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Covelinhas
Um tempo à medida de quem deixou de o medir
Pé ante pé, um ritmo certo, quase mecânico, como as grandes fábricas que têm tudo calculado por um relógio imaginário. Parecem passos de quem só agora aprendeu a andar: cautelosos e bem medidos não vá o diabo fazer das suas e pôr-lhe o mundo ao contrário. Felisberta deixou de medir a vida porque não encontra medida para o seu tempo. O seu andar, pautado pelo barulho dos pés arrastados no soalho, não é mais do que a prova de que todos temos direito a uma nova infância.
Tudo se faz mais devagar, e ganha razão o ditado: devagar se vai ao longe. Porque já não há pressa, e mesmo que houvesse… ela, seja quem for, que espere.
O quinto andar da baixa Lisboeta tornou-se uma prisão. O longo corredor que liga as divisões de uma casa que se quis grande porque a família crescia a olhos vistos, hoje é uma imensidão sem sentido. É percorrido vezes sem conta e parece maior a cada dia que passa. E o que dizer das escadas? Labirínticas, intermináveis, inacessíveis. Felisberta, nos dias de hoje, deixou de visitar, para apenas ser visitada. Quem quiser vê-la, tem de se debater com cinco andares, ou 153 degraus, contados por quem os sobe regularmente e quer ter a certeza que não aumentaram, até ao alto da masmorra, onde segue enclausurada há pelo menos três anos. Não sabe precisar porque não se lembra.
Nada há mais traiçoeiro nesta idade do que a memória. Prega-lhe partidas a todas as horas e sem horas marcadas como um amigo de escola primária desta sua nova infância que se ri com vontade numa esquina a observar o efeito da sua traquinice. O raio do catraio esconde-lhe as coisas em lugares onde não as encontra, troca-lhe as horas do dia e das refeições. Houve um dia em que almoçou e voltou a almoçar, e só se apercebeu do sucedido porque o jornal da tarde debitava as notícias de desporto, e a essa hora já costumava estar no seu café de saco, acompanhado da bolacha Maria. Parou, pensou, olhar confuso e saiu um: que diacho estou eu a fazer? Duas palavras mais feias a cada vírgula, e mais uns nomes depreciativos atirados contra a sua memória. Ah, porque dos adjetivos não esquece e atira-os com vontade, os nomes é que vão falhando, não chegam à boca quando precisa deles.
Se lhe pedirmos, conta-nos com vontade o verão de 1957, passado ao sol na praia da Costa da Caparica, mas se lhe perguntarmos o que comeu na semana passada, olha-nos com uma expressão de quem pensa sem pensar porque o esforço não será recompensado. Coisas da idade, responde-nos meio resignada.
Felisberta tem apenas duas janelas para o mundo. Uma é a da sala de estar, onde se cruza com as horas que passam. Senta-se numa cadeira de madeira de mogno, austera mas moldada a cada nova curva do seu corpo, puxa com o braço direito a cortina e fica a ver o mundo a girar. Dali conversa com as andorinhas que esvoaçam e se abrigam no algeroz sem pagar alojamento local, com os pardais a quem deita umas migalhas que guarda religiosamente no guardanapo a cada refeição, com os pombos a quem já rogou pragas vezes sem conta por lhe sujarem as janelas, e até com as gaivotas que por ali passam quando o mar se zanga.
Hoje, estranha as conversas que ouve ou tenta ouvir. Os ouvidos já não são tão fiáveis como antigamente e só captam alguns sons soltos, e também porque muito do que ali se passa soa-lhe a estrangeiro, igual ao dos filmes. Coisa estranha esta de viver em Lisboa e tudo lhe parecer vindo de longe, sinónimo de um tempo que já não é o dela.
