que decidira adotar para poder dar lugar aos sonhos -- por longas jornadas noturnas pelas ruas iluminadas da cidade, Michael tentava encontrar um motivo forte o bastante para Tristan querer se manter tão longe dele. Fizera algo errado? Fora duro demais? Exigira mais do que devia? Era culpa de suas reclamações constantes ou dos segredos que guardava? Tudo isso e mais o fato de Tristan precisar de mais do que alguns olhares mudos para acreditar que existia amor em tudo que Michael fazia por ele? Não devia haver resposta forte o bastante para responder quaisquer de suas dúvidas.
Tristan fora embora porque não queria ficar perto. Isso devia bastar para calar seus pensamentos.
Os primeiros meses pareciam uma tortura. Primeiro veio a vontade de largar missão, céu, asas, exército, tudo e ir procurá-lo. Uma ideia passional demais para um arcanjo, é claro, mas parecia plausível. De que lhe servia graça, asas e paraíso se não tinha os olhos de Tristan nos quais ver o reflexo da própria alma? Se é que tinha alma. Anjos não eram necessariamente a cópia perfeita do criador. Devia existir algo dentro dele, mas não sabia se podia chamar de alma. Quem sabe o shadowhunter percebera que ele era vazio. Que no fim acabaria por deixá-lo, que o melhor a fazer era fugir de Michael antes dele fugir. Havia uma chance remota disso ter evitado que Michael o procurasse. Se ele estava fugindo do estrago que o arcanjo poderia provocar, não seria justo com ele obrigá-lo a voltar. Então aquele curto espaço de tempo foi dando ao general uma razão para não buscá-lo. Era melhor que Tristan o deixasse. Tinha de se convencer de que era melhor. Tinha de deixar nas mãos dele o próprio destino. Parar de persegui-lo como uma maldita sombra e permitir a ele viver como considerasse melhor. Ou morrer. Uriel repetira inúmeras vezes o quanto era imprudente aquele shadowhunter, deixando um rastro de mortos e seguindo sozinho por onde somente Deus podia enxergar. Em segredo, Michael pedia a Deus que não o abandonasse. Que aceitasse a partida dele como uma forma de provar o quanto era honrado. Era o arcanjo quem merecia punição, não ele.
Numa das noites barulhentas de chuva em que Michael não podia nem sair nem fingir que dormia, e quando pensar em Tristan não era mais uma constante, pegou-se preparando um chá e observando a trilha percorria pelas gotas d'água em sua janela. Assim, sob a chuva, New York parecia menos iluminada, mais sombria, afogada em prantos que há muito se acumulavam entre as nuvens. Num pequeno instante de inconsciência, o arcanjo se perguntou se aquele era seu destino. Se tornar tão iluminado quanto a cidade, porém esperando uma noite para chover todas as suas incertezas e frustrações sem que ninguém pudesse acusá-lo. Retomando um mínimo de postura, encontrou em seus ouvidos um constante ruído. Ainda envolvido pela chuva, tentou acreditar ser o vento, mas o vento -- é claro -- não sabia bater na porta. E a solidão, em sua petulância, não costumava bater antes de entrar -- tirando o fato de que já estava ali, dividindo com ele o apartamento. Talvez fossem seus pensamentos ganhando formas, ou um fantasma se escondendo do silêncio. Afinal, por que diabos tudo tinha de ter uma explicação ilógica e abstrata?
Alguém estava batendo na porta. Alguém de carne e osso.
Alguém que seria ignorado se continuasse a bater.