Quando se cansa deste mundo, vai até à outra janela que está pousada na sua mesa de cabeceira, por cima do naperon de um branco imaculado, ao lado de um candeeiro esverdeado que alumia as noites sombrias e o retrato que ali está depositado. Senta-se à beira da sua cama de casal onde há muito dorme viúva, e fixa os pequenos olhos castanhos em José. O homem de trinta e muitos anos sorri com vontade por entre as tonalidades vivas do preto e branco próprio da época. É tudo tão real que até parece que se vê o tom rosado que lhe dava aquele ar bonacheirão, sempre aprumado e pronto para sair. Os óculos graduados aumentam-lhe o tamanho dos olhos amendoados com os quais Felisberta sempre se encantou. José partiu após quase 50 anos de vida passados ao lado de um amor que jurou eterno, mas que nunca o chegou a ser. Felisberta passa horas a trocar olhares intensos com José, e a sua memória viaja para um mundo que foi o deles. Dessas memórias não esquece, aquecem-lhe o coração, colocam-lhe um sorriso malandro no rosto, dão-lhe vida quando esta lhe falha. Com ele soube o que era paixão, desejo, amor e amizade. Quando o fogo se apagou, sobrou a ternura, e as certezas de que era ali que sempre quis estar. Nunca precisou de conhecer outros homens, ele fazia-a sentir inteira. Era curiosa e houve quem se aproximasse quando era nova, mas tinha na ponta da língua um ‘não’ seguro, de quem era mulher de um homem só, de quem amava, algo só ao alcance de quem se entregou um dia.
O silêncio desta vida adensa-se. Os dias passam uns atrás dos outros sem pedirem licença, repetem-se sem se distinguir a segunda do sábado e a terça da sexta-feira. Só o domingo é dono e senhor de si. A missa entra-lhe pela casa adentro bem cedo através de um rádio roufenho, repetindo vezes sem conta as “avé marias” e os “pai nossos”, intercalados por um ámen. Dessa hora nunca esquece, penitenciava-se se isso acontecesse. Depois apruma-se como em nenhum outro dia da semana. O colar de pérolas deixa o fundo da gaveta onde foi largado, o baton vermelho vivo contorna os lábios com uma ligeira tremura, e o vestido passado no dia anterior ganha a cor que o sombrio guarda-fato lhe tira. Até a bengala tem direito a sair à rua, um privilégio raro nos dias de hoje. A hora de almoço é esperada ao ritmo do bater de um pezinho que sobe e desce a preceito como o ponteiro dos segundos do grande relógio da sala que tem lugar de destaque.
Abeira-se da janela do mundo na sua sala de estar e ali sentada vê passar cada carro com maior atenção do que o anterior. Até que há um que pára, buzina. Felisberta faz jus ao nome, sorri e levanta-se com uma ligeireza pouco vulgar, e até os passos são menos arrastados. Corre para a porta, talvez correr seja exagerado, melhor dizer passo apressado até à escada. É o dia de António, o filho mais velho, a levar a almoçar.
em En La Ciudad De Iquique.
De jogador do Belenenses a motorista de Uber
Entrei, fechei a porta, e sentei-me. “Boa tarde sô Miguel, tudo bom?”. “Tudo certo, e consigo?”. “Qual é o seu destino? Aceita uma água ou uma bala?”. “Não, obrigado. Oh, estou indo para o Nova América, sabe onde fica?”. “Claro, vou seguir o caminho que está indicando no GPS”. Arrancamos. O Uber veio para ficar aqui no Rio de Janeiro. Há todo um ritual entre oferta de água, rebuçados, a escolha da estação de rádio e até a opção de conversar ou simplesmente viajar em silêncio.
Nesta viagem, o condutor chamava-se Rafael, o nome que aparecia na aplicação, numa avaliação perto das 5 estrelas. Era um jovem, 27 anos, de ombros largos, estatura física imponente, gestos educados e uma voz calma. Trocámos algumas palavras de ocasião, enquanto eu “caprichava” num sotaque carioca para me fazer entender. Mas disfarço mal, e a conversa depressa versou sobre as minhas origens, ante a sua curiosidade. Assim que falei de Portugal e Lisboa, o interesse de Rafael cresceu, assim como um certo brilho nos olhos que pude vislumbrar. A medo, explicou que conhecia a cidade, e até tinha lá vivido, perto de Alfragide, imagine-se.
A aventura durou apenas um ano e por trás de uma qualquer outra história de emigração, esta trazia uma bola agarrada aos pés. Lá esclareceu: “Sou zagueiro e joguei uma temporada lá no Belenenses, quando estava na Segunda Liga (2011/12)”. Espera lá, como assim? “Vivia lá do lado do Jumbo de Alfragide. Ia todos os dias para o Estádio do Restelo, que vista maravilhosa. Era treinado pelo José Mota. Não era moleza, não. O cara era duro e pegava no pé da gente”.