-- Mas que inferno! -- Xingou baixinho, deixando sobre o parapeito da janela a xícara de chá. Um relâmpago iluminou a sala, da qual nenhuma luz artificial estava acesa. Os passos de Michael eram rápidos, mas nada interessados. Preferia continuar com suas metáforas descabidas onde se tornava uma cidade cheia de luzes, cassinos e fantasmas. Ser o homem que abre a porta de casa não era poético ou divertido. Nem melancólico, como comparar chuva e lágrimas. Antes de abrir a porta, sentiu um frio na barriga. Pela primeira vez em mais de três meses passou pela sua cabeça que talvez fosse ele. Não sabia a data exata em que parara de esperar por Tristan. O conhecia de outras vidas. O vira partir da companhia de todos que amava para mantê-los seguros -- embora isso fosse depois de Michael tê-lo deixado. Porém a única certeza é a de que ele não costumava voltar. Então por que diabos ele se pegava esperando que fosse ele? E, se fosse, o que diria? Não ensaiara discursos de boas vindas, nem imaginava existir um naquelas circunstâncias. Mas à medida em que sua mão destrancava a porta, tentou eliminar a esperança ridícula. Talvez fosse uma das vizinhas pedindo ajuda para trocar uma lâmpada -- pedido que ele recusaria em questão de segundos.
Então a porta se abriu.
Tristan Crowley o esperava.
Se Michael precisasse de pulmões funcionais para viver, teria falhado. suas pupilas se dilataram tão logo a imagem do outro se formou em seu cristalino. Talvez o susto, a surpresa, a descrença no que via fossem as causas de sua mudez. Mas Michael sempre tinha algo a dizer. Já vivera todas as situações possíveis existentes no mundo para saber como reagir a todas elas. Menos ao retorno de quem amava depois de tanto tempo longe. Aquilo era novo. Os batimentos acelerados do coração e o o calor repentino provocado pelo exagero de fluxo sanguíneo eram novidades às quais ele não sabia como reagir. Quis saber como era possível amar tanto alguém, ao ponto de ficar mudo por apenas vê-lo parado diante dos olhos. Incapaz de medir tal profundidade, Michael respirou fundo, engoliu em seco. Correu seus olhos pela imagem do shadowhunter diante de seus olhos e apesar de reconhecer cada mínimo detalhe dele, sentiu como se fosse a primeira vez que realmente o via. Se tivesse ensaiado aquela volta, provavelmente estariam agora trocando pequenas ofensas. Mas a situação era outra. Não eram mais só o arcanjo e seu shadowhunter preferido. Eram duas existências que, querendo ou não, se completavam e se amavam a um nível superior, indizível e incompreensível. Queria ter algo a dizer, mas mordeu a própria voz com a violência de um trovão. Será que Tristan sabia o quanto Michael o amava? Talvez fosse exatamente isso que ele devia dizer. Devia dizer que nunca o amara tanto quanto naquele momento, que sua saudade espalhara na própria essência um excesso de amor que já não cabia naquele corpo. Devia dizer o quanto se sentia vivo por apenas vê-lo, que o amaria daquela forma até o fim dos tempos e, acima de tudo, devia dizer o quão lindos eram seus olhos verdes. Porém em meio a tantas coisas a serem ditas, Michael fechou a porta tão desesperadamente quanto fora possível, recostando-se contra a mesma em seguida, quase como se não acreditasse na capacidade da madeira de permanecer fechada enquanto o amor que os unia estivesse ali, entre eles, quase como uma terceira presença.
Seu coração batia rápido o suficiente para acelerar as turbinas de um avião e seus olhos agora pareciam compreender o que seus pensamentos quiseram dizer ao tentar se imaginar como uma New York chuvosa. Jamais imaginara que ter de volta alguém que ama poderia dar a ele uma necessidade insuportável de chorar. Mas ficou feliz por ter fechado a porta antes de Tristan ver o azul ficar ainda mais parecido com um oceano, à medida em que lágrimas pesadas se preparavam para cair. Anjos não foram feitos para sentir tanta coisa ao mesmo tempo, constatou. Ele não fora feito para se afogar em si mesmo. Não queria mais brincar de ser New York. Queria manter a porta fechada e deixar que Tristan escolhesse ir embora de novo, assim ele podia fingir que fora só um fantasma. Não queria mais amar libélulas, mesmo sabendo ser tarde demais para usar metáforas. Precisava parar de pensar tanto, ia acabar se tornando humano.
Já não entendia o porquê de continuar mudo.