Tudo batia certo na sua história: época, treinador, antigos colegas de equipa. “O Miguel Rosa tinha talento, mas era muito medroso. Ah, ainda falo com alguns deles como o Abel Camará, meu parceiro”. E o que poderia ter corrido mal para estar hoje aqui ao volante? “Cara, eu estava emprestado pelo Olaria (clube do Rio de Janeiro) e até fui bem. Fiz vários jogos (14 jogos/1 golo) e queriam que eu ficasse. Mas foi complicado porque cheguei a ter três meses salários em atraso. Vim embora, não dava para viver nessa incerteza. E me ficaram devendo um até hoje”.
E num ápice estava de volta à cidade maravilhosa, à procura da segurança que o sonho europeu não lhe deu. Hoje lamenta até porque no ano seguinte Rui Pedro Soares comprou a SAD azul e tudo mudou, como ele próprio recorda.
A carreira de jogador continuou no Brasil mas em part-time. Jogador de equipa pequena está condenado a mudar de clube todos os anos, viajando entre campeonatos estaduais (Olaria, Santa Rita, Madureira, Portuguesa RJ). Este ano defendeu o Flamengo do Piauí, clube de um pequeno Estado no nordeste do Brasil.
Os campeonatos estaduais duram, em média, três meses e os clubes jogam-no de olho na venda de um qualquer jogador que pague mais uma época, e os que permita continuar à tona no ano seguinte. O normal, é acabarem por dispensar todos os jogadores, muitas vezes sem lhes pagarem o que têm direito. E Rafael sofreu isso vezes sem conta na pele. Assim, enquanto a vida de futebolista pára, Rafael assume o volante de um Uber para ganhar os reais que a dura realidade lhe nega. Com um filho para criar e o curso de marketing para terminar, o brasileiro deixou o futebol um pouco de lado. O sonho de pequeno custa caro num país onde ter salário em atraso é o pão nosso de cada dia e, sem ganha pão, Rafael acabou por ter de comer o pão que o diabo amassou. Convites diz: “Não faltam”. O que falta é alguém que cumpra o prometido.
Termina a viagem, agradeço a história, desejo-lhe sorte. A mesma sorte que ele não teve em Portugal, onde hoje ainda podia estar a jogar, se não tivesse ido embora, quando lhe pediam para ficar.
A terra dos chapéus (em Panama City, Panama)
A música ambulante #colombia
De Cali a Medellín são dez horas de distância
Saio a correr, atrasado como sempre, caso contrário não seria eu, mas outra pessoa qualquer. Tinha um autocarro que partia às oito horas da estação de Cali e o relógio anunciava-me que 15 minutos nos separavam do destino. Uns minutos a pé, táxi, trânsito, conversa de ocasião, passo acelerado, e chego ao local. Menos cinco minutos para a partida e procurei usar o meu espanhol de Badajoz para não ir ao engano.
Já suava por entre as malas que carregava em cada mão, enquanto marchava, porque correr é só para profissionais. Trocava olhares com o relógio para me convencer que teria tempo,. Ele dizia-me, simpaticamente, que sim.
Chego à porta de embarque, porque aqui os autocarros têm porta de embarque que comunica com a rua, como se de um aeroporto se tratasse. Ninguém estava lá a não ser umas pessoas sentadas que esperavam a sua hora despreocupadamente. Falo com a senhora da Bolivariana, a companhia com quem iria viajar, e vejo-a um pouco intrigada com o meu alvoroço europeu. Faltavam dois minutos e nem o autocarro tinha partido, nem as pessoas tinham entrado. Os horários são uma referência, não são necessariamente para serem cumpridos. E a prova disso foram os 40 minutos que se seguiram até toda a gente se acomodar devidamente para o início da viagem.
Pelo meio, entrou um senhor a vender baterias portáteis num discurso muito fluente e convincente. Aqui não basta dizer que não, pois ele despeja-nos sempre um exemplar para cima, vende a banha da cobra, agarra nos nossos telemóveis, coloca-os a carregar e depois, só depois, os recolhe da mão de quem não os quer.
De seguida, veio a apresentação de mais uma funcionária colombiana, muito apresentável, que enaltecia as qualidades da Bolivariana, do quão cómodo era o autocarro, lembrava-nos da casa de banho existente lá ao fundo, da presença de dois ecrãs de televisão, e ainda falava do wi-fi, dando-nos a senha. Nunca funcionou.
Lá partimos finalmente. Sempre estranhei quando comprei o bilhete porque anunciavam uma viagem de 10 horas para percorrer 422km. Estava expectante. Os 40 minutos de atraso começavam a ser o início de uma longa explicação.
Bem, quando por fim arrancámos, percebi que agora é que era, que para a frente é que era o caminho. Mas não. Parámos em todas as estações e apeadeiros como um verdadeiro comboio regional. Era um entre e sai de gente. Novos passageiros vindos de lugares e lugarejos, vendedores de batatas fritas, vendedores de amendoins, vendedores e mais vendedores. A juntar ainda a polícia para verificar passaportes. Um pára-arranca infindável por entre uma estrada de uma faixa que contornava as montanhas. Tinha mais curvas que os dias do ano.
A meio, lembrei-me de ir à casa de banho. Entre balanços e contra-balanços, evitando os passageiros, lá cheguei, onde se podia ler um aviso bem claro “Por su comodidad no la cague”.
Tirei uma foto. Está desfocada bem sei, mas era impossível focar e passo a explicar porque tudo ali era difícil de fazer. Tentar urinar numa estrada de montanha com um motorista com o perfil do Juan Pablo Montoya é um desafio só ao alcance dos maiorew equilibristas de circo. Mão na parede para não cairmos, a outra no dito cujo, depois ia a cabeça contra o teto por causa de uma lomba, a seguir era as costas contra a parede por causa de uma travagem seguida de uma aceleração. A meio desisti. Achei que era melhor esperar por nova paragem, não havia de faltar muito para mais uma.
A polícia que já tinha entrado pelo autocarro a dentro para verificar BI's, passaportes e malas, voltou a aparecer mais para a frente. Havia um senhor que já devia ser experiente porque dormia com o bilhete de identidade na mão. Assim, nem teve de acordar, e até o polícia achou engenhoso.
Quanto à programação do Bolivariano, tudo começou com um 007 onde o Daniel Craig falava num perfeito espanhol, de meter inveja a muitos locais. Depois foi a Meryl Streep e o Alec Baldwin que "también hablavam muy bien". O problema disto tudo é que o motorista insistia, ao mesmo tempo, em bailar salsa ao ritmo do rádio e nem se ouvia uma coisa nem outra. Era uma orquestra com cada um a cantar para o seu lado.
Se já não bastasse a estrada de montanha, a banda sonora, ainda nos caiu o céu em cima como tanto temiam os gauleses da pequena aldeia que resistia aos romanos. Desabou uma das tais chuvas tropicais entrecortada por relâmpagos e sonoros trovões. E eu tentava dormir para que os sonhos me levassem ao destino. Houve, porém, uma vez que acordei sobressaltado porque o motorista conseguiu pôr uma roda da camioneta fora da estrada, mas tudo certo. Uma aceleração, alguns suspiros a bordo, e já estávamos de novo a caminho.
Lá chegámos a Medellín e nunca fiquei tão feliz por chegar a algum lado. Depressa percebi porque se justificavam tantas horas para tão poucos quilómetros. Valeu pela aventura, mas já comprei bilhete de avião para quando regressar a Cali. São apenas 50 minutos e muito mais descansados.
Motorista e um encontro marcado com o destino
No Rio tudo acontece sob a vontade de Deus. Ele é grande, tem as costas largas e nele deposita-se a fé no amanhã, no que há de vir. Nestes Jogos Olímpicos como em tudo na vida brasileira, Deus está no comando, porque se ele não estivesse lá, só Deus sabe como seria.
Aqui tudo demora um pouco mais, o tempo não anda em contra-relógio, deixa-se andar. Respirar fundo é um exercício comum antes de se ir na fé do dia-a-dia.
Primeiro objetivo é sair de casa para enfrentar a “muvuca” porque o povo saiu à rua, e parece que logo todo de uma vez. Aqui nunca se anda bem a direito, é um ziguezague de nos deixar almareados. Tenta-se ultrapassar os que passeiam, os outros que param por parar, mais uns que vêm em contra mão, e ainda outros que rodopiam como uma bússola à procura de saber para onde querem ir. É fácil perdermo-nos no Rio quer pela boémia carioca, como pela sua ausência de indicações. Chega-se ao autocarro e já tem fila para entrar. Tudo ao mesmo tempo. Uns empurram para entrar, enquanto os outros empurram para sair. É quase uma formação de rugby que mede forças com o adversário.
E num destes dias de ritual quase cristão, decidi rumar ao aeroporto Galeão. Pus-me a caminho. Porém, o caminho seja para onde for, demora. Acho que já o tinha dito, mas nunca é de mais lembrar. Apanhei um BRT, autocarro pomposo com direito a uma faixa só para si, que tinha como destino: Fundão. É esse o seu percurso todos os dias. Mas só por estas coisas, o motorista decidiu contrariar a lógica de quem tem uma volta para fazer e mandou todos dar uma curva, ou melhor, ficarem na curva. De repente, mudou o seu caminho, e decretou o fim da viagem aos seus passageiros sem grande explicação. Protestos de uns, mãos erguidas de outros, e ainda havia quem tirasse fotos para depois fazer queixa do safado. Eu vi o caldo perto de se entornar, esteve quase para haver molho, mas acabou tudo em banho maria... O senhor dizia apenas que não iria sair dali. Tinha um encontro marcado com o destino e o nosso destino não ficava em caminho. Pediu para que seguíssemos a nossa jornada para outro lado, e até nos deu as indicações na sua gentileza.
Conclusão: mais um autocarro até a uma paragem que voltasse ao caminho inicial, e um terceiro para que voltássemos a ver o Fundão no horizonte. O destino nem sempre tem hora marcada, e isso agrava-se quando quem está no comando não é Deus, mas sim um motorista de BRT.
Jogou-se o Brasil – Argentina e Djokovic acabou eliminado
Brasileiros e argentinos não vivem uns sem os outros. É um amor que se confunde com ódio, aquele “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Tudo é motivo para trocarem uns mimos, mesmo quando há um sérvio pelo meio. Djokovic, ditou aquela sorte macaca, ia defrontar o argentino Juan Martin Del Potro na primeira ronda do torneio olímpico de ténis.
Começou por ser sorte porque o sérvio sabia que, à partida antes da partida, seria empurrado por milhares de ensurdecedores brasileiros. Uns são apenas os anti-Argentina, outros verdadeiramente amantes do seu ténis. Depois passou a ser azar porque Del Potro é um gato. Esclareço já que não tem a ver com a aparência física, nem me prestaria a essa avaliação. É felino por natureza na sua forma de jogar, mas mais do que isso, personifica na perfeição as sete vidas que são atribuídas a este animal. A cada lesão que o atira para um quase fim de carreira, ele responde com triunfos.
Para não perder o fio à meada, volto ao início e ao Brasil – Argentina que aqui se jogou. Os adeptos da casa adotaram Djokovic logo à entrada do court, e insultaram Del Potro na primeira oportunidade. “Argentino maricón” ouvia-se por entre um jogo e outro. “Chupa Argentina” após um ponto perdido de Del Potro, se bem que não foram muitos.
Estava no court central, porém sentia-me num duelo sul-americano de futebol onde se joga a honra a cada minuto. Podia ser no Maracanã ou na La Bombonera. E o árbitro passava a vida a pedir silêncio, porque no ténis ele é de ouro. Mas quando um coração sul-americano fervilha...
Os dois jogadores riam e aplaudiam, puxavam ainda mais por um estádio que se queria ensurdecedor. As bandeiras de Argentina e Sérvia espalhavam-se bancada fora. E só as do Brasil rivalizavam.
A cada ponto disputado com a intensidade de uma final de um Grand Slam, respondiam os adeptos com a emoção, para uns, de um golo falhado, e outros de um tiro certeiro. E nem um “vai Corinthians” escapou à festa.
Se nas bancadas se media o tamanho dos decibéis, lá em baixo os dois tenistas respeitavam-se e aplaudiam o ponto do outro, quando lhe reconheciam mestria. E isso viu-se no abraço entre os dois após mais um tie-break que fez cair o jogo para o lado do argentino, e depois caíram as lágrimas pelo rosto dos dois. Del Potro de felicidade por ter renascido, Djokovic de tristeza por ter ficado pelo caminho e precisar de mais quatro anos para tentar conquistar aquilo que nunca conquistou: uma medalha de ouro olímpica.
A revolta dos ônibus
Eram perto das sete da noite quando encarei o céu negro de Natal, onde o inverno vive por agora. O calor húmido colou rapidamente a roupa ao corpo, e a chuva tropical começou a cair de seguida num tempo que é o dela, e por isso nem precisa de avisar da sua chegada. Ela vem, o céu desaba. E o senhor Willimar que não chega. “São 15 minutos, vice?”. Mas os dele demoram mais do que os meus, porque o tempo não se rege por regras universais. Aqui a vida demora mais e o tempo espera por ela.
Lá chega o carro e o tempo que demorou contrasta com a velocidade com que travo amizade com Willimar. Sorriso aberto, cabelo preto mas pouco porque dali voou faz tempo, voz arrastada naquela cantiga com graves e agudos nordestinos, e estamos em casa. Começámos por trocar umas ideias, porque aqui é uma coisa que se faz muito. As ideias que temos, trocam-se.
À medida que a estrada avança, o senhor Willimar desfia as certezas de uma vida potiguar que hoje por hoje se centra na política: “O Governo não pode anunciar medidas, tem é de agir e só depois falar que agiu”.
A conversa versava em torno dos tumultos dos últimos dias por estes lados. Assaltos à mão armada, autocarros ardidos e tudo virado de pernas para o ar na cidade onde o Natal acontece 365 dias por ano, às vezes tem mais um, mas isto para ser exato por causa dos anos bissextos. Mas hoje é uma quadra pouco festiva.
O Governo Estadual decidiu bloquear os sinais dos telemóveis em todas as prisões do Estado do Rio Grande do Norte, mas antes de o fazer, resolveu, como se faz em todo o lado, anunciar a medida. Nada mais errado, pelo menos por aqui.
A criminalidade em grande parte do Brasil funciona de dentro para fora. Quem está dentro manda e comanda quem está do lado da “ilberdade”. Tudo através de um telemóvel que arranja sempre forma de entrar no estabelecimento prisional.
E assim de repente, até nem sei se as empresas de telecomunicações não deviam lançar campanhas de fidelizações para quem está preso, dado o número de aparelhos por metro quadrado existentes. São clientes mais do que fiéis, e gastadores tal o número de ordens que têm de dar.
Ora, assim que a medida foi anunciada, as fações organizadas que lideram as prisões deram instruções cá para fora e decidiram intimidar o governador mostrando a sua força. Basta meia dúzia de chamadas, e consegue-se gerar o caos numa cidade.
Hoje por hoje, quem passa na orla da Ponta Negra vê apenas os resquícios de uma guerra de ontem. Um autocarro que foi consumido pelas chamas, carros de polícia que fazem questão de ser vistos. Esta é uma guerra que só agora começou, e que feitas as primeiras jogadas, espera-se apenas por quem moverá a próxima peça.
Como o senhor Willimar disse do alto da sua sabedoria potiguar: “O Governo não pode anunciar medidas, tem é de agir e só depois falar que agiu”.
Navio Escola Sagres (em Porto de Lisboa ( Port Of Lisbon ))
O senhor do posto de escuta
Repito o mesmo percurso vezes sem conta, faço-o de olhos fechados. Saio de casa, atravesso o bairro e vou a caminho do metro. Sei de cor os 12 minutos percorridos a passo acelerado de quem quer recuperar o atraso de uns momentos a mais de sono, ou os vinte quando acompanhado pelo meu avô que viu a idade encolher-lhe o tamanho dos passos. Sei de cor cada prédio, cada passadeira que atravesso, até os buracos a evitar em dias de chuva. E sei de cor as pessoas que encontro à hora que saio de casa. O senhor do café, a senhora do oculista, a senhora da peixaria. Rostos sem nome, só com rotinas.
Nunca trocámos uma palavra, mas trocamos olhares de quem faz parte da rotina um do outro e confirma a existência de mais um dia quando se encontram. Há no entanto quem nos faça perder mais uns segundos num olhar prolongado. Sempre que me cruzo com a paragem de autocarro de manhã àquela hora deparo-me com um senhor ali sentado. Nunca marcámos encontro, mas sabemos que nos encontramos sempre. Vê os autocarros passar, mas nunca se levanta para entrar em nenhum. Não precisa de apanhar o autocarro porque já está na sua paragem, no seu abrigo do verão ao inverno.
Sai de chapéu enterrado na cabeça, e com umas calças e uma camisa nuns tons cinzentos gastos pelo uso. O número de agasalhos mudam com o passar das estações, mas as cores são as de sempre. Nunca vem sozinho à rua. Traz por entre as mãos um rádio de outro tempo que não o dele, nem o meu. Algures pelo meio dos 50 anos que talvez nos separem, estimativas feitas a olho. É grande demais para caber no bolso, e por isso exibe-o com orgulho. Puxa a antena retráctil até cá acima, não vão as palavras distorcer-se por uma frequência mal sintonizada. É ali o seu posto de escuta, dele e de quem passa. Mesmo que a audição lhe pregue umas partidas, não quer de modo nenhum algo que lhe tape as orelhas, ou que o obrigue a tirar o chapéu. Roda um pouco mais para cima o botão do volume e as dúvidas por entre as sílabas pronunciadas desaparecem.
Já pensei vezes sem conta em sentar-me ao seu lado e conversarmos. Nunca o fiz. Às perguntas que faço mentalmente entrego as respostas à dedução do que vejo cada vez que ali passo.
Um dia ele desaparecerá porque todos nós nos vergamos ao peso da idade, e o meu dia deixará de ser o mesmo. Olharei vezes conta para aquela paragem sempre que for a caminho, e procurarei a sua presença. Irei desejar-lhe as melhoras por achar que está doente, ou imaginar para onde terá ido de férias. Sentirei falta da música que sai daquele rádio e se arrasta com o vento do inverno. Talvez um dia ganhe coragem, ponha o passo acelerado de lado e me sente, e conversemos os dois. Mas hoje ainda não é o dia.
Luta pelas damas (em O Jardim da Estrela)
Tartarugas ninja (em Fundação Calouste Gulbenkian)
A esperança é a última a morrer
A esperança deita-se na cama de um hospital. A esperança tem cor, diz-se que é verde, mas por agora é apenas pálida e reflete o branco das paredes, dos lençóis e das batas. Aqui vive-se de branco, numa ausência de tonalidades sem graça, não há cor para esta vida.
A esperança não tem forma, apodera-se das formas de quem ali chega e envolve-as. A esperança não participa em banquetes fartos de comida, alimenta-se de visitas, de quem sorri por entre lágrimas, dos que lhe sussurram certezas numa voz soluçante, dos lábios que beijam, das mãos que lhe tocam a tremer.
De todo o lado, parecemos ouvir gritar:“É preciso ter esperança”. E acreditamos ter. Mas ela trai-nos, faz-nos desconfiar. Chamamos interiormente por ela. Enquanto há vida, há esperança diz-se por aí, por entre frases feitas, aquelas que servem para consolar o inconsolável. E quando deixar de haver vida? A nós, que passamos tantos anos a aprender porque tudo nos querem ensinar, porque não nos ensinam a lidar com a ausência de quem parte para não mais voltar? Para tudo há um manual de instruções e por esta vez não devia ser diferente. Nós seguíamos as regras cegamente na esperança, sempre na esperança, de que o final cumpra o prometido no início.
A esperança está ali deitada, mas não se sabe até quando. Olhamos para ela como quem olha para um filho que quer ver crescer. Puxamos-lhe os lençóis para cima para ela não ter frio e também para a guardarmos. Falamos com a esperança, acreditamos que ela nos ouve por entre tantos que a chamam. Hoje é a nossa vez de a ter, é um egoísmo a que temos direito. Precisamos que ela aqui se conserve e cresça, se torne em vida. E depois sim pode ir à vida dela. Agora por agora é só nossa, porque enquanto há vida há esperança.
Primos da terra #aldeia #saopedrodosul #p3top (em Aveloso, Viseu, Portugal)
#coimbra (em Coimbra, Portugal)